A Sociedade dos Loucos e Esquecidos
9 A Noite — Parte 2
Notas iniciais
Quando ele pisou no chão de terra, pulando pela janela, ele sentiu o estômago revirar-se.
Depois de tantas sessões ele ainda tinha esse nervosismo, que era agravado dessa vez pelo que ele sabia que iria abordar.
Igual à primeira vez que se aventuraram nos pântanos como um grupo, chovia. Não tanto a ponto de precisarem de uma canoa como antes, mas chovia. O cheiro da chuva na terra o anestesiava um pouco, era uma sensação de viciado em cocaína: De querer ficar só cheirando e cheirando e viver naquilo.
Kagami o empurrou um pouco para conseguir sair também, e só então Kise percebeu que estava no frente da janela ainda. Foi para um cantinho e continuou a observar. Todos estavam com suas capas amarelo neon, de novo. Dessa vez Kise tinha pegado uma que não estava furada, o que era um alívio e uma desvantagem.
Alívio porque ele não passaria tanto frio como naquela noite, mesmo se a chuva se intensificasse. Desvantagem porque Aomine não emprestaria uma blusa para ele. E só ele sabia quanto tempo enrolara para devolvê-la. Tinha algo de confortável nela e, principalmente, tinha o cheiro do garoto de sorriso provocativo.
Ele andou por aí, usando a blusa por mais de uma semana. Mesmo se não estivesse frio, ele a usava, adquirindo o costume de puxar qualquer parte do tecido para perto do nariz e inspirar forte e cada vez mais forte conforme os dias passavam e o cheiro desvanecia.
Quando no meio da segunda semana ele não sentia mais o cheiro que tinha se acostumado, e só os dos próprios cabelos, ele admitiu derrota e devolveu a blusa.
Foi acordado pelo Midorima o puxando pela manga da capa amarela, só então percebendo que estava divagando de novo. Ele era assim, e há muito que já havia aceitado: Era um garoto de sonhos, dormindo ou de pé ele sonhava. Talvez fosse até por isso que as pessoas o vivessem chamando de belo, por sonhar. Sempre haviam lhe dito que sonhar era bonito, que sonhos eram lindos.
Era seu produto de beleza, afinal.
Ele quase escorregou enquanto andava, sendo, por sorte, segurado pelo Murasakibara. Ele apenas disse um “obrigado” mudo, já que não sabia se poderia fazer barulho ou não. Vai saber se a água, tanto a das poças como a que era despejada pelas nuvens, não tinha uma propriedade física estranha que permitia o som se propagar por ela e acabar sendo ouvido por gente que não deveria ouvir.
Ele parou de divagar, se concentrando nos caminhos de água e terra, de troncos e vento. Então o estômago remexeu-se de novo, temendo a entrada da caverna, porque hoje era o dia que ele iria falar para os recentes amigos algo que ele já estava acostumado e que deveria já ter dito e sabe-se lá porque não ter dito...
Quer dizer, ele sabia porque não disse. Quando se pensa em internatos, tem-se aquela ideia de locais rígidos e com garotos maus esperando alguém para atormentar. E Hollywood sempre deixou bem claro os arquétipos que eram ridicularizados: Os nerds, os diferentes de alguma forma e os gays. Ele fazia parte dos gays, então não disse por defesa própria.
Diria hoje. E por mais que ele tivesse uma promessa de Aomine e, claramente, o apoio de Kagami, ainda receava que os outros fossem agir de forma discriminatória. Principalmente Murasakibara que tinha a idade mental de dez anos e Akashi que era certinho demais para permitir essas “safadezas” como diziam as avós por aí.
Ele suspirou, notando que Aomine andava ao seu lado e lhe fizera uma careta quando olhara para ele. Rolou os olhos rindo.
Todos estavam silenciosos, as fala eram mudas e mesmo os olhares eram meio esquivos. O que se ouvia era um som de percussão das gotas com o chão e o sopro inconstante do vento. Finalmente o buraco-entrada da caverna foi avistado e Ryouta sentiu-se tremer pela ansiedade. A vontade de voltar foi imensa, até sentir uma mão que não tinha costume de ser carinhosa no seu ombro.
— Está tudo bem, Kise? Está tremendo. — Aomine disse, mas Kise não conseguiu responder. — É frio? Quer minha blusa?
Não era uma noite fria, o vento rugia, mas dentro da caverna estaria mais quente. Tudo estava só fresco, além disso Kise já vestia um suéter simples, que o deixava confortável, mas mesmo assim ele aceitou com um aceno. — Se você não ficar com frio...
