A Sociedade dos Loucos e Esquecidos
10 Vermelho Instável
Notas iniciais
Borrões.
Tudo era borrado para Kagami. Tudo uma espécie de filme indie-hipster urban conceitual que ele não entendia absolutamente nada. Os eventos dos dias se desdobravam à sua frente, e ele não conseguia colocá-los ali, pareciam ser feitos em outra realidade.
Estava com uma dor de cabeça que fazia seu crânio parecer uma ogiva nuclear e tudo que ele tentara comer parecia ter parado em algum ponto, só lhe causando náusea.
E mesmo assim, todo na merda, ele também se sentia um dos caras mais felizes do mundo.
Ele não parou para pensar como o sentimento por alguém pode lhe deixar patético, apenas segurou a caneta com a qual estava copiando a lousa e suspirou.
Mesmo assim, não importa quão feliz estava, morria de sono pela noite nada dormida. E ele sabia que esses sentimentos ruins eram só um filete de água do enorme rio que ainda estaria por vir. Porque de modo algum as coisas terminam bem. Era o mundo adulto, afinal.
Eles tinham sido avistados, quatro deles pelo menos. Ainda não fizera contato com os outros para saber se mais algo dera errado. E óbvio que os guardas não manteriam segredo sobre isso, então o que aconteceria a partir de agora era uma incógnita não calculável.
À sua frente, o borrão dos cabelos de Kise — Mesmo no meio do Armagedon aquele tom não poderia ser confundido — indicava que o loiro ainda estava na aula, se ele não estivesse alucinando. E Kise estava tão ruim como ele próprio, cabelo bagunçado, olheiras e uma percepção afiada e aguçada de gato morto.
O loiro estava inegavelmente mais nervoso que ele, no entanto. E ambos sabiam o motivo, porque o próprio Kise contara.
Quando o sinal tocou, Kagami não sabia se deveria agradecer aos céus e a qualquer deus que estivesse de plantão no call center divino ou se deveria amaldiçoá-lo, porque a mensagem clara e rápida que recebera de Akashi deixava óbvio que a noite passada fora um erro que deveria ser discutido e nunca esquecido.
O loiro guardava o material na mochila com uma velocidade quase nula, fazendo o ruivo se apiedar daquela figura que deveria ser solar, mas que agora estava nublada.
— Hey, cara. — Ele disse, meio sem saber o que dizer. — As coisas sempre parecem uma merda assim, no começo. Elas se ajeitam, certo? Não perca a calma.
Kise negou. — Não perdi a calma, e infelizmente não perdi a vergonha na cara, também. — Ele afundou um rosto na mão. — Como eu vou olhar para a cara dele?
Kagami sorriu fraco de lado, rolando os olhos. Claro. Óbvio que o outro daria mais atenção a isso do que ao de o futuro ser incerto.
— Focando os globos oculares. É a única forma que eu conheço até agora. — Kise lhe mandou um olhar que quase o fez gargalhar. — Aconteceu, já. Não tem o que fazer. Você disse que ele deixou, certo?
— Mais ou menos.
— Mais ou menos? Torturou, prendeu, ameaçou, chantageou ou fez alguma coisa que o obrigasse a fazer o ato com você?
— Claro que não! — Respondera o loiro realmente ofendido. — Mas ele pode ter deixado pelo choque, ou porque não queria me deixar mais triste e... Eu meio que segurei os pulsos dele, agora que me lembro.
Kagami riu pelo nariz. — O Aomine é mais forte que você, ele é mais forte que eu... Tenho certeza que esse seu corpo de modelo da Vogue não o conseguiria segurar.
Kise nem tentou articular um argumento, até porque ele tinha um corpo de modelo da Vogue.
Mesmo assim, Kagami observou que não interessava o que ele falasse, o loiro continuaria se sentindo instável e pisando em um terreno incerto. Porque ele de fato estava. Aomine era hétero, e todas aquelas putarias que ele tinha no celular comprovavam isso.
Mesmo os sites pornôs no celular dele eram de hétero, nenhum era gay.
