Notas iniciais
Como dito, é uma fanfic feita como um presente de aniversário para a DessaSoliman, no entanto, eu estou terrivelmente atrasado. Mas vale mesmo assim, né, mundo? UHUAHUA Espero que quem ler goste.

Quando Kagami saiu do carro, e olhou ao redor, o primeiro pensamento fora que ferrou tudo de vez.

Já não bastava ele ter de voltar aos Estados Unidos, ainda tinha que viver em uma construção que parecia ter sido construída no século dezoito ou dezenove.

Provavelmente sua aversão à construção se mostrara clara, quem sabe por suas sobrancelhas excêntricas juntas ou um brilho estranho no olhar, porque a tia que o trouxera bateu em seu ombro lhe dando um sorriso.

— Relaxa, aposto que não é tão ruim quanto parece. — Ela disse solene.

Ele apenas bufou. — Ao menos tem sinal de celular aqui?

Ela tirou o celular do bolso para checar. Negando com um riso. — É, se fodeu, Kagami. Quem mandou ser idiota?

— Talvez tenha wi-fi... — Tentou, esperançoso, recebendo um olhar descrente acompanhado de um dar de ombros.

Ela o chamou para acompanhá-la, tinham de passar na secretaria ainda e levando em conta o tamanho do local inteiro, era bem provável que se perdessem em algum ponto, ainda mais sabendo a grande incapacidade dos dois de pedir informação.

Se algo os dois tinham de semelhante, era o orgulho. De resto, nada. Os cabelos dela eram loiros e os olhos claros, em um tom que ele nunca conseguira ao certo entender. Era um tom divergente, que se alterava com a luz do ambiente. Forte e sempre imponente.

Apesar de tudo, tinha uma postura feminina. O corpo bem construído por ter sido jogadora de basquete por anos, mas completamente feminina.

Ele abriu o porta malas do carro, chocando ombros com um garoto. Recebeu um olhar gelado que tentou ignorar.

— Não acredito que vou ter que estudar no mesmo lugar que um delinquente desses. — O garoto disse, apontando para si tão descaradamente que fez o acompanhante dele rir.

— Filho... Você vai. E cuidado para não falar bobagens e acabar apanhando. — Dessa vez Kagami riu.

O garoto tinha óculos e um cabelo estranhamente verde, segurava fortemente uma bolinha de gude na mão. Uma bolinha de gude? Kagami pensou, mas o que poderia fazer? Era assim e pronto; ele lá ia se intrometer nas estranhezas de um cara que pinta o cabelo de verde?

No entanto, não deixou as mãos enfaixadas passarem por uma visão tão frívola. Ele atentou o olhar contra elas, as mãos não pareciam estar queimadas, nem machucadas de algum modo, mas lá estavam as bandagens. E a bolinha de gude.

— Qual é a das faixas? — Perguntou simples, e o olhar esnobe e altivo do outro mudou para um frio.

— Não é da sua conta.

Ele até pensou em responder, mas a tia o chamava mais à frente, pedindo para que se apressasse. Ele pegou as malas e andou rápido, sem se despedir do garoto ou seu pai, o que não pareceu incomodá-los nem um pouco.

O local era todo cercado por grandes muros, ou ao menos o suficientemente grande para que desse algum trabalho para transpor. Na realidade, o muro todo mais o lembrava a merda da muralha da China, se alongando por um terreno quase retilíneo, seus olhos mal conseguindo enxergar onde o cimento fazia a curva e continuava cercando o terreno.

Pelo que tinha pesquisado, o terreno era grande. Era localizado em um desses estados de clima variado, bem em seu interior, separados por trinta minutos de carro da cidade mais próxima — Que ele mais achava um vilarejo do que qualquer coisa: Era uma ofensa aquele amontoado de casinhas ser chamado de cidade — e perdido em um local de grama baixa, e um rio que divisava um grande bosque.

