A Sombra do Pistoleiro
12 Batismo de Fogo
Notas iniciais
Enrico estava deitado de barriga para cima no leito da prisão, com o chapéu sobre o rosto. Dormia.
Algumas horas antes o xerife Muray o trancafiara ali, fizera algumas perguntas e dissera que no dia seguinte veria o que fazer. Tendo a espera como única alternativa, o rapaz decidira descansar e aguardar os fatos.
A madrugada transcorria lenta e silenciosa.
Amanhecia quando Enrico despertou num sobressalto.
Lá fora, na rua principal da cidade, soava um tropel ensurdecedor de cavalos que passavam a galope. Enrico sentou-se no leito, preocupado. O xerife James Muray, que dormia sentado em sua cadeira com as botas lustrosas para cima, apoiadas na mesa, também acordou.
Muray ergueu-se de um salto e olhou ao redor, confuso:
— Mas que diabos...? – perguntou para si, coçando a cabeça.
Em seguida, lançou um olhar preocupado para a cela, tranqüilizando-se tão logo percebeu Enrico lá, da mesma forma que o deixara. Então o homem da Lei rapidamente vestiu seu casaco e pôs o chapéu, já que o cinturão sempre estava afivelado.
Lá fora, o tropel prosseguia, como se os cavalos estivessem andando em círculos diante da xerifatura. Sacando o revólver, James deu três passos até a porta e destrancou-a.
— Xerife... – chamou Enrico, apreensivo.
— Sim, filho? – a voz de Muray era um sussurro paternal.
— Por favor, tome cuidado.
— Não se preocupe, garoto. Sei me cuidar. Mas de qualquer maneira, obrigado.
Sem mais dizer, o policial abriu a porta e ganhou a rua com passos corajosos e decididos.
O tropel aumentou.
Três disparos ecoaram pela rua.
Correria. Confusão. Gritos de morte.
Enrico conseguiu ouvir a voz irritada de Muray e então seus ouvidos captaram um grito de dor do xerife. Risadas cruéis foram ouvidas e os cavalos subiram a rua num galope barulhento.
Depois o tropel diminuiu até cessar totalmente.
O silêncio mortal aborrecia o rapaz mexicano. Que teria acontecido? Pôs-se de pé, apoiou as mãos na cintura e passou a andar preocupadamente de um lado para outro na cela, assemelhando-se a uma fera enjaulada.
O tempo passava devagar. Vozes trazidas pelo vento mostraram a Enrico que, apesar de ainda ser muito cedo, os moradores de Santa Fá já estavam bem despertos e preocupados, exaltados. Aquela espera torturava o jovem, ele também queria saber das notícias.
Finalmente, uma hora depois a porta se abriu e Enrico soltou uma exclamação de espanto ao ver a linda Lauren entrar.
Lauren Sanders, irmã de Mike Sanders, filha de Noah Sanders, o prefeito de Santa Fé. Enrico soubera disso no dia anterior, pelo xerife Muray.
O jovem De La Cruz acertara ao imaginar que Mike era gente de família importante. Quebrara o nariz do rapaz e beijara a moça à força diante de todos, e ambos eram nada mais, nada menos, do que filhos do prefeito. Seria difícil escapar da forca depois disso.
A garota o mirou com seus incríveis olhos verdes de pantera e Enrico, surpreso, não viu fúria neles. Notou até certa simpatia.
— Bom dia, Enrico De La Cruz.
Ele estremeceu, surpreso, sem imaginar como ela soubera seu nome. Não o havia dito a ninguém ainda em Santa Fé, nem mesmo ao xerife.
— Bom dia, senhorita Lauren. Veio se divertir vendo-me atrás das grades depois do beijo que roubei de você?
Ela moveu seus lábios tentadores para esboçar um sorriso irônico:
— Acha que me dou por satisfeita em vê-lo apenas engaiolado aqui, depois da humilhação que submeteu a mim e a meu irmão? Quero vê-lo pendurado pelo pescoço, forasteiro.
— Tenha um pouco de paciência, menina. Creio que muito em breve seu desejo se tornará realidade. – Enrico respondeu sombriamente antes de voltar a andar de um lado para outro, desviando dela o seu olhar.
— O que me traz aqui é algo bem mais sério, rapaz. Você deve ter ouvido a confusão lá fora, agora há pouco.
— Claro. Teria ouvido mesmo se fosse surdo. O que houve?
— Quatro cavaleiros entraram na cidade. São bandidos. Fizeram barulho para atrair o xerife. Quando Muray saiu, tentaram capturá-lo. O xerife chegou a atingir dois deles, mas foi ferido por um dos dois que restaram.
Enrico sacudiu a cabeça afirmativamente antes de dizer:
— Sim, de fato eu ouvi três tiros.
— Certo. Daí laçaram Muray como se fosse um novilho e o arrastaram até a esquina. Estão mantendo-o lá como refém. O chefe deles perguntou sobre você.
— Sobre mim? Como ele é? O que quer?
