A Serva do Sangue [Fic +18]

1 Capítulo um - A mais pura


Notas iniciais
Gostaria de deixar minha prévia gratidão pelo acompanhamento e feedbacks de outras histórias para meus amigos/leitores:Renata Moon, Gabriella Teixeira, Rennan Pereira, Fabrinne Gonçalves, Luana Martins, Maracélia Rodrigues e principalmente Gabrielle Gnoato ;]

Contam os livros, que eras antes da criação do homem nada existia a não ser dois únicos seres de poderes fantásticos. Estes eram um o oposto do outro.
Dividindo dimensões vazias, eles duelavam entre si com o propósito de permitir somente ao vencedor a criação de um mundo.
Mas passados tempos incalculáveis por qualquer mente humana, tais seres supremos após exauridos, chegaram à detestável conclusão de que um não era capaz de extinguir o outro.
Obrigados a engolirem seu orgulho, os seres então decidem criar um mundo a partir da combinação de suas essências, um mundo nascido no ventre do equilíbrio, o equilíbrio das forças criadoras conhecidas até hoje como... luz e trevas.

. . .

Capítulo Um — A mais pura

A menina encontrava-se assustada, seu corpo frágil foi despido à força e seu semblante choroso incitava medo e incompreensão.
Aquele homem de rosto escondido nas sombras, trajando o uniforme da igreja, segurava em sua mão esquerda um chicote e, apesar de não enxergar, ela sabia: ele sorria maldosamente.
A menina indefesa de pacatos 9 anos se exprimia em um vão nas paredes de seu quarto, na tentativa inocente de proteger seu corpo desnudo, ela se mantinha em posição fetal enquanto mentalmente rezava à Deus para que fizesse o homem ir embora.

—Se você prometer se comportar, eu prometo não usar o chicote. – E o sorriso maníaco se desdobrava ao som dos estalos do chicote no chão.

