A Sombra do Morcego

6 Capítulo VI - Bravos e Destemidos


Notas iniciais
Já faz algum tempo. Muito tempo, em verdade. Mesmo assim, achei que devia ao menos certa continuidade a esta história. Além deste, possuo mais um capítulo pronto e um pela metade do tempo em que ainda a escrevia. Irei postá-los nos próximos dias, entretanto, a história, até o momento, não terá uma conclusão. Agradeço a todos que dispuseram de seu tempo para a leitura tanto desta quanto de sua predecessora. Vocês foram um imenso incentivo para que fosse capaz de acreditar nas minhas habilidades de escrita. Lhes agradeço e muito por isso. É possível que, em breve, traga uma nova história, com personagens originais, para o Nyah! Fanfiction. Mas o futuro ainda é incerto. Lhes desejo uma excelente leitura e torço para que estejam bem, sempre, ainda mais em tempos tão conturbados. Se cuidem! =)

— Polícia! Polícia!

Ouço o grito amedrontado do mendigo se distanciando à medida que corre pelas ruas em busca de um homem da lei. Algo que logo encontraria. Não havia tempo a perder. Necessitava sair dali o mais veloz possível. Mas como?

Pressiono uma vez mais o dispositivo em meu cinto a fim de convocar a motocicleta. Não adianta. Danificado. E esta estava a uma distância que, naquele momento, não poderia percorrer.

Com dificuldade contemplo as alturas. Pelos telhados encontraria rotas de fuga rápidas e seguras. Era uma opção. Saco o arpéu e pressiono o gatilho em direção ao edifício mais próximo. Para minha surpresa, este explode em um emaranhado de cabos. Pelos telhados não haveria escapatória.

— Hummm... – rosno em uma mistura de raiva e dor pela queda e ferimentos.

Observo uma vez mais o antigo carro estacionado no beco. De cor preta desbotada, lataria quase que completamente tomada por ferrugem e pneus carecas. Três das quatro janelas encontravam-se forradas e o vidro ausente. Seu para-brisa, em condição equivalente ao resto do veículo, estava rachado e sujo. Não ofereceria grande vantagem em uma fuga. No entanto, considerando que nas outras opções disponíveis sequer havia uma possibilidade de fuga, teria de servir.

Quebro a janela do motorista e destranco a porta. Abrindo o painel por sob o volante, tento fazer a ligação direta. É neste momento que ouço o grito desagradável da lei. O gothamita amedrontado havia encontrado o que procurava.

— Parado aí!

— Vamos... Vamos... – busco acelerar o processo. Faíscas são lançadas a meu rosto. Graças ao capuz, não representam real perigo.

— Eu disse: parado aí! – o policial se aproxima cada vez mais. A arma em punho. Na primeira oportunidade que tiver irá atirar.

VRUM! VRUM!

Ignorando as ordens dadas dou ré no carro deixando o beco. O homem da lei ainda faz alguns disparos, estes obliteram o vidro traseiro, porém, graças a isto, não ultrapassam até o banco do motorista. Antes que fosse atropelado, se joga em uma pilha de saco de lixos no canto. Vejo-o sacar o rádio.

— Estou em perseguição com o Batman! Repito, estou em perseguição com o Batman! Venham para cá agora!

Infelizmente, confirmando minhas suspeitas, o veículo não corria o suficiente. Seu escapamento expelia uma quantidade exorbitante de fumaça, fora o barulho que emitia. Contudo, na situação em questão, fora o melhor a disposição e já estava servindo.

Cada vez mais perdia sangue. Devia fazer um curativo o mais rápido possível. Os materiais de primeiros-socorros em meu cinto auxiliariam nisto. Todavia, necessitava de um local onde pudesse fixar-me por certo tempo até finalizá-los. E com a eminência da polícia em meu encalço, isto seria um tanto quanto difícil.

Ouço as sirenes logo ao fundo e em seguida uma batida na traseira do carro. Os reforços haviam chegado. Observando através do retrovisor conto três viaturas e dois carros blindados. O informe de perseguição ao Batman fora o suficiente para mobilizá-los em uma velocidade impressionante, contudo, não em números muito grandes.