— É um índio manco, de sorriso maldoso. Disse seu nome, e que tem algumas contas a acertar com você. Quer trocar a vida do xerife pela sua.
— Bob Indian... – sussurrou Enrico, incrédulo e, estremecendo por dentro, perguntou para si:
— Como ele pode fugir da prisão?
Lauren o olhava atentamente. Abriu a linda boca e disse com sua voz melodiosa:
— Salve o Jim, De La Cruz. A vida dele está em suas mãos. Todos aqui na cidade gostam muito dele, é um xerife justo e um bom homem. Salve-o, e talvez meu pai desista da ideia de pendurá-lo na forca.
Enrico raciocinou com rapidez. Não podia permitir que James Muray morresse, é claro, principalmente por ele ser o único que talvez pudesse ajudá-lo a encontrar pistas do assassino de sua mãe.
Olhou para sua estonteante interlocutora enquanto deixava brotar um sorriso misterioso em seu rosto moreno. Ela viera, em nome da cidade, pedir que ele se entregasse ao bandido. Se houvesse sangue a ser derramado, que fosse o seu, não o do xerife. Silenciosamente Santa Fé empurrava Enrico para a morte. Ele respirou fundo e olhou para ela.
— Nenhum inocente vai morrer. – garantiu.
Lauren estava em posse das chaves da cadeia, as quais Bob Indian tomara do xerife e entregara a ela. Então a jovem abriu a cela e fitou o prisioneiro com certa ansiedade.
Enrico saiu e andou pelo escritório, sempre seguido pelos olhos verdes dela. O rapaz achou seu cinturão. Afivelou-o sem perda de tempo ao redor do tórax. Colocou o chapéu. Sacou um revólver com rapidez e riu-se do susto que Lauren levou. Estava apenas testando se as armas saíam com facilidade dos coldres. Abriu um Colt, examinou a carga, introduziu duas balas no tambor. Repetiu o processo com a outra arma e guardou-a no coldre. Olhou para a jovem.
Neste momento, procedendo lá de fora, a voz inconfundível e odiosa de Bob Indian se elevou na clara manhã:
— Vamos, De La Cruz. Não tenho todo o tempo do mundo. Alguém vai morrer hoje. Vou contar até cinco. Se você não sair, os miolos do xerife vão se espalhar pela rua.
Enrico e Lauren se olharam mais uma vez.
— Tenha cuidado, por favor. – ela pediu de repente.
E inesperadamente enlaçou Enrico pelo pescoço, beijando-o com sofreguidão.
— Que foi isso? – ele indagou surpreso.
— Para dar sorte. – ela sorriu ofegante.
Enrico riu-se, sem entender.
Lauren ficou furiosa:
— Não ria nunca de mim, forasteiro! – e deu-lhe um vigoroso tapa.
O mexicano levou a mão ao rosto, sério:
— Não gostei disso, menina! – rugiu.
Calaram-se.
Lá fora, Bob Indian começara a contagem regressiva para o xerife James Muray. Sem dizer mais nada, Enrico se virou e abriu a porta num impulso. A luz da manhã o atingiu plenamente. Ganhou a rua e, virando à direita, caminhou solitária e decididamente ao encontro da morte.
Logo que saiu, piscou repetidas vezes, seus olhos ofuscados pela luminosidade. Assim que eles se acostumaram com a claridade, Enrico pode ver as inúmeras pessoas na calçada de madeira, apreensivas, postadas em ambos os lados da rua. O rapaz captou a tensão no ar. Viu o xerife James Muray dominado por um tipo de aspecto repugnante, que encostava o cano da arma à sua têmpora. Ao lado deles, de pé, mas equilibrando-se com visível dificuldade, estava Bob Indian.
Como vai, Enrico? – o sorriso cínico do índio era o mesmo de sempre. – Que acha dessa manhã?
— Me parece ótima para matar. – a voz rouca de Enrico era um sibilo congelante.
Bob Indian tinha gelo no sangue e não se intimidou. Riu apenas, antes de rosnar entredentes:
— Ou para morrer, garoto.
Enrico não respondeu de imediato. Cravou seus olhos nos do adversário e bradou:
— Continua a mesma raposa de sempre, mestiço; escondendo-se atrás de inocentes. Solte o xerife, é a mim que você quer.
— Nada feito, mexicano. Ele é a única garantia de que você vai lutar.
Enrico riu da loucura do adversário.
— Como escapou de Amarillo, pele-vermelha?
— Na prisão sempre se faz bons amigos, do tipo que te ajuda a fugir e rastrear um inimigo que você quer muito ver morto. Agora vamos ao que interessa: a minha vingança! Nenhum pirralho cheirando a leite como você arrebenta minha perna, fere minha reputação e fica vivo. Hora de morrer, muchacho!
Todos os olhares convergiram para Enrico, que suava embaixo de seu chapéu, tanto pelo sol forte da manhã quanto pela situação que enfrentava.
