A Sereia do Bar do Seu Romão - Ilha Jambo #1
1 Capítulo 1 - A Mulher que Desce a Rua
Estava cansado desta cidade. Definitivamente não havia nada de interessante nessa porcaria de ilha! Era como voltar no tempo, num lugar onde a maioria das pessoas tinha a mente fechada para o novo, sempre em suas vidinhas miseráveis. Mesmo as mulheres bonitas envoltas em sonhos do século vinte, como casar e ter filhos, em vez de ir atrás de ambições maiores, tais como trilhar carreiras, ou estudar em grandes universidades. Às vezes um ou outro fugia dali, quando descobriam que o mundo é muito mais do que acordar, trabalhar, dormir e morrer.
Lembrava-se da sua infância. Desde cedo fora criado nas grandes metrópoles. Nascera na ilha Jambo, entretanto, seus pais o levaram para a capital, onde juntos moraram por dezessete anos. Agora Luís duvidava que podia voltar a morar num lugar como aquele. Houve, sim, algumas mudanças. O centro da cidade avançara, sem dúvida. Estava coberto de grandes construções, cheios de prédios e condomínios, onde ficavam os ricos desconhecidos. Ou seja, eram as únicas pessoas que se livravam da língua do povo, porque ninguém conseguia ver o que eles estavam fazendo, quem estava entrando ou saindo das suas casas. Já o resto da população que morava em volta participava involuntariamente do infinito telefone sem fio. Não tinha como escapar. Até quem criava boatos acabava fazendo parte de um boato.
Luís, por exemplo, desde os seis meses que ficara ali, nunca havia se envolvido com ninguém. Ocasionalmente tinha encontros casuais. Tudo bem discreto e romances de uma noite. Porque vamos combinar, não dava pra firmar um relacionamento com essas mulheres da ilha, que tudo que aprendem na vida é cozinhar, limpar a casa e fazer crochê. Falando nisso, a última menina com quem ficara fizera para ele um cachecol mesclado em tons de verde. Totalmente manual. Nem ele sabia para que precisava de um cachecol, numa ilha que te dá vontade de arrancar a pele por causa do calor! Mentira, não era tão quente assim. Tinha dias que eram um pouco gelados. Como todo litoral vez por outra é castigado com frentes frias, havia, sim, um clima mais resfriado, normalmente no meio do ano.
De qualquer forma, voltando ao caso. Nunca saíra de mãos dadas com ninguém nas ruas da cidade, mas teoricamente ele havia proposto noivado a uma menina, que na realidade nem conhecia, e eles estavam para comprar a casa do senhores Stevenson's, uma casa de estilo europeu medieval de uns idosos que morreram há dois anos, e seus filhos procuravam vender o local. Falaram até mais. Disseram que a razão dele estar ali, foi para se casar.
Vamos esclarecer logo esses pontos. Primeiro, a razão pela qual ele estava ali era porque seu pai era nada mais, nada menos que o dono da rádio local, a Rádio Jambo. O nome do velho era Jorge Amaro, e desde já queria treinar seus filhos para assumir seus negócios. Isto já estava escrito há anos, tanto que Luís e seu irmão não reclamaram do estabelecido fato de que estavam destinados a continuar a vida de seu pai gerindo aquela empresa; mesmo que isso implicasse com as verdadeiras vontades destes. Na realidade, tanto fazia para os dois prosseguir com a empresa ou não. O negócio rendia e renderia ainda muito dinheiro. E se não, venderiam a empresa e fim de papo. Contudo, o que incomodava muito a mente de Luís era aquela cidade. Odiava aquele lugar que não tinha nada a lhe oferecer além de acordar, ir para aquele lugar miserável, se prender numa cabine por oito horas, receber ligações e falar recados para as tiazinhas que passavam o dia inteiro em suas brilhantes cozinhas, fazendo comida para seus filhos e netos que sequer se preocupavam em lavar os próprios pratos onde comeram ou arrumar a própria cama onde dormiam.
Não tinha para onde correr. Viajara quase dois mil quilômetros e parecia que era para trás. Estava regredindo. Teria que ficar naquilo até ter a empresa em seu nome. Quando acontecesse, venderia sua parte para seu irmão e iria viver sua vida como realmente desejava. Até lá, tudo que podia fazer, era isso.
Falando sério, gostava um pouco de trabalhar na rádio. Tudo bem que se fosse em outro estado, outra cidade, outro universo, se agradaria mais. Todavia, gostava muito de música. Tanto que, pretendia montar uma gravadora um dia. E como já mencionado, se fosse em outro estado, outra cidade, outro universo, filiaria a dita cuja na empresa do pai.
Ainda com raiva da maldita ilha, lembrava-se da irmã. A pequena desgraçada, a princesa do papai, era a única que se esquivava disto. Passava seus dias incomodando todo ser vivo que cruzava sua família. Mas acima de tudo, tinha inteligência o suficiente para cursar o que quisesse. E de fato, cursaria o que quisesse. Dizendo ela que seu sonho era ser veterinária. Uma profissão que não pagaria tão bem quanto se ela cuidasse da rádio. Por isso, seria também uma das sócias, mas não mandaria nada, apenas receberia os lucros do seu investimento, ou deve-se dizer, o investimento do pai. Traduzindo para os leigos, era somente uma forma de Jorge Amaro proteger financeiramente a sua filha para sempre.
Terminou de fazer a barba, lavou novamente o rosto e secou-o na toalha de rosto verde musgo, pendurando-a ao lado do espelho de moldura dourada. Atravessou a porta de vidro, deixando o banheiro de azulejos azuis escuros que contrastava com o bege, dividindