A Sombra do Colosso
18 Capítulo Final - O Desfecho do Ritual
Notas iniciais
E com uma sensação de Missão Cumprida, despenquei do Décimo Sexto Colosso, sendo possuído por suas essências momentos antes de toar o chão, e com um sorriso no rosto, desmaiei. Porém... mesmo desacordado, eu podia ver...
As Terras Proibidas estavam sendo adentradas. Vários homens a cavalo atravessavam velozmente a Grande Ponte, em direção ao castelo. Não demorou muito até conseguirem entrar, com a porta sendo aberta a eles. O que parecia ser o líder, desceu de seu branco cavalo, e colocou sua máscara, segundos antes de entrar no salão da rampa.
Ao terminar de descer, e chegar ao poço, o aparente “líder” do grupo se surpreendeu ao ver o Santuário.
— Lorde Emon! – gritou um dos soldados do grupo.
Emon se virou, e viu os soldados observando o último ídolo restante, que começara a brilhar. Instantes depois, o brilho se converteu em um único ponto, e em segundos, a estátua se quebrou em vários pedaços. O último dos ídolos havia sido destruído.
— Não... – disse o lorde, em tom de descrença, e logo, tirou sua máscara, para observar a pessoa deitada sobre o templo. Se aproximou dela, seguido de seus soldados, parou em sua frente, e sem dizer nada, estendeu sua mão, e começou uma reza.
Enquanto isso acontecia, eu ainda estava adormecido, arremessado pela arena do último Colosso, onde todas as nuvens que cobriam o céu se abriram. Senti meu corpo levitar lentamente, e instantes depois, despenquei contra algo sólido, escutando o som de minha espada voando longe, sendo cravada contra o solo. Eu estava de volta ao Santuário da Adoração, provavelmente, havia descido do buraco de onde Dormin fala.
— Eu não acredito... – Lorde Emon se virou, surpreso, e disse, olhando para mim – Então era você o tempo todo... você tem alguma ideia do que fez?!
Enquanto me levantava, sentia meus olhos fervendo, não de raiva, mas pareciam estar anormais. Ao meu redor, surgiram várias Silhuetas negras, semelhantes às aquelas que apareciam quando derrotava cada Colosso, mas eram apenas cinco, assim como quando cheguei no Santuário pela primeira vez.
— Você não só roubou a Espada, e passou pela Terra Amaldiçoada... você também usou o Feitiço Proibido...! – Emon estendeu sua mão, fazendo dois de seus soldados andarem na direção do jovem, um deles carregando uma Espada, e o outro, uma Besta– Para ser reduzido à essa visão...
Depois de algum tempo, consegui me equilibrar nas duas pernas, e com bastante dificuldade, andei em direção dos soldados. Minha pele estava branca, cheia de manchas negras, assim como minha roupa. Podia sentir, também, o que pareciam ser dois chifres, que cresceram em minha cabeça.
Eu andava em direção dos soldados de Emon, enquanto tentava entender o que acontecia.
— Você só estava sendo usado.
Dormin...
— Erradiquem a origem do mal... – Emon fez com que o soldado das flechas direcionasse a Besta em direção de Wander – Veja... ele está possuído pelos mortos... apressem-se e faça!
Nesse momento, o soldado atirou uma flecha, acertando minha perna esquerda, fazendo-me cair, me contorcendo com a dor. Do local afetado, pude ver um sangue escorrendo, mas ele era bem diferente. Era um sangue bem mais escuro do que o normal.
— É melhor liberta-lo de sua miséria, do que existir amaldiçoado como ele é...
Nesse instante, pude ver outro soldado se aproximando, este que empunhava uma espada. Ele chegou perto de mim, e me olhou, caído no chão. Ele lentamente levantou a espada, mas eu não podia reagir, ainda sentindo as dores da flechada. Mesmo com a visão um pouco embaçada, vi que suas mãos tremiam, mas em um movimento preciso, o soldado ergueu a espada mais para cima, e com toda a força, cravou a espada no meu peito.
