A Sombra do Pistoleiro
17 Pistoleiro de Aluguel
Notas iniciais
Logo que deixou o saloon, Enrico percebeu que havia claridade na funerária, macabramente situada do outro lado da rua, bem diante do The Eldorado Hotel and Saloon.
— Apesar de ser bizarro, faz certo sentido. – disse Enrico para si mesmo, com um sorriso irônico – Muitas vezes os fregueses saem de um estabelecimento direto para o outro, embora eu creia no fato de que já não o fazem mais com as próprias pernas.
Embora fosse tarde e ele estivesse muito cansado, viu-se invadido por uma estranha e poderosa curiosidade, a qual praticamente o arrastou para a funesta loja. Estacou diante da porta e respeitosamente tirou o chapéu antes de entrar. Estranhou por ver a sala vazia. Ninguém estava ali para rezar pela alma do infeliz dentro do caixão em pé, apoiado a um canto, iluminado por algumas poucas velas e ladeado por uma bonita coroa de flores.
Deu alguns passos em direção ao esquife e olhou para o morto, um sujeito de meia idade. Qual não foi sua surpresa ao fitar o rosto sem vida e reconhecer nele as feições do homem que, na manhã daquele mesmo dia, havia tentado matá-lo e em seguida roubara seu cavalo, deixando Enrico à sua própria sorte, para perecer no deserto.
Uma voz às suas costas o tirou de sua perplexidade:
— Conhece-o?
Voltando-se, Enrico notou o agente funerário observando-o com curiosidade indisfarçada.
— Não muito bem, apenas o vi uma vez antes.
— Chegou hoje à cidade, quando fazia umas duas horas que o sol havia estado no meio do céu. É desconhecido por essas paragens. Estava muito ferido; um balaço no ventre, que o fez perder bastante sangue. Morreu pouco depois de receber atendimento médico. Não se sabe nada a seu respeito. Sem documentos, ou algo do tipo. O município vai custear o caixão e nossos serviços, mas ele será enterrado amanhã, pela manhã.
— Pobre diabo... — murmurou Enrico, simulando compaixão.
O agente funerário nem de longe poderia imaginar que o jovem forasteiro de expressão serena e olhar pesaroso diante de si fosse o responsável pela morte daquele desconhecido. A bala cuja perfuração no ventre causara hemorragia e levara a morte ao homem no caixão partiu, como já sabemos, do devastador Winchester 73 de Enrico.
Mas o rapaz mexicano não estava preocupado com a ida daquele pistoleiro para o outro mundo. Na verdade, queria notícias sobre Muchacho.
— Ele não deixou nenhum pertence? – perguntou ao agente funerário enquanto indicava o falecido com um gesto de cabeça.
— Tinha trezentos dólares no bolso e veio montando um cavalo magnífico. O dinheiro ficou com a prefeitura, para ajudar a pagar as despesas do velório e enterro. Já a montaria, um belíssimo e indócil alazão, se encontra na estrebaria do velho Joe, que comprou o animal do município e pretende vendê-lo a um preço alto.
Enrico agradeceu e se retirou em seguida, pensando em como, felizmente para ele, aquele agente funerário era alguém falante. A maioria dos coveiros e funcionários de funerária que o jovem pistoleiro conhecera era composta por pessoas soturnas e de poucas palavras, cujos olhos raramente encontravam os de seus interlocutores. Pareciam sombras de seres cansados e tristes. Mas não esse a quem o rapaz acabara de conhecer. Esse agente funerário tinha em si uma necessidade explícita de se relacionar, de falar, de interagir. Talvez se sentisse sozinho em função de seu ofício. Talvez convivesse tanto com os mortos que precisasse apreciar a presença dos vivos para evitar o risco de insanidade.
Enquanto meditava sobre isso, Enrico De La Cruz rumou para o Only Hope, em cuja recepção se registrou usando seu nome verdadeiro e subiu para o quarto. Por sorte, possuía ainda algum dinheiro no bolso da calça. O restante estava nos alforjes, na sela do cavalo. Com certeza não recuperaria mais essa quantia. Deu de ombros; no dia seguinte veria o que fazer. Tomou um bom banho e caiu na cama. Em pouco tempo dormia profundamente.
Levantou-se bem cedo e, depois de se informar com o recepcionista do hotel, rumou diretamente para a estrebaria do velho Joe. Embora contrariado, pagou o caro valor exigido pelo homem por Muchacho.