O jovem De La Cruz estava ali parado no meio da rua; as pernas separadas para manter o equilíbrio do corpo, os dedos e as mãos relaxados na medida do possível, o corpo reto e o frio olhar cortante magnetizado no olhar diabólico de Bob Indian, sedento de morte.
Uma estranha quietude dominou a rua subitamente.
Santa Fé inteira parecia ter se calado para ver e ouvir o duelo.
Silêncio de morte, denso, inquietante.
Logo à frente, a cerca quinze metros adiante de Enrico estava Bob Indian, um homem que tinha uma pedra no lugar do coração e uma serpente escondida na alma. Um criminoso de olhar morto, inexpressivo. Um mestiço perigoso, um assassino impiedoso, com pelo menos meia dúzia de mortes nas costas. Uma máquina implacável de matar.
E do lado de cá, estava Enrico. Jovem demais para morrer, e tinha de ser rápido e decidido para matar, algo que nunca fizera e que agora se mostrava necessário. Mais uma vez Bob Indian o encontrara e usara inocentes para forçá-lo a duelar, não mais por vaidade, mas por vingança. O jovem mexicano sabia que seu rival o perseguiria enquanto vivesse, e que era preciso dar um basta nessa situação.
Ainda assim, era apenas um garoto diante de um pistoleiro. Chegara o momento do seu batismo de fogo.
Podia viver. Podia morrer.
Experimentou uma sensação ruim de agonia, medo.
Um medo tão intenso quanto aquele que sentira quando mataram sua mãe e atiraram nele.
Entretanto, seu conflito era interno. Sua aparência não refletiu sua angústia interior. Não moveu nenhum músculo do rosto. Respirava forte, seu olhar fixo no do inimigo. Ouvia com clareza em sua mente as instruções de Peter Davis. Gastou seus últimos e decisivos segundos olhando nos olhos do índio. Poucos segundos, mas que podiam definir se alguém morreria ou não.
E então ele leu seu destino nas negras pupilas do adversário: morte.
Aqueles olhos gélidos transmitiam a morte.
Percebeu que Bob Indian iria sacar e só conseguiu pensar em ser mais rápido. Os presentes prenderam sua respiração e assistiram.
Bob Indian puxou o revólver do coldre numa velocidade alucinante e o levantou. Enrico notou que o índio andara praticando, estava bem mais rápido. Até ali tinha esperança que o joelho ferido comprometesse o desempenho do inimigo e, tão logo teve essa expectativa frustrada, chegou bem perto de entrar em total desespero.
Com similar e arrepiante rapidez, Enrico empunhou seus Colts. 38 e os ergueu. Apertou os gatilhos quando a língua de fogo já aparecia na ponta do cano da arma de Bob Indian. Os tiros se confundiram no ar. Apesar da desvantagem, Enrico foi mais rápido por questão de milésimos e meteu dois balaços no peito do adversário.
Bob Indian deu um grito rouco de morte e caiu de costas na rua poeirenta. Entretanto havia conseguido desfechar seu tiro.
Enrico levou uma pancada seca no braço esquerdo e girou, se desequilibrando por um instante.
Uma dor aguda, dilacerante, seguida por forte ardência, que o obrigou a dar um gemido e soltar as armas, fê-lo também levar a mão direita ao lugar ferido.
Sentiu o calor do líquido que lhe empapava a manga da camisa.
Sangue.
Tivera sorte, sua rapidez de reflexos lhe salvara a vida.
Quando atingiu o índio, que disparava, o desequilíbrio do inimigo causou um erro crucial de pontaria. Assim, a bala que seria enviada ao coração do rapaz, alcançou seu braço esquerdo, mas apenas entrou e saiu.
O amigo de Bob Indian, vendo o que acontecera, tentou atirar em Enrico. Foi então que James Muray entrou em ação. Mostrando sua coragem e seu sangue-frio, o xerife aproveitou o instante de distração do bandido para acertar o cotovelo poderosamente em seu estômago. Enquanto o homem se curvava para frente, com a respiração cortada abruptamente, Muray o desarmou com um gesto rápido e, usando a coronha do revólver do bandido, vibrou-lhe um golpe de baixo para cima, em pleno queixo.
A terrível pancada ergueu o homem do chão e o lançou longe, sem sentidos.
Enrico aproximou-se de Bob Indian. Viu que ele agonizava.
— Você procurou por isso, homem. – sentenciou Enrico fitando o inimigo caído. — Suas ações nos trouxeram a esse ponto.
— Eu sei... garoto. Eu devia... ter te ou...vido, mas quis... pagar... pra... ver. – e o índio se calou para sempre.
Aos olhos dos presentes, Enrico era um profissional. Ninguém sonhava que aquele tivesse sido seu primeiro duelo de vida ou morte. Mostrara-se rápido, mortal, certeiro, frio. Saíra-se melhor.
E foi assim que, aos dezenove anos de idade, Enrico Aguilar De La Cruz mandou o primeiro homem para o inferno.
Nada mais era do que um deles.
Mais que um garoto.
Mais que um simples homem.
Naquele dia se tornara um pistoleiro.

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