Há uma segunda batida. Por pouco não perco o controle do carro. Este sai levemente de seu curso. As viaturas estão quase emparelhando. Não há como acelerar mais com o veículo roubado. Necessitaria de outra saída.

Assim que um veículo policial se encontra a meu lado, forço o carro contra o mesmo. Os reflexos do policial no volante são bons o suficiente para que não saia da estrada ou bata no poste na calçada. Por outro lado, o forçara a frear e deixar a perseguição, por enquanto. Tal atitude me fizera perder a porta do lado do motorista da velharia que conduzia. Duas viaturas e dois carros blindados.

É em uma curva que a situação, que já não era favorável, piora. Uma das viaturas mais próximas atinge a lateral de meu veículo. Perco o controle do mesmo. Este gira e acerta um hidrante. Saio o mais rápido que posso, cambaleando. Um gothamita surpreso, que à porta aberta de seu prédio fumava me possibilita uma chance. Aproveitando-me de sua falta de reação, adentro o edifício.

Ouço os policiais gritando nas ruas.

— Ele entrou ali! Vão! Vão! Vão!

Disparo a subir. Atônito, busco por uma maneira de chegar às escadas de incêndio. As vozes se aproximam. Por sorte havia uma apartamento em reforma aberto. Entro e escondo-me sob uma lona com alguns materiais próximos a porta. O som de meus perseguidores agora é desconfortavelmente próximo.

— Continuem vasculhando o resto do prédio. Verifiquem esse apartamento.

Através da lona os enxergo. Ao todo são seis policiais. Quatro membros da S.W.A.T. e dois patrulheiros. Checo meu cinto. Ainda havia algumas bombas de fumaça, luz e explosivos. Por sorte, a queda que danificara meu cinto deixara o suficiente para escapar dessa. Era apenas uma questão de tempo até que verificassem meu esconderijo.

Antes de tomar qualquer atitude, tomo tempo para avaliar o ambiente. Cômodo não muito amplo. Uma abertura levava para outra sala logo à direita. O corredor a frente conduzia para o resto do local. Uma grande janela tomava a parede à esquerda. Para meu alívio, a escada de incêndio posicionava-se ali, e de fácil alcance. A distração certa daria conta de conceder-me o tempo certo para escapar. Prossegui com o melhor que pude formular.

Pela dor, grito durante toda a ação. Salto sobre o membro da S.W.A.T. mais próximo. Em sua surpresa, imobilizo o braço com o qual empunha o fuzil. Quebrando sua mão no gatilho, forço-o a atirar. Mirando um pouco acima de meus oponentes giro-o, estes se jogam no chão em desespero. Assim que todos estão deitados, desvencilho-me do sujeito e o lanço ao piso. Sendo a madeira frágil, o sujeito afunda na mesma, sem realmente romper o solado. Jogando uma bomba de luz no chão, desorientando meus perseguidores que já se erguiam, salto pela janela.

Olho para baixo, mais carros de polícia haviam estacionado na frente do prédio. Ao ver-me na lateral do edifício exclamam:

— Para o beco! Para o beco! O Morcego está no beco!

Pela rua, não havia saída. Subo o mais rápido que posso. Ao alcançar o telhado, avalio rapidamente minhas opções. Observo meu arpéu. Desregulado. Forço a roda em sua lateral a recolher o emaranhado de cordas. Ela o faz. Posso utilizá-lo outra vez. Ouço a porta que leva ao terraço abrir com força a minhas costas. Sem pensar duas vezes lanço algumas das bombas de fumaça que restavam.

Envolvidos na cortina de fumaça ficam os outros oito membros da S.W.A.T. e os últimos dois patrulheiros que inicialmente perseguiam-me. Sigo para a beirada. Com o arpão em mãos, saco sua corda e prendo-a ao cinto a fim de executar a descida em segurança. Tendo me visto do outro lado do prédio, a polícia abrira uma brecha naquela direção. Havia um bueiro no beco abaixo. Uma escapatória. À distância um helicóptero se faz ouvir. Com sua aproximação, logo dissipara a armadilha. No entanto, não é tudo o que ouço.