Essa era a segunda infeliz ironia do destino que lhe acontecia desde que começara a trilhar o caminho para a vingança. Primeiro, fora chamado de forasteiro em sua própria cidade natal. Agora, tivera de desembolsar uma nota preta para reaver seu próprio cavalo. Era seu último dinheiro, estava a nenhum. Teria de telegrafar ao senhor Hector pedindo mais dólares para prosseguir sua sangrenta missão. Como imaginara, na sela de Muchacho não havia mais nenhum alforje. E, logicamente, nenhum bolo de cédulas. No entanto, Enrico pagou, preferindo evitar encrencas desnecessárias. Apesar de oportunista, o velho Joe não era seu próximo alvo. Um renomado assassino chamado Paul Blake era agora a nova caça de Enrico de La Cruz.
Resolvidas as pendências na estrebaria, o jovem foi enviar um telegrama remetido ao senhor Hector Gonzáles, em Monterrey, no México. Em seguida, retornou ao hotel. Ao chegar, foi avisado pelo recepcionista de que uma senhorita o aguardava, e que não quisera esperar no saguão. Intrigado, Enrico subiu rapidamente as escadas e, quando alcançou o corredor, divisou a moça em pé, esperando-o diante da porta de seu quarto.
Era linda; devia ter no máximo uns dezoito anos e emanava a beleza e frescor da juventude.
Bem mais baixa que ele, media cerca de 1,65 m de altura. A tez macia e terna era amorenada, embora possuísse um tom mais claro que a de Enrico. Os vivos olhos cor de deserto, encimados por sobrancelhas grossas, contrastavam com a boca fina e rósea, delicada como a pétala de uma rosa. O belo rosto era composto por linhas suaves e harmoniosas. O cabelo liso descia numa cascata castanho-alourada, macia, até os ombros. O corpo era bem feito, mas as curvas generosas estavam bem cobertas pelo vestido recatado e elegante. Havia algo vagamente familiar naquele semblante, talvez um ou outro traço latino. Tratava-se de uma garota realmente bonita, de sorriso simpático, olhar meigo, expressão doce e lábios úmidos, suculentos como morangos, e que pareciam pedir um beijo.
Estupefato, Enrico percebeu estar diante de si uma moça de presença apaixonante, totalmente pronta para o amor.
O rapaz estremeceu subitamente, sem saber exatamente a razão. Nunca antes estivera desse modo perplexo, rendido perante uma beleza feminina. Jamais se sentira assim, mesmo frente as mais formosas mulheres. E, em sua jovem vida, Enrico conhecera garotas muito lindas, capazes de enlouquecer os homens mais ajuizados.
Ruborizando levemente devido à intensidade com que era admirada, a senhorita fitou os olhos embevecidos de Enrico e falou jovialmente:
— Bom dia, Enrico De La Cruz. Nos conhecemos ontem à noite, quando salvou minha vida naquele deserto horroroso. Meu nome é Catherine Summers.
Ao invés de apertar a mão que a jovem lhe estendia, repentina e inexplicavelmente Enrico agiu diferente. Inclinou-se, tomou-lhe delicadamente a mão e a beijou, dizendo em seguida:
— Encantado, senhorita Summers.
O rapaz estava terrivelmente surpreso com a estranheza de seu próprio ato.
Catherine sorriu, exibindo seus dentes perfeitos, alvos e brilhantes. Seu sorriso era de satisfação. Sabia ser aquele homem alguém especial, não apenas uma mera máquina de matar, como todos disseram amedrontados. Ela não teve nenhum receio em sua presença. Sentia-se contente por não haver se enganado, pois acabara de ver no gesto de Enrico a delicadeza e o respeito de um verdadeiro cavalheiro. Exibindo mais um de seus deslumbrantes sorrisos, ela então falou:
— O prazer é todo meu, Sr. De La Cruz. Vim agradecer mais uma vez pelo seu heroísmo de ontem. Poucos homens fariam o que fez, arriscando a pele para salvar um grupo de desconhecidos.
— Fiz simplesmente o que devia ser feito, não há o que agradecer. – ele replicou modestamente, ligeiramente embaraçado.
— Há, sim. Graças ao senhor todos estamos bem, o médico operou John e explicou que, mantendo repouso e ingerindo bastante líquido, logo ele estará novo em folha. Também devo ao senhor o fato de minha vida e honra estarem intactas. – a seguir, notando que Enrico ficava mais constrangido, ela acrescentou – Além de agradecer, tenho um assunto para tratar com você. Posso chamá-lo de você, certo?
