A Sobrevivente
22 Ruivo: Passado e presente
Encontrava-me mais uma vez naquele campo de treinamento. Havia pegado meu cavalo pela manhã, e trotado por aí, a fim de espairecer. Mas nada adiantava o que me levou a fazer aquilo que aliviava um pouco tudo o que sentia, deixando toda a ira sair em meio aos golpes direcionados a pobre árvore, que sem dúvida não aguentaria muitos mais socos como os que estavam sendo dirigidos, mas eu tinha de descarregar tudo o que sentia, tudo aquilo que imploravam para ser libertado, e melhor que fosse a uma árvore do que em uma pessoa.
Assim que dei o último soco, que foi mais forte do que os anteriores, pude ouvir o estalo conhecido do osso se quebrando, havia fraturado um dos dedos novamente, o mesmo que não havia tido tempo de se curar completamente e dessa vez parecia ser mais grave, pois uma dor fina se entendeu pelo meu braço. Logo em seguida um som mais alto chamou minha atenção, o tronco da árvore que havia acabado de bater estava rachando ao meio, para cair segundos depois, mesmo possuindo um porte poderoso o som da queda foi abafado pela neve que cobria parcialmente o chão.
Sentia o sangue denso escorrer pelos ferimentos causados pelos socos, mas não me importava com isso, já estava acostumado a tal ação, era sempre a mesma coisa, sempre a mesma monotonia que dominava meus dias, desde a morte de meu pai, onde tive de assumir todas as responsabilidades pelo meu povo, claro que meus irmãos me ajudavam, mas no final, as decisões importantes, as que eu não queria ter de tomar sozinho, sobravam apenas para mim.
Fiquei parado por alguns momentos, sentindo a brisa se tornar mais forte e mais gélida, indicando que logo haveria mais uma nevasca, levantei a cabeça para os céus, a imensidão estava repleta por nuvens acinzentadas, não havia um único vestígio do sol, algo que me fez sorrir, afinal, gostava de dias assim, completamente nublados.
Estava prestes a me virar para voltar ao reino quando escuto o som de um galho se quebrar, pensando que se tratasse de um dos galhos da árvore recém-caída que estava a ceder com seu peso, demorei em dirigir meu olhar ao local exato, mas quando isso ocorreu, qual não foi minha surpresa a me deparar com olhos verdes esmeralda me encarando com certo receio e surpresa.
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Relâmpago estava exausto, não era de se admirar esse fato, estávamos a horas viajando sem parar nem ao menos alguns minutos, e a neve não estava ajudando em nada, já que ela dificultava a passagem que o meu fiel companheiro persistia em abrir ao meu comando.
Itachi demorou mais do que o necessário a me deixar seguir o caminho sem eles, parecia temer que assim que se distanciasse algo de horrível viria a me ocorrer, não admiraria se logo ele aparecesse atrás de mim, com alguma desculpa esfarrapada, tentando justificar sua preocupação, mas não acho que isso aconteceria, já que Konan o faria honrar sua palavra.
Havia desmontado a alguns metros, seguindo a pé, com Relâmpago logo atrás de mim, em busca de um bom lugar para descansar, quem sabe dormir um pouco, algo que eu realmente precisava no momento. Parei olhando a minha volta e vi relâmpago me observar, suspirei cansada, não havia nenhum lugar bom o bastante para ficar ali, meus sentidos estavam gritando o tempo todo, o menor som já me deixava em alerta total, isso que dava ser uma fugitiva de um reino poderoso.
Eu estava com medo. Sentia-me tão fraca ao admitir isso, que sentia meu coração se apertar dolorosamente, coloquei a mão sobre o relicário como se fizesse um pedido a ele para que aquela dor sumisse. Mas me surpreendi quando o meu pedido foi atendido, pois agora eu sentia uma imensa nostalgia.
Como fleches cenas de quando eu era criança passaram como um filme em minha cabeça, lembranças em borrões, algumas vezes nítidas, como a da minha mãe e meu pai, sentados em seus tronos, e eu pequena correndo em círculos pelo imenso salão, era uma cena tão clara que conseguia ouvir o sorriso calmo de minha mãe e o grave de meu pai com minha travessura de criança ao cair no chão e ralar de leve o joelho. Era tão estranho está ali era como se eu assistisse um filme, ao qual eu estava dentro dele. Lembranças que eu havia esquecido e que agora passava a vive-las novamente.
Num piscar de olhos eu me encontrava em outro local, estava em um lugar diferente, sabia que era um castelo, mas aquelas construções não pertenciam ao reino Haruno, muito menos ao Uchiha. Cada clã tinha sua própria arquitetura, o que as tonava únicas, apesar de não está reconhecendo a que me encontrava no momento, mas não podia negar que eu sentia a leve sensação de conforto, como se fosse um segundo lar.
Olhava para os lados freneticamente e os curtos cabelos rosados acompanham os movimentos de minha cabeça e às vezes as mechas caiam sobre meus olhos, o estranho era que não me encontrava assustada ou algo do gênero, e sim entusiasmada com algo, abri com dificuldade uma pesada porta que fez um barulho ensurdecedor, entrei em uma espécie de escritório, passei meus olhos por todo local e dei um suspiro desapontado, como se não tivesse conseguido alcançar meu objetivo.
Aproximei-me da mesa de madeira no centro da sala e foi grande meu susto quando um garoto um pouco mais velho do que eu surgiu em salto por trás da mesa, sabia que ele era mais velho, pois suas feições eram mais maduras e ele era bem mais alto.
O rapaz gargalhou com a expressão assustada nas feições do meu rosto, mas que logo se aliviaram ao reconhecer os cabelos ruivos que brilhavam conforme a luz que entrava na enorme janela atrás do mesmo, quando dei por me, o acompanhava naquele pequeno ato maravilhoso que era sorri.
Assustei-me e acordei de minha alucinação, voltando ao mundo real ao ouvir o som de uma árvore caindo próximo onde me encontrava, fiquei estática por alguns segundos, até perceber que se fosse algum tipo de ameaça, ficar parada não iria adiantar de nada, comecei a andar para o lado contrário do som, mas o cheiro de sangue, trazido pelo vento forte, me fez virar de volta e seguir o odor forte e inconfundível.
Em poucos minutos já havia chegado a uma clareira, cercada por enormes carvalhos, na outra extremidade havia uma árvore rachada ao meio e próximo a ela, de costas para mim, havia um homem, os cabelos ruivos revoltos balançavam de um lado para o outro com o vento.
Ruivo, esse pequeno detalhe não passou despercebido por mim, ele possuíam a mesma tonalidade irreconhecível do cabelo do garoto o qual vi na alucinação. Coincidência? Talvez. Distraída com a visão acabei por pisar em um galho seco que se encontrava jogado ao chão e que se quebrou em duas partes e fez um barulho maior do que poderia imaginar, travei no lugar, assustada.
O ruivo parou, mas não olhou em minha direção, por um momento contei com a sorte de que ele não olharia e a cada segundo meu coração batia cada vez mais forte e mais rápido, acredito que por mais distraído que ele estivesse poderia ouvir e como o esperado ele virou-se. Assim que os olhos jade se encontraram com os meus fiquei completamente surpresa pela sua beleza.
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