A Sociedade Rubi
49 Olhos negros e brilhantes
Notas iniciais
O vento uivava contra a janela. Era como se algo quisesse entrar ali. Fechei os olhos. Quanto tempo mais teria que ficar sem ela? Limpei os olhos e me ajeitei novamente na cadeira da sala de estar. Estava sonolento, o barulho da chuva ajudava em parte.
Corea surfava pelos canais da televisão. Alguns nem estavam funcionando. Ela não estava bem, ninguém estava. A invocadora não entendia o fato de aquilo estar acontecendo, insistia em procurar algo de errado. Alguma coisa que trouxesse respostas. Mas nada era descoberto.
— Ainda não entendo. – a voz da invocadora estava rouca, não estava totalmente recuperada.
— Ninguém entende. – disse Jasper amolando a lâmina de uma adaga. – Mas devemos ficar atentos. E com toda a calma possível. Ficarmos nervosos não vai ajudar.
— Diga calma para o meu cérebro, porque ele não está entendendo direito. – Gillis estava confuso com todas as novidades que as pessoas contavam para ele.
— Fala sério, até eu já entendi. – Charlotte sorriu. – E olha que eu cheguei agora. E se você tá vivo de novo, pode me agradecer.
Segurei meus joelhos. Aquele mundo a minha volta não tinha graça. Não tinha uma motivação e algo para lutar. Tudo estava cinza, sem graça alguma. Tinha vontade de sair correndo, ir para o mais longe possível. As lágrimas começaram a escorrer e Rivera caminhou até mim, tinha nas mãos um copo com suco de laranja e não trazia um sorriso, ela também não estava bem.
— Chorando de novo herói? – ela me entregou o copo. – Yves não vai ficar nenhum pouquinho orgulhosa quando voltar e te ver assim. Ela não quer que você fique chorando igual a um bebê, desculpa, mas eu vou ter que assumir o papel dela em te mandar a real. Ela ia querer que você fosse atrás dela, que lutasse para impedir aqueles monstros. Yves detesta pessoas fracas que não fazem nada, aposto que ela não quer que você vire um. Deve lutar contra essa dor e trazê-la de volta. Nós vamos te ajudar nisso. Tenha certeza.
Bebi o suco e encarei os olhos azuis de Rivera. Ela não sorriu, nem deu em cima de mim. Era o jeito dela com quem era amigo de verdade. A invocadora de sereias bateu em meu joelho e amarrou o cabelo, em seguida se levantou.
— Agora levanta daí bebê chorão, vem treinar seu poder, Collins está lá embaixo com o Murphy. Perdemos Delaware temporariamente, não que fique parado também.
Levantei do chão e um barulho ecoou por toda casa. O copo que segurava caiu no chão, quebrando-se e ficando em pedacinhos. O vento fez uma das janelas se abrirem. A escuridão lá de fora se misturava com a chuva e o vento. O tipo de dia que o melhor a fazer é dormir e não acordar mais, considerando tudo o que estava acontecendo nos últimos dias.
— O que foi isso? – Corea se levantou e correu para a porta.
O estrondo vinha do lado de fora da casa, como se algo quisesse entrar no nosso território. Em questão de segundos todos estavam descendo as escadas do casarão, um trânsito horrível.
Gillis atravessou a multidão. Abriu a porta e Rhodes se colocou do seu lado. Todos com o olhar curioso. Ninguém entendia direito o que estava acontecendo. O senhor do casarão segurou firme seu cajado com as duas mãos, ele estava nervoso. Entrou na chuva e Gillis o seguiu, Gaspar foi logo atrás. O resto ficou na varanda e nas janelas. Todos curiosos querendo saber o que estava acontecendo, mas o medo de ser algo perigoso nos impedia de ir lá fora.
Rhodes havia criado um escudo em volta da casa, para impedir que coisas ruins nos atingissem. Se fosse algo realmente perigoso, não conseguiria chegar até o portão, mas havia alguém lá. Uma pessoa que queria entrar, alguém desesperado. Segundo Rhodes o escudo abrangia um quilômetro em volta da casa e que a parte de maior segurança era no portão, onde somente uma pessoa que nos conhece e estivesse de mente esperançosa poderia chegar. Se fosse alguém querendo agir de má fé, com certeza já teria morrido.