Todos entraram na caverna, os dedos em lama e embaixo das unhas grama, e enquanto todos arrumavam a fogueira e os materiais, Aomine lhe estendeu a blusa com um gesto meio displicente. Kise a usou por cima do suéter, a fechando até o topo.
Puxou parte do tecido da gola para perto do nariz e inspirou forte, a ansiedade diminuindo e um diferente tipo de revirar de estômago tomando lugar. Algum sentimento deve ter sido forte demais, porque a última coisa que sentiu foi uma ardência um pouco mais acentuada nos olhos.
— Kise?
Ele limpou os olhos, percebendo que, felizmente, não tinha chorado; só tinha chegado perto disso. Eram, provavelmente, os sonhos querendo ver o mundo.
— Nada. — Respondeu com um sorriso. — Só está quentinho.
xXx
Eles, de alguma forma, tinham conseguido colocar fogo na maldita fogueira.
Kagami quase suava pelo esforço. Os musgos e madeiras que iriam usar estavam molhados pela chuva e não acendiam nem se eles colocassem os materiais no fogo do inferno. Não acendiam e produziam uma fumaça terrível, mas depois do que pareceu anos de esforço, ele e Himuro conseguiram.
Akashi e Midorima os olhavam fazer todo o trabalho. É por isso que Kagami não fazia questão de ser um maldito aluno nota dez. Isso no plano prático das coisas não valia muito; saber o que é calor, combustão e todos os conceitos relacionados ao fato não fazia a merda de uma chama brotar de uma madeira úmida.
Malditos intelectuais.
Ele e Himuro fizeram um toque com as mãos, comemorando o feito e cada um foi para seu lugar na reunião.
Sentaram-se na rodinha inconsistente que estavam acostumados, com raízes de árvores caindo sobre as cabeças e enrolando o grupo em um cenário do Labirinto de Fauno.
O fauno nas circunstâncias atuais era aquele cachorro que vivia latindo para ele, do lado de Kise.
Justamente por isso Kagami sentara afastado do loiro e do Aomine que fez questão de sentar do lado de Ryouta naquela sessão. O falso ruivo observou Kise abrir o caderno que ele usava para manter os registros das sessões sob a luz quente da fogueira.
Tinha algo de poético ali: Os dedos quase delicados para um cara do tamanho de Kise, o loiro dos fios se misturando com a cor do fogo, parecendo fazer Kise ter cabelo de ouro derretido.
Kise levantou as sobrancelhas analisando todo registro até então.
— Essa é a vigésima sessão, pessoal! — Ele afirmou com um sorriso.
Aomine pareceu ofendido. — Por que não falou antes? Eu teria conseguido bebidas para a gente.
— Sem bebidas, Aomine. — Akashi disse em um tom sóbrio.
— Mas é uma comemoração... Nem em comemoração pode, my lady Akashi?
O ruivo rolou os olhos, negando com um menear firme de cabeça.
— Incrível, vinte sessões ouvindo o Midorima analisar os mais diferentes poemas, nominando cada vírgula de modo gramatical e contando sílabas poéticas, sem ao menos poder ficar bêbado uma vez. — O amigo disse com um falso entusiasmo. — Se continuarmos assim, na minha vez eu vou falar como fazer um seppuku¹ de qualidade nos dias modernos.
Isso conseguiu arrancar risadas de Akashi e Midorima. — Pelo seu conhecimento incomum da cultura Japonesa eu não vou retrucá-lo, Aomine. — O garoto de cabelos verdes disse. — Mas devemos começar logo.
Todos assentiram, mas ninguém queria ir de fato. Assim como no caminho para o esconderijo, estavam todos muito quietos. Kise parecia se encolher tanto que chegaria a um ponto em que se condensaria de forma tão concentrada em um determinado espaço que criaria um buraco no espaço-tempo os sugando para um universo alternativo em que Chimpanzés dominavam a terra e não acreditavam na evolução das espécies que dizia que eles vinham dos humanos — Imagine? Que horror, vir dos humanos...
O caso é: Kise estava introspectivo. E Aomine que geralmente se entusiasmava para zombar de qualquer coisa, parecia não estar muito disposto, também.
Himuro que era geralmente educado com os outros e completamente atencioso, estava meio desligado. Os olhos baixos, observando chamas e ouvindo os crepitares graves da madeira. Murasakibara comia, para variar, e era impossível dizer se ele estava mais desanimado ou não, já que ele não era uma explosão de animação em qualquer sentido.
