A Sociedade Rubi
12 Inferno escolar
Notas iniciais
Eram seis horas da manhã. Estava frio e meu nariz congelava. E eu deveria estar na cama, pelo menos se tivesse uma vida normal. Mas não queria tê-la, acredite. A pior parte é que saber a verdade, a realidade, não muda muito as coisas. Agora eu teria que retornar a escola.
Lá estava eu. Sentado na minha cama, olhando para o espelho, esperando alguém bater na porta. Para adiantar as coisas eu já havia até dormido de roupa normal.
Levantei da cama por conta do tédio e do nervosismo. No corredor estava Gillis e ele não parecia feliz.
– O que houve? – perguntei.
– Pergunte para Doc. – Gillis respondeu.
Doc caminhou até nós logo após fechar a porta do quarto vagarosamente. Ele parecia que tinha tido uma ótima noite de sono, diferente de Gillis.
– O que houve? – perguntei para Doc.
– Jasper não quis dividir o quarto com ninguém, eu já divido com Gillis, o quarto é grande, aceitei que Hiden e Murphy dormissem lá.
– É como numa república infernal! – Gillis parecia apavorado. – Como numa excursão de colégio. Tem cheiro de cueca usada e colônia de mercado.
– Eu gosto de repúblicas. – disse Doc.
– Depois sou eu que tenho problemas. – disse Gillis.
Descemos as escadas. Doc e Gillis continuavam discutindo. Era divertido. Gillis mostrava cada vez mais que não era um idiota estranho, mas sim um cara legal e comum. Já Doc mostrava o quanto era estranho e inteligente. Os dois meio que se completavam e a graça era exatamente essa.
Yves caminhou até nós, mordia uma maça e segurava outra. Ela mordia junto de um sorriso. E com aquele sorriso ela me jogou a maça. Gillis e Doc olharam para nós tentando compreender.
– E para nós? – eles perguntaram.
– Tem mais lá dentro. – Yves respondeu. – Peguem antes que os outros peguem.
Os dois correram para cozinha, enquanto Yves e eu sentamos no chão, lado a lado e comendo maças. A boca dela se abria e ela mordia rapidamente.
– Lembrou-se de mais alguma coisa? – ela perguntou.
– Não. – respondi. – Tenho algo para lembrar hoje?
– Bom, hoje vamos voltar para o colegial. – Yves riu. – Tem muita coisa para lembrar Hooper.
– Ontem me chamou de Hoo. – sorri.
– Desvios de palavras. – ela retribuiu o sorriso. – E também te chamei de curioso. Mas nada disso vem ao caso. Vamos voltar para o colégio, com pessoas superficiais e mentirosas. Estávamos muito bem não fazendo parte daquele mundinho. Mas fazer o que? É a vida.
Ela deu outra mordida e eu apenas a observei. Era estranho olhar para uma garota daquele jeito, ainda mais para Yves. Ao mesmo tempo em que ela parecia estranha, parecia também que conhecia há anos. E era a verdade, eu apenas não me recordava.
Rhodes desceu as escadas e nos entregou as mochilas. Meus olhos se arregalaram quando notei algo que nunca pensei. Eram de couro e idênticas. Olhei para Yves, ela também estava surpresa.
– Não acredito. – ela sorriu e se levantou para pegar. – São iguais. Realmente iguais.
– Eu lembro. – olhei para Yves e ela sorriu.
– Ótimo passo. – ela bateu nas minhas costas e colocou a mochila nas costas. – E o dia começou bem! – ela saiu andando.
O invocador olhou para mim e sorriu. Sabia muito bem o que ele estava pensando, qualquer um poderia saber.
– É a mochila de vocês. – disse Rhodes. – Sempre resgatamos algo dos invocadores durante o incêndio, bom, não resgatamos, mas o que sobra nós recolhemos. E o mais engraçado é que os mesmos objetos sobreviveram as chamas.