Caminhei até a metade do caminho. Queria ver de perto o que estava para acontecer e eu não queria me esconder. Rivera estava certa, Yves não iria querer que eu agisse assim. Os pingos da chuva deixaram minhas roupas grudentas e minha visão não era perfeita.
Não conseguia entender o que estava acontecendo. Rhodes parou em frente ao portão. Não abriu, nem reagiu com alguma magia, parecia perplexo. Gaspar olhou para nós com receio, como se tivesse uma péssima notícia para dar. Mas o mais confuso era a reação de Gillis, ele estava parado, olhando para todos os lados e sorrindo. Tinha que fazer algo para entender mais, fui até eles com passos lentos. E ali estava o que eu nunca iria esperar. Eudora Dark.
A invocadora de bruxas parecia estar chorando. Seus olhos estavam vermelhos e pela primeira vez brilhavam. Parecia mais humana, parecia sentir dor. Não conseguia compreender o que estava acontecendo. Aquilo era estranho e incomum. Era surreal.
— O que tá fazendo aqui? – Gillis tampou a própria boca e suspirou, ele não acreditava e provavelmente era o único feliz ali.
— Eu fugi. – sua voz era embargada pelo choro, estava rouca e temerosa. – Cansei de tudo isso.
— Não acreditamos em você. – disse Gaspar.
Rhodes olhou para Gaspar com olhar de reprovação. Ele queria saber mais. Eudora poderia muito bem estar mentindo tudo aquilo, mas não havia magia que chegasse até ali, se ela estava naquele portão, era porque estava agindo verdadeiramente. Rhodes era o senhor do casarão, seu dever era proteger tudo a volta e não iria falhar nisso, de novo não.
— O que houve? – Gillis perguntou. – O que tá fazendo aqui?
— Eu posso explicar tudo. – Eudora limpou as lágrimas, ela com toda certeza não estava bem. – Não quero machucar vocês, eu cansei de ser uma marionete para elas. Quando conheci vocês comecei a conhecer eu mesma de novo. Não matei vocês aquele dia porque não deixariam, mas sim porque não conseguia, algo me impedia. E agora eu posso ver muito bem isso. Vou contar tudo a vocês, desde o início.
Rhodes olhou nos olhos da invocadora. Não era nenhum feitiço para hipnotizar. Os olhos de Eudora continuavam negros, mas eram humanos, brilhantes e cheios de tristeza. Ela queria ajuda, ela precisava de nós. Poderia ser uma grande aliada.
Entrei na frente dos três invocadores e Drácula veio até nós. Ele queria saber o que estava acontecendo e não era medroso como os outros.
— Abra o portão para a garota. – disse Drácula. – Dê uma chance a garota, ela está dizendo a verdade. Ninguém mente para um vampiro.
Rhodes abriu o portão e Eudora entrou. Dali de fora era possível escutar o cochicho dos outros. Era um receio de algo acontecer novamente, mas ninguém questionaria Drácula, sua palavra era lei.
— Não estou aqui para fazer mal. – ela abaixou a cabeça e limpou os olhos que insistiam em derramar lágrimas. – Estou aqui porque cansei de viver na ilusão, preciso de abrigo, não tenho nenhum lugar para ir, só vocês. E eu posso ajudar.
— De que jeito? – perguntei já pensando em Yves.
— Eu posso explicar tudo. – ela veio até mim. – Tudo que está acontecendo, mas precisa acreditar em mim, porque foi você, a sua dor, a de todo mundo, que me fez abrir os olhos.
Entramos no casarão e todos abriram espaço para nós estrarmos. Trataram Eudora como se ela fosse um ídolo ou uma leprosa, abriram espaço e a fitavam. Olhos arregalados e cheios de julgamentos. Ela entendia aquilo, ela era do mal, não uma aliada. Mas ali estava ela se redimindo. Não como uma prisioneira, mas como protegida de Drácula. E ninguém nunca esperaria aquilo.