Aomine nunca sequer pareceu manifestar qualquer desejo pelo mesmo sexo. E bem, beijos acontecem. Assim como há gays que têm filhos por relacionamentos héteros anteriores, Aomine poderia ter apenas se sentindo momentaneamente atraído por um homem.
E ninguém pode culpá-lo por isso, ele estava na adolescência, tinha direito de se descobrir e se deixar levar por calores e lábios que sempre são lábios, independente do sexo biológico a quem eles pertencem.
Ademais, era Kise. Céus, quem não beijaria o garoto se tivesse a chance?
Ele suspirou de novo, e estava tão cansado que seu suspiro se metamorfoseou em um bocejo, fazendo Kise rir e bocejar também. Ele colocou a mão no ombro do outro quando terminou.
— Se sente-se tão mal, e acha que isso pode prejudicar vocês, peça desculpas, fale que o momento acabou te tragando e que aconteceu, que você não queria e...
E então Kise o olhou com o olhar mais traído que ele já recebera, pelo menos desde a vez que o pai o pegou fumando maconha com uns amigos.
— Mas eu quis. Eu quis, Kagamicchi. — Ele disse firme. — E não vou voltar atrás nisso, eu tenho que ter coragem e sustentar o ato. Assumir a responsabilidade pelo que fiz. — Ele sorriu de lado. — Eu não sou essas bichinhas por aí, Kagamicchi. Eu sou uma bichona. Não passei pela aquela confissão ontem à noite para esconder e mascarar meus sentimentos.
O falso ruivo assentiu, concordando com o discurso. — Yeah...
— Yeah...
— Vamos dormir um pouco, temos uma reunião com A Sociedade à tarde... Minha bichona.
Os olhos mel de Kise rolaram como planetas na órbita do cérebro. — Claro que você ia se focar nisso.
— Vou até mudar seu nome na agenda do celular, pera aí. — Disse, só para ser socado no ombro.
xXx
Um frio ártico passou pela sua espinha, quase como se os impulsos elétricos se tornassem gelados, quando Akashi ouviu aquela voz.
— Filho. — Disse seu pai lhe chamando.
E ainda que sobre aquela palavra houvesse todo um tom que era cordial, toda uma voz que aparentasse calma e até um pouco de familiaridade, ele sabia que no seio da voz, ela era dura.
— Pai. — Ele cumprimentou de volta com um aceno de cabeça.
Era intervalo e ele se dirigia a uma aula de filosofia, não a sua mais favorita, mas não era uma matéria que particularmente odiasse. O pai passou-lhe os braços pelo ombro, dando um leve aperto no seu ombro esquerdo. Ele era poucos centímetros maior que Akashi. Sua família não tinha recebido genes referentes a tamanho.
— Bem... Coisas peculiares aconteceram ontem à noite.
Akashi se esforçou para fazer uma cara de surpresa, a melhor que conseguiria fazer com seu pouco talento de ator, e expressar que aquilo era uma completa surpresa para ele.
— O que exatamente? — Perguntou cauteloso.
— Alguns guardas relataram que viram alguns alunos fora dos dormitórios antes do horário permitido. No entanto, iam em direção aos dormitórios, é possível que tenham passado a noite fora. — Ele parou para pensar. — Usamos alguns cachorros para rastrear os cheiros — Nesse momento o ar ficou preso no pulmão de Akashi, e lá dentro o ar era como uma tormenta de navalhas. —, mas eles não encontraram nada. Por causa da chuva, provavelmente.
E então, suave e imperceptivelmente, Akashi deixou todo o ar lá dentro sair. Pelo menos um alívio. Céus, ele nem conseguiria pensar como seria se achassem o esconderijo, Kise ficaria arrasado se eles pegassem o maldito cachorrinho. Seijuro permitiu seu pensamento parar por um instante, querendo se dar um tapa na testa... A convivência com todos aqueles garotos estava influenciando sua capacidade de raciocínio, o pai achar o cachorro era o de menos. Kise ficar tristinho era o de menos.
Eles viviam deixando ou escondendo as coisas lá, na caverna, e dessa vez tinham deixado as capas de chuva. Descobrir que os alunos vistos no começo da manhã eram eles seria algo muito simples com a ajuda dos cachorros treinados.