Ele repousou o instrumento de tortura em uma escrivaninha rústica e se aproximou da menina enquanto liberava o cinto que prendia a túnica na região da cintura. Ao se aproximar dela, Cattarine pôde ver o semblante perverso do homem, agora iluminado pela luz da lua vermelha que escorria através da janela, a pouco mais de 1 metro dele. O rosto era de um dos conselheiros de seu pai. O homem segurou os pulsos da jovem com firmeza, fez força para cima a obrigando a fica em pé. Os pequenos olhos fechados exalavam lágrimas quentes. Ela prosseguia na reza para que seu deus a salvasse.
O agressor prendeu os dois pulsos da menina acima de sua cabeça e com a outra mão alisou eroticamente seu corpo, descendo torturantemente até sua região sexual aproveitando o tatear naquela pele parda e delicada. Os olhos da jovem se apertaram em uma mistura de nojo e medo, fez uma careta como repulsa àquelas mãos grosseiras, mas suas pálpebras se ergueram o máximo que conseguiam com o susto que acabara de tomar.
Enquanto abusava do corpo infantil, o sujeito não reparou que algo fizera sombra através da janela e, com isso, foi pego de surpresa quando um braço massivo e revestido de uma pelagem negra surgiu quebrando o vidro e agarrando o topo de sua cabeça. O crânio do padre foi quase completamente abraçado pela mão monstruosa, a menina mesmo desorientada pode observar as unhas encurvadas penetrando fundo nas têmporas da vítima com uma força sobre-humana, espirrando sangue e tingindo os móveis e os tacos de madeira no chão. O mesmo braço viril que o agarrou, ferozmente o puxou para o lado de fora através da janela estilhaçada como se fosse um leve boneco de carne. A menina trêmula e com batimentos cardíacos doídos, ao entender que se tratava de uma criatura das trevas, se forçou a sair de seu estado catatônico para então correr no sentido de seu guarda roupas e lá se fechou, buscou seu crucifixo em uma prateleira acima e o pressionou junto ao peito desnudo enquanto se encolhia na lateral interna do móvel.
Através dos feixes de abertura da porta do móvel, ela viu sombras distorcidas de movimentos violentos desenhando-se na parede. Tentou parar de tremer, reparou que os gritos do homem cessaram e o rugido feroz seguiu o feito. Passados poucos segundos de silêncio, presenciou o padre sendo brutalmente jogado de volta ao quarto, pintando-o com ainda mais sangue. Pôde ver, com dificuldade, maior parte de sua pele descolada do corpo ensanguentado, o crânio deformado por esmagamento e parte dele à mostra por um corte no couro cabeludo, possuía muitas fraturas e músculos expostos.
Após lançar sua presa, o monstro então se tacou pela janela, quebrando boa parte da parede de concreto por não ser justa à seu corpo feral.
Sob as luzes de velas que tremulavam em seu quarto espaçoso, ela temeu a imagem horrenda da cena ainda mais que os feitos do pedófilo, agora jogado ao chão.
A criatura das trevas possuía um encorpamento diferente de tudo que Cattarine havia visto. Medindo pelo menos 3 metros, o corpo era esguio com alguns músculos não muito avantajados, as costas eram arqueadas pra frente e os braços desproporcionais sustentavam a criatura no chão como dois pilares tortos. Das costas nascia outro par de braços magrelos e ainda maiores fundidos às asas de osso e pele, muito semelhante às de um morcego. De alguma parte do rosto da criatura dois chifres cresciam e arqueavam por cima da testa até o topo da cabeça onde terminavam arqueando para a direção oposta, como a forma de um "s" em proporções exageradas. As orelhas eram enormes e pontudas. A menina trêmula não conseguia encontrar os olhos do monstro em sua face, concluiu que, apesar de cega, sabia que estava escondida no guarda-roupas. Suas garras reptilianas ainda tinham restos de carne e tecido grudados nelas. Cattarine teve a impressão de que seu coração batia pungente de forma que até a criatura podia escutá-lo e teria berrado de horror se o ser não berrasse primeiro. Um berro tão macabro que parecia um anuncio de chegada de uma das bestas do próprio inferno. Um berro tão potente que fez o coração da jovem doer e seus olhos desfalecerem. Por um instante a menina não sentiu, viu ou ouviu nada... apenas trevas.

. . .

Catterine acordou assustada, sua testa brilhava culpando o suor frio que brotava dali, o corpo parcialmente erguido na cama tentava recuperar o fôlego sob a seda macia, ela se mantinha em um estado de pânico durável apenas alguns segundos. Suas feições joviais e delicadas estavam nubladas pela noite mal dormida. Os cabelos negros e embaraçados graças ao travesseiro se alongavam até o final das costas criando leves ondulações crescentes à medida que chegavam à ponta, sua pele morena mostrava-se bem tratada e os olhos verdes cristalinos reluziam conforme a trepidação das velas que iluminavam o grandíssimo quarto. Seu vestido de seda, usado para dormir, colava à pele devido às regiões úmidas do corpo, o que ajudava a entoar um não tão corpulento porém parcialmente explícito busto. Embora esbelta, suas vestes eram opacas e longas, dignas daquela que carrega o título de Lírio da Pureza.
A jovem levou sua mão trêmula à testa no intuito de secá-la, seu gato pulou para junto da dona envolto em miados preocupados, ela se acalmou ao vê-lo pedindo por carinho.

—Olá pequeno Érebo, veio confortar sua dama? — A voz soava fraca.
O gato miava tal como se entendesse os valores das palavras, sentiu o afofar das cobertas com a unha até achar uma posição confortável para se deitar. Cattarine acatou a ideia e se apoiou sobre o travesseiro de plumas enquanto acaricia por entre as orelhas do gato negro.

—Já é o segundo pesadelo este mês. Me pergunto até quando essas trevas em minha mente se acomodarão.

