A Sombra da Vida

3 Capítulo 03 - A Lista


2 anos atrás

Enquanto Denílson se preparava pra se deitar, por volta das 22:30, ao passar no corredor, cujo quarto de sua filha ficara no fim do mesmo, o homem pôde ouvir alguns sussurros vindos de lá, e preocupado com isso, visto que Liliane já deveria estar dormindo, ele se dirigiu em direção ao fim do local estreito, a porta se encontrava quase toda fechada exceto por uma pequeno vão, abrindo-a vagarosamente, Denílson se espantou com a imagem que viu.

– O que você está fazendo? – Perguntou o rapaz para sua filha que estava ajoelhada na cama com as duas mãos juntas coladas uma na outra, ela mantinha sua cabeça baixa e os olhos fechados.

– Minha professora disse que quando rezamos, alguém sempre vem nos ajudar, ela disse que fazer isso toda as noites era algo bom... – Denílson balançou sua cabeça negativamente, ele tinha nojo daquele tipo de professor que queria impor seus costumes e crenças aos alunos, sua única função era a de ensinar suas devidas matérias, sem intervir em outros aspectos morais e culturais, irrelevante a isso, o rapaz questionou sua filha.

– E você quer ajuda pra que menina? O que tá acontecendo?

– Comigo, nada, mas peço ajuda pra você só papai... mamãe disse que o trabalho tá te cansando e você não está mais se lembrando de Deus, então eu faço por você... – A garota dizia aquelas palavras olhando inocentemente para seu pai, e por mais que ele a amasse, por mais que a achasse a razão de sua existência, tudo que ele fez no momento foi desprezar tal ato.

– Olha, filha, não sei o que essa professora lhe disse, mas, fazer isso não me ajudará, o que me ajudará é ver você bem, saudável, dormindo bem todas as noites e estando sempre feliz. Isso é tudo que me acalma quando chego do trabalho, e não precisa se preocupar, eu aguento, seu pai é forte ok, e amanhã terei uma conversa com sua mãe, onde já se viu, falar que eu estou estressado (por mais que eu fique muito mesmo todos os dias). – Liliane, após ser coberta por seu pai e colocada para dormir, antes que ele pisasse para fora do quarto, ainda lhe disse.

– Pai, só prometa que não vai desistir tá. – Denílson ficou pensando naquilo durante toda noite. Prometer que não iria desistir, era uma promessa que ele não podia cumprir, não sem saber que, ao acordar, a voz de sua filha não se ecoaria mais pelos corredores da casa, e agora, naquele mesmo corredor, bem na frente do quarto de Liliane, Denílson arregalava os olhos ao pensar que havia ficado louco de vez, não por ter ouvido sua sombra falar consigo, mas por acreditar que aquilo era real.

Capítulo 03 – A Lista

– “Eu preciso mesmo ir pra um psiquiatra, mesmo eu sendo o psiquiatra. Isso seria uma vergonha pra todo conselho, quem poderia imaginar, um profissional graduado na mente humana com mais de 10 anos de profissão, parado na frente de uma parede porque ouviu sua sombra.” Denílson pensou que era hora mesmo de desistir, antes que ele fosse humilhado por si mesmo, seu cérebro, com tudo que aconteceu, estava começando a se deteriorar, foi o que pensou, antes de ouvir novamente aquela voz baixa, que vinha mesmo de sua sombra.

– Por que me ignora? Estou em sua frente, estou sempre na frente de todos. – O homem deu dois passos para trás e começou a suar frio. Se aquilo fosse uma alucinação, era bem real. Ele estudou durante alguns meses, em sua graduação, o que causava alucinações nas pessoas. Traumas, febre, forte estresse, falta de sono, drogas, remédios ilícitos, alta dosagem de anti-depressivos, fata de comida, todos eram fatores que contribuíam para isso, e no caso, o rapaz já podia se colocar em muitos deles, era óbvio que aquilo não era real, mesmo que ele, no seu teor, se sentisse sóbrio. Ele usou o método do ‘beliscão’, a dor às vezes trás as pessoas de volta ao mundo real, mas não foi o caso, quando, depois do ato, o homem ouviu a sombra falar ainda mais alto.