Pude ouvir o som do ataque ecoando pelo grande salão, seguido de um silêncio. Por alguns segundos, fiquei ali, segurando inutilmente a espada que já atravessara meu corpo, até que de repente, do local atacado pela espada, esguichou uma grande quantidade de sangue, negro, e que se tornava uma fumaça quando subia, assim como o sangue dos Colossos.
Vi o soldado se afastando, e com isso, tomei forças para lentamente e com muita dificuldade, me levantar, ainda com a espada cravada no peito. Me virei para o templo, onde os soldados estavam, e andei em direção de Lord Emon, cambaleando. Os soldados se afastavam de mim, me temendo.
Gemendo de dor, eu me esforçava para me manter vivo. Com minha visão ainda bem embaçada, consegui ver Mono, deitada sobre o templo. Abaixei minha cabeça, e segurei a espada em meu peito com as duas mãos, e cheio de força, a tirei. Mas isso fez com que mais sangue se esguichasse, e tudo ao meu redor começou a se escurecer. Lentamente, caí no chão, soltando a espada. Senti meu corpo ser tomado por uma essência negra.
O que foi... que eu fiz...?
Wander havia morrido. A áurea negra tomou conta totalmente de seu corpo, fazendo o templo ficar em um constante e profundo silêncio. Emon olhou para trás, para o corpo de Mono, que ainda estava sem nenhum sinal de vida, serena desde o momento o qual deitou naquele templo. Até que de repente, do corpo negro do jovem, a áurea começou a se expandir.
Os soldados se afastavam lentamente, enquanto a áurea tomava uma certa forma, quase do tamanho do templo. E segundos depois, ela se estabilizou na forma de um gigante, com dois grandes chifres e olhos totalmente brancos. Era maior do que aquele templo, por isso, não ficava de pé.
— Tu dividiste nosso corpo em dezesseis segmentos por uma eternidade, em ordem de selar nosso poder... Nós, Dormin, surgimos novamente...
— Ele foi ressuscitado...!
— Tomamos emprestado o corpo deste guerreiro...
Enquanto Dormin disse essas palavras, as outras cinco silhuetas negras que surgiram quando Wander estava possuído, adentraram seu corpo. A entidade tinha grandes braços, sendo que o esquerdo era um tanto “desfigurado”, e por conta de sua altura, tinha que ficar agachado. Tinha espécies de pelos na região de sua nuca e costas, sendo que nas costas, haviam o que pareciam ser tentáculos.
— Coloquem um Selo ao longo de todo o Santuário... – gritou Emon – Antes que seja tarde demais!
Logo após terminar de falar, Dormin desferiu um soco usando sua mão direita, no lorde e seus soldados, acertando-os não com o golpe, mas com o impacto que este causou. Os soldados disparavam flechas na entidade, mas que pelo jeito, não faziam dano algum. Após alguns instantes, eles perceberam que era inútil lutar, e então, começaram a correr em direção do Salão da rampa.
A velocidade de Dormin não era tão boa para se alcançar os outros, até que um dos soldados pegou a Espada Ancestral, cravada no chão quando Wander havia chego, e voltou a correr com os outros, chegando ao salão. Rapidamente, todos começaram a subir as rampas, chegando no topo após alguns segundos. A entidade então, se virou, e olhou para o corpo de Mono.
No topo das rampas, todos já estavam prontos para a fuga.
— Preparem meu cavalo.
O soldado entregou a Espada Ancestral para o lorde, que andou até uma plataforma, com queda exatamente ao poço. Emon respirou fundo, segurou a espada com as duas mãos, e a arremessou em direção ao poço.
— Desapareça, besta imunda!
A espada afundou no poço, que em um instante, fez com que suas águas começassem a brilhar, e de seu centro, surgiu uma espécie de Redemoinho. O capuz de Emon caiu para trás, e ele se virou, saindo do Santuário, e se juntando a seus soldados. O corpo de Dormin começou a ser sugado, fazendo com que sua áurea negra se fosse dispersando, tornando novamente mais visível, o corpo de Wander, com partes de seu corpo ainda cobertor pelo negro. Estava lutando para não ser sugado.
Eu tentava ir para frente, mas não funcionava, acabava sendo impulsionado para trás novamente, por uma força que me puxava. Sentia meu corpo ficando cada vez mais fraco, e agora, eu percebi tudo que eu havia feito. Todas aquelas essências que me possuíam, eram fragmentos de Dormin, que aos poucos, me corroíam, até o Último Colosso, que foi quando ele me possuiu de vez.