O Gato Érebo sente a mão de sua companheira de quarto pesar antes das carícias cessarem, ele olha para o corpo humano delicado e casto que agora voltava a um sono tranquilo, a seguir concentra seus olhos castanhos na janela, eles se contraem à luz prateada vinda de fora e vislumbram a imagem... Amanhã será uma belíssima noite de lua cheia.

...

—Senhorita Elisabeth... acorde, senhorita Elisabeth. – O Tom era o mais calmo e delicado que a jovem morena já ouvira em sua vida, e ela conhecia essa voz como uma filha reconhece a de sua mãe.
—Rosemarie? não esta cedo demais?
Rosemarie era uma mulher de 35 anos com cabelos mixados entre o castanho e o grisalho presos por uma fita branca. Seu uniforme era o padrão branco e azul-marinho de empregadas, porém com um broche dourado com a insígnia da igreja na alça de seu avental, mostrando o status de seus patrões.
A empregada cuidou da jovem Elisabeth desde o falecimento de sua mãe, quando ela era apenas um bebê, o que tornava este laço algo semelhante ao maternal. Em seu rosto era visível a bondade de seu sorriso e olhar cercados pelas rugas que cresciam com a idade

—Seu pai pediu que descesse mais cedo para o café da manhã, ele deseja conversar um pouco com a senhorita antes de partir para o trabalho.
—Meu pai? Conversar? Tenho certeza que esse pedido não advém do interesse em minha vida. – Ela se posicionava sentada na cama
—Não diga isso, minha querida. Seu pai lhe ama, sua personalidade rudimentar é que não lhe permite demonstrar.
—Os únicos motivos de meu pai querer uma conversação com sua filha, são para pedidos ou informações acerca da igreja. Bom... que seja! Diga que logo descerei.
—Pois ei de preparar seu adorado chá de alecrim, com sua licença. – Fez-se uma mesura antes de sair do quarto.
—Será que sou ríspida de mais com meu pai? Mesmo que ele seja... bom, meu pai. — Conversava consigo mesma — Melhor eu tentar ser mais maleável. Mas teria de ser tão cedo da manhã? – Elisabeth então se jogou de lado na cama, atingindo um relevo macio das cobertas, ela se assustou com o grito felino que veio debaixo dela. – Desculpe querido!

O Palácio de Latrão é um local sagrado, erguido como o principal centro de atuação da igreja, é uma construção majestosa e imensa que impera no coração do país. Aqueles que não só cultuam da fé da igreja mas também participam de seus afazeres são chamados de Seguidores da Santa Luz ou apenas Sagrados.
O palácio é dividido em setores, fazendo-o quase parecer uma cidadela. Todos os setores são responsáveis por uma área específica dentro da igreja. Na “torre do Vaticano”, a parte mais alta do palácio, os líderes se encontram para bolarem estratégias e discutir assuntos políticos. O "setor de treinamento" é a ala mais extensa dentre todas, a céu aberto, lá são escolhidos e habilitados os guerreiros para o campo de batalha: arqueiros, espadachins, lanceiros e cavaleiros e outros. Os cujo dote é a inteligência, são treinados no “setor de aprendizagem” onde através do estudo da magia sagrada são formados guerreiros magos e estrategistas. Ocupando uma grande área Oval, encontra-se a magnífica “Biblioteca espiral” e como instalação mais baixa existe a “Consagração”, onde ocorre a iniciação dos novatos no palácio, em que são educados sob os ensinamentos dos livros sagrados. Todos os setores são interligados por escadarias externas e se viram de frente ao Pátio principal. A área é cercada por muros rochosos e esculpidos com imagens espalhadas do sol, principal símbolo religioso. Ao redor do palácio vive a pequena cidade de Bucareste.

Somente homens são aceitos como parte do exército ou administração na Irmandade, proibindo, assim, a entrada de qualquer mulher sob a exceção de serviçais e empregadas.