Fora uma construção excêntrica feita por um rico excêntrico. Nada fora dos padrões habituais do mundo. O rico sofrera algum problema de saúde, antes Calvinista como grande parte da população Americana, tornou-se religioso católico e acabou se curando; como prova de seu apreço por sua recuperação, construiu um grande monastério e o doou para a Igreja.

Parte engraçada da história: Poucas semanas depois do término da construção foi encontrado morto. O laudo constava que era a mesma doença que julgou ter sido curado.

Kagami riu de canto, os desígnios de Deus eram misteriosos, mesmo.

Quando ele atravessou o arco do portão de entrada, qualquer vestígio de riso que havia em seu rosto morrera. Os edifícios mais pareciam castelos, a arquitetura parecia toda gótica, e ele podia jurar que quando foram construídos o gótico já tinha ido há um bom tempo, ao menos.

Centenas de gárgulas o olhavam de diversas direções, os olhos de pedra tão afiados e duros quanto aço. Tudo extremamente detalhado, janelas em vitrais, cruz em cada lugar mais elevado e ele conseguia divisar uma torre mais ao nordeste que guardava um sino grande e brilhante.

Andaram pelo que pareceu quilômetros, envoltos por jardins e pedras.

O prédio que se encontrava a administração da escola era rodeado por outros prédios, ficava bem no centro. Uma grande haste no ponto mais alto da cúpula se mexia com uma bandeira dos USA, e mais abaixo, gárgulas escancaravam seus dentes. Ele sentiu dó de uma, pois tinha uma antena de satélite em sua cabeça. Devia ser difícil ser construído para afastar mal espíritos, e acabar ajudando a conectar uma televisão e um canal pornô première qualquer.

Tudo era tão bem detalhado, que ele gostaria de quebrar ou ao menos rabiscar de alguma forma para acabar com tanta perfeição, perfeição demais irritava.

O lugar todo estava cheio e o prédio administrativo nem se fala, mas de alguma forma sua tia conseguiu o que queria de forma bem rápida. Ele diria que ela não só cortou fila, mas como fatiou, picou e desintegrou a fila. Menos de quinze minutos depois de terem adentrado o prédio, ele saiu com as chaves de seu quarto e o que deveria fazer naquele momento.

— Bem, parece que você tem que ir para o auditório, agora. Acho que é aquele prédio ali. — Ela apontou para uma construção larga, mas não grande. — E nos despedimos por aqui.

— Alex... — Ele não era um grande chorão, nem muito sentimental; mas ser largado no meio dos pântanos não era sua definição de uma decisão, no mínimo, sensata. Repentinamente, teve vontade de grudar no braço dela e se humilhar pedindo que não o deixasse ali.

— Caralho, Taiga, deixa de fazer drama. — Ela riu. — Quem mandou ser idiota... Eu vou tentar amaciar o seu pai, okay? Por enquanto se comporte, e não torne minha tarefa mais difícil.

Ele suspirou resignado. — Certo... Obrigado, Alex.

— ‘Té mais, garotão.

E ela se afastou, os cabelos loiros ondulando em uma luz limpa demais, diferente demais da de Tokyo ou New York que ele estava acostumado. A manhã tinha vindo com um sopro frio e ainda não esquentara, tudo era uma luz morna e um frio indeciso. Ele suspirou, irritado, voltando seu olhar aos céus e encontrando o olhar gelado e raivoso de uma gárgula. A boca escancarada parecia rir de si.

— ‘Tá rindo do quê? — Ele fez um estalo com a língua. — Se foder, gárgula idiota.

xXx

O auditório inteiro parecia ter saído de um livro do Victor Hugo.

Descrever a coisa toda ou tentar acompanhar todos os detalhes era trabalhoso demais para ele. Se quer a descrição, pense naquela robustez e detalhes fofos e bonitos das construções europeias, aquela perfeição toda com cara de francês e café às cinco horas da tarde, ou Budapeste ou Itália... Notre Dame e o escritor do romantismo europeu que o perdoassem, mas todos aqueles detalhes eram ridículos.