Midorima e Akashi tiveram prova e produção de trabalho; algo que, a jugar pelas olheiras mais extensas que as costas da maioria das praias e os olhos cansados, sugara energia demais dos dois.
Todos pareciam estar com a cabeça meio ocupada e cheia. Ele próprio se encontrava com os pensamentos dispersos devido aos sentimentos que nutria por Kuroko. Não tinha realmente algo a pensar, mas estar apaixonado é isso: Pensar sem propósito, sem foco, sem sentido. E mesmo assim é algo bom.
Aomine bufou impaciente. — Que seja, por favor, Midorima. Comece sua análise e dê a introdução ao suicídio coletivo.
xXx
Kise estava nervoso.
Cada vez que paravam de falar, e esperavam o tópico de outra pessoa ele suava. Principalmente as orelhas, era o local mais ridículo para se suar na face da terra, mas ele suava ali, e sabia que não era paranoia.
Midorima tinha declamado seu poema em falas mais rápidas que o normal, com o humor metálico de Aomine adornando a melodia dos versos. Depois Akashi puxara uma discussão sobre um de seus animes favoritos, que para variar, ninguém tinha nem visto o nome.
Poderiam falar quantas vezes quisessem que Kise era hipster, ele sabia que o mais hipster de todos era Akashi.
Aomine estava com uma atitude meio fria consigo. Claro, Kise afinal prometera que iria falar com todos e estava adiando tudo ao ponto de não precisar falar. Ele estava ali, do seu lado, mas provavelmente estava irritado com ele.
De repente, todo esse nervosismo lhe pareceu tão ridículo. Ele deveria ter confiança nele mesmo, nas pessoas que escolhera para ser seus amigos e que acreditava ser pessoas boas. Claro que eram garotos e jovens, e por algum motivo incrivelmente estúpido, a quantidade de garotos homofóbicos principalmente nessa idade era incrível, mas eles eram bem educados, e com a educação vem a aceitação.
É o que dizem por aí, ao menos.
Ele suspirou, batendo com a mão um pouco forte demais na testa quando foi mexer nos cabelos.
— Vocês estão com uma aura estranha hoje. — Disse Murasakibara, os dedos parcialmente enfiados no pacote de salgadinhos da vez. Eram coisas incríveis esses pacotes, quase como a bolsa de Hermione, Murasakibara nunca parava de tirar os malditos salgadinhos, os dedos amarelados por produtos industrializados e a boca mais suja que boca de criança quando toma sorvete.
Aomine arqueou as sobrancelhas do seu lado. — Virou hippie, agora? Que merda aura?
— Eu não sou hippie, Ao-chin. — Disse enfiando mais um salgadinho na boca, o tom final dando a entender ter mais na frase, mas a boca mastigando angustiantemente devagar. — Minha mãe é. Nós provavelmente temos mais incenso na nossa casa do que a Índia inteira. — Ele sorriu. — Mas isso não é coisa de hippie, dá para sentir, e aura ruim é terrível, ela negativa as outras também.
Kise observou o nariz de Akashi se torcer um pouco. O ruivo não acreditava muito nesses esoterismos, mas depois de anos de amizade com um cara que sabe a trajetória de todos os planetas do sistema solar de cor, quase como um GPS Intergalático, Kise supunha que aprendera a conviver com essas excêntridades.
Ele puxou o cachorro, que se sentava no chão ao seu lado, mais para perto, e o abraçou com carinho. O rosto tocando os pelos macios mais o cheiro de cachorro lhe dera uma sensação familiar, coisa de quem já é acostumado a ter cachorro em casa e chorar para ter mais, porque, supostamente, um cachorro de rua o seguiu até em casa.
Kise fez uma nota mental para nunca mais ser idiota, e não ter vergonha de falar o que era em ocasiões futuras. De ter coragem suficiente para lidar com isso, sabendo que seria difícil, porque mesmo a trilha da mais bonita floresta faz os pés doerem.
— Gente? — Ele disse, a voz saindo abafada pelo corpo do cachorro que abraçava, mas mesmo assim fisgando todos os olhares. — Eu gostaria de falar sobre um assunto, ao menos para mim, delicado com vocês.
— Que bom, porque é do Kise-chin que vem essa aura.
— Murasakibaracchi, é sério. Juro que vou tentar tomar menos tempo possível.