Wander tropeçou novamente, e apenas conseguiu se segurar nos degraus, um pouco antes do Poço.
Mono... você sabia que isso ia acontecer...? Todas as vezes que eu derrotava um Colosso, eu podia ouvir sua voz. No começo, pensei que fosse coisa da minha cabeça, mas... agora vejo que estava certo. O “preço” que Dormin disse, que pagaria bem caro, também... agora eu entendo tudo...
Sem querer, jovem soltou o degrau, ficando apenas com uma mão no último dos degraus.
Agora... já não tem mais jeito. Mono, eu só queria te ver de novo... queria ouvir sua voz... Fiz de tudo para te trazer de volta, mas... pelo jeito... desculpe por não te deixar ter ido em paz...
Wander fecha seus olhos.
— Adeus, Mono...— e solta o degrau.
Wander é jogado para dentro do poço, o qual se estabiliza o brilho, e as ventanias param, deixando no Santuário, um grande silêncio.
Do lado de fora do Santuário, Emon e seus soldados estavam com seus cavalos, cavalgando o mais rápido possível, atravessando a Grande Ponte. Porém, um dos pilares que sustenta a plataforma, brilhou, assim como um ídolo, mas não explodiu. Apenas desapareceu, e fez com que as plataformas despencassem. O mesmo aconteceu com o da frente, que também aconteceu com o próximo, assim em diante. Porém, os cavalos eram muito rápidos, e iam mais rápidos do que a queda da ponte.
Momentos depois, todos atravessaram a ponte em segurança. Emon se virou, e olhou para as plataformas sendo desabadas, e depois, para o Santuário.
— Pobre alma incrédula... Agora, nenhum homem jamais irá transgredir esse local novamente. Você deve estar vivo, se é mesmo possível continuar a existir nestas terras isoladas. Talvez, um dia você vá se arrepender pelo que você fez.
De volta ao Santuário, tudo estava calmo, como se nada tivesse acontecido. O corpo de Mono continuava calmo e sereno, com seu vestido e cabelos se movendo pelo vento, até que de repente, ela abre os olhos. Sem dizer uma única palavra, ela levanta metade do corpo, e olha ao redor.
Ainda calada, ela desce do templo, e por todos os degraus, e observa o grande buraco do teto, por onde Dormin se comunicava. De repente, ela escuta um som, vindo das escadas esquerdas do Santuário. O som, era um relincho, misturado com um lento cavalgo. Era Agro, subindo os degraus lentamente.
Ela havia sobrevivido à queda antes do Décimo Sexto Colosso, mas acabou quebrando a pata traseira direita. Lentamente e com dificuldade, a égua andou até Mono, que também se aproximou, e a acariciou. Agro então, andou para frente, em direção do salão do poço. Guiando Mono, a égua andava com dificuldade, até que segundos depois, chegaram.
A jovem viu algo dentro do poço, e desceu as escadas. Um bebê ruivo, com dois chifres, chorava. Mono se aproximou dele, e o pegou no colo. Ainda sem dizer e expressar nada, ela se levantou, e seguiu à Agro, que estava subindo as rampas.
Momentos depois, a jovem chegou ao início da ponte, o qual estava desabada, tornando as chances de sair daquelas terras, nulas. Agro foi para a esquerda, subindo as escadas do local onde Wander havia visto, assim que chegou no Santuário, e não teve como explorar. Após alguns segundos, atravessando o local, a égua e Mono chegaram a um lindo jardim, com muitas árvores e frutos, e um canal de água.
Do outro lado do jardim, um belo cervo surgiu, que lentamente ia se aproximando. Ao mesmo tempo, surgiram esquilos borboletas, alguns pombos, e um robusto falcão, e todos se aproximaram da humana e da égua, e ficaram ali uns instantes. Os pombos levantaram voo pelo jardim, e o Falcão, também bateu suas asas, mas este, voando pelas enormes e infinitas terras, da Terra Proibida.
O Quão Longe Você Iria Por Amor?
FIM
Fale com o autor