Era um grande salão com bancos e bancos. E mais bancos. Lá na frente, com um piso um pouco mais elevado que todo o resto do salão ficava uma grande mesa, que se alongava verticalmente, mas que não parecia ser muito grossa. Se já assistiu Harry Potter, claro que já, quem da geração Y não assistira os filmes do garoto inglês? Ele pensou, mas aí está a comparação perfeita, é a mesa dos professores no grande refeitório com velas que voam.

A diferença era que não tinha velas voadoras.

Coisa que o decepcionara de modo acentuado.

De qualquer forma, toda a estrutura era cercada por grandes janelas que não mostravam lá fora, e nem eram feitas para ser abertas. Eram grandes painéis, imitando as artes em cores dos painéis construídos em igrejas e templos dos mais diversos. Ele nunca mentiria, era muito bonito. Muito mesmo.

Era ainda manhã, mas ele imaginava que quando o Sol chegasse a seu ápice, o local todo seria preenchido por espectros diferenciados e tudo iria se desfazer em uma visão de LSD.

Os bancos de madeira não pareciam confortáveis, mas ele se forçou a ir pegar um assento. O salão parecia cada vez mais encher e ele não queria ter que aguentar a introdução de pé, procurou um assento mais ao canto e no meio. Nem tão perto, nem tão longe. Simplesmente ali.

Militares rondavam a sala. No auditório inteiro parecia ter uns quinze ou mais, todos fardados e vestindo suas usais expressões de superioridade e ordem.

Céus, como ele odiava essa ordem opressora.

Enquanto tentava desfocar sua mente disso, seu olhar se virou para seu celular. Tentando achar conexão ou algo assim. Aparentemente, tinha uma, o que não ajudou muito para falar a verdade. Tinha o nome de “administração” e era fechada.

Ele suspirou.

A mesa dos professores, lá na frente, começava a se encher inteira. Faltavam só algumas pessoas do corpo docente. Ele conseguiu distinguir o diretor sentado no meio, sua farda impecável sobre seu corpo, os cabelos rubros da parcela britânica do sangue e os traços orientais da parcela japonesa; apenas conseguia saber que ele era diretor pelas fotos que achou quando pesquisara sobre a escola. Ele era de uma família de empresários e militares, um coronel da reserva e administrador de duas empresas e a escola.

Vinte minutos depois, o salão já estava apinhado de gente e nem uma palavra do dirigente, nem de ninguém. Oficialmente a introdução começaria às onze horas, mas ele não imaginava que eles seriam tão restritos assim. Alguns pais acompanhavam os filhos, então ele tinha a impressão que tudo explodiria de tão cheio de pessoas.

Não tinha como esperar que mais pessoas viessem e coubessem ali.

— Militares... — Um cara ao seu lado disse.

Kagami concordou, virando para encará-lo e notando os olhinhos puxados. — Hey, descendente de Japonês também.

— Sim... E essa escola tem mais alguns ainda. — Quando o olhar do garoto encontrou o rosto de Kagami ele riu. — Aparentemente, temos mais um.

— Taiga Kagami, primeiro ano. — Disse estendendo a mão que foi apertada de modo imediato.

— Himuro, e um conselho: Não se apresente como um japonês, fale seu primeiro nome e pronto.

Ele olhou o outro garoto, Himuro, e torceu o nariz. Tinha orgulho de ser japonês, e não tinha interesse nenhum em deixar seus costumes para lá. Ele iria replicar, mas no exato momento o diretor resolveu falar e o som de caixas de som vibrando encheu o espaço.

O diretor teve de bater e mexer algumas vezes no cabo do microfone para que funcionasse. E isso deu um mal estar em Kagami. Era tudo muito estranho, a forma como os bancos rangiam, as paredes pareciam ter infiltração. Tudo parecia velho demais.

