A Solidão do Espaço
1 Capítulo Único
Na minha vida inteira fui muito solitário. Desde meu nascimento percebia que as pessoas me ignoravam, por nenhum motivo aparente. Simplesmente ninguém me suportava.
Cresci com um complexo, tentando várias vezes mudar meu jeito, minha personalidade, meu gostos, minha aparência e tudo isso sem sucesso. A única coisa que me acompanhara em meus dias foi o vazio, a falta de algo que eu jamais soubera como era.
Já quase adulto finalmente reconheci minha situação, aceitei que esta era minha realidade e que não importa o que eu fizesse ninguém jamais iria gostar de mim. Me mudei para o meio do mato, onde não iria perturbar ninguém.
Assim vivi por muitos anos, suportando o desespero constante da solidão. A ausência de qualquer forma viva para interagir foi aos poucos se assemelhando a um buraco negro em minha vida, em minha alma, sugando toda a luz ao redor.
Reconheci que meus pensamentos estavam comçando a ficar muito sombrios e que estava à beira da loucura e decidi exprimentar adotar animais de estimação. Comecei com um cachorro e dei-lhe o nome de Bob, porém nem mesmo este suportara a minha terrível existência ansiando por fugir desde a primeira vez que pora seus pequenos olhos amendoados em mim ─ logo o libertei.
Não estando disposto a desistir tentei com muitas outras espécies de animais, ─ um gato, um peixe, uma ave, uma tartaruga, um coelho, alguns tipos de roedores e até um macaco ─ todos me rejeitaram. Assim, finalmente me convenci que não tinha vez com seres vivos.
Desesperado, tentando achar uma razão para minha existência, um motivo pelo o qual viver, comecei a estudar. Comprei livros sobre tudo e nada na internet, onde o segundo me atraiu mais. Um lugar onde não existia nem uma sequer alma viva. O espaço.
Fui ficando cada vez mais interessado pelo assunto, adorava olhar para o céu em minha luneta e pensar em como as espécies que habitavam a Terra eram insignificantes comparadas à imensidão do universo. Os astros e planetas me deram a companhia que elas nunca estiveram dispostas a me oferecer. As estrelas me fizeram esquecer de quem em eu era e minha paixão pelas galáxias fez finalmente meu coração parar de bater e começar realmente a pulsar.
Enfim cortei qualquer conexão que tivesse com os humanos e animais terrenos. Abandonei calendários e relógios, plantei uma horta em meu quintal e vivi desta durante minhas pesquisas, fui me afastando cada vez mais da Terra ─ ainda não fisicamente ─ e me aproximando cada vez mais do resto do universo.
Quando, alguns anos depois, já tinha lido e decorado todas as informações disponíveis, retirei meu empoeirado computador de onde o tinha guardado e finalmente adentrei em um lugar onde encontraria coisas que nunca acharia em qualquer fonte de informações normal. A Deep Web.
Quando consegui acessá-la me deparei com uma enorme quantidade de coisas inimagináveis que sou incapaz de descrever neste manuscrito com o intuito de preservar a inocencia do leitor. As vendas de armas e drogas e as torturas e assassinatos ao vivo eram as coisas mais leves que existiam lá.
Procurando coisas relacionadas ao que realmente existia fora do planeta onde residia obtive provas irrefutáveis sobre a existência de extraterrestres. Nesse momento meu mundo desabou. Minha única esperança, minha última cance de felicidade fora arruinada.
Naquele momento eu morri, morri por dentro e agora, enquanto escrevo esta última carta, este último contato com a humanidade, eu morro por fora. Me surpreendo comigo mesmo, pois lá no fundo meu miserável ser ainda acredita que daqui alguns anos alguém achará essa casa, achará essa carta e sinta compaixão pelo corpo que jaz ao seu lado.
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