Ele sentiu Aomine se empertigar, prestando mais atenção. E pelo tom que ele tinha usado, ele percebeu que todos notaram que era algo de importância. Ele fez um carinho suave no cachorro antes de continuar.
— Não sei se é absolutamente verdade, mas o Aominecchi me disse que eu tenho sido um loiro idiota detestável nos últimos tempos. — Ele sorriu um sorriso que era só para Aomine. — E que tinha começado depois do telefonema que recebi. Bem... Eu acho que é verdade. Aconteceu algo que me ferrou um pouco, e o Daiki disse que eu deveria compartilhar, porque somos amigos e amigos se ajudam, não sei até que ponto vocês ligam, mas acho que confio em vocês o suficiente para isso.
Ele não se importou em olhar os outros para ver suas reações. Soltara o cachorro e ficara brincando de passar os dedos sobre a terra e a superfície calosa das raízes por ali. Seu olhar se focara nas chamas que se agitavam. Chamas cor de arrebol e incrivelmente inconstantes.
O seu mundo estava em chamas, tudo era tão sólido antes daquele telefonema. A voz pelo telefone passou de ondas para calor.
— Eu sou idiota. Tipo, pra caralho. Eu... Vou falar de modo indireto, porque assim é mais fácil. — Ele sentia sua voz se quebrando. — Meu pai teve que mexer no meu computador, ou assim ele disse, talvez ele estivesse apenas investigando, mesmo. E ele descobriu coisas que eu não deveria ter deixado lá, ele descobriu... Que eu sou gay e eu tomei um esporro épico por telefone, e a promessa de uma discussão mais aprofundada quando eu voltasse para casa nas férias. — O loiro até tentara levantar o olhar, mas parecia pesar de mais olhar outros olhos. — Eu não quero voltar para casa. Não quero que isso acabe.
Ele não se importou em receber um braço circundando seu pescoço, era um calor conhecido, um cheiro conhecido. Sentia-se aliviado por não ter que continuar falando, ou suportar um silêncio sozinho.
— Hey, Kise. — Aomine chamou sua atenção. — Eu sei que pode ser meio vago e clichê, mas você pode contar comigo para conversar ou para qualquer outra ajuda que precisar.
Era bom receber apoio de quem se gosta. Kise sentiu o rosto esquentar, um sorriso leve vindo aos lábios. — Clichês são legais.
— Mas você é um iniciante, Kise. — Ele ouviu Aomine dizer. — Deve-se sempre apagar o histórico e esconder a pasta de pornô.
Kise riu abafado pelo meio abraço. — Calado. — A piadinha veio em boa hora, quebrando um gelo que todo discurso pudesse ter construído.
— Agora que eu disse, Kagamicchi, me desculpe, mas eu vou te puxar para fora, também.
Do armário, claro. Kise sabia que não era seu direito fazer isso, mas Kagami talvez só precisasse do incentivo para que revelasse. Até porque, de modo geral, Kise sentia que o falso ruivo era bem mais auto confiante do que ele era.
Kagami rolou os olhos, sorrindo. — Seria uma covardia te deixar sozinho nessa. Bem... Eu sou bi, pessoal. Não totalmente viado, não totalmente adorador de peitões. Bi. — Ele parou, mordendo a parte de dentro da bochecha em um gesto completamente Kagamicchi e que fazia Kise sempre rir quando notava. — Prefêrencia por garotos, mas ainda assim.
E então ambos, o loiro e o falso ruivo, focaram em Aomine, que parecia pensar exaustivamente em algo.
— Duas das pessoas que eu sou mais próximo são gays... — Aomine sorriu. — Eu devo ter uma espécie de radiotividade gay, ou minha masculinidade deve atrair, não sei. Isso explica as vezes que eu ia me trocar e pegava você me olhando, Kagami.
Taiga tornou-se avermelhado. — Eu já disse que não era isso. Você tem manchas nas costas, era isso que eu olhava.
— Tenho manchas nas costas, não na bunda. E seu olhar era para o hemisfério inferior.
— Eu me nego a discutir sua anatomia, Aomine.
Os dois provavelmente trocaram mais algumas falas, mas Kise já não ouvia com atenção. Diziam sempre que seu olhar parecia meio dourado, quase ouro, e bem, Kise concordaria agora já que os sentia, como metal, serem magnetizados pelo sorriso de Aomine.