A residência do alto sacerdote Waldrich Torrance, Estrategista de batalhas e pai de Cattarine Elisabeth, é a mais luxuosa da região. Com dois andares, conta com cozinheiros, guardas à porta, serviçais de limpeza e a governanta Rosemarie.

Elisabeth passava graciosamente pelo longo corredor segurando seu vestido branco e bege adornado com detalhes em um dourado artístico, nas paredes retratos de antepassados e um emblema da irmandade estampado em um escudo de enfeite. Todas as salas eram enfeitadas com enormes espelhos apoiados em bancadas na parede para refletir a luz provinda dos lustres à velas e iluminar melhor, assim, o ambiente.

—Bom dia, meu pai – Afundada em uma seriedade robótica, ela se sentou à cadeira puxada por um serviçal e em seguida teve o copo à sua frente preenchido com o doce chá de Rosemarie. – Soube que gostaria de falar comigo, do que se trataria?
—Olá, Elisabeth. Não se apresse, termine seu café.

E assim ela o fez, os dois comeram um pouco da imensa variedade de bolos e pães dispostos à mesa, beberam de sucos naturais e chá.
Waldrich Torrance era um homem de extrema importância para a frente do Exercito Divino, sendo ele o estrategista e alto sacerdote, portanto pouco podia ficar longe de seus afazeres no trabalho. Torrance era um homem de 47 anos, com uma barba crespa e emaranhada, presa por uma fita quase em seu término, feixes de castanho escuro se perdiam no mar grisalho. Seu rosto ríspido contava duas sobrancelhas recheadas que combinavam com o cabelo corrente até os ombros. Suas vestes eram de duas túnicas de algodão entrepostas brancas adornadas com dourado e um emblema que denotava alta patente na igreja, a roupa parecia bordada para algum sobre-humano levando em conta suas dobras enrugadas pelo tamanho excessivo, sua base era arrastada no chão pelo sacerdote.

O momento se passava em extremo mutismo, cujo sigilo fora quebrado pelo som grave de Torrance ao ver Elisabeth em suas últimas mordiscadas na maçã.
—Diga-me, Elisabeth. Como anda sua vida amorosa? Alguém das localidades despertou o coração de minha filha? – Torrance apoiou seu queixo nos dedos entrelaçados e mostrou-se atento e suavizando as rugas de carranca.
—Ora, meu pai. Por que um assunto assim tão repentino? Não há ninguém que tenha me despertado interesse algum. Eu tenho minha amiga e Rosemarie, basta para mim.
—Mas entenda, Catterine. já passaste da idade de se moçar. Não pensa em se casar e ter filhos? Já está na hora de seguir a próxima etapa do caminho de uma mulher de importância.
—Não perco meu tempo me preocupando com isso, estou bem com a companhia de minha solidão. Mas por que esse fascínio agora?
—Estava pensando comigo esses dias. Conhece Uzias Valenti?
—O Paladino?
—General Paladino. — Corrigiu — Soube que ele está à procura de uma noiva. Um rapaz viril, o mais jovem General dos Paladinos que já existiu, com apenas 23 anos ele já levou nossas frentes à muitas vitórias. Bem afeiçoado e de influência, imagino que seja um bom protetor para minha filha.
“De influencia”, fora a palavra que pegara Elisabeth de jeito a beliscando sobre a verdade que temia. "Tudo isso não deve passar de alguma estratégia política." Pensou.
—Bem como imaginei, você não esta preocupado de fato com a minha felicidade conjugal, não obstante, desejas é ter influencia tanto na casa dos Clérigos quanto na dos Paladinos, não é? – Elisabeth puxara a astúcia do pai.
—Não calunie seu próprio pai, Elisabeth! — As rugas afundaram em sua face — Afinal de contas se eu disser que noivarás com Valenti, então assim o fará! Não me envergonhará na frente de todos como uma perdida que prefere livros fantasiosos à um casamento digno.
—Pois vá para o inferno você e suas malditas preocupações com a visão de outros sobre nós. Eu sou sua filha não uma simples peça nesse seu jogo idiota de xadrez. –Seus olhos embaçaram.
—Olha os modos menina! — A voz engrossou, mas logo teve de ser suavizada para tentar fazer ser absorvida pela jovem protestante — Eu quero o melhor para seu futuro, você não será feliz sem um esposo para cuidar.
—E quanto ao que eu quero? Vez alguma me permitiu sonhar com isso?
Ela levantou bruscamente e correu para seu quarto levantando o vestido para não tropeçar enquanto subia pelas escadas..
—Cattarine...!