— Bem... Estava pensando se você não sabe nada sobre isso? — Perguntou por fim.
Akashi arqueou as sobrancelhas e negou com a cabeça. — Por que saberia?
— Você estuda aqui, talvez tivesse ouvido algo...
— Nunca fui muito popular. — O pai riu, concordando.
— É, é... De qualquer forma, iremos vasculhar o pântano em breve. Talvez até a viagem do semestre já tenhamos achado os culpados.
O olhar de Akashi fez-se esbugalhado. — A viagem... Tinha esquecido, vai ser...?
— Em três dias, meu filho com Alzheimer precoce. — Riu com a piada fraca. — Bom, tenho que ir, tenha uma boa aula...
Akashi assentiu, conforme via a mesma coloração de cabelo que a sua andar à frente. Incrível como o sangue pode não significar muita coisa. Ambos eram tão parecidos quanto um poeta surrealista era de um neoclássico.
O pai voltou-se rapidamente. — Antes que eu esqueça, se ver seu primo, fala que quero conversar com ele. Dizem que ele tem um contato interessante com os alunos e bem... É seu primo, não me impressionaria se ele estivesse metido no meio disso. — Riu com a ideia.
Akashi forçou-se a rir, também. O ar saiu dos pulmões em uma risada vocalizada, coisa que ele nunca faria por vontade própria. Aí então o pai se fora.
O ruivo, no entanto, manteve a compostura. A coluna reta, um olhar sério e um sorriso pronto para qualquer conversa, um sorriso cinza. Ele foi para sua sala e sentou-se em uma mesa qualquer mais ao canto.
Supor que Kuroko estaria no meio do acontecido. Sinceramente, ele deveria ouvir toda sua família quando todos diziam que o portador dos cabelos azuis era problema. Ele quase grunhiu em desgosto, em um gesto kagamístico.
Ele ouviu os colegas adentrarem a sala, uma manada de adolescentes. Ainda estava frio, e as nuvens, meio bipolares, soltavam algumas gotas para dois minutos depois voltar a prendê-las. Parou de prestar atenção ao seu redor para simular o que seu pai diria se descobrisse que ele estava envolvido no meio do acontecido. Se descobrisse que ele fazia parte de um grupo em que seus membros fingiam ser Indiana Jones e Ulisses, e então se aventuravam pelo pântano, para discutir filmes, seriados e poemas.
Será que ficaria bravo? Decepcionado? Ou riria, por perder tempo com algo tão ridículo como A Sociedade?
Fora um erro ter aceitado A Sociedade ser criada, e pior, fazer parte dela. Ele teria que dar um jeito de não ser descoberto e disso nunca mais acontecer.
As madrugadas na fogueira não poderiam mais existir.
xXx
Era uma circunstância desagradável e totalmente prejudicial e estressante, mas Kagami ousaria dizer que valia a pena apenas por ver a cara de sono de Midorima.
Ele nunca tinha visto o garoto de cabelos verdes portar nada menos que uma feição neutra; vê-lo com o olhar exausto era quase como uma catarse para o falso ruivo. A prova de que todo ser humano é imperfeito.
No entanto, foi apenas voltar para a situação e para a sala que se encontravam para voltar a querer estar longe dali. Akashi se envolvera em um argumento com Himuro, e o ruivo estava irritado.
De verdade.
A ideia de um Akashi tão intenso era uma outra ideia que era totalmente fora de comum. Akashi não se irava, usualmente, ele apenas torcia os lábios em desagrado. O ruivo levantar a voz o dava a sensação de que algo estava muito errado.
— Calma, calma. — Ele resolveu interceder, quando Akashi e Himuro discutiam pelo que parecia quase cinco minutos. — Seijuuro, a situação está sob controle. Ninguém foi pego, por que está tão irritado?
O borrão carmim que eram os olhos do outro se voltaram a si, os concisos de Himuro se voltaram, também, mas mais em preocupação do que qualquer outra coisa. O borrão de Akashi dizia claramente que ele não estava brincando.
