A Sociedade dos Loucos e Esquecidos
12 Epílogo
Notas iniciais
Kagami se apressou para sair do estômago daquele monstro contemporâneo quando chegou em sua estação.
As portas se abriram em um guincho que tinha algo de uma floresta pantanosa de milhões de anos atrás e um dinossauro comendo outro. Era uma sensação pertinente, porque pessoas batalharam para entrar no vagão do metrô enquanto ele nem tinha saído ainda.
Batalharam não, digladiaram-se.
No entanto, não vagou muito sobre o tema na sua cabeça. Não era como se não fosse meio bruto as vezes. Chamavam-no de ogro não por pouca coisa. Era um cara de cidades grandes: New York e Tokyo... Mesmo trombando com as pessoas, é raro ouvir um pedido de desculpas.
Subiu as escadas rolantes pulando de dois em dois degraus, não estava com saco e nem tempo para as pessoas que não deixavam a maldita esquerda livre. Se um dia fosse ditador, um de seus primeiros decretos seria a prisão e execução de quem ficava parado no lado esquerdo da escada rolante. Puxou o celular só para ver que tinha mais cinco minutos até a hora pré determinada.
“Meu deus, vou ser morto”.
Akashi não tolerava atrasos.
Correu.
Não viu as pessoas que trombara, nem as ruas em que passou, nem ligou para os carros tendo que frear bruscamente para não matá-lo. Morrer por um carro seria mais agradável que sofrer tortura na mão daquele inglês baixinho. Não viu a velhinha sendo assaltada por três crianças em uma rua mais escura, nem o comércio de cocaína que ocorria em um beco próximo. Não se importava muito, também, aprende-se a ignorar essas coisas com o tempo.
Avistou finalmente os letreiros mais a frente e quando finalmente chegou perto da pizzaria pôde notar os cabelos arroxeados de um farol de Alexandria ambulante. Quando chegou todos se levantaram, os olhos de Akashi piscando em um tique nervoso pelo seu atraso. Kagami tentou aliviar a tensão do ruivo:
— Murasakibara, pensava que estava fazendo cosplay de torres gêmeas. Cuidado com o avião. — Disse com um sorriso, sem ofegar nem um pouco, mesmo após a corrida.
Os olhos de Murasakibara pareceram pular por um instante e reprendeu sussurrando: — Kagami-chin, cuidado com esse assunto, Nova Iorquinos são especialmente sensíveis sobre esse tema.
O falso ruivo quase riu. Era irônico que após jogar duas bombas atômicas no Japão e fazer o que fizera no Oriente Médio e América do Sul, os USA ainda achassem que o atentado contra as torres gêmeas era o maior golpe do terrorismo...
O ponto de vista é uma coisa engraçada mesmo.
Kise pulou em cima de si e Kagami o rodou. Ele conseguiu distinguir a voz de Aomine zombando dos dois, os comparando com namorados.
Irônico, de novo.
De qualquer forma, era sempre um prazer encontrar os olhos brilhantes de Kise, diferentes daqueles olhos niilistas que tinha antes de ter se acertado com Aomine. Sorriu para aquele sorriso.
— Trouxe um presente para você. — E estendeu a sacola com o CD físico de uma daquelas bandas que faziam sucesso demais no Tumblr e que Kise amava.
Os olhos doces do loiro brilharam e um sorriso maior ainda se projetou. — Obrigado, Kagamicchi. Mas queria sugerir que começasse a pensar em você, também. — Disse simulando um tom de voz triste, mas sendo ineficiente em esconder o sorriso. — Gaste seu dinheiro com um par de calçados que não seja para academia.
Ele conseguiu ver pelo rabo do olho Himuro e Akashi compartilhando um riso baixo e sutil, riso de quem concorda e acha seu par de tênis de fato algo importante.
Malditos burgueses.
— Ah é? Então devolve o presente.
— Não! Eu ‘tava brincando! — Respondeu rindo.
Rolou os olhos com um meio sorriso, deixando claro que não estava bravo.
— É para parabenizar a você pelo sucesso modelando. Esses dias Alexis apareceu com uma revista com fotos suas, já não basta selfies no facebook, instagram, twitter, agora tem revistas, também.
Kise andava fazendo sucesso modelando.
De acordo com Aomine: Sucesso demais. As vezes era até abordado por pessoas para tirar fotos, dar autógrafos ou coisa assim, e não poucas vezes flagrava pessoas tirando fotos suas escondidas.