Enrico assentiu e pousou curiosamente os olhos nela, que hesitou por alguns instantes. A seguir, a moça baixou um pouco a voz angelical antes de prosseguir:
— Podemos conversar em particular?
Ele fez que sim com a cabeça e convidou-a para entrar em seu quarto. E ela, agradecendo, aceitou o convite. Após entrarem, Enrico ainda se certificou de que não havia ninguém no corredor, e depois fechou a porta. Indicou uma cadeira à moça e puxou outra, sentando-se de frente para sua interlocutora.
— Vim contratar seus serviços. – disparou ela à queima roupa, totalmente objetiva, sem nenhum tipo de rodeio tão singular em algumas mulheres.
— Perdão, senhorita. Acho que não entendi a situação. – respondeu Enrico espantadíssimo.
— Enrico, pretendo alugar seus Colts. Soube que por estas bandas não há ninguém melhor do que você no gatilho. Ontem testemunhei uma prova concreta disso. Preciso desesperadamente de sua ajuda.
— Desculpe, senhorita, mas eu...
— Me chame de Catherine, por gentileza.
— Está certo. Catherine, queira desculpar, mas é que eu...
— Enrico, eu te suplico – interrompeu ela mais uma vez, com uma expressão capaz de amolecer o mais duro coração de pedra – Escute primeiro a minha história. Depois de ouvi-la, poderá decidir se me ajudará ou não. Você é a minha última esperança. Posso pagá-lo pelo serviço.
Enquanto expunha a situação, Catherine unira as mãos e as torcia nervosamente. Depois, separou-as e as agitou aflitamente, como o faria uma criança preocupada. E durante todo o tempo em que tentava convencer o rapaz a ouvir sua narrativa pelo menos, a jovem tinha na linda testa uma ruga de sincera apreensão.
Vencido pelo olhar suplicante dela, Enrico resolveu ouvi-la. E Catherine, aliviada, contou sua situação desesperadora. Foi uma longa história, a qual o rapaz escutou com grande interesse, sem interromper uma vez sequer.
Ela era filha de um americano descendente de mexicanos, chamado Gregory Summers. Sua mãe morrera vitimada por uma doença incurável quando Catherine era ainda muito pequena e, por isso, Gregory tivera de criá-la sozinho. Catherine vivera uma vida muito simples com o pai, que trabalhava como ferreiro no sul do Arizona.
Havia na história de Catherine Summers um importante elo que uniria para sempre seu destino ao de Enrico.
Gregory Summers, assim como Javier Aguilar Diaz, tentara a sorte indo trabalhar em uma mina de ouro descoberta na divisa dos Estados Unidos com o México. Quando a jovem narrou esse fato, Enrico suspendeu por instantes a respiração, surpreso. Mas nem assim interrompeu a moça, apesar desse detalhe ter trazido-lhe à mente a imagem de seu pai.
A diferença crucial entre Javier Diaz e Gregory Summers, é que o pai de Catherine obteve uma quantia considerável na mina e permaneceu vivo para poder desfrutar da mesma. Mal pôs as mãos em sua pequena fortuna, o velho Greg enviou Catherine para o Leste, a fim de freqüentar uma boa universidade e ter um futuro mais digno e estável. Feito isso, comprou bons pedaços de terra em Utah e se mudou para lá, onde investiu na criação de gado Longhorn. Estava tendo grandes e lucrativos retornos.
O problema de todo novo rico é que, juntamente com o dinheiro sempre vem algum tipo de vício. E assim aconteceu com Gregory Summers. Habituou-se a apostar nas roletas dos cassinos e nas mesas de pôker de Brave City, em Utah. Só jogava com gente importante e endinheirada (visto que a importância de uma pessoa já naqueles tempos era medida por sua conta bancária).
Ganhou, a princípio. Mas assim como o vento muda a sua direção, traiçoeiramente a sorte o abandonou. Restaram as dívidas. Muitas delas. E Greg contraiu um débito enorme com o único homem realmente perigoso em Brave City.
— Francisco Herrera. – explicara Catherine Summers casualmente.
— Quem??? – balbuciou Enrico quase caindo da cadeira, sentindo o sangue gelar nas veias e o coração falhar uma batida dentro de seu peito.
— Francisco Herrera – repetiu a jovem com ódio – Um dos homens mais ricos do Oeste, talvez até mesmo do país.