Cattarine chorou por alguns minutos no colo de sua melhor amiga Leda, uma empregada de 19 anos que, assim como Rosemarie, acompanhara a jovem em seu crescimento. Leda possuía curvas mais acentuadas se comparada à sua patroa. Com a pele negra como uma madeira em Ébano africano, a criada carregava um cabelo crespo que se dividia em tranças bem desenhadas pela própria Elisabeth.

—Ei, ei.. Lisa. Não fique assim, minha amiga. Está desarrumando o cabelo. – Leda a acariciava.
—Pouco me importa a aparência, importa-me esta condição na qual vivo. De que vale tanto luxo do qual me orgulhar se não sou feliz nesta casa?
—Onde esta querendo chegar, Lisa? –As carícias cessaram e Elisabeth se pois sentada.
—Eu quero fugir daqui!
—E onde ficaria? Isto é loucura! – Ainda sim, a face de Leda mostrava-se meditante perante a ideia.
—Eu não sei, conheço pessoas que podem me ajudar com isso. Irei levar dinheiro para moradia e comida, mas não pretendo ficar fora por no máximo duas semanas.
—Quer puni-lo né?
—Ensiná-lo.
—Você sempre me põe contra a parede.
—Prometo que lhe recompensarei, só preciso de sua ajuda para sair sem chamar atenção.
—Não só do palácio, vai precisar se esconder de olhos públicos quando for à Bucareste também. Lhe arranjarei vestes simples, as minhas se assim preferir.
—De fato serão muito úteis, ainda assim, esperarei meu pai voltar de seus afazeres e então adormecer, neste tempo os soldados também estarão mais relaxados e a cidade menos atenta.
—Gostaria muito de acompanhá-la nesta aventura, mas meu dever me prende à essa casa.
—E eu entendo, minha amiga. Mas não tarda eu tomarei posse do nome de meu pai e então a farei viver aqui como uma de nós.
—És tão doce comigo, como jamais ninguém se preocupou em ser. –Leda a abraçou por trás em um ato surpresa. – Seu busto volumoso intimidava Cattarine, que desde criança lidava com a zombaria de Leda pela diferença entre ambas.

Leda e Elisabeth conversavam e se divertiam juntas naquela manhã calma. Sua interação fora interrompida pelo chamado de Rosemarie para os afazeres da jovem criada.

Em geral, Elisabeth não era alguém de grande sociabilidade, sempre preferiu a companhia de livros à das pessoas. Talvez por influência de seu pai que mantinha a vivência da filha limitada à poucos lugares do palácio, sobre o pretexto de mil desculpas referentes ao status político do pai e civil da filha. Membros da igreja lecionavam as matérias básicas da escola e a educava religiosamente em aulas particulares no palácio, uma mulher fria a ensinava o funcionamento de instrumentos musicais e suas notas e um generoso senhor de óculos pesados a ensinara a ler, mostrando-lhe o mundo dos livros com um interesse tão profundo que fez-se sentir pela própria estudante.

