A Sociedade Rubi
34 A maior das criaturas
Notas iniciais
Dragões: lagartos gigantes que cospem fogo, causam terremotos e devastam vilarejos. Não. Eles são mais do que isso. Há várias raças de dragões. A maioria está na Ásia, onde são frequentes os casos de terremotos, mas nós sabemos, são os dragões. Alguns incêndios naturais pelo mundo também são causados por eles. Assim como os furacões. São de vários tamanhos. Pequenos, médios, grandes, gigantescos. Mas há uma única palavra que consegue descrevê-los perfeitamente, sem exceção: perigosos.
Todos nós fomos para o porão da casa, a nova base dos invocadores de vampiros. Rhodes estava nervoso e Gaspar estava o ajudando. Não tínhamos mais lacaios cinza, todos haviam morrido no ataque das aranhas. Mc Duu também foi uma das vítimas.
– Primeiro sinal. – disse Hank. – Agora as coisas estão ruins de verdade.
– Que droga! – disse Delaware. – Logo agora que perdemos Hiden.
– Vocês ainda me têm. – Corea sorriu. – Sou a invocadora híbrida, esqueceram-se disso?
Esboçamos um sorriso. Era engraçado, mesmo estando naquela situação, naquela tensão absurda. Corea sempre deixava uma sensação boa, o que ali era útil.
Todos os invocadores e cavaleiros estavam vestindo armaduras sobre as roupas. Peitorais de metal, joelheiras e protetores de cotovelos. E claro, um elmo, só que mais leve e protegendo o queixo com uma espuma.
Os cavaleiros colocaram suas espadas na cintura, alguns pegaram cordas também, que segundo Corea era desperdício. Delaware se armou com duas pistolas na cintura, segundo ela era muito melhor do que a espada. Jasper pegou seu arco e colocou as flechas na bolsa que estava nas costas. Em seguida Corea foi distribuindo as mesmas armas que usamos anteriormente e a novidade eram correntes de ferro e escudo.
– Dragões são seres fortes, simples cordas não podem segurá-los. – Corea não perdia uma única chance de mostrar aos cavaleiros do obscuro que ela conhecia mais sobre o mundo real. – Não estão lidando com monstros comuns. Vamos lidar com os lagartos do céu.
– E você já lidou com um? – Lucinda a provocou.
– Está no meu sangue, queridinha. – Corea respondeu com um sorriso. – Isso já diz tudo.
Depois de nos armarmos, Rhodes nos entregou comunicadores. Segundo ele, era importante ter comunicação com todos. O senhor do casarão estava visivelmente nervoso, era um efeito dominador e devastador.
– Invocadores. – Rhodes tinha o olha apreensivo. – Sinto em lhes informar, mas não tenho dados sobre o dragão que estamos lidando, apenas sei que é de grande porte, agradeçam por não ser dos gigantes.
– Algum plano? – Doc perguntou.
– Temos sim. – disse Hank caminhando até o lado de Rhodes, de frente para nós. – A ideia base é imobilizar o animal com as correntes de ferro. É um dragão certo, a maioria tem ligação com fogo, o cuspindo, então o guiaremos para um lago, com fim de deixá-lo mais fraco. Rhodes já avisou a Sociedade Esmeralda, é questão de tempo até eles chegarem com a esfera dos dragões. Enquanto isso nós devemos imobilizá-lo, é o que os invocadores de dragões nos disseram para fazer.
A marcha era pesada. Era como caminhar para a morte. Estávamos sentindo o peso. As primeiras batalhas. Essa já era a terceira. Na primeira luta perdemos Gillis, na segunda luta perdemos nossa casa. E agora? O que aconteceria?
Rhodes nos separou em grupos, sendo que ele e Otan que tomariam conta da casa. O primeiro grupo a sair era liderado por Hank. O segundo por Corea e lá estava eu, Rivera, Yves, Delaware, Doc, Jasper, Ramone, Hazel e outras pessoas. Dois grupos. O primeiro, o das pessoas mais valentes e o nosso, os despreparados. O grupo de Hank saiu e depois de quinze minutos, quando eles encontraram o dragão, nos chamaram para ir. Era necessário o reforço incapaz.
A lua vermelha no céu. A noite escura e o vento quente.
– Sabem o motivo do vento quente? – Corea perguntou e todos negaram. – Hálito quente, de fogo. É um dragão de fogo sim.
Nossa visão era perfeita no escuro, um dos benefícios de ser invocador de vampiro. O pior era sentir que algo realmente grande estava por vir. Em um dia sua casa pega fogo e você vira órfão, no outro, você está marchando para capturar um dragão. Obrigado Drácula. Pelo menos eu sei a verdade.
