A Solidão De Uma Existência

1 A esperança de um recomeço


Notas iniciais
Essa história foi escrita em um conjunto de ideias minhas, da Vitoria Barbosa e do Ricardo Matheus.

Não era de se esperar que depois de certo tempo, todas as pessoas mudariam de atitude em relação a minha presença...

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Não lembro quando exatamente eu cheguei neste orfanato, mas nem nas minhas mais antigas memórias posso afirmar que fui tratado como os outros, sempre fui ignorado e ninguém sequer chegou a falar comigo. "Apesar de tudo isso ter me machucado muito no começo hoje, eu já me acostumei e vivo como se não receber o mínimo da atenção dos outros fosse normal " Era isso que eu realmente gostaria de dizer mas não é bem assim, eu nunca me acostumei a essa situação mesmo que sempre tenha sido assim, eu realmente não sei como agir e por mais que eu ainda seja uma criança a ideia de suicídio já passou várias vezes pela minha cabeça, como ocorre agora.
Tudo começou no frio do inverno, quando o pouco de esperança que restara em meu coração estava prestes a deixar de existir.
Era uma garota doce e pálida, que tinha acabado de chegar no orfanato onde moro, fiquei intrigado, pois era muito difícil alguém novo chegar, esse orfanato é rodeado por uma enorme floresta além de ser bem afastado da grande Londres. Por alguns dias fiquei a observando como forma de distração mas com o passar de algumas semanas eu tive que admitir o meu interesse. Ela tinha um irmão mais velho que não lhe dava atenção, e além disso notei que sempre que podia estava sozinha. Os sentimentos que seus olhos tristes passam me fizeram entender que ela era como eu. Nessa hora reacendi uma pontinha de esperança, talvez nós poderíamos nos entender se ela não tivesse a mesma atitude dos outros de me ignorar. Mesmo com o pouco de entusiasmo que consegui reunir já sabia qual seria a sua reação ( ou a falta ), mesmo assim decidi falar com ela já que não podia mais ignorar a curiosidade para saber como seria a voz daquela linda menina.
Ela estava aproveitando os poucos raios de sol sentada em um tronco de árvore caído que ficava no jardim atrás do orfanato, onde poucas pessoas iam. Estávamos sozinhos e esse era o melhor momento que poderia ter para conhece-la, então comecei a andar em sua direção cautelosamente.
Quando cheguei bem perto ela levantou seus olhos em minha direção que antes estavam ocupados com algumas formigas na grama.

- Oi! — Falei nervoso.
— Oi. — Ela disse abaixando os olhos novamente. Sua resposta, mesmo sem nem um pingo de animação, me surpreendeu, acho que nessa hora eu corei um pouco.
— Hãn... Tudo bem ?
— Não, mas obrigada por perguntar. — sua voz soou muito triste.
— Essas formigas... eu não sei como podem trabalhar nesse frio.
— Realmente.
Por mas que eu tentasse ser simpático e educado em todas as perguntas, ela as respondia diretamente e com palavras curtas, mas minha esperança já aumentara o suficiente para que eu não desistisse.
— Qual seria o seu nome ? — Perguntei ainda sem desanimar.
— Tente descobrir. — E finalmente pude ver uma ponta de sorriso em seu rosto, o único problema é que eu não sabia o que responder.
— Bem... Não sou bom em adivinhações...
— É Tess.- Respondeu desapontada.
— Que nome diferente.
— Não fui quem escolheu meu nome, mas sim os idiotas dos meus pais.
— Você não gostava deles ?-perguntei confuso.
— Você não precisa saber. — Sua foz soava um pouco autoritária agora.
Por um tempo fiquei quieto olhando para o chão também, provavelmente ela não tinha gostado de mim mas foi nesse momento que ela chamou minha atenção perguntando :
— Você já está muito a tempo aqui ?
— Sim mas ninguém me conhece, quer dizer ninguém presta a atenção em mim.
— Por que veio falar comigo ?
— Por que venho te observando e percebi que é um pouco solitária. — Como pude ser tão sincero?
— Quem disse que sou solitária ?!
– Bem ... eu ... simplesmente percebi. Você tem o mesmo olhar triste que o meu. — Porque de repente tinha ficado tão irritada?
— Ah... Bem... Desculpe agir dessa forma com você, é que não gosto de falar dos meus pais ...
— Não, tudo bem. Você não precisa falar deles, mas porque você está tão afastada?
— Por que eu não gosto das outras crianças, são alegres demais.Depois que certas coisas acontecem não da para parar de pensar como os outros conseguem ser tão felizes.
Eu não entendi muito bem o que ela quis dizer com isso mas pude sentir que por trás daquele grande par de olhos e do rosto pálido que davam a impressão der ser um frágil menina, havia segredos que não seriam suportados nem pelas pessoas mais fortes.
— Você já conhece bem o orfanato?
— Não sei, ainda tem muitos lugares que eu ainda não fui, mas não tenho interesse em lugares que eu não possa ficar sozinha... quer dizer, se você ainda quiser me acompanhar...
eu não me importaria...
— Bom tenho algo para te mostrar, algo especial.
— Como assim?
— É um lugar que não terá ninguém, eu nunca cheguei a entrar mas provavelmente nos poderemos nos divertir lá. — Eu disse enquanto sentava ao seu lado no tronco.
— É muito longe daqui? Não quero arrumar problemas.
— Não se preocupe, é dentro da casa mesmo, mas teremos que ir de noite.
— Não gosto de sair muito tarde, e também, acabei de te conhecer como posso saber se posso confiar em você ?
Mesmo com essas palavras de desconfiança me senti mais seguro, ela realmente tinha acabado de me conhecer e sem pensar nem nada fui a convidando para sair a noite, mesmo assim ela falava em confiança, pode não parecer grande coisa mas poucas pessoas me dirigiram a palavra e agora uma delas falavam em uma possível confiança. Ainda que estivesse feliz com isso ser cuidadoso com minhas palavras.
— Desculpe-me, eu ... Se você não quiser ir tudo bem.
— Se bem que seria uma aventura sair nessa noite de inverno sem que ninguém nos visse...