— Sinceramente... Eu até aceito discutir com o Himuro, mas não com um idiota como você. Você é, a tal ponto, desprovido de um pensamento linear que não consegue responder à própria pergunta?
Kagami aceitaria uma resposta dessas de um garoto baixinho e inglês com olhos de imperador. Mas não de um com olhos em chamas.
Em algum momento, foi preciso ser puxado de volta para a cadeira.
— Vocês não percebem que, claramente, não estamos a salvo? Que tudo pode ser percebido?
Aomine interrompeu. — E daí? Porra, Akashi, vai se foder. — Era, de certa forma, engraçado como Aomine conseguia emitir injúrias sem alterar sua expressão de tédio e chateação. — Nós saímos à noite para conversar, debater filmes... Recitar poemas! Não estamos fazendo nada de errado, literalmente nada. Nem me permitem levar bebida para lá.
— Nós podemos ser expulsos.
— Nós podemos. Você não, você é filho do diretor.
O ruivo riu com o nariz. — Eu seria o primeiro a ser expulso. Você não sabe nada do meu pai.
— É só uma merda de uma regrazinha de nada. — O moreno de cabelos azuis argumentou.
E então a voz gritou: — Não, não é! Existe a merda de um motivo para essa regra ser seguida à risca. — Kagami o observou respirar fundo, parecendo mudar a linha de pensamento. — E por isso meu pai não hesitaria em expulsar todos os envolvidos. O que nos leva à questão de que o colégio não expulsa ninguém há mais de vinte anos, e eu te desafio a entrar em qualquer universidade da Ivy League com um detalhe desse na sua ficha. — E antes que Aomine retorquisse: — E para você, alguém sem a mínima perspectiva de futuro, isso pode ser irrelevante, mas para mim é de extrema importância. E Himuro e Midorima, vocês não são diferentes, são tão burgueses como eu e têm a mesma expectativa na família.
Foi o momento de Kagami segurar Aomine na cadeira.
— Certo, no momento que eu consigo ouvir a voz do meu primo através da porta, significa que as coisas passaram dos limites. — A voz límpida, de riacho do interior do professor ditou.
Akashi rolou os olhos. — Não agora, Tetsu.
— Não... Pelo contrário: Justamente agora, se não for agora depois pode dar problema. — Ele apontou para fora. — Todo mundo, vaza que tenho que ter uma conversa séria.
Kagami olhou os cabelos azulados, os olhos de puro verão e os lábios finos, meio sem cores, mas impossíveis de serem, para ele, mais atrativos. E de repente, brotou-se nos próprios lábios uma florzinha de sorriso. Provavelmente um sorriso feio, mas que era de uma memória boa. Um sorriso-flor que nasce em regiões áridas e desérticas, mas resistem a muito.
Um sorriso feio que dói, mas resistente à resistência de Kuroko em fazer contato consigo.
Só que ele entendeu, porque aquele não era o lugar, e nem os segundos eram os segundos certos. Era engraçado como algumas coisas acontecem no momento que não deveriam acontecer, como aquele espirro que você segura no meio de uma aula para não chamar a atenção, ou uma urgência repentina e quase Tarantinamente assassina de ir ao banheiro quando o seu seriado favorito está passando na televisão.
Levantou-se, a cadeira rangendo e tentando esconder as raízes de seu sorriso. Ao seu redor, ninguém pareceu prestar atenção, até porque o único que poderia entender vertia o olhar sobre um imperador meio desesperado.
Eles saíram, Kise ao seu lado direito, Himuro ao seu lado esquerdo. Fecharam a porta e ficaram a olhando.
Midorima suspirou, finalmente quebrando o silêncio. — Geralmente Akashi controla bem o Sol dele em Sagitário, mas quando ele explode...
Do outro lado da fila espontânea que fizeram Aomine suspira, irritado. — Lá vem você de novo com essas viadagens.
Kise do seu lado se enrijece, e Kagami jura que consegue sentir vibrações de tremedeira viajarem até ele. Mas antes de que pudesse fazer algo para acalmar o amigo loiro ao ouvir a voz de Daiki, Kise disparara pela região contrária, deixando uma réstia de perfume de cabelo de menina.