Já passara da hora habitual de seu pai chegar, mas nada da presença de Torrance ainda.
Elisabeth ouviu batidas na porta de seu quarto que antecederam a voz de uma das criadas:
—Senhorita Elisabeth..?
—Ponha-se adentro, aproveite e me ajude a arrumar este cabelo rebelde se não estiver ocupada.
Mas assim que a porta abriu, Elisabeth viu refletido no vidro que, apoiado sob a mesa, era usado vaidosamente, um homem familiar:
—General Valentin?
—É uma honra ser reconhecido por tão bela dama – Sua voz soava forçada, como de um trovador convencido.
Valentin era um homem encorpado, de rosto quadrado. Seu cabelo dourado escorria como água até as bochechas marcadas pela barba aparada. Seus olhos cor caramelo tomavam quase sempre a forma conquistadora perante as mulheres. Vestia uma túnica curta cinza e dourada, por cima apenas parte de sua armadura. Um peitoral, luvas, botas e joelheiras de prata com insígnias em ouro.
—Com licença, desejam mais alguma coisa? –Interrompia a serviçal tímida atrás do corpulento general.
—Deixe-nos a sós, isso é tudo. – Ordenava com superioridade o forasteiro, e assim a mulher o fez.
—O que fazes em meus aposentos?
—Seu pai pediu que viesse lhe visitar, ele terá que passar a noite fora com um batalhão de guerreiros. – Se iniciaram passos lentos na direção da jovem.
—Pois não pretendo me casar com você se é esse o motivo de sua vinda. –Ela regredia à medida que os passos a alcançavam.
—Ora, essas palavras me afetam a alma. Pois minha vinda aqui não foi meramente saber sua resposta, mas tentar conquistar vosso coração doce. Nega-se sem sequer me conhecer, permita-me lhe conceder um pouco de mim e então dê seu julgamento.
De tanto andar para trás Cattarine chegou ao limite do quarto, com suas costas impedidas pela parede, o general avançou suas palmas das mãos no concreto que limitava a moça, aproximando seu corpo do de Elisabeth e a cercando com ambos os braços.
—O que pensa que está fazendo, general!? – Ele aproximou o rosto de Elisabeth, vislumbrando seus lábios levemente mais escuros em uma combinação perfeita com a pele morena.
Elisabeth sentiu-se abusada pela invasão de espaço e viu a necessidade de se livrar dessa armadilha. Não poderia agredi-lo uma vez que isso o levaria à irritação e poderia piorar as coisas; sua força não era suficiente para empurrá-lo para longe e sua velocidade de esquiva só seria eficaz se viesse com algum pretexto para isso depois. Então pensou!
—Deixe-me torna-la minha e lhe mostrarei alguns benefícios matrimoniais. –Dito isso, Uzias Valentin fechou os olhos e inclinou sua cabeça para o beijo, quando Elisabeth em um reflexo felino abaixou-se e passou sob o braço do guerreiro paladino deixando-o a sós com a parede. Ele se virou em uma expressão de decepção e duvidas.
—Ahm.. antes de permitir que me beije, tenho algumas exigências.. – Ela tropeçava nas palavras.
—Hm.. Um romance difícil, interessante. Pois diga-me e tudo farei por ti. –Estufou-se o peito.
—Se queres se nomear meu marido então terá que... mudar esse cabelo!
—Mas.. mas ele não esta bom deste jeito? Não lhe agrada? – Sua expressão indignada acusou ser esse seu ponto sensível.
—Não desta forma como está, se direcione ao balde do quarto de banho ao seu lado e molhe o couro cabeludo, então traga-o a mim. Lhe mostrarei o modelo que certamente é de meu agrado. – Somente quem não a conhecesse podia achar serem palavras reais. pois sua atuação nunca foi um diferencial.
Uzias caminhou confuso até o interior do banheiro acoplado ao quarto, mais empurrado que andando por si só. Elisabeth se afastou aos poucos conforme ele se abaixava para molhar a cabeça sem sequer saber exatamente o que estava fazendo. Até que com o mínimo de ruídos possíveis, ela fechou a porta do quarto de banho e a trancou tranquilamente. Pegou a sacola com as roupas de Leda e correu escada abaixo, desviou dos olhares dos serventes da casa e conseguiu passar pelo portão graças ao cochilo programado dos guardas noturnos. Escondendo-se atrás de uma árvore ela se despiu, o corpo a sós com as vestes íntimas tremulavam em decorrência do vento frio que a molestava. Um sobretudo de pano simples, calça jeans marrom escuro e uma blusa de manga cumprida frouxa envolviam a fugitiva, ela pôs seu vestido na sacola e a escondeu, levantou o capuz do sobretudo e então atravessou a rua.