Kise achava engraçado e fofo, Kagami quando o acompanhava achava um tanto quanto medonho, Aomine só tinha raiva e queria bater em alguém toda vez que isso acontecia.
O moreno não admitia e nem admitiria em um futuro próximo, mas Kagami sabia que era ciúmes puro.
— Obrigado, mesmo, muito gentil.
— Então? Vamos entrar? — Disse Akashi, finalmente se manifestando. — Vou deixar passar dessa vez seu atraso, Kagami.
Kagami sorriu amarelo. — Mas e o Midorima?
— Vai chegar atrasado, já ligou me avisando.
Kagami deu de ombros e entraram no estabelecimento.
— Ah! Ele pode então. —Retorquiu falsamente indignado.
Era a pizzaria favorita de Murasakibara.
xXx
Kagami agora entendia o amor que Murasakibara nutria pela pizzaria. Céus, ela era divina.
— Esse lugar deveria ser tombado como patrimônio universal. — Disse Aomine, fazendo metade da mesa concordar com ele.
Midorima tinha chegado enquanto eles esperavam as pizzas. Vinha todo milimétrico, parecia ter se arrumado com a ajuda de compassos e esquadros. Tudo alinhado em ângulos que fariam os gregos antigos surtarem e terem um pi de orgasmos por tamanha exatidão.
Vinha com o olhar satisfeito, transbordando, nada matemático.
— Desculpem a demora, estou envolvido em um projeto de análise de substâncias da universida...
— Ninguém liga, Midorima. — Kagami se obrigou a dizer pela rivalidade histórica que tinham.
Quase sentiu-se mal em interrompê-lo, via a paixão nos olhos do outro quando esse falava de moléculas, de coisinhas minúsculas, de comportamentos elétricos, de coisas que ele não entendia, mas gostava de ouvir porque Midorima ficava lindo quando falava sobre o que gostava.
Mas o próprio garoto pareceu achar engraçada a interrupção, eles tinham toda uma mecânica, uma fluidez de ações repetitivas que os faziam amigos, afinal. Os dois entendiam essa relação e a respeitavam assim. Inacreditavelmente, após todos separarem-se devido aos eventos daquele último dia, a pessoa com que Kagami mais manteve contato fora Midorima.
— Bruto como sempre. — Disse Midorima e Kagami sorriu.
Himuro, no entanto, não gostava que atritos aparecessem tão facilmente em nenhuma circunstância. Claro, ele estava fora do circuito dos dois, então logo se intrometeu:
— Fiquei sabendo que ganhou uma bolsa, já.
— Não é como se eu precisasse, mas sim. — Ele sorriu, arrogante. — Não posso entrar de qualquer forma, mal terminei meus estudos do ensino médio.
— Midorimacchi é tão inteligente.
Shintarou agradeceu sorrindo e logo sentou-se.
Instaurou-se um silêncio que em primeira instância poderia parecer constrangimento, mas não era. Era uma substância estranha, que tinha seu lado ruim e seu lado positivo. Se encontrarem fora dos muros significava muitas coisas, coisas demais.
Significava lembrar o que foram dentro daqueles muros, como foram amigos, como se abriram e como se conheceram. Significava lembrar que o pai de Akashi fora preso, que Kagami teve seu coração partido e que Aomine e Kise se apaixonaram.
Lados bons e ruins das relações.
Por sorte eles tinham Murasakibara no grupo, que absolutamente não dava a mínima para todas essas nuances e não aguentava ficar no silêncio sem estar mastigando algo.
— Temos terceiranistas aqui, já escolheram o que fazer ano que vem?
Aomine sorriu. — Não faço a mínima ideia, mas ‘tava pensando em virar puto e talz... — Logo recebeu um empurrão e uma careta de Kise e soltou uma gargalhada com isso. — Mentira. Quer dizer, não sei o que fazer mesmo, mas não vou vender meu cu.
— Até porque ele teria de ser sua propriedade, e aparentemente já foi terceirizado. —Argumentou Akashi, piscando para Kise descaradamente.
— Vai lá com seus hentais, vai, baixinho punheteiro. — Disse Aomine sorrindo mesmo assim. — De qualquer forma, essa é uma qualidade de ser da burguesia, tu não precisa fazer nada. Sei lá, talvez eu vire socialite, tem faculdade para isso?