E não aquele velho glamuroso e de respeito, velho velho. Era estranho que uma instituição de reconhecimento nacional fosse tão descuidada.

— Estamos aqui hoje para darmos saudação a um novo ciclo de sucesso, e a um novo ano esplendoroso...

E ele continuou a falar. Sobre honra, sobre tradição, sobre anos passados e sobre aprovações em diversos vestibulares.

Em nenhum momento chegou perto da palavra futuro, da palavra humano. Só números e passado.

— Costumavam carregar brasões, e acender velas e uma porra toda... Quase um espetáculo de pirotecnia, uma bobagem. — Disse Himuro, se inclinando um pouco sobre seu ombro, falando baixo para que ninguém ouvisse e ninguém pareceu ouvir.

E ele tentou pensar nisso, no entanto, de alguma forma, essa decadência toda pareceu melhor. Pareceu se encaixar melhor com a arquitetura. Talvez fosse coisa de sua cabeça, nenhuma pessoa parecia ligar para isso e ele sabia que dezenas de pais ricos, como os seus, enviavam seus filhos para a instituição. Pais ricos não deixariam os filhos estudarem em locais tão horrendos, deixariam?

Lá na frente, o cabeça vermelha continuava a discursar, dessa vez falando sobre grandes nomes que estudaram ali, também. De repente, o local se encheu de grandes estalos ensurdecedores, como bombas, e fumaças coloridas passaram a sair de debaixo dos bancos e de diversos lugares na sala.

As caixas de som passaram a passar uma mensagem de voz que calmamente, com uma voz irônica e afiada anunciava: “Nesse momento faço de todos vocês meus reféns, e em nome de Allah, quem ficar nessa sala será fuzilado com minha metralhadora do oriente médio lalalalalalalala”. Lê-se esse “lalalalalalalala” como a onomatopeia produzida pela articulação da língua em movimentos para cima e para baixo.

A maioria dos pais saiu correndo, com seus filhos juntos, e Kagami estava pronto para o fazer também, quando Himuro o segurou pelo braço com um sorriso no rosto. Ele iria se soltar, mas deu tempo de olhar para o resto do grande salão.

Apenas os pais e os alunos do primeiro ano saíram correndo. Ele conseguia dizer isso, porque todos os alunos mais antigos usavam uniforme, menos os do primeiro ano. Um uniforme que parecia uma farda, com medalhas em alguns, e um símbolo indicando de qual série o indivíduo pertencia na manga direita.

Os guardas ao redor pareciam rir ou segurar um riso e nem mesmo o diretor lá na frente parecia preocupado. Em algum momento, a voz anunciando o sequestro da escola parou de ressoar pelas caixas de som.

— Ah, o terrorismo... Bin Laden parece ter herdeiros, não? — O diretor disse com um sorriso. — Engraçado como a voz parecia a sua, né, Aomine?

Um garoto de pele morena, mais ao fundo, se levantou, batendo continência com um sorriso debochado. — Senhor, ouvi que os estados islâmicos usam tecnologia de clonagem avançada em seu terrorismo... Ahn, senhor!

E todo o lugar riu, Himuro ao seu lado também ria, negando com a cabeça.

— Entendo... Receio que por não termos evidência da existência de seu clone, você será responsabilizado. Nada de muito duro, apenas três semanas limpando o banheiro masculino. — O sorriso debochado do garoto pareceu murchar um pouco. — Já que a piada de começo do ano começou cedo dessa vez, não tem porque mais eu manter vocês aqui. Vão para seus dormitórios, filhos de Lúcifer.

Os alunos riram, se levantando, e por mais ridículo que fosse aquilo, parecia haver uma certa dose de respeito, enquanto saíam ordenadamente e prestando uma leve continência em direção à mesa dos professores. O recente colega ao seu lado fez o mesmo.

— O que, exatamente, foi tudo isso? — Ele perguntou simples e direto, ainda um pouco surpreso.

— O que pareceu para você?