Himuro o olhou preocupado. — O que foi isso? Ele está bem?
Kagami deu de ombros. — Acho que sim, talvez ele esteja enjoado; ele pode ter pego uma gripe ontem, com a chuva e tudo...
Himuro assentiu com o cenho ainda franzido, mas Murasakibara, sacando um pirulito do bolso como se fosse uma espada, ditou em seu tom de voz meio morto, quase de Tim Burton: — Acho que é falta de rola. — Recebendo um olhar de Himuro e um soco fraco no braço.
Kagami riu, olhando diretamente para Aomine e negando com a cabeça. — Não. Tenho certeza que ele tem seu fornecedor externo.
O sorriso de Kuroko após ser beijado era uma das coisas boas na vida, o olhar abaixado e o rosto meio vermelho de vergonha de Aomine era outra dessas coisas.
Há coisas na vida que não tem preço, mesmo.
xXx
A porta se fechou delicadamente, o último fora Midorima e este tinha a mínima decência de ser discreto.
Se fosse Kagami ou Murasakibara a fechar a porta, o prédio tremeria.
Ele observou calmamente a cabeleira vermelha do primo, os fios reluzindo, quase o fazendo ter uma convulsão de brilho de carvão em fogo. Pensava em como falaria com o primo sem fazê-lo mais irado, sem transpor um limite de civilidade e mesmo assim acalmá-lo.
Ele coçou o nariz com vontade de espirrar. Não é como se pudesse evitar, de qualquer forma. Viver naquela escola era isso, ter uma eterna coceirinha no nariz; todas as salas viviam de poeira, o ar no calor era apoeirado, o pântano vivia meio ofuscado por partículas de terra: A escola de poeira, quase um livro do Carlos Ruiz Záfon.
Os olhos azuis passearam pela sala, se perguntando por que eles decidiram que ali seria o local do encontro. Era uma sala toda revestida de verde musgo: As cadeiras, o papel de parede, os abajures. Talvez a cor os lembrasse do pântano ou eles apenas escolheram-na aleatoriamente.
— Akashi. — Ele disse, acentuando bastante a última sílaba do nome do outro, assim como faziam quando Akashi era só uma criança de cinco anos.
Ele sabia que as memórias, imagens em ocre, tinham invadido a cabeça do primo, e esperara ao menos um sorrisinho... Mas nada viera.
Suspirou, sentando-se no braço do sofá. — Um tratamento de silêncio não vai resolver seus problemas.
— E você vai? — O ruivo tentava evitar seu olhar, porque ambos sabiam que o momento que a íris tão opostas se encontrassem tudo estaria resolvido.
— Não acho que haja um para resolver.
Um suspiro cansado.
— Você nunca acha que tem nada, Kuroko. — Ele ditou com a voz dura. — Esse é o seu problema. Você não sabe ser um adulto. Por isso nem sua família te aguenta.
Seguiu-se um silêncio barulhento, cheio de reticências e outros sinais de pontuação. Uma fungada — Kuroko tinha rinite e como já dito, tudo era cheio de pó — e mais suspiros.
— Céus, quando Sartre diz que “o inferno são os outros” ele até que tem razão. — Um sorriso meio sem graça foi esculpido. — Mas eu não posso permitir que o único parente que eu amo e a única pessoa que me fez ficar nesse país fale assim de mim.
Seijuuro engoliu o que pareceu ser uma incrível massa de saliva entalada na garganta. — Não empurre todo esse peso para mim, você minou sozinho toda sua relação com a família. E eu não sou sua única âncora, tem seus amantes... Além disso, já conseguiu foder o Kagami?
As sobrancelhas do professor subiram, levemente surpreso pelo argumento. — Oh, eu pensando que seu problema foi com o que aconteceu ontem, mas na verdade é comigo... Certo, continue.
— Você precisa sempre responder com ironia? — Akashi perguntou, finalmente levantando a cabeça. — Sabe os problemas que isso podem te dar?
— Eu sou rico, Akashi. Burguesia nunca tem problemas reais, no máximo uma crise existencial ou a encomenda que atrasou de chegar pelos correios.