Perplexo, Enrico a fitou como se não mais a enxergasse. A voz de Catherine soava distante agora, destituída de significado para ele. O jovem sentiu como se a sala inteira estivesse tremendo sob a força descomunal de um terremoto. Uma sensação de sufocamento subia-lhe pela garganta. Como podia ser aquilo?
Pela linda boca daquela moça encantadora, de forma extremamente natural ele soubera a localização de seu pior inimigo. Era um sinal claro do Destino, indicando que Herrera deveria de fato pagar por seus crimes, perecendo pelas mãos vingadoras de Enrico.
Sem ao menos sonhar com a avalanche de sentimentos e emoções que assaltavam o rapaz de modo inimaginável, a bela Catherine prosseguiu sua dramática história.
Como o ser humano é insaciável por dinheiro e poder, Herrera cobrou a dívida, mas Greg havia transferido todos os bens para o nome de Catherine, tornando-a assim a legitima proprietária de tudo. Furioso, Francisco Herrera ordenou a seus capangas que seqüestrassem o velho Greg, e depois enviou um telegrama a Catherine, ameaçando-a após explicar a situação: ou ela se casava com ele, ou Gregory Summers iria deixar de existir.
Como na maioria das cidades do Oeste, Brave City era uma terra sem lei e, por isso, ninguém fez coisa alguma para ajudar Greg Summers. Logo, Catherine estava naquela diligência no deserto, vindo apressadamente do Leste para ir a Utah, tentando salvar a vida do pai. Quando ela se calou finalmente, uma lágrima quente rolou silenciosamente por seu rosto bonito. Ao seu lado, Enrico De La Cruz piscou os olhos e os fixou nela, como se tivesse acabado de sair de um transe. Disse simplesmente:
— Acalme-se, Catherine. Vou ajudá-la.
— Sério? Mas, e quanto ao pagamento? Ainda nem me disse seu preço...
— Esqueça o dinheiro, depois falamos nele. O importante agora é resgatar o senhor Summers e eliminar Herrera, o maior dos males.
— Quer dizer matá-lo? – e a moça estremeceu.
— Exato. Vê outra saída? Enquanto viver, esse homem vai perseguir vocês, Catherine. O único modo de pará-lo é liquidando-o. Além disso, tenho contas particulares a ajustar com esse Francisco Herrera. – e Enrico concluiu a frase rilhando os dentes. Aquele nome lhe dava náuseas.
A jovem e bela Catherine Summers, que olhava para seu interlocutor com certo assombro, jamais saberia porque uma sombra cruzava sinistramente o rosto moreno daquele rapaz. Ou por qual motivo seus olhos cor de carvão estavam gelados e nublados, como o céu do deserto que escurece prenunciando tempestades. Ela era muito jovem e doce, não entenderia nunca como alguém pode carregar um ódio tão grande e por tanto tempo, tal como Enrico fazia. Fitando o olhar assassino e a expressão sombria do rapaz, ela quase teve pena de Herrera.
Os pensamentos de ambos foram interrompidos por uma sucessão de tiros que soaram, vindos da rua. Os estampidos dissiparam a tranqüilidade daquela manhã morna que envolvia a cidade de Denver. Ouviram batidas rápidas e nervosas na porta do quarto. Enrico abriu-a num ímpeto, de arma em punho. Era um funcionário do hotel, o qual estremeceu de medo e levantou as mãos ao ver o cano do revólver apontado para o seu rosto:
— Calma, Sr. De La Cruz! Por favor, não atire!
— Ouvimos tiros. Que diabo está havendo?
— Há um homem armado lá na rua, furioso, gritando que deseja ver o senhor. Disse ter contas a acertar e que, se o senhor não sair em cinco minutos, ele vai incendiar o hotel!
— Fique sossegado, rapaz. Já vou ver o que ele quer.
— Tenha cuidado, senhor. As pessoas estão muito assustadas; dizem que ele é um pistoleiro de renome. Um dos homens mais perigosos de quem se tem notícias por essas bandas.
— Por acaso ele disse como se chama?
— Sim, senhor. Fez questão de dizer. Seu nome é Paul Blake.
Os olhos de Enrico brilharam fantasmagoricamente ao ouvir isso. Tomado por uma alegria mórbida, voltou-se para Catherine:
— Não saia daqui nem que chova ouro lá fora.
Pasma, ela acenou que sim com a cabeça. Ao vê-lo sair seguindo o empregado do hotel, o coração da moça se apertou. Só então se deu conta do quanto já temia pela vida daquele rapaz.

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