— Pare aí mesmo! — é James Gordon quem brada. Devia ter sido o primeiro a mobilizar-se quando a notícia de que uma perseguição a Batman fora dada. Astuto o suficiente para de algum jeito fugir da fumaça, avançara em uma investida contra mim.

— Ponha a arma no chão. Coloque as mãos atrás da cabeça e ajoelhe-se. – orienta-me. Sua voz soa com dificuldade por sobre o som de toda a ação. Faço o que pede. Meus perseguidores do apartamento alcançam o terraço. A fumaça se dispersa à medida que o helicóptero policial se aproxima.

Gordon guarda a pistola em seu coldre e saca as algemas, no entanto, não tem a oportunidade de utilizá-las. Rolo para frente alcançando o arpéu. James busca por sua arma, em um giro, chuto-a de sua mão, e novamente girando, atinjo sua perna, afetando sua base. Desequilibrado, o envolvo pelo pescoço forçando-o a servir-me de escudo. Saltamos do prédio.

Disparo o arpéu com uma mão enquanto que com o outro braço o seguro. Com o esforço, sinto o talho em meu ombro dilatar-se. Uma dor lancinante se alastra por todo o braço. De toda forma, mantenho o aperto firme. A corda está presa e com esta não me preocupo mais. Uma nova mão livre para lançar as últimas bombas de fumaça ao chão e encobrir o bueiro que utilizaria para escapar.

Chegando ao chão, largo-o. Pego um de meus explosivos e prendo à tampa de bueiro. Esta logo explode. Pulo em seu interior. O que não esperava era que Gordon fizesse o mesmo. Este cai por cima de mim quando atingimos o chão do esgoto. O impacto forçara o corte em minha barriga. Grito em agonia.

Não há tempo para dor. Ergo-me rápido o suficiente para aparar o soco com o qual o Sargento tenta atingir-me. Chuto sua barriga com o joelho e o lanço ao chão. Ainda não derrotado, este se levanta uma vez mais. Vozes soam do rádio em seu ombro ao tempo em que luzes de lanternas alcançam o fundo do túnel onde nos encontrávamos.

— Comissário, encontramos o Batman! Ele está lutando com o Gordon! Não temos uma linha de tiro limpa! Repito, não temos uma linha de tiro limpa! – um dos policiais grita.

— Atirem em qualquer coisa que se mover! MATEM O MORCEGO! – a voz de Loeb soa desesperada ao rádio em resposta.

— Filho da...! – Gordon inicia. Chuto-o para a segurança da escuridão, fora do alcance da saraivada de tiros que logo se segue. Jogo-me para o lado em busca de proteção.

Os tiros cessam. Olho para Gordon que aparenta tanta surpresa quanto eu. O som de algo batendo no piso de pedra nos evoca a atenção. Um pequeno projétil, ausentando-se o gatilho.

— Granada! – o bradar do policial na superfície anuncia.

Todo o tempo que temos para uma reação é pouco. Nossa corrida não é o suficiente para evitar que fossemos atingidos por destroços assim que a entrada do túnel é obliterada pela explosão.

A fumaça sobe e a visibilidade que já era pouca, torna-se praticamente nula. Não há policiais, não há Gordon. Todavia, há o som de seu rádio ainda a transmitir. O som de estática, graças ao péssimo sinal do subterrâneo, impossibilita quase que por completo a compreensão da mensagem.

— Não... Confirmação... Entrada... Destruída... – um dos policiais informa.

— Próxima... Entrada. Custe o que custar... Batman morto...! – Loeb se descontrola em fúria na transmissão.

— Eu ainda estou aqui embaixo, maldição! – Gordon grita ao rádio, sem sequer ser ouvido. Enquanto este se distrai fazendo-o, executo os curativos. Não havia mais tempo a aguardar. Sangue demais já fora perdido.

Ao finalizá-los no melhor que a situação permitia, ergo-me. Com a fumaça baixa, James observa-me enquanto o faço. Noto a tensão em seu corpo. Este saca uma segunda arma que levava à cintura.

— Você não quer fazer isso. – advirto-o. Entro em posição de combate apesar de obviamente não ser o mais indicado para minha situação física.