— Céus, como você é hipócrita! Justamente você que vive criticando a burguesia?
Ele sorriu de lado. — Ah, mas o mundo é cheio de hipocrisia e ironias. Pobres defendem o capitalismo, Marx era rico, brancos falam de racismo, gays heteronormativos não gostam de afeminados...
— Você está me provocando. — Akashi disse meio atordoado e Kuroko levantou-se rapidamente indo ajoelhar-se de seu lado.
— Claro que estou. Você está usando essa personalidade em cima de mim. Tudo bem ter máscaras, Akashi-kun, mas os personagens só devem ser usados em palco, nas cochias — Comigo. — você pode ficar normal. — Kuroko sorriu de verdade, para um olhar que passava de vermelho fúria para um vermelho chocolate quente. — Eu não preciso que você passe na melhor faculdade, e nem que você faça o que eu acho que deveria fazer. Eu amo o Akashi que gosta da Marvel e assiste animes shonen só pelas lutas e explosões.
Akashi riu e tudo pareceu mais claro para Kuroko. — Certo, mas isso não significa que não temos problemas.
— Mas nós não temos. O que temos é um desvio — Ele acentuou bem a palavra, fazendo o primo rir.
— Isso é um eufemismo, Besta.
— É diferente: Desvio é algo que acontece diferente do esperado. E isso acontece e acontecerá a vida toda, acostume-se. — Kuroko se permitiu brincar um pouco com os fios desajeitados do primo. — Eu já cuidei do cachorrinho e de todo vestígio que podemos ter deixado na caverna, nada liga a vocês.
Akashi pensou por um segundo. — Isso não significa que não estamos em risco. — E adicionou com um tom duro: — A Sociedade terá de ser diluída de qualquer forma.
— Terá. — Tetsuya respondeu com o olhar triste. — Mas vocês terão como ficar em contato fora daqui.
— Tenho até medo de perguntar o que quer dizer com isso. — Respirou fundo. — E, Tetsu? Desculpa pelo que disse antes.
— Ah, sem problemas... Eu não fodi o Kagami. — Ainda.
— Não me refiro a isso! Embora considere um problema, também. Falo sobre o que disse da família...
O portador de cabelos celestes deu de ombro, fingindo que não ligava muito para as falas do outro.
— Não use esse tipo de argumento comigo, Akashi. Eu não tenho vocação para Sisífo, não gasto tempo com esforços inúteis.
Akashi rolou os olhos. — Está insinuando que nossa família é a maldita pedra? — Ele riu. — Você é tão dramático às vezes.
— Eu prefiro as peças gregas, então diga que eu sou: Trágico. — E adicionou por fim: — E pare de rolar os olhos para mim.
Então os dois sorriram, mas Akashi não fez menção de se levantar. Ele sabia que o primo mais novo gostava de pensar sobre as coisas, e pensar de novo. No momento que ele tocasse no tabuleiro de xadrez que estava há poucos metros de distância, ele não receberia mais nenhuma atenção.
Levantou-se, bagunçando levemente os rubros cabelos e se dirigiu a porta, mas antes que saísse Akashi o indagou, com uma voz neutra e que não tinha muita coisa a pensar do futuro.
— Se é uma tragédia, qual é o último ato?
Ele parou, o ar voltando a ser levemente ofensivo e quase gelado. De repente percebeu que escurecia e que os dedos começavam a ficar desconfortavelmente frios. Ele rodou a maçaneta, mas não abriu a porta.
— Não há coisas como último ou final. O tempo é fluído, não uma linha reta, mas sim círculos intercruzados, os segundos passam e as histórias continuam.
Akashi suspirou e o quarto voltou a uma coloração mais quente, quando saiu o corredor se encontrou com ele, ambos, naquele momento, vazios. Antes de fechar a porta ouviu:
— Ah, vai se foder, Kuroko.
Ele riu, mesmo sabendo que a palavra foder só ganha significado quando relacionada com parâmetros definidos por situação empírica, o que, portanto, era muito subjetivo.
[...]
Ele suspirou. — Talvez eu precise realmente foder.
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