Os outros riram e Akashi apenas virou para Himuro. — E você?
— Inglaterra, vou fazer economia em Cambridge.
A imagem de Himuro fazendo economia era destoante da imagem que Kagami tinha daquele garoto com sorriso caloroso e olhar de diplomata, mas havia nuances ali que ele sabia que não captava, porque Akashi apenas assentiu com o olhar baixo.
— Ohhh, entendo. Você sempre pareceu mais psicólogo que Economista para mim, mas tudo bem. — Todos pareceram assentir, mas ninguém focou no assunto, até porque Murasakibara não deixou. — E você, Akashi, mesmo que seja do segundo ano, seu pai sumiu, como ficaram as coisas?
Kagami sentiu a temperatura baixar, um beijo do inverno em uma tormenta instável. Murasakibara era alguém que quebrava expectativas.
— Na real? Tem havido uma pressão para que eu me emancipe e assuma os negócios, meus tios não confiam muito na minha mãe no controle, aquela coisa de ela não ser realmente da família. — Ele sorriu. — Eu acho que é puro machismo, só. Mas não tenho vontade, e mesmo se eu assumisse, daria um Kuroko e venderia tudo.
Kagami riu, “daria um Kuroko”, além de tudo ele é uma expressão. — Acho que ele ficaria feliz se te ouvisse falando isso.
O olhar sempre afiado de Akashi brilhou maldoso. — Ah, mas ele ficou, quase pareceu me abraçar pelo telefone quando eu disse isso.
O coração de Kagami falhou em um átimo de segundo, o ar se tornando liquido e ele quase se esquecera de manter a compostura. Focou o olhar em Akashi, os olhos e cores diferentes brilhando, felinos e sagazes. O ruivo verdadeiro sabia o resultado daquelas palavras, e mesmo ambos sendo amigos, falara mesmo assim.
Suspirou no fim. Ele esquecia-se sempre do comportamento destrutivo do outro. Akashi era agressivo, tinha uma mente que vivia em ofensivas. Qualquer ato para ele poderia ser interpretado como um desafio. Akashi era instável e sensível demais, embora à primeira vista não o parecesse.
Kagami tinha que se lembrar que não era o único que gostava de Kuroko, o baixinho era apaixonante, e a história dele com Akashi era bem mais longa e profunda se comparado com a que ele teve com o professor.
Kagami sorriu de verdade apesar de tudo. — Fico feliz que pelo menos vocês não tenham perdido contato, quer dizer que ninguém está totalmente perdido.
Só eu mesmo no caso, ele pensou.
A frase pareceu desarmar Seijuuro. Por alguns segundos incríveis que deveriam estar marcados no livro da vida, ou melhor, nos dias atuais: No Word da vida, em negrito, Kagami conseguiu sentir um pouco de culpa no outro.
— Ele perguntou de todos, também. — Parou para beber um pouco de água. —Ele... Vocês sabem, meu primo é um grande filho da puta, a situação é relativamente tensa para ele, ainda que meu pai não fosse nunca machucá-lo, não diria o mesmo sobre o resto da família, então ele está esperando as coisas estarem mais calmas para voltar ao doutorado dele. “É foda de mexer com o grande capital, priminho”, ele me disse.
— É uma coisa que ele falaria, de fato. — Midorima disse com um dos seus sorrisos de lado. — Ele deve estar aproveitando as férias.
Akashi riu. — Está fazendo um tour de carro pelos USA, me disse que se sente como Sal em On The Road, do Kerouac. Referência que, enfatizo, eu não conheço. E eu acho que meu pai deve estar fazendo quase a mesma coisa, mas na América do sul: Capitalistas adoram fugir para lá. — E para terminar com o assunto: — Mas e então, Aomine, Kise... Como vai o namoro?
Kagami observou o rosto de Kise enrubescer um pouco, desacostumado com a categorização. Aomine, no entanto, para a surpresa de Kagami, estava confortável e sorriu de lado.
— Ah, pequeno Akashi... É foda, porque... Tipo... Literalmente foda, a gente trepa demais e talz, meu tempo se esvai de uma forma, eu fico exausto...
A mesa riu enquanto Kise pintava-se cada vez mais de paixão.
Vermelho, vermelho.
Kagami achou bonito, não por Kise, que apenas por padrão já era bonito, mas porque era sua cor favorita.