Kagami abriu a boca, mas pareceu ridículo. O garoto moreno mais ao fundo, saía do grande auditório com um sorriso e alguns amigos lhe batendo no ombro como se o parabenizasse. Não era para ser uma instituição reformatória? Himuro sorriu um sorriso morno, que rescendia ao gosto da pegadinha ainda, e ele não conseguiu deixar de prestar atenção em como os olhos verdes do Japonês eram bonitos.

Terminou por dar de ombros, fazendo o outro rir com sua resposta.

— Sei lá, nunca me dei bem com primavera árabe e esses assuntos.

xXx

Quando eles saíram do grande auditório sentiram a necessidade de tirar qualquer blusa que tivessem. Assim, de repente, o sol viera e esquentara a tudo. O ar parecia inflamável e tão denso que ele jurava ter nublado sua visão.

Himuro alegou que ele era uma menininha e que parasse de reclamar, porque no verão era ainda pior.

Ele sabia que seria quente por ali, mas não tão quente. E não dessa forma abrupta, também. Além disso, jurava que seria um quente seco, daqueles que faz sua garganta arranhar um pouco, mas a proximidade com o pântano dava uma umidade acentuada às regiões próximas.

O recente amigo lhe dera uma pequena palestra sobre como funcionava a escola, enquanto faziam seu caminho por uma grama de cor indecisa, que beirava a um mostarda e um verde enjoo, flores com cores insossas e árvores pantanosas.

Parece feio, mas na verdade não era; tinha algo de interessante na visão toda, parecia um daqueles lugares em New Orleans que se via em filmes.

Himuro lhe disse quem era o garoto que tinha sido castigado: Daiki Aomine, um garoto do terceiro ano, capitão do time de basquete e um autodeclarado opositor da gestão escolar. Apesar do nome em Japonês, era Americano, e de acordo com Himuro, era um cara legal, também, embora um pouco arrogante e insidioso.

— Já sabe quem é seu tutor? — Himuro perguntou e ele franziu o cenho.

— Como?

— Não te explicaram o negócio de tutores, né? — Ele negou com a cabeça, fazendo o colega suspirar. — Sério, essa administração é de uma incompetência que me assusta.

Os Tutores, de acordo com Himuro, eram alunos do terceiro anos que eram responsabilizados por mostrar a escola, adaptar seus tutelados a ela e dividir um quarto com um aluno novo. Não era facultativo ser tutor, todo aluno do terceiro ano era, o que na matemática dava um terceiranista por um primeiranista; na prática, eram só companheiros de quarto e eventuais plantão de dúvidas, nada que carregasse o peso da palavra tutor.

Himuro era do terceiro e já tinha o seu tutelado, um garoto chamado Kise que tinha cabelos loiros, olhos de mel e um sorriso grande, pôde perceber ao se encontrar com ele no meio do caminho. “Himurocchin, Himurocchin”, o garoto em questão gritara quando os vira se dirigindo ao dormitório.

Ele próprio passou a ser chamado de Kagamicchin e não importara quantas vezes ele corrigira o outro, seu nome ficou Kagamicchin; o outro falava com tanta convicção, que ele quase tirou a identidade da carteira para certificar-se de que se chamava só Kagami.

Se despediu dos dois quando alcançaram o próprio quarto e o seu ainda era no andar de cima. Continuou arrastando a mala, sem se importar se ela sujaria ou não no chão, a arquitetura lhe dando nos nervos com todos aqueles detalhes que pareciam preencher demais sua visão, andava com passos desmotivados procurando o número do próprio quarto.

Vinte quatro. Ótimo, ele pensou, era quase uma piada pronta esse ser o número de seu quarto.