Ele esperava que Aomine reagisse minimamente bem, mas não dessa forma. Aomine agia entendendo que era um assunto delicado para ele no momento, mas tratando com naturalidade. Não ter que ouvir os clássicos: “Mas dói?” ou “Pelo menos se esquecer a camisinha, não terá uma surpresa chorona” era um grande alívio. Era uma atitude carinhosa. Uma maturidade que ele não esperava vir do moreno, e que agora que tinha um leve vislumbre, o fazia admirá-lo mais.
No entanto, ainda se preocupava com os outros, que não tinham aberto a boca, ainda.
— Akashi? — Kise perguntou baixinho, mas o suficiente para ser ouvido. — Tudo bem para você?
Ele observou o ruivo arquear as sobrancelhas. — Sim, por quê? Não deveria?
— Ahn, deveria, mas é que... Sua família é militar e você é todo certinho...
— Século XXI, Kise. — Akashi disse solene, para depois continuar. — Além disse, minha família pode ser militar, mas existe o fator Kuroko. Esqueceu? Ele me fez assistir Sensitive Pornograph quando eu tinha doze anos. Doze! — Ele disse, a voz se alterando fazendo Kise rir. — Então eu estou acostumado.
Kise assentiu, sorrindo e razoavelmente feliz, não sabendo se pela aceitação que recebia ou pelo braço do amigo mais velho que ainda encontrava-se em seu ombro.
Aomine bateu palmas chamando a atenção. — Okay, okay... Ninguém mais? Última chance de sair do armário, galera. — Disse fazendo os outros rirem. — Ninguém? Akashi? Tem certeza?
— Como assim “Akashi”?
— Não... Não quero dizer nada, só que você tem uns costumes meio duvidosos as vezes. Esses coletinhos que você usa, fica lá com esses dedos delicados jogando xadrez, usando palavras difíceis e ouvindo Lorde e Lana Del Rey. — Nesse momento Kagami já tinha se unido a zombaria de Aomine atuando conforme o moreno enumerava as características do ruivo. — Além disse, eu te vi... Eu te vi, mexendo no tumblr!
— Não!. — Exclamou Kagami em falso espanto.
Midorima sorriu de lado, resolvendo interver pelo amigo. — Ele não é gay, pessoal. Ele só é europeu. O que dá quase no mesmo, principalmente os franceses... Mas acho que ele não é gay.
— Bem... Ele fala francês.
Midorima analisou por alguns segundos, antes de assentir. — De fato, as evidências são fortes, tem certeza de sua sexualidade, Akashi?
— Como vocês são idiotas... Além de Europeu eu sou burguês, então tudo se explica. — O ruivo falou com um sorriso, fazendo os outros garotos rirem. — Vocês me contagiaram com sua idiotice.
Já ficava tarde e em pouco tempo teriam que voltar. Kise bloqueou um bocejo com a mão, só então percebendo que estava cansado e para piorar a caverna estava quente pela fogueira, o que dava vontade de dormir.
O loiro conseguia entender porque Kuroko e seus amigos escolheram aquele local para realizar as reuniões: Uma vez na caverna, perdia-se o contato com o mundo exterior. Quase como no Mito da Caverna de Platão, eles pegavam relances do mundo lá fora. O mundo poderia estar se alagando lá fora, eles apenas notariam quando a lama começasse a sujar seus tênis. Os trovões tinham que ser muito fortes para que o clarão infiltrassem as pupilas acostumadas com a luz das chamas cor de verão.
O cachorro começava a se inquietar do seu lado. As orelhas cor de ying-yang levantadas e o rabo ereto, também.
— O que foi, menino? — Perguntou sem a real pretensão de ter uma resposta, era um romântico e amante dos animais, mas não a esse ponto.
Foi uma questão de segundos até que ele sentisse o deslocar abrupto do ar ao seu redor. As chamas tremularam e o chão doeu com impacto. Sentiu a mão de Aomine o puxando para longe da massa no chão.
Uma massa com tons de azuis.
— Professor? — Ouviram a voz de Himuro perguntar.
— Eu não lembro da queda da entrada da caverna ser tão acentuada. — Kuroko reclamou, massageando as costas. — Hey, oi, cachorrinho.
Akashi suspirou. — Que bom que chegou, Kuroko. Você sempre tem que ser extremista, né? Ou aparece sem ninguém notar ou chamando a atenção.
Kise notou que Kuroko estava todo molhado, devia chover lá fora. Demorou um pouco para a resposta sair dos lábios finos, já que o professor se encontrava muito ocupado brincando com o cachorro.