O estrondo das patas do dragão chocando o chão provocou o primeiro tremor de terra. O que fez Corea fazer uma careta. Ela não parecia mais tão corajosa, mas era melhor que todos ali. Sem dúvida.
– Vai ter tsunami em algum lugar. – disse Corea.
Nossas armas estavam prontas para qualquer coisa. A corrente de ferro estava na cintura e o escudo preso no braço. Ele tinha um mecanismo, algum tipo de magia, que o ativava quando algo estava se aproximando.
Ali estávamos nós. Pouco menos de quinhentos metros de um dragão. Era impossível ignorar aquela criatura. O imenso reptiliano tinha o couro dourado e marrom, translúcido por conta da luz vermelha da lua. Nas patas as garras imensas e afiadas chamavam atenção. O imenso rabo possuía uma espécie de garra. As asas eram enormes, possuía marcas de queimado nas bordas e estavam recuadas. Na cabeça havia quatro chifres, sendo os dois maiores na frente e curvados para a mesma. Os olhos eram brancos e brilhavam intensamente, por mais que parecessem vazios, a pupila contraída dizia uma única coisa: ele estava irritado.
Escondemo-nos atrás de um arbusto e ficamos a espreita. O outro grupo estava na mesma situação, mas um pouco mais a frente. Naquele momento não podíamos deixar ele nos perceber. Mas era difícil nos esconder de uma criatura de quatorze metros e meio com os sentidos perfeitos. Tínhamos a certeza de que qualquer movimento nos colocaria em risco. Então nos mantemos imóveis, pensando em como agir.
Vagarosamente o grupo que estava a frente recuou. Todos estavam com expressões de medo e confusão. Era difícil dizer quem estava melhor ali. Talvez continuasse sendo Corea, mas Hank também estava calmo. Recuamos um pouco mais e colocamos alguns cavaleiros como guardas, prontos para avisarem quando algo acontecesse.
– O lago não fica muito longe daqui. – disse Hank. – Vamos ter que levá-lo até lá e temos que mantê-lo no chão, se ele voar provavelmente não irá para onde queremos. Precisamos de algo para atraí-lo.
– Lanternas. – disse Corea. – Seis pessoas na frente podem atraí-lo para o lago, os outros vão pelo outro caminho e pode esperar ele lá, com as armas prontas.
– Parece uma boa ideia. – disse Hank. – Faz sentido Corea.
– Híbrida, esqueceu? – ela sorriu com confiança. – Precisamos de pessoas ágeis com as lanternas, então precisamos dos nossos invocadores mais ágeis e com transformação parcial. Pensei em você Hank, Jasper, Jules, Pierre, Gaspar e eu. Somos mais experientes se pensar bem. Nós nos invocamos mais vezes e somos mais rápidos, se algo der errado conseguimos escapar rapidamente.
– Não podemos enrolar. – disse Jasper sorrindo pelo canto dos lábios, ali estava o cara com a confiança arrogante.
Corea entregou as lanternas aos invocadores. Eles esperariam um pouco para agirem, nós tínhamos que chegar primeiro no lago e nos preparar pelo o que estava por vir.
Saímos dali com a marcha leve e rápida. Totalmente apressados. Agora quem liderava o grupo era Arthur, um dos invocadores mais sombrios dali. Rapidamente chegamos ao lago. Era menor do que o da outra cidade, espero que tudo acabe bem.
Distribuímo-nos lado a lado, a frente do lago e prontos para prender o dragão. Era só esperar. As correntes de ferro estavam prontas pelo o que estava por vir.
O vento ficou mais forte. Estava chegando a hora. Ali. Preparados para o que estava por vir. Um dragão gigantesco que cuspia fogo. Se esse era grande não quero nem ver o gigante.
O ar quente que vinha pela frente era imaginável, mas uma sensação terrível me atingiu. Olhei para o céu. Vermelha. Olhei para o chão. Estava tremendo levemente. Olhei para o lago e de lá um monstro saiu. Um segundo dragão não esperado.
Tinha o corpo como o de uma serpente. Um dragão chinês em terras americanas. Não era possível. Mentira. Tudo era possível com a dimensão desiquilibrada. O couro era esverdeado com traços azuis, mas com a luz da lua de sangue na fase crescente, ele tinha traços vermelhos. Suas pernas eram curtas. Tinha quatro asas, o que de fato não parecia normal. Não tinha chifres, mas uma coisa nos assombrava naquela cabeça, não os dentes, mas os olhos negros e opacos. Fechei os punhos. De novo. Era um dragão dos grandes e estava dominado.
– Por Drácula. – Yves estava pasma. – Só pode ser um pesadelo.
– Não é não. – disse Rivera. – Estamos fodidos mesmo.
– Sempre há esperança. – Arthur gritou. – Esse parece ser muito mais perigoso que o outro.