— Não importa o que quero ou não fazer. O que importa é o que devo fazer. E devo te levar preso. – responde.

— Não sou seu inimigo aqui.

— Você tem uma lista longa de acusações de agressão física, ameaça, tortura, desacato a autoridade, agressão a homem da lei entre diversas outras. Você é o inimigo e vou te levar preso.

— Maldição! Sua própria força-tarefa acabou de tentar te matar a mando do seu Comissário! Eu te protegi dos tiros!

— Você matou Anthony Zucco!

— Você não tem certeza sobre isso! E pelo que sei, é inteligente o suficiente para saber que, tendo Zucco em mãos, por que raios o entregaria a vocês com provas o suficiente para mantê-lo na prisão pelo resto da vida, me daria o trabalho de ter que invadir sua delegacia para mata-lo!

Um breve silêncio se faz. James posiciona sua arma melhor em ameaça. Não aguardo para saber o que viria a seguir. Em um veloz movimento agarro ambas as suas mãos, puxo-as para perto de meu corpo fazendo com que abra a guarda. Chuto a base de seu estômago e o desarmo. Antes que se recupere empurro-o contra a parede das tubulações de esgoto.

Enquanto desmonto a arma, sou incapaz de conter a fúria ao falar.

— Estou a três meses nessa cidade e já fiz mais do que metade da porcaria do seu departamento! Enquanto você e outros se prestam a conviver com crápulas como Loeb e Falcone, estou aqui fora dando meu sangue para salvar Gotham! Então se quer mesmo proteger essa cidade, espero que entenda que estou do seu lado!

James não retira os olhos de mim em nenhum momento ao erguer-se.

— Você é melhor do que isso Gordon. Ou costumava ser. – digo antes de começar a partir através dos túneis.

— Como pode saber disso? Não me conhece. – indaga-me o Sargento.

— Conhecia. – prossigo com o que ia fazer antes de dar meia volta – Se quiser ficar e esperar seus companheiros sirva-se bem. Mas aqui embaixo, somos todos alvos.

Gordon pondera a situação. É inteligente o suficiente para saber que falo a verdade e logo segue-me.

— Sabe realmente por onde está indo? – pergunta-me o Sargento após o que pareceu uma eternidade de silêncio enquanto nos esgueirávamos pelos estreitos corredores do sistema de esgotos antigo de Gotham.

— Sim. Passei meses mapeando esses túneis. Memorizando-os.

Os túneis do esgoto de Gotham eram tão antigos ou até mais que a própria cidade. Paredes de tijolos gastos e chão de cimento batido indicavam os trechos de maior tempo. Ao longo da expansão da cidade, estes também se expandiam. Pela extensão de tal construto, por vezes assemelhava-se a um labirinto. Em incontáveis ocasiões, durante meu mapeamento, vi-me perdido em seu emaranhado de caminhos.

Estava a nos direcionar para o mais próximo possível do subterrâneo do Departamento de Polícia, onde deixaria Gordon e seguiria para a Caverna. Os curativos que havia feito não durariam muito, mas, pelo menos, havia estancado o sangramento.

A velocidade, a força... As habilidades do provável assassino de Zucco aparentavam quase serem sobre-humanas. Como seria possível? Quem seria aquele homem? E o que quisera dizer com “Sua sorte, é não ser o alvo”? Seja lá quem fosse, recebera um excelente treinamento. Sendo capaz de bater de frente comigo. E vencer. Lidar com ele, não seria uma tarefa fácil. Errei em ataca-lo daquela maneira. Sem planejamento. Sem conhecimento prévio. Poderia ter sido facilmente morto. Fui um tolo.

— Estamos nos espalhando em cada entrada e saída... Do sistema... Não há... Para onde... Fugir. – o rádio de Gordon dificilmente captava as transmissões como deveria. Gerando mais e mais estática à medida que nos aprofundávamos no subterrâneo.

— Temos que ficar de olhos bem abertos. – comentou Gordon. Acenei com a cabeça em concordância.

Em parte sentia-me mal por ter falado com Gordon daquela forma. No entanto, não era capaz de compreender que o detetive correto que buscara tanto ajudar-me e descobrir o assassino de meus pais, bem como incentivar-me a seguir em frente, havia se transformado em um policial corrupto em uma cidade que por certeza não necessitava de mais deste tipo de escória. Havia algo errado nisto.