— Desculpe, desculpe. — Ele disse, claramente, não expressando nenhum sentimento de desculpa. — Não quero atrapalhar, estavam falando do que?
— De viadagem e burguesia. — Aomine respondeu.
— Opa, minha especialidade.
xXx
Todos se esqueceram das horas.
Tão simples quanto as palavras, foram as atitudes. Bem, Aomine não se culpava, ele não tinha lá uma grande percepção para os segundos. Ele apenas vivia, os segundos eram coisas que sempre pareciam teóricas e matemáticas demais para que ele prestasse atenção.
Além disso, era fácil conseguir esquecer do tempo dentro daquela prisão de terra. Era sempre escuro e enquanto a chama crepitasse dava a sensação de uma noite infindável.
E claro, a presença de Kuroko era muito mais anestesiante do que ele pensava. O professor era bem engraçado e agradável, e todos sabem que segundos com diversão passam mais rápido que os normais.
— Deixem as capas na caverna. — Disse Kuroko. — Vai ser inevitável que alguém nos veja a essa hora com elas. E quem tiver, coloque o capuz da blusa, principalmente o pessoal com cabelo estranho.
Akashi deu um sorrisinho de lado. — Irônico.
Quando eles saíram, Aomine sentiu o chão de lama o engolir. Não demoraria muito para que todos ficassem encharcados sem as capas de chuva. O caminho da volta foi feita da forma mais rápida possível, ou assim tentaram. Tantas vezes andaram por entre aquelas árvores, sentido o áspero da casa delas machucarem as mãos... Tantas vezes andaram sob um céu de estrelas, o caminho sob seus pés iluminado por constelações inteiras, mas dessa vez só tinha o brilho de uma estrela.
A luz da manhã vinha precoce, com aquele ar de frio e acompanhada por gotas, dolorosamente, glaciais.
As vozes que não eram deles foram ouvidas por entre os galhos e as folhas das árvores. Incrivelmente, tudo parecia mais verde, até o próprio rosto que ele conseguiu enxergar em alguma poça d’água, lívido pela perspectiva de serem pegos.
Kuroko os puxou por entre as árvores, se escondendo em troncos esquálidos demais para que proporcionassem uma real cobertura de um olhar minimamente atento. Separaram-se em dois grupos, ele, Kuroko, Kagami e Kise em um, e os outros mais afastados.
— Espero que não tenham faltado nas aulas de educação física. — O homem de cabelos azuis sussurrou. — Teremos que correr.
Estavam quase na parte sem árvores da escola, o resto era terreno aberto, e não seria difícil identificá-los ali.
— Vamos conseguir sem ser pegos? — Aomine perguntou.
Kuroko deu de ombros. — Quem sabe... Mas dá pra abrirmos caminho para os outros.
— Se corrermos, nós quatro, até a seção esportiva, e nos separarmos, talvez dê para despistarmos alguém que nós seguir. — Kise deu a ideia.
Kagami assentiu do seu lado. — Se contornarmos os prédios por trás, podemos evitar a maioria dos guardas
E assim eles fizeram. Separaram-se em equipes de dois e pediram para que os outros esperassem escondidos e que saíssem devagar.
Os quatro finalmente saíram das árvores, a luz chocando-se contra seus rostos, a sensação da grama sendo raspada pelos tênis rápidos e o suor brilhando salgado como o mar na pele.
Inacreditavelmente conseguiram avançar bastante antes de serem notados, e quando finalmente ouviram a voz grave cortar o ar, se separaram. Kagami e Kuroko correram em direção ao refeitório, enquanto ele e Kise foram em direção ao dormitório.
No final, o guarda os seguiu, o que fez Aomine praguejar em voz baixa. A visibilidade não estava muito boa, a chuva ainda caia e a luz era ainda muito jovem para que realmente iluminassem caminhos, mas depois de tanto tempo, eles tinham quase que se acostumado com as cores mais apagadas, clássicas do escuro.
— Aomine! — Ofegou Kise. — Como faremos agora?
— Você consegue me levantar até a sacada do meu quarto?
— Talvez.
— Então a gente acelera para ganhar vantagem no tempo.
Kise não falou nada, mas Aomine supôs que ele tivesse concordado. Alguma coisa eles teriam que fazer, porque ficar correndo pela escola era inviável, e mesmo entrar pela janela que sempre usavam era perigoso. Era provável que monitores já tivessem acordado.