– Você quer fugir novamente? Fugir da verdade? – Dessa vez, já assustado, Denílson correu para fora de sua casa, se sentindo sufocado. O sol já havia se posto, apenas alguns raios sobravam no céu escarlate, ele ficou parado em frente à sua casa respirando ofegante, colocando uma de suas mãos em sua testa para ver se estava com febre. Denílson não estava quente, as coisas ao seu redor pareciam normais, ele não estava vendo nada que parecesse uma alucinação, foi então que decidiu que o melhor a se fazer era dormir, uma boa noite de sono, e ele voltaria ao normal. O desejo de se matar havia ficado de lado, aquele acontecimento o havia feito parado pra pensar, mesmo que odiasse aquele mundo, ele estava, no fundo, curioso para saber o que diabos havia acontecido. De alguma forma, a sombra havia lhe salvado. Denílson, antes de sair de sua casa, pegou todo dinheiro que tinha, e se dirigiu para um hotel próximo de onde morava. O rapaz pegou um quarto simples, ainda sendo encarado por todos com desconfiança devido a sua aparência, e chegando no mesmo, resolveu que dormir era a solução. Ele estava assustado ainda, seu coração acelerado o fazia suar frio, suas pupilas dilatadas só transpareciam seu temor, mas o cansaço, no entanto, falava mais alto. Ao sei deitar naquela cama confortável de casal, depois de ligar o ar condicionado e a tv, o rapaz caiu de cara no colchão, o noticiário parecia se focar em mais mortes e acidentes, e bastou apenas alguns segundos para que ele dormisse. Foi um sono profundo, mas os sonhos ainda o perseguiam.

Denílson sonhou com uma pomba negra que caiu morta em seus pés, com sua barriga aberta. Ele estava na frente daquela igreja onde esteve de tarde, mas alguma coisa parecia diferente, as portas estavam trancadas, todas com revestimento de metal e parafusos, as ruas ao seu redor todas vazias, não se ouvia barulho de nada, apenas risos de crianças que soavam distantes, risos que se tornaram choro logo em seguida. Denílson caminhou para longe daquela praça, mas o chão começou a se rachar, ele partia a cada passo que o homem dava, o rapaz tentava fugir daquilo, mas ao correr por alguns minutos, ele voltou a se deparar com aquela igreja. Dessa vez, haviam dezenas de pombas mortas, só que todas brancas, e meio a essas pombas brancas todas cobertas com sangue, uma preta saiu e se dirigiu até o céu, sumindo com o mesmo que começava a se fechar. Repentinamente o céu ficou negro, sem nuvens, apenas com uma estrela vermelha que parecia cair em direção a Denílson, ela ficava cada vez maior, mas mesmo assim, parecia nunca sair do lugar. O homem olhou para frente, ele sentiu que o local havia ficado bem frio, do outro lado da rua havia a sua clínica psiquiátrica, mas toda pintada de vermelho claro, de dentro dela saíam várias pessoas cobertas com mantos pretos carregando caixões brancos, de vários tamanhos, haviam 11 no total. No momento em que Denílson se assustou e olhou para o seu lado esquerdo, viu 7 cavalos de várias cores passando na rua em sua frente, todos correndo para o horizonte sem ninguém montado neles. A voz chamou Denílson mais uma vez, e ele então, enfim, despertou.

Ao abrir os olhos ele olhou para o relógio em seu pulso esquerdo. Eram 3 da manhã. Parecia que haviam se passado dois minutos, mas o tempo voou. Ele então se sentou na cama rapidamente, a luz do quarto ainda permanecia acessa, a tv estava ligada passando algum filme velho e reprisado diversas vezes, ele colocou as duas mãos em sua cabeça e começou a sentir uma enorme dor, algo que poderia lhe fazer batê-la contra a parede.