Eram nove da noite quando Cattarine Elisabeth cortava a cidade pouco movimentada. La, se sentia livre como nunca experimentara antes, sentia-se independente e com um novo mundo a ser explorado. Carregava um saquinho com moedas que havia separado mais cedo e com elas visitava todo o tipo de comercio que encontrava pelo caminho. Chegou quase ao final da cidade contemplando a ultima barraquinha de doces, até ver seu gato Érebo passando ao longe no limite da cidade de escala média.
—Érebo, espera. –A foragida dizia enquanto corria na direção de onde avistara seu felino.

A cidade media cerca de 30 quilômetros ponta à ponta, o Palácio de Latrão se erguia bem ao meio dela e mais distante ficava a casa da qual Elisabeth fugira. Bucareste era um local tranquilo em comparação à outras cidades de Transilvânia, que recentemente eram atacadas pelas chamadas criaturas da noite, uma vez que era protegida pela irmandade. Com bonitos jardins, ruas bem construidas e uma população autossuficiente.
O toque de recolher era bem cedo, e poucos desafiavam a ordem. Uma floresta densa brotava à 7 metros no norte da muralha.

Elisabeth, entre correr e caminhar, seguia para os limites da cidade, que era cercada por uma espessa muralha de madeira resistente. O grande portão ficava sempre aberto e protegido por dois guardas na parte interior. Ela teve de passar por eles para alcançar o portão norte através do qual viu seu animal trespassar, afirmando que ia buscá-lo logo ali.
—Érebo! – Elisabeth o procurava pelo horizonte noturno até se chocar com a cena de seu animal cercado por uma criatura voraz. Era um Licantropo! A fusão mais sanguinolenta dentre todas as criaturas, a fusão Homem-lobo que atacava sob os dois pés mas corria de forma quadrúpede em grandes velocidades. Seu rosto era inteiramente canino e ameaçador, seus olhos vermelhos quase brilhavam na escuridão.
Elisabeth gritou de medo, chamando a atenção da criatura, seu gato correu para o outro lado e os guardas foram a assistir marchando com suas lanças para fora da cidade. O lobisomen rosnou para os 3. Ouviu-se alguns uivos vindos das entranhas da mata obscura.
—Temos que tocar o sino – Disse um dos soldados apontando a lança para o ser.
—Entre e soe o alarme, eu tento distrair a besta!
Então, um avançou alguns passos à frente e o outro se pôs a correr de volta para a cidade, mas Elisabeth logo viu um segundo Licantropo pular de trás de um arbusto e correr velozmente na direção do trio, ela se abaixou e gritou por mais uma vez apertando os olhos e abraçando os ouvidos com as mãos, mas ele pulou a jovem e atacou o homem que corria para dentro de Bucareste pelas costas. O Soldado caído tentava inutilmente se soltar das garras que penetravam sua carne enquanto que o parceiro mais atrás tentava intimidar a primeira fera, que ao avançar com um abocanho recebeu em troca uma esquiva giratória seguida de um ataque perfurante em sua barriga. Outras duas criaturas da noite se mostraram presentes correndo da mesma fonte que as anteriores, uma se direcionou ao soldado em batalha e outra tomou Elisabeth como sua presa fácil.
Elisabeth viu que o soldado em peleja não dotou de habilidades o suficiente e acabou sendo atacado pelas duas feras ao mesmo tempo, acabando assim, rasgado pelos caninos bestiais, enquanto que o primeiro agora estava sendo mastigados ainda vivo engasgando-se com gritos de dor. A indefesa Elisabeth pensou em correr de volta ao interior das seguras muralhas, mas um lobo que se alimentava entre ela e seu destino a impedia deste feito, não teve escolha, correu na única direção que lhe parecia segura.