Busquei contatar Alfred através do ponto. Nada mais além de estática era captado. Uma pontada no ferimento em minha barriga fez-me cambalear e cair. A reação de James, apesar de receosa, fora ajudar-me.

— O que está havendo? – perguntou-me em urgência.

— Meu... Ferimento... Temos que nos apressar. – com esforço disse.

Ao erguer-me, o som de disparos encheu o túnel. As luzes sob nossas cabeças nos túneis explodiram criando o mais profundo breu. Os policiais haviam nos encontrado. Havia outros caminhos a tomar para evita-los. Naquela escuridão, seria difícil ver-nos fugir. Ou, pelo menos, a mim. Todavia, levariam o dobro do tempo. Algo que não poderia dar-me o luxo.

— Liguem a visão noturna. – a voz de um deles ecoou no túnel. Fugir na escuridão não era mais uma opção. Escondi-me com Gordon na esquina entre os túneis. James sabia o que aconteceria ali. Acenando com a cabeça, concordou com o que devíamos fazer.

Ao chegarem à esquina, os homens da S.W.A.T. foram surpreendidos por nosso ataque. Acertei o primeiro com um soco na base do estômago. Desorientado, forcei sua cabeça contra a parede de tijolos. Ao fim disto, lancei uma bomba de luz na superfície mais próxima. Esta estourou cegando nossos oponentes. Estes gritaram em agonia pelo efeito amplificado graças aos óculos de visão noturna. Na confusão, Gordon agarrou a arma de um destes. Desarmando-o, deu disparos precisos em suas pernas, incapacitando-os. Era o fim do embate.

— Aqui embaixo, somos todos alvos. – declarou ao término da ação. Prosseguimos.

Nossa passada ficava cada vez mais lenta por minha culpa. Não suportava movimentar-me com a velocidade necessária. De tempos em tempos, equipes diferentes da polícia chegavam perigosamente perto de nós. Executávamos desvios da melhor forma possível. Todavia, a cada um deles, o caminho tornava-se mais longo.

Até que o som de uma queda de água recordou-me do quão próximo estávamos de nosso destino. O subterrâneo do D.P.G.C., onde achava-se a rede de computadores. Fizemos uso de meu arpéu para descer até a plataforma recém construída logo abaixo.

Alguns dias antes estivera naquele mesmo local e impedira criminosos de levar o armamento que deveria ser da polícia pelo que determinava o acordo entre Phillip Wayne e Carmine Falcone. Neste mesmo dia, reencontrara uma figura peculiar. Edward Nigma. Um antigo funcionário das Empresas Wayne, um dos preferidos de meu pai e que auxiliara-me a invadir os sistemas da delegacia e afirmara estar disposto a ajudar-me mais.

— A escada irá lhe levar direto para a sala dos servidores da delegacia. – informo a Gordon — apesar de imaginar que já soubesse disto — apontando para a escada – Minta sobre o que aconteceu. Diga que tentou prender-me. Consegui fugir. E com a entrada bloqueada, teve de vir para cá.

Gordon acenou com a cabeça em concordância. Antes que fosse, no entanto, precisava perguntar-lhe algo.

— Por que aliou-se a Loeb?

— Era necessário. Foi uma escolha que fiz. – respondeu-me sem sequer virar-se.

— Por quê?

— Essa cidade te obriga a fazer coisas terríveis. A realmente sujar as mãos para proteger aquilo com o que se importa. Aquilo que ama. E se não se sujeitar a isso... Você perde. Tudo.

James voltou-se para mim.

— Sou um homem de princípios. Sigo com eles até o fim. Só tem uma coisa que ponho acima deles, minha família. E se para deixa-las seguras precisaria ficar lado a lado com um salafrário corrupto, que seja. Essa foi a escolha que fiz. Enquanto mantê-las vivas, não vou me arrepender.

Gordon volta a caminhar para a escada. Quando está prestes a subi-la, faz uma pequena pausa e indaga-me.

— E você, por que faz isso?