– Como um sinal? – perguntei.
– Como um amuleto. – ele sorriu e saiu andando.
Abri a mochila e encontrei um pequeno bilhete no fundo da mochila. Um bilhete que eu não me recordava de estar ali. Peguei e o abri. Respirei fundo. Eu me lembrava.
“Hooper, curioso ou Hoo,
Venha na minha casa, precisa ver uma coisa aqui. Acho que é do seu interesse. Senhor da fantasia...
Yves, a garota”.
Li o bilhete mais duas vezes. Era difícil acreditar que eu recordava aquilo. Limpei os olhos. Era o primeiro bilhete que Yves havia me entregado e aquele bilhete veio depois de uma longa conversa no recreio.
Yves veio correndo. Ela sorria e parecia ter previsto que eu segurava aquele bilhete. Arrancou-o de minhas mãos e sorriu feito uma criança, mas aquele sorriso sumiu quando Jasper decidiu que era hora de ir para o inferno escolar.
Os outros invocadores saíram da casa, assim como nós. Todos usavam preto e a cor da pedra preciosa de sua sociedade. As mochilas eram diferentes e com amuletos, principalmente a de Delaware.
– Ei pessoal. – disse Jasper querendo atenção de todos. – São sete adolescentes, portanto não dá pra ir de carro. Vamos de Kombi.
– Eu também vou. – disse Doc.
– Você já é formado Doc. – disse Jasper.
– Considere então que tenho dezoito anos e estou no terceiro ano.
Descemos o leve morro e do outro lado do portão estava a Kombi. Era negra e com os vidros pretos. Jasper era o motorista oficial, sentou no banco do motorista e não parecia muito feliz.
– Espero que gostem do inferno. – ele disse enquanto entrávamos. – Porque vocês sabem o que a escola é exatamente isso.
Doc e Gillis tiveram que ser separados. Ainda implicavam entre si e ninguém tinha capacidade de promover paz entre eles. Yves e eu sentamos juntos e Delaware comentava algo com Hiden. Enquanto Rivera se sentou do lado de Jasper. Murphy ouvia música através dos fones, não parecia nem estar ali.
Seguimos pela estrada e as árvores pareciam mais escuras. E não era o tempo ou as coisas ruins que estavam despertando. Era apenas o deslizar das rodas para um colégio. O veículo seguiu pela estrada até chegar na cidade. E eu havia caminhado por aquelas ruas. Havia vivido ali com a minha família. Olhei para Yves e ela ainda segurava o bilhete.
– Você foi na minha casa nesse dia. – ela falou.
– E o que me mostrou? – perguntei.
– Um livro de recortes que eu fiz. – Yves respondeu rindo. – Era sobre criaturas fantásticas. E nossa, você não sabe, mas todas aquelas imagens eu acabei descobrindo que eram reais. Todas aquelas criaturas existem. E eu quase virei um lacaio cinza, só não virei porque meu destino era ser invocadora.
Sorri para Yves e ela retribuiu. Ela sorria mais e parecia feliz. E a culpa era minha e eu me sentia cada vez melhor com isso.
Jasper estacionou a Kombi. Lá estávamos nós. Descendo de uma Kombi enfrente a um colégio. Muro alto e um portão cinzento onde um velho tomava conta. Dava para ver as árvores do pátio e pequenas partes do prédio. E dava para escutar muito bem a falação, estava na hora da fila para a entrada.
– Grande hora para os estranhos chegarem. – Rivera sorriu e deu o primeiro passo contra o portão. – Eu amo esses momentos!
Caminhamos até o portão e eu me assustei quando o velho não me reconheceu. Ele era o senhor que sempre abria o portão para mim, independente se podia ou não.
– Novos alunos? – o velho perguntou.
– Sou chefe da república. – disse Jasper. – Essa galera resolveu estudar aqui.
– Bem-vindos ao colégio. – ele não parecia mais o mesmo.