O loiro ganhou à frente, o que fez seu orgulho doer um pouco, e se apressou para entrar em um corredor entre os edifícios da administração e a biblioteca da escola. Eles não mais viam o guarda, mas ouviam suas exclamações e os pés pesados na terra.
Quando chegaram na frente da sacada, Kise se abaixou fazendo um apoio com as mãos, pronto para jogar o outro para cima. Aomine tomou impulso, e pulou o mais alto possível e se agarrar contra a grande cheia de floridos, a mão ardeu contra o ferro velho, mas que pelo menos era forte ainda.
Pulou a grade, e quase se pendurou para alcançar Kise. Os passos se tornavam mais fortes, e Aomine poderia jurar que conseguia senti-los pela estrutura do edifício. Quase não conseguiu agarrar a mão de Kise, mas apertou forte quando alcançou. Quase perdeu o equilíbrio para puxá-lo, e quase deixou ele escapar porque as mãos estavam suadas e molhadas. Mas por fim Kise conseguiu subir, e Aomine logo puxou o loiro para o chão para que não fossem vistos.
Não demorou segundos para que eles ouvissem uma respiração arfante e forte passar por baixo da sacada. Não se levantaram, a respiração voltou, os procurando, sem achar a nada.
— Caralho! — Eles ouviram a voz praguejar. — Moleques do inferno.
Só depois de ouvirem os passos raivosos e a respiração entrecortada desaparecer que Aomine percebeu estar segurando a própria respiração. Quando ele permitiu o ar sair, ele saiu entrelaçado com uma risadinha estrangulada. Kise riu, também, em cima de si. Era um riso sem graça, de alívio.
Só então o contato se fez consciente. Ele notou o cheiro de shampoo feminino de Kise, os cabelos loiros pingando, mas nunca menos belos ou cheirosos, além do cheiro de Kise, que normalmente era sobreposto pelo odor de cremes ou perfumes.
O rosto avermelhado pelo exercício e pela descarga de adrenalina o atraía de alguma forma. Os dois se olharam nessa posição, o loiro sem a mínima intenção de se mover; ficaram se olhando por um tempo perdido para registro. Três gotas de água escorreram dos fios dourados e pousaram em seu rosto, sem que Aomine fizesse nada.
Ele poderia ter quebrado o contato facilmente, mas por algum motivo não quis; era um cara instintivo afinal e sentia-se bem naquele entrelaçar gelado de orvalho e ao mesmo tempo flamejante. Continuou sem fazer nada quando Ryouta focou o olhar em seus lábios, e direcionou as mãos para os seus pulsos.
Ele sabia o que iria acontecer, e Kise sabia que ele sabia o que iria acontecer.
E mesmo assim aconteceu.
Os dedos gelados e delicados do garoto com cheiro de brisas envolveram seus pulsos, como se para forçá-los a ficarem parados. Mas sem aplicar força nenhuma. Depois os lábios se conectaram por uma respiração vermelha, todo seu interior se acendeu e tudo ficou mais perceptível. A respiração pelo nariz de Kise, os cabelos molhados dele fazendo cócegas em suas bochechas e o cheiro dele habitou seus pulmões.
O dia nascia, o mundo estava gelado e incolor, mas os dois ardiam sob os olhos pedras de Michael.
Tudo era azul glacial, menos os lábios. Os lábios estavam vermelhos.
xXx
Kagami se apoiou contra a parede de pedra do refeitório depois da corrida. Kuroko estava no chão, respirando fortemente e com o rosto suado.
— Céus, ainda bem que ele foi atrás do Aomine e do Kise. — Kuroko disse. — Eu fugia da aula de educação física.
— Você tem cara de quem faria isso, mesmo. — Kagami sentou-se do lado do professor.
O falso ruivo não se importou em parar um pouco, não que estivesse cansado, mas tudo estava sendo exaustivo demais. Ele ouvia a respiração carregada de Kuroko e sentia o calor que um corpo tão pequeno emanava.
— O que faremos agora? — Perguntou com uma voz cansada.
— O que você fará. Eu só tenho que ir pro meu quarto, posso andar por aí à vontade. — Quando Kagami o olhou traído ele riu. — Brincadeira, claro que não vou te largar aí, né. O melhor seria te deixarmos dentro do dormitório. Mas caso não dê, eu posso te esconder na biblioteca e pegar seu uniforme para você ir para a aula como se nada tivesse acontecido.
Ele bateu levemente com a cabeça na parede, a apoiando lá e deixando um suspiro escapar. — Sujo desse jeito?