Fomos até a sala de estar. Todos caminhando em fila, querendo saber logo o que estava para acontecer. Drácula abriu a porta e escolheu a dedo quem poderia entrar lá. Rhodes, Gillis, Rivera, Jasper, Charlotte, Hank e eu entramos. O vampiro entrou e trancou a porta. Com toda certeza o resto se aglomerou atrás da porta, cheios de curiosidade.
Cada um sentou em um canto. Perto da janela, podia olhar nos olhos da invocadora, para mim ela não poderia mentir também. Sentada no sofá ao lado de Gillis, ela começou a chorar novamente. Aquilo não estava ajudando.
— Fique calma. – Drácula pediu. – Conte por onde achar melhor. Precisamos de tudo, tudo mesmo.
Ela ergueu os olhos para o vampiro, ele assentiu e ela limpou mais uma vez os olhos. Aquela dor já estava irritando, mas eu me sentia da mesma forma que ela.
— Eu não conheci meus pais. – Eudora começou. – Eles desapareceram misteriosamente quando eu nasci. Imediatamente fui adotada pela única tia viva. Eu não lembro direito. – ela fechou os punhos. – Quando fiz um ano, o marido dela morreu e o bebê que ela esperava também. Ela cuidava apenas de mim, se dedicava somente a mim. Não consigo nem lembrar como ela era. Os vizinhos começaram a morrer misteriosamente, eu li no jornal que as outras invocadoras me mostraram depois com dez anos. Nós mudávamos constantemente por conta disso. Com quatro anos, foi a vez dela morrer. E eu fiquei sozinha, chorando no escuro. Até que depois de dois dias, descobriram que ela havia morrido e me levaram para um orfanato. Lá as outras crianças se aproximavam de mim, mas depois de um mês ou menos, elas apareciam doentes e morriam em questão de dois dias. E foi desse jeito. Ninguém queria me adotar. Eu era branquela e esquelética, sempre tive aparência de muito doente e em parte foi pela dor que eu sentia. Eu era sozinha. Eu perdi todo mundo que eu amava. Eu via todos morrendo todos os dias.
Eudora ficou em silêncio. Charlote havia passado pelo mesmo que ela. A nova invocadora estava no canto, se fazendo de forte e tentando não se identificar. O caso de Eudora era pior, ela não cresceu em uma família, viveu sendo rejeitada.
— Você falou algo parecido para mim quando Yves foi embora. – falei.
— Eu vi todos morrendo sem poder fazer nada. – Eudora segurava o choro, ela já não aguentava mais. – Até que um dia, aos oito anos, aconteceu uma coisa no orfanato. Todos morreram a noite, até hoje não sei o que foi, procurei não saber. Aquilo poderia me machucar mais e as invocadoras não queriam que eu me lembrasse da dor, isso poderia me tirar do caminho escuro. Foi naquela noite que duas invocadoras chegaram e me levaram com elas. No dia interior eu não me lembrava do que havia acontecido. Elas me treinaram, me ensinaram magia, aumentaram minha resistência a venenos e me transformaram numa pessoa cruel. Eu me tornei melhor que as duas. Um dia, que segundo elas eu estava pronta, foi a minha invocação para o meio das bruxas. E lá eu vi o caos, eu vi o fogo negro, foi naquele dia que meus sentimentos morreram e me tornei verdadeiramente uma marionete.
A invocadora de bruxas olhou para Drácula. Ele assentiu para ela prosseguir. Lembrar de como era o mundo das bruxas não era útil, pelo menos não agora.
— Comecei a receber missões e participar de rituais com todas as invocadoras. E são muitas, estão em todos os lugares do mundo. É horrível. Elas matam, se divertem e se fortalecem com a dor alheia. E eu era como elas, cresci desse jeito e esqueci completamente como era antes. Isso era até bom. Com dezesseis anos minha missão foi maior. Tive que me infiltrar aqui na Sociedade Rubi para atrasá-los, implantar o caos, o medo, ser uma espiã para elas. Só que em vez de corrompê-los, vocês me corromperam. Aos poucos. – ela abaixou a cabeça, estava com vergonha. – Eu vi a união de vocês. Eu criei uma amizade com Gillis e Hiden, só que elas estavam sempre de olho em mim, deram um jeito de matar Gillis e me obrigaram a levar Hiden para o sacrifício. E eu reagi mal durante o ritual, fiquei desesperada. Por conta disso, elas escolheram que eu deveria matar vocês, voltar na forma de Hiden. Só que eu não consegui. – Eudora ergueu o olhar para Rhodes. – Desculpe pelo casarão, era o mínimo que eu poderia fazer, elas queriam que eu matasse vocês. Eu não era capaz. Se eu não tivesse congelado vocês temporariamente lá embaixo, as aranhas iam comê-los assim que fossem soltos. O que fiz foi protegê-los, criei um escudo de sono em vocês. As aranhas não te enxergariam por oito minutos.