Abriu o portão e nós o cruzamos. Passos calculados e bem pensados. Se era uma chegada chocante que Rivera desejava, havia conseguido. Subimos a rampa e chocamos contra os outros alunos. E eram figuras coloridas e falantes que de repente ficaram em silêncio, com todos os olhares voltados para nós.
– Você conseguiu. – disse Gillis.
– Eu sempre consigo. – Rivera sorriu e deu mais uma vez o primeiro passo. – É um dom natural.
Rhodes havia explicado na noite anterior em que turma cada um de nós ficaria. Gillis no primeiro ano. Delaware e Murphy no segundo. Doc, Rivera, Hiden, Yves e eu no terceiro.
Caminhamos para as filas e todos ainda nos observavam. Até mesmo a coordenadora que estava a frente, e aquela figura eu nunca havia visto antes.
As filas andaram e nós entramos para as salas. Como num passe de mágica as primeiras cadeiras das cinco filas estavam vazias, esperando por nós. Sentei ao lado de Yves, que sentava perto da parede, do meu lado estava Doc, do de Doc estava Rivera e de Rivera estava Hiden.
– Começamos como? – perguntei.
– Reconstruindo o conhecimento e os conceitos desse inferno. – disse Doc.
Olhei para trás e lá estavam os humanos normais. E eu conhecia aquelas pessoas, cada uma delas e não era amigo de nenhum, apenas de um nerd que estava sentado no fundo.
Uma bolinha de papel veio de encontro com a cabeça de Hiden. Ele virou o rosto e observou a pessoa. Era Nicholas, o armário que havia repetido três vezes o terceiro ano.
– Sejam bem-vindos estranhos. – ele riu e Hiden se levantou.
– Mais uma bolinha e te faço querer não ter repetido nunca. – disse Hiden.
– Como sabe que eu repeti? – Nicholas perguntou.
– Um homem de barba e desse tamanho só pode ter repetido. – o invocador oriental se sentou novamente e os olhares ainda estavam voltados para nós.
O professor de matemática entrou na sala. Tinha cabelos brancos e era corcunda. O livro que carregava nos braços foi jogado em cima da mesa. Seu nome era Caim, mas como todos os professores, gostava que fosse chamado apenas por Sr. Gram. Era aquele velho que havia me expulsado de sala várias vezes, só porque minha irmã havia quebrado a janela de sua casa com uma bola. E assim como todo mundo, ele não se lembrava de mim.
– Crianças, temos novos alunos na sala. – disse Sr. Gram. – Desejo uma boa chegada e que sigam as regras. Pois eu não admito erros e falta de disciplina.
Nos entreolhamos e nos olhares tínhamos a certeza. Era um péssimo começo e o velho não havia mudado em nada.
As horas passaram e no recreio tivemos que lidar com uma fila enorme. Sentamos no chão por causa do espaço e lembramos o quanto aquele mundo não havia mudado. As pessoas que passavam olhavam para nós e comentavam algo. Ser invocador não mudava quem éramos, as pessoas continuavam nos vendo como estranhos.
As aulas não acrescentavam em nada e Doc sibilava para si mesmo tudo que os professores diziam e que estava errado. Concluindo que voltar a escola não nos acrescentaria em nada. Numa das aulas fomos para a biblioteca. A bibliotecária era amiga de minha mãe, ela não me reconhecia, mas por alguma razão ela não desgrudava os olhos de nós.
– Ela não tira os olhos de nós. – disse Rivera. – O que está acontecendo?
– Eu não sei. – falei. – Acha que há algo de errado?
– Não. – Yves respondeu. – Somos alunos novos, só isso.
O sinal bateu e era hora de sairmos. Descemos as escadas e chegamos ao portão. Ritmo lento, calmo, por mais que esperássemos muito aquela hora. Mas num certo momento hesitei e todos continuaram andando.
– Hooper Johnson. – quem havia falado meu nome era a bibliotecária, Abbey.
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