Ele o adentrou, notando que não era nada demais. E isso, de alguma forma, apertou algo em si. Passara uma semana na casa da tia Alex antes de vir para o internato. Uma semana em uma casa de dois andares de cômodos espaçosos, mas que eram totalmente preenchidos. Não tinha lá uma decoração, porque a tia era tão bruta quanto ele para algo tão minucioso e feminino, mas tinha fotografias, muitas fotografias, e telefonemas a todo instante, dois cachorros que não eram para ficar dentro da casa, mas que ninguém se designava a botar no quintal e conversas a base do grito que ultrapassavam as paredes.

E aquilo tudo era muito lindo.

Antes ele vivia em um apartamento, sozinho, pequeno, no Japão, sem muito barulho, só ele, um ou dois amigos e uma quantidade assustadora de filmes antigos.

Ir desse lugar solitário para a casa da tia foi um sonho, embora nunca fosse admitir, e sair da casa da tia para um quarto que era pior que seu apartamento foi um baque.

Tudo tão impessoal, paredes manchadas que não lhe diziam nada, que não lhe contavam história alguma, uma arquitetura rebuscada ridícula e uma beliche com cobertores verdes. Verde. Quer cor mais pé no saco que essa?

Ele jogou a mala em algum canto, passando pelo guarda roupa e indo a uma pequena porta no fundo do quarto, era de madeira meio vagabunda, rangeu e estava toda úmida, um cheiro de bolor vindo dela, ela abria para dentro. E depois dela, uma pequena varandinha que não caberia mais de duas pessoas provavelmente, ele se aproximou, receoso de que tudo despencasse, e apoiou-se no parapeito de gesso.

A dois metros do parapeito tinha uma gárgula, como se se segurasse com as unhas cravadas na parede. Ele a olhou com dó, uma grande presa faltando do canto esquerdo do lábio e um visível “chupe minhas bolas” escrito em sua testa.

— Que merda, hein, cara... — Ele disse para a gárgula. Um pombo apareceu do telhado e deixou um presente cor de verde azedo no nariz da criatura de pedra. — Literalmente, agora.

— O nome dele é Michael. — Ele ouviu uma voz dizer em um tom meio monótono e meio sério demais.

O olhar se voltou em direção à porta, encarando por fim o menino de cabelos azuis e pele morena. Cabelo bagunçado, mas não de forma estética, simplesmente bagunçado. Um olhar azul escuro que o fez por um momento sentir-se em casa, tinha algo de raivoso e displicente ali, quase como no próprio.

— Aomine, né?

Um sorriso convencido se pintou nos lábios finos do outro. — Oh! Já falaram de mim para você.

Ele assentiu, voltando o olhar à gárgula. — Por que Michael?

Aomine o observou com superioridade. — Por que o melhor jogador do mundo tem esse nome.

E só então ele prestou atenção no cara. Ele viu o laranja familiar de bolas de basquete envolto por um braço que parecia também ser familiar a esse mesmo laranja. No ombro esquerdo a alça de uma mala era estirada com o peso do que continha. O logo dos Bull era visto claramente. Chicago Bulls. Michael Jordan.

— Acho que vou rebatizá-lo para Larry Bird, uma verdadeira lenda. — Disse, sabendo estar sendo bem filho da puta pela provocação livre.

Os dois se olharam com uma clara rivalidade no olhar, o sorriso irônico se formando em ambos. Foi uma questão de segundos até que Aomine jogasse a mala sobre a cama e a bola laranja viesse em um arremesso forte ao seu rosto que graças aos seus reflexos Kagami conseguiu parar.

— Vamos ver o que tem, Celtic Boy.

— Se eu ganhar a cama de cima é minha. — Kagami disse.

— Nem fodendo, se você ganhar, o que é impossível, prometo não colocar um rato na sua cama à noite por pelo menos um mês.

— Se eu perder?

— Vira escravo por uma semana.

Ele concordou, achando certa sua vitória.

Trinta minutos depois já juntava dinheiro para sua alforria.

xXx

Sucedeu-se uma semana com cara de branco.

Fora as partidas ocasionais e seu trabalho de escravo a Aomine, o resto do seu tempo fora diluído entre toneladas de matérias ensinadas no método mais tradicional possível e com prazos apertados.