Foi uma cena bonita, pintada de risos assim.
xXx
Quando saíram para a noite cinza e poluída de New York, o olfato de Kagami quase gritou em protesto. Os cheiros de queijo, do forno em fogo, de comida sendo feita da pizzaria fez-lhe falta no exato momento.
Ele logo voltou os olhos para o céu. Era uma das heranças do tempo que ficara no internato. Vivia a olhar os céus procurando estrelas. O problema é que em áreas urbanas elas costumam desaparecer. Talvez devido aos altos índices de assaltos e homicídios à mão armada, talvez por serem egocêntricas demais para competir com as luzes elétricas de todos aqueles prédios e comércios, ou talvez porque o complexo industrial mais próximo esteja violando sozinho os tratados ecológicos internacionais dos últimos 30 anos de limite do país inteiro, impedindo que se veja qualquer coisa no céu se não uma densa massa cinza voadora, caso é: Não se veem estrelas em cidades.
Era uma pena, porque elas eram lindas, pôde constatar naquele ano que passara. Verdade seja dita, no entanto, sempre que estava com Kuroko as estrelas não passavam de memórias brilhantes muito distantes. Kuroko brilhava demais, muito mais que qualquer estrela, só aqueles olhos já eram suficientes para que quatro terras se queimassem em fogo ardente.
E também, Kagami não culpava as estrelas de não aparecerem nessas cidades enormes, a vida aqui embaixo era tão repleta de coisas. Cada janelinha de prédio acesa à noite era um cosmo inteiro, a vida já era tão interessante, não havia real necessidade de ficar olhando massas brilhantes flutuantes no espaço.
Ele sorriu porque o próprio pensamento estava tão instável que sentiu um pouco de dó de si mesmo.
Kise logo veio sorrindo, daqueles bem abertos e brilhantes, Kagami quase sentiu as pupilas dilatarem com tanto brilho. Aomine também, sorrindo contido, mas mais feliz do que Kagami já o tenha visto, Murasakibara vinha feliz também, mas era por ter comido; céus, maldito gigante e sua relação quase sexual com a comida. Midorima vinha como sempre, quase sem aparentar ter emoção, mas aqueles olhos indicavam o contrário.
O que preocupava Kagami era Himuro com seu olhar mediado, todo equilibrado, mas que ele sabia não estar tudo bem. Havia algo com Himuro e Kagami ainda teria que descobrir. Akashi também não estava nos melhores do humor, talvez a liberdade que agora provava mostrasse-se um tanto nociva ao ruivo. Sem pai nem Kuroko, toda aquela energia se esvaía e dissipava-se.
Kagami quase riu, era irônico que o imperador precisasse afinal de alguém que mandasse nele.
— E tem gente que defende impérios e monarquias...
Akashi virou-se para ele com as sobrancelhas arqueadas. — Perdão? — Kagami apenas negou com a cabeça, notando o deslize; Akashi, no entanto, aproveitou a deixa. — Mas... Kagami... — Akashi mordeu o lábio inferior, pensando; era uma cena estranhamente atrativa e sexual — Queria me desculpar se te ofendi lá dentro. Meu primo não te contatou em nenhum momento? Mesmo?
Kagami negou com a cabeça, mas no momento que Seijuuro ia falar logo o interrompeu. — Tudo bem, não é como se ele fosse o amor da minha vida, nem nada. — Riu. — É normal aliás, temos tantas diferenças e eu até já ‘tô olhando outros boys, muito mais gostosos aliás.
O sorriso de escárnio de Akashi foi quase um soco. — Céus, quando Midorima me disse que você era tão orgulhoso quanto qualquer leonino eu não acreditei. — O olhar heterocromático veio afiado para cima de si. — Não minta para mim com esse descaramento, duvido que ao menos consiga bater uma punheta para qualquer um que não para meu primo.
Kagami sentiu as bochechas faiscarem. — Desde quando você usa esse tipo de linguajar?
— A escolha do meu léxico é irrelevante nesse momento. — “Maldito baixinho inglês”. — Não o leve a mal, ele só entende o esquema de relacionamento humano de uma forma confusa. Hoje é uma noite de reencontros.