— Ué, tá chovendo. Tira a roupa e se banha, aí.
Taiga sentiu o rosto flamejar, para variar um pouco. — Você nem tem um pouco de vergonha de falar essas coisas?
O falso ruivo observou um sorrisinho de lado no rosto bonito e jovial do professor. E água caía a poucos centímetros dos seus tênis, caía em cascata, límpida, como se fosse cristal líquido. Era bonito, embora a cena toda fosse um tanto fria demais para Kagami.
Kuroko o encarou e ele sentiu o estômago revirar. Os olhos em microcosmos sempre faziam-no tremer, não por frio, mas por Kagami sentir-se um estranho ali. Era um olhar quase triste, um sorrisinho quase triste e ele sentiu-se triste, também.
Os dedos frios e pequenos do professor resvalaram por sua bochecha, e a palma se fixou nas maçãs de Kagami que recebeu um suave carinho com o polegar. E Taiga se inclinou sob aquela palma, que estava gelada, mas que ele pensava que em condições normais estaria sempre quentinha, as vezes com um queimado por Kuroko ter derramado café muito quente ou com dedos cortados pelas lâminas de papel dos livros.
Ele se deitou sobre aquela palma, quase dormindo, quase ronronando como um gato, por mais ridículo e patético que isso parecesse.
— Céus... O que eu estou fazendo com você, Kagami-kun? — Ele ouviu a voz suave, mas a possibilidade de ver um olhar glacial ou piedoso o impediu de abrir os olhos. — Você é só um garoto...
Kagami pensou que deveria ficar irritado, que deveria rebater, mas o que ele iria falar? Que ele não era um garoto? Ele tinha quinze anos, afinal. Claro que era um garoto.
— Você vai ligar para isso agora?
— Eu tenho, porque você parece não ligar por estar totalmente caidinho por mim.
— Quem disse que eu...
— Você está, e nós dois sabemos que está... — Kuroko hesitou, e Kagami nunca tinha visto Kuroko hesitar em uma fala. — E eu também estou. Mas não sei se deveria.
O falso ruivo sentiu alegria infiltrar-se em seu peito, ainda que não plena, porque havia cláusulas para esse contrato de felicidade, mas estava feliz. — Você gosta de mim?
Kuroko suspirou um sorriso encantado. — Vê? Um garoto.
Kagami concordou. — Mas não é esse o ponto do romance? É o conflito, certo? Teoria literária... — Ele forçou a memória. — É o preço pela “Luz da minha vida, fogo dos meus quadris²”.
Kuroko riu pelo nariz, assentindo devagar. E aquela era uma visão que ele não estava acostumado, ele ganhar um argumento e ver o professor aceitar isso, sem aquele olhar salgado e pronto para pegar qualquer falha sua.
Ele aproximou o rosto, analisando qualquer sinal de negativa. Mas muito pelo contrário, Kuroko ajustou seu corpo para que o contato dos dois pudesse ser mais completo. Ele tomou logo a atitude de rodear a cintura do outro com o braço, a sentindo mais suave do que imaginava nas vezes que se masturbava.
Kuroko agarrou seu cabelo pela parte de trás da cabeça, enquanto segurava o rosto dele com a mão esquerda. Os lábios se encontraram tímidos e desconhecidos, porque era a primeira vez que eram usados além de conversas que eram íntimas demais para os dois.
Eram lábios bons, com hálito quente; lábios que estavam acostumados a recitar poesias e prosear ao vivo. Kuroko se separou, puxando a cabeça de Kagami com a mão.
— Não podemos demorar muito. — Os cabelos azuis e molhados se espalhavam rebeldes sobre os olhos azuis. — Vou te deixar na biblioteca antes que sejamos descobertos.
— Kuroko...
— Depois, Kagami-kun... Deixe essa conversa para depois, por enquanto sinta o gosto do beijo.
Ele assentiu, concordando em deixar a conversa para um momento mais oportuno. Os dois se levantaram, e Kuroko indicou com a cabeça para que avançassem.
— Kuroko?
— Hum.
— Eu esqueci.
— O quê?
— O gosto. Esqueci o gosto do beijo.
O professor riu baixinho, balançando a cabeça e os ombros.
— Você é afinal um sem vergonha, seu descarado. — Nesse ponto Kagami jurava que seria negado. — Dois minutos, não mais que isso para se lembrar.
E eles se perderam um no outro. Os hálitos quentes, a puxada forte no cabelo e assim recitaram uma poesia que era muda, mas dizia demais.
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