Denílson, pela primeira vez, se sentindo sujo, resolveu tomar um banho. Quem sabe, isso o faria ficar mais calmo, o homem estava preso naquele sonho ainda, e no acontecimento mais cedo em sua casa. No banheiro, enquanto a água quente caía em seu corpo, ele olhava para sua sombra enquanto seu coração se acelerava lentamente. O silêncio naquele bairro era tenebroso, não havia carros passando, gatos na rua, não havia nada, apenas o som do chuveiro ligado e da água caindo.

Ao voltar para o quarto, o rapaz, ainda sem se trocar, abriu sua janela. Não havia vento, não havia lua nem estrelas no céu, tudo aquilo parecia artificial, uma maquete criada por alguém. Denílson sentiu um enorme frio na espinha, sentia que estava em algum lugar que não era seu. Seriam os efeitos dos remédios e da comida estragada? Denílson se sentou e pensou com calma, ele podia estar doente, mesmo parecendo que a febre havia desaparecido. Enquanto fechava os olhos para pensar, o som de um relâmpago ecoou por todo quarto. Denílson deu um pulo da cama, olhou para fora, mas não havia nuvem alguma. Mas com certeza, aquilo foi um relâmpago, pensou.

“Talvez seja hora de procurar ajuda...” – Logo após pensar isso, a mesma voz, de horas atrás, havia retornado.

– Talvez só você, possa se ajudar. Ou melhor, Denílson, talvez só você, possa salvar o mundo. – Denílson olhou para todos os cantos do quarto como alguém encurralado, e no canto ao lado do criado mudo, estava lá, sua sombra.

– O que diabos é você? Não, eu sei que é só minha mente, eu me dopei demais.

– Não, Denílson, não é sua mente, você gostaria de saber a verdade?

– Verdade do que? Porra, você é só uma alucinação. – Denílson se deitou e fechou seus olhos, um flash, naquele instante, passou em sua mente. Ele pensou em Deus. Mas o que seria esse Deus, que todos falam? O homem sempre tentou ignorar tudo que fosse a respeito disso, mas naquele momento, por algum motivo, ele sentiu.

– Denílson. Você quer saber, não quer? – Por mais que Denílson tentasse ignorar, a sombra ainda falava consigo, ela ainda estava lá. Ele apagou a luz do quarto e começou a cantar uma música baixinho enquanto ficou sentado na cama com as pernas cruzadas uma em cima da outra, porém, a voz ainda estava lá.

– Me ignorar assim não vai resolver seus problemas. – Pela primeira vez, Denílson resolveu se entregar a sua loucura.

– E quem diabos é você então?

– A pergunta é: Você quer a verdade?

– A verdade do que porra, não tem verdade nenhuma! Eu só queria deixar esse mundo, apenas isso.

– E você pode fazer isso.

– Posso? E como? Eu sou um covarde, no fundo.

– Você não pode decidir isso, sem ao menos, entrar nas profundezas do seu coração. Você quer destruir esse mundo, não é?

– O quê? Se eu pudesse, o faria.

– Faria mesmo? – Denílson continuou conversando com o que quer que seja que estava lá, mesmo que no fundo, aquilo tudo fosse insanidade pura.

– O que restou de bom aqui? Olha todas essas mortes todos os dias, pessoas boas morrendo, pessoas que só queriam ser felizes, enquanto bandidos vivem, enquanto pessoas más vivem pra foder com a vida de outras, não há justiça, não há Deus, não há nada. Então pra que continuar isso?

– Você pode escolher, acabar com esse mundo, ou deixa-lo seguir o seu fluxo, deixar que as pessoas sigam seus caminhos, afinal, cada um sabe o que faz da vida.

– Eu posso? Hahaha, eu devo estar muito louco e chapado...