Antes que Taiga pudesse questionar, um latido foi ouvido. Kagami não queria ser tão romântico e dizer que ele reconhecera aquele latido. Era possível reconhecer latidos? Todos os rosnares são iguais? No final não importava muito, mas o falso ruivo acreditava que era Nigou, e era Nigou.
Naquele momento não importou tanto ser Nigou, as primeiras coisas que passaram na sua cabeça foram, primeiro: Meu deus, um cachorro, socorro, alguém me ajude. A segunda foi: Meu deus, para que lado vou correr desse cachorro. Na terceira: Que porras esse merda de cachorro está fazendo aqui? Na quarta: Se ele está aqui significa que... Na sexta: Puta que pariu, fodeu, o cachorro tá do meu lado.
Não, o departamento da narração não esqueceu o quinto item. Apenas acontece que como todo o departamento que se preze, o departamento de narração é burocrático, logo toda a narração é composta de uma série de burocracias; documentos e pastas se extraviam e um argumento foi perdido.
Ou Kagami só não queria se parecer tão desesperado e se perguntar onde estava Kuroko. Da mesma forma como ele fazia quase todos os dias desde que saiu daquele colégio. As burocracias servem para isso mesmo, para o que é importante não ser feito no final.
Por boas graças do destino, Kise pegou o cachorro antes que ele chegasse em Kagami, impedindo assim o falso ruivo de ter um ataque ali. Kagami observou o caminho pelo qual o cachorro viera.
Seu olhar tornara a centralizar Akashi, pegando um leve sorriso de escárnio e uma flexão para que não se detesse ali. Por um segundo refletiu se deveria mesmo ir atrás de Kuroko. Se o jovem adulto merecia por fim sua lealdade. Kuroko o dispensara antes do final das aulas, sumira e não lhe dedicara nem um SMS de 10 centavos.
Era um amor que não valia nem dez centavos.
Aí ele lembrou, no entanto, que Kuroko era um esquerdista ferrenho, que acreditava na planificação da economia e para quem o dinheiro não valia, de fato, muita coisa. E que provavelmente o baixinho de cabelos azuis ficaria puto se o ouvisse comparando um amor com qualquer moeda, independente da cotação do dólar.
Só aí ele andou. Rápido, mas andou. Por vergonha e medo de perder a pouca dignidade que ainda lhe restava não correu, mas ia tão rápido que em algum momento não fazia lá muita diferença.
Azul.
Ele viu o azul de longe. O azul sentado em um daqueles bancos sempre frios e desconfortáveis de praças. O azul despojado, com as raízes do cabelo em castanho avermelhado — alguém esquecera de retocar com a tinta —, o azul trajando uma jaqueta preta grande demais, jeans com a barra em fiapos de tanto ser pisada e um tênis que originalmente, em algum dia há eras e eras atrás, talvez em uma galáxia mais distante que a de Star Wars, no período pré-mesozóico, era branco.
Incrivelmente o azul superou o vermelho e tornou-se sua cor favorita no ato. O azul vertia beleza e naquele momento pareceu até mais revolução que o rubro.
Aproximou-se sem delicadeza, não tinha saco nem vontade para isso, a respiração viva e pungente, duas estrelas em função oftalmológica tornaram para si, e ele sentiu o universo verter-se dentro de suas retinas, as pernas tão instáveis que pareciam líquidas.
Kuroko deu um sorriso de lado. — Está muito tarde para alguém tão delicado andar sozinho na rua, quer uma carona? — Kagami poderia jurar que ouviu a voz do outro oscilar no começo, quase como se houvesse nervosismo ali.
Assentiu como se fosse uma criança, sem capacidade de esconder seu desejo ou de preservar qualquer ideia de orgulho.
Observou o outro se levantar, o cabelo que não era cortado havia um bom tempo caindo sobre os olhos azulados. Kagami tomou o espaço restante com passos largos, os dedos se enrolando nos cabelos bicolores e, sem delicadeza, tomou os lábios dele.
Sem língua, sem grande duração, um chocar de lábios que flamejaram e queimaram os pulmões e o coração do mais alto. Separaram-se não muito tempo depois, Kuroko com um riso nos lábios.
— Aparentemente esqueceu-se de como se deve beijar, hein? — Os olhos azuis brilharam mais que a combustão de mil estrelas. — Felizmente, para sua sorte, sou um ótimo professor.
Vivendo e aprendendo. Conhecimento sempre seria algo muito importante na vida de Kagami.
Sempre Lolita.
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