— Valeu. – disse Rivera com sarcasmo.
Eudora tentou sorrir, mas aqueles olhos inchados não ajudavam nenhum pouco. Drácula observou calado. Ele queria saber mais, estava absorvendo cada palavra, assim como Yves agia.
— Depois disso eu voltei e elas me castigaram pela falha. – Eudora virou de costas e segurou o cabelo que tampava as costas parcialmente nuas, nela estavam cicatrizes de chicotadas. – Elas me chicotearam e me jogaram feitiços de tortura, para eu aprender a ser menos emocional e mais forte. Mas isso não ajuda em nada. Depois disso fomos buscar Charlotte, eu estava possuída pelo feitiço e agi como elas queriam. É horrível, eu não queria lutar, mas eu não mandava em mim mesma. Até que chegou o dia de abrir o portal. Eu não mandava em meus atos, mas no meu pensamento sim. E eu queria ir embora, era só isso que eu queria. Com toda aquela dor, eu comecei a despertar sobre o que estava acontecendo comigo. Lembrei de todos morrendo, lembrei do medo que as pessoas tinham de mim. Elas retiraram o feitiço de mim e eu fingi ser obediente a elas. E foi aí que eu decidi ajudar vocês.
— Nos atacar não é ajudar. – disse Hank no outro canto. – Matar nossos invocadores de longe não é ajudar. Tem noção do que diz?
— Tenho. – ela respondeu.
— Foi uma pergunta retórica. – disse Hank. – Mas explique então.
— Eu sabia que Hooper era um canal entre nós, ele recebe ameaças das bruxas e das invocadoras as vezes. Consegui descobrir como falar com ele e eu mandei a mensagem do plano que as bruxas passaram para as invocadoras de damas da noite. A mensagem que você Hooper, recebeu sobre as criaturas do caos foi eu que mandei. E queria mostrar a vocês o que iam enfrentar. Logo em seguida eu cortei a conexão definitivamente. Nunca mais você vai escutar as bruxas, com esse canal elas também podiam sugar sua vitalidade e eu sabia que a bruxa da inveja poderia fazer isso.
— Valeu. – assenti, mesmo sem entender direito, queria saber logo sobre Yves.
— Elas não descobriram e fomos abrir o portal quando a lua ficou vermelha. Eu lutei contra você Hooper, porque eu não seria capaz de machucá-lo e sabia que você era páreo contra mim. Eu quase contei a você tudo, mas não acreditaria em mim, eu tinha medo daquelas bruxas, tinha medo delas me castigarem então quando todos foram tomados pelo ódio o medo sumiu. A dor tomou conta de mim e notei que eu também tinha ódio, ódio de ser invocadora de damas da noite. Eu vi seu sofrimento Hooper, eu vi a dor de cada um de vocês. Assim como vocês nascem com dons, nós também nascemos e eu posso enxergar o interior das pessoas. E isso me mudou. Depois as bruxas foram abrir outro portal. E a gula saiu e matou várias pessoas, dilaceraram corpos, mancharam as ruas com sangue e implantaram o medo. Os humanos estão em perigo, agora eles sabem. Estão todos perdidos. E eu quero ajudar.
— Como pode provar? – Charlotte perguntou. – Eles não podem sofrer como nós sofremos. O que vai fazer?
— Eu sei quem pode quebrar o feitiço que a Inveja fez. – disse Eudora. – Precisam acreditar em mim e ir atrás das videntes incas. Nós não temos tempo, o próximo portal logo será aberto. Três dias no máximo.
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