Aliás, sobre as partidas, elas eram uma rápida vitória sobre o ar maçante do dia. Enquanto tudo parecia se distorcer nos raios de sol e no cheiro de pântano, os dois se enfrentavam. Aparentemente, Aomine era bem conhecido por suas habilidades no jogo e viraram atração instantânea já que antes ninguém conseguia contrapor o moreno. Kagami sempre soubera que era um grande jogador, foram raras as vezes que encontrara alguém à sua altura, mas esse achado extrapolava seus padrões. Aomine era muito mais superior.

Ele era um gênio quando entrava em quadra.

A personalidade dele só poderia ser entendida quando em quadra, fora de lá era um estranho. Se mexia como se estivesse jogando e falava como se estivesse atacando no jogo. Talvez fosse por isso que o julgavam como um arrogante ofensivo. Vivia como se lutasse contra o placar, e era muito mais fácil vê-lo sem os livros das matérias do dia, do que sem a bola laranja.

Kagami se apressou em terminar sua lição. Estava no intervalo, quinze minutos que ele usava para comer sobre livros antiquíssimos sobre qualquer matéria enquanto a estudava. Como se fosse uma vingança deixar farelos de pão com mortadela sobre os poemas de Lorde Byron, era o que intencionava ao menos, vingança contra essa capacidade de enfiar atividade no cu dos alunos que aquela escola tinha. Ele não era o único que fazia isso, ao seu redor muitos garotos comiam e escreviam.

— Hey, Kagami. — Ele ouviu a voz de muito perto. — Fazendo lição, hun?

Ele levantou os olhos, encontrando Himuro e Aomine. Assentiu sabendo que preciosos segundos do seu dia estavam sendo tomados. — Tenho que entregar essa atividade de literatura hoje, ou aquele gordo me ferra.

Aomine riu e Taiga pensou ser pela piadinha que fez, por mais que não tivesse lá muita graça. Himuro sentou-se à sua frente, com um sorriso triste. — Solte o lápis então, Kagami.

— Por quê?

— O professor Johnson não compareceu às primeiras aulas, foram procurá-lo em seu quarto e ele estava morto.

Os olhos de Kagami se arregalaram enquanto Aomine ria batendo a bola de basquete no chão. — Deve ter sido enfarto. Já viu a quantidade de bacon que aquele cara comia de manhã? O coração dele deve ser só carne suína nesse momento.

A piada sobre a morte do professor não incomodou Kagami, mas aparentemente incomodara o outro amigo.

— E agora? — Ele perguntou para Himuro.

— Eles vão dar um comunicado oficial à tarde, e acho que vai ter um ou dois dias de luto. — O moreno com olhos azuis colocou a mão sobre o queixo, pensando. — Mas Akashi me disse que a escola já tem substituto e que ele virá em uma semana.

Kagami sorriu. — Dois dias de luto?! Yeah, foda-se essa lição e a lição de dois dias— E lançou o olhar para Aomine. — Vou acabar com você no basquete.

Kagami se levantou, fazendo um toque espalhafatoso com o de cabelo azul, os dois felizes demais por ter alguns dias livres e poder jogar um pouco, ainda mais se o preço fosse a vida de um professor nem um pouco querido. Ele observou Himuro rir anasalado, massageando as têmporas.

— Idiotas.

xXx

A quilômetros de distância, entre prédios e livros, um homem de cabelos azuis claros tomava seu café com calma, sua expressão vaga e a promessa de um sorriso no canto dos lábios.

— Eu aceito sim, Tio. — Ele tomou um gole da bebida. — Nos vemos em uma semana.

Notas finais
A todos que possam eventualmente vir a ler: A fanfic não vai ser muito longa, já deu para ver que eu não enrolo muito, né? Pois é. Vou tentar postar todo domingo, prazo feito. Espero que tenham gostado, see you.