Era voava no céu em círculos. Como se estivesse criando uma forma de nos atacar. Dominado. Isso não era bom. Sem dúvida ele ia nos atacar. A sorte era que Arthur sabia muito bem disso.
– Vamos imobilizar essa gracinha. – Doc estava maravilhado e com medo ao mesmo tempo.
Corea e os invocadores chegaram, o outro dragão também. E agora? O que podíamos fazer? Tudo estava dando errado. Era o efeito daquela maldita lua no céu. Fechei os olhos. Decisões precisavam ser tomadas.
Assim que o dragão serpente viu o outro dragão ele teve uma reação imediata. O dragão verde voou contra o dragão amarelado, se enroscando no corpo do dragão. Em seguida os dois caíram dentro do lago, gerando uma onda para fora deste. Saltamos em puro instinto para os lados. Alguns cavaleiros do obscuro foram arrastados pela água, mas logo retornaram.
– O que vamos fazer? – Jasper havia perdido o elmo.
– Prender essas criaturas. – disse Hank com convicção.
Os dois dragões duelavam entre si. Ferozmente. Nenhum elemento cruzava o céu. O dragão dourado tentava acertar a cauda na serpente voadora, mas era impossível. O chinês esquivava perfeitamente bem. Mas visivelmente ele estava em desvantagem por conta do corpo.
– Um deles está dominado. – falei. – Temos que fazer algo urgentemente.
– Entrar na briga não vai ajudar. – disse Gaspar. – Vai piorar mais.
– Então o que vamos fazer? – Yves perguntou.
– Tentar imobilizar os dois. – Corea respondeu então preparava novamente sua corrente.
A invocadora tocou em seu rubi. Ela iria fazer uma invocação parcial, mas o que pediria? As borboletas de fogo não apareceram, em seu lugar estavam grilos de vento. Saltavam em volta da invocadora híbrida, dando à Corea um par de asas draconianas, a envergadura era duas vezes maior que ela.
Coragem não sobrava em Corea. Destemida, abusada e cheia de atitude. Era louca, sem dúvida, todos os dias ela provava isso. Enfrentar a morte era parte de seu cotidiano. E ali estava ela, enfrentando as criaturas que seu pai enfrentava antes de morrer para ela ser uma invocadora de vampiros.
Corea alçou voo, de frente para as criaturas, mas também mantendo uma distância. Balançou a corrente e suspirou. Olhou para nós. Ela não gostava de agir em equipe, gostava de ser sempre a primeira. Correndo riscos sempre.
A invocadora lançou a corrente tentando lançar o dragão chinês e com toda a certeza Corea tinha uma mira perfeita. Prendeu a criatura, mas esta resistiu. O dragão voou até seu oponente, tentando se soltar. Corea não desistiu e puxou mais. O dragão dominado rugiu, se aproximando mais do dragão dourado que também rugiu, parecia naquele momento hipnotizado.
– Isso não é bom. – sussurrei.
Uma luminosidade estranha saiu da boca do dragão serpente. Era negro e com um brilho estranho. Era hipnotizante e deixava uma sensação ruim. Muito ruim. O medo.
Imediatamente o dragão ficou fraco e caiu no chão. A força que Corea fazia a fez cair no chão com grande impacto. Corremos até ela e Corea estava desacordada.
– Arthur e Doc, leve Corea para o casarão e voltem imediatamente. – Hank pediu. – Acho que algo pior está por vir.
Os dois invocadores levaram Corea. Ela ficaria bem, estava apenas desacordada. Naquele momento tínhamos um problema muito maior. Os olhos do enorme dragão ocidental agora tinham outra cor, outro aspecto. Negros, vazios e opacos. Os olhos de Eudora, das damas da noite.
O dragão avançou contra nós. De sua boca o foco selvagem saiu e saltamos para trás das árvores. Nossos escudos foram ativados. O perigo estava ali. Quente, feroz, mortífero. Fogo de dragão. O fogo que podia muito bem nos ferir.
Atrás da árvore e com o escudo ativado eu sabia que não estava protegido. Algo muito ruim de verdade estava por vir. Aquele dragão queria nossa morte, limpar o campo para as bruxas. Tínhamos que fazer algo. E tinha que ser imediatamente.
Fechei os olhos. Eu era o escolhido de Drácula. Senti um calafrio pelo corpo. A hora tinha chegado. Se alguém tinha que fazer algo era eu. Drácula havia dito e eu sabia que a hora havia chegado. Não estávamos mais na penumbra, mas sim na sombra. E era só o começo.
– O que vamos fazer? – Yves perguntou. – Ele é muito forte!
– Nós temos algo dentro de nós que é muito maior do que a força delas. – respondi. – Chegou a hora de fazer meu papel. Trazer minha forma vampírica a batalha.
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