Todavia, já não estou mais lá para ouvi-la.

...

Os ratos correm para longe ao ver-me cair no fluxo de água suja que corre pelos antigos túneis do esgoto. O insuportável odor dos detritos orgânicos inunda minhas narinas, no entanto, não é a maior de minhas preocupações. Dado o tempo decorrido, os curativos feitos já não suportam muito mais e rompem-se. Perco o movimento do braço esquerdo. Desde a o talho até a extremidade do dedo formigamento é tudo o que há para sentir. O sangue, a partir do corte na base de minha barriga, não hesita em seguir ao exterior de meu corpo, manchando parte das águas de vermelho.

“Seria fácil agora, não é?”, soa uma voz conhecida no fundo de minha mente. É serena. Vazia de preocupações. Não hoá peso algum em se tom. À medida que a ouço, os músculos relaxam e a dor, assemelha-se a uma lembrança distante.

“Não é vergonha desistir. Você lutou, você tentou. Foi fiel a sua promessa até o fim. Papai e mamãe se orgulhariam.” Papai, mamãe... Não havia sequer um dia em que não pensasse neles. Em que não observa-se o desigual coração artesanal que mamãe levava em meio a suas pérolas no colar. E como este havia rachado no frio chão após o disparo. Como a vida havia deixado o corpo de minha amada mãe.

“Não precisa resistir. Se o fizer, encontrará apenas mais dor, sofrimento, tristeza... Solidão. Não há felicidade em nosso caminho. E não haverá paz em seu término. Abrace isto. Abrace a única forma na qual encontraremos paz.”

Sim... Desde aquela noite minha vida fora guiada pela dor. Raiva, sofrimento, ódio, tristeza. Até aquele momento era assim. Se prosseguisse, isto seria tudo à frente. Senti o sangue na boca. Escorrer através desta. Atingir as águas e acompanhar o fluxo.

“Desista.” Era minha voz. Em uma calma com a qual jamais falei. Uma que jamais atingi.

Acima de minha cabeça um guincho se faz ouvir em meio a som da água corrente. Deixando o transe, busco a fonte da manifestação. Um morcego. Grande. Os olhos vermelhos famintos fixos em mim. Movia-se para próximo. Os guinchos cada vez mais audíveis. Preso ao teto, abriu as asas e gritou.

“Desista”.

— Não. – retruco sussurrando. A força consumida.

“Desista.”

— Não. – aumento o tom de voz.

“Desista!”

— Não! – o morcego se agita a meu grito. Seus guinchos aumentando.

“DESISTA!”

— NÃO! – o Morcego e eu gritamos em uníssono. Ergo-me ignorando a dor como se no melhor de minha forma. Corro, cambaleio e caio. Levanto e prossigo. A corrida cobra seu preço a cada passo. A boca encharcada de meu próprio sangue.

As pernas desejam falhar. Clamam pela parada. Permaneço em negação. O som de água corrente é mais forte que nunca, embora, houvesse alcançado um trecho seco dos túneis. O guincho dos morcegos aumentava exponencialmente. A cada metro mais, mais e mais. Até que...

Dezenas deles, não, centenas... Milhares irromperam no túnel. Passando por mim, nenhum ousava tocar-me. Abriam passagem à medida que caminhava. Não havia oposição alguma. Logo seu bando se dispersou. Voltei-me para observá-los partir. À minhas costas, luz se fez. Uma sombra conhecida.

Antes de virar-me, a parede a meu lado explode, lançando-me ao chão. O ouvido direito a zumbir por pouco impede-me de compreender a voz tão familiar que a mim se refere.

— Identifique-se. – um destrave de arma – Ou serei obrigado a pintar as paredes com o conteúdo de seu crânio.

Sem sequer erguer-me, falo no mais alto que a condição de meu corpo avariado permite.

— Alfred, caso este tenha sido realmente um disparo sério...

— Mestre Bruce! – o mordomo deixa a arma de lado. Ouço o clique do portão, o som de passos nos degraus, em seguida na água até que sua forma nebulosa aparece sobre minha cabeça.

— Precisamos conversar sobre sua mira. – completo enquanto o mundo é envolto por sombras, e nada mais vejo.