– Embaixo da toalha do criado mudo ali, tem 11 folhas grampeadas, e em cada folha, tem um nome. Você pode decidir, abrir uma página por dia e conhecer uma dessas pessoas, e com isso, avaliar se o mundo deve existir ainda, ou não. — Denílson pela primeira vez ficou curioso com aquela conversa.

– O que?

– Você é obrigado, a pelo menos, a visitar a primeira pessoa. Depois disso, se quiser, pode escolher se o mundo vai acabar ou não.

– Pera, então, se eu escolher que o mundo acaba, ele simplesmente acabará? Eu sou Deus, é isso?

– Não, eu sou Deus, e eu dou essa tarefa a você. Você toma a decisão, tem 11 dias pra isso, se no final, não se decidir, o mundo acabará. Você pode decidir acabar com o mesmo antes de ver as 11 pessoas, mas terá que ver todas até o fim, se decidir que quer salvar o mundo, mas, pra que o mundo seja salvo mesmo, há uma condição; Você deve salvar uma delas, somente uma. Feito isso, no final dos 11 dias, você saberá a verdade.

Denílson não sabia se ria daquilo ou se ficava com medo de si mesmo. Ele decidiu ir procurar ajuda, pois aquilo não era normal.

– Eu me rendo, eu não to bem, não mesmo. – Denílson, ignorando a voz, acendeu novamente a luz do quarto, e quando percebeu, a voz havia sumido. Ele olhou fixamente para sua sombra, e decidiu testá-la.

– Já cansou? Hahahaaha, isso não é possível, alguém vai me internar. – O rapaz decidiu voltar a dormir, mas antes, apenas por pura curiosidade, decidiu olhar para debaixo da toalha no criado mudo do quarto.

“Eu sei que não tem nada ali, mas mesmo assim, não posso evitar...” – Para a surpresa do homem, havia o que a sombra lhe tinha dito. Doze folhas, a primeira, apenas estava escrito: ‘Só olhe uma por dia’. – Denílson começou a pensar que alguém estava tentando lhe sacanear. Ele abriu a porta do quarto e olhou dos dois lados do corredor. Não havia nada, apenas escuridão. Ele começou a suar frio novamente, aquilo era mesmo real?

“Isso não existe, não tem como. Mas, o que será que acontece se eu ignorar isso? O mundo vai acabar mesmo? Não tem como alguém ter feito isso comigo, a voz, eu ouvia claramente, estava aqui, e quando eu entrei, percebi que não havia nada embaixo daquele pano, pois não tinha volume algum, não tem como alguém ter entrado enquanto eu estava no banho, então...o que é isso? Denílson abriu e olhou o primeiro nome: “Tomé Figueiredo Barros” – Rua Adamastor Frei, Jardim Babilônia nº 98. O homem se sentou de novo na cama e colocou aquelas folhas do seu lado. Ele precisava dormir, apenas isso, e ao se deitar novamente, só acordou no dia seguinte, sem sonhos, sem vozes, sem sua alma.

Eram 9:30 da manhã, depois de sair do hotel, já com energia e limpo, o rapaz, se achando a pessoa mais louca do mundo, estava parado na frente da casa 98, na rua Adamastor Frei.

– Ei, desculpe o incômodo, mas, o senhor sabe quem mora nessa casa? – Denílson viu um senhor calvo e baixinho varrendo o chão de sua calçada, e ao ouvir a pergunta, o mesmo pareceu ficar bem espantado.

– Por quê?

– Bom, é que me mandaram vir pra cá... “Que senhor antipático! Por quê?”

– Quem mandou filho? Aí mora um demônio.

– Como disse?

– Um demônio em carne e osso! O miserável é um drogado sem rumo na vida, ele foi preso por suspeita de matar sua mãe, mas logo depois foi solto, ninguém gosta de ter ele por aqui, mas já faz tempo que ele não apronta nada, todos deixam quieto, você devia ir embora!

Depois de ouvir aquelas palavras, Denílson olhou para o céu, e começou a rir.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.