Beirando a floresta, Elisabeth corria com o coração quase sendo cuspido fora de tão horrorizada. Ouviu um rosnado a seguindo em alta velocidade. Uma das criaturas a alcançara em questão de segundos, mas Elisabeth em um ato esperto segurou com força uma árvore enquanto corria e com a parada brusca foi lançada para o lado. O ato foi tão repentino que a criatura não teve tempo de entender e acabou patinando enquanto tentava correr na direção oposta de seu curso. Cattarine machucou seu ombro com o impacto, mas o sangue que fervilhava não a permitiu parar para se doer. Ela aproveitou a direção na qual foi lançada e seguiu floresta adentro imaginando dificultar assim a caçada do perseguidor.
A jovem corria exausta atrapalhada na insuficiência respiratória, ouviu mais uivos ao longo da floresta escura que contava com algumas tochas espalhadas por várias árvores pelos moradores da cidade. Seguindo algumas tochas, Elisabeth caiu no chão de cansaço, mas teve de se por em pé quando ouviu um rosnado próximo a si, depois outro, viu-se então cercada por 2 licantropos que seguiram seu rastro de medo. Ela colou suas costas à uma arvore, agarrou uma mão à outra e rezou...rezou para que seu deus a salvasse destas criaturas da noite. Um lobo saltou e no reflexo, Elisabeth se impulsionou para o lado deixando a brava criatura bater de focinho do tronco carrancudo da árvore, mas sem conseguir se equilibrar direito depois do movimento de sorte, outro Licantropo aproveitou e mordeu-lhe a panturrilha com força, sangue espirrou na calça resistente e a Jovem caiu envolta em um berro doloroso. Elisabeth chutou o olho do agressor com força que recuou ainda mais bravo. Os dois iniciaram o próximo assalto de uma só vez, visando o pescoço e rosto da jovem eles pularam na garota que se protegeu com os braços deixando-os serem destroçados no lugar. Um mordeu-lhe o pulso ao tempo que outro perfurava sem largar seu ombro. Ela gritava de dor, o destino era certo: não havia como ela sobreviver, já estava praticamente morta. Mas antes de desfalecer os olhos em consequência das dores e perda de sangue, notou um terceiro licantropo ser lançado com violência pra cima dos outros dois que a feriam. Sem entender viu que os lobos atingidos e o que fora jogado se apressaram para o levantar e manterem posição de ataque, rosnando espuma para algo acima dela.
A visão ficava cada vez mais embaçada e escura. Notou um homem cair bem diante de si, virado para as criaturas monstruosas, ele parecia vestir alguma capa ou sobretudo preto com roxo e por algum motivo, elas pareciam temê-lo de certa forma. O Homem misterioso e cuja aparência Elisabeth já não sabia identificar devido à visão falha, avançou corajosamente para um dos lobos que na tentativa de mordê-lo teve seu nariz segurado por uma mão e o queixo por outra, forçando a abertura da bocarra, o homem em uma força sobre-humana quebrou o maxilar do monstro que caiu morto no mato da selva.
A visão então tornou-se indistinta até se escurecer por completa, Elisabeth sentia muitos calafrios que aos poucos iam cessando à medida que o corpo anestesiava. Ouviu algo cortante e 2 corpos tombaram, depois passos..e então..uma voz... “Beba!”
Elizabeth quase sem consciência sentiu gotas lhe tomarem a língua e sem raciocínio para nada apenas o fez, engoliu o conteúdo... Nada mais ouviu, nada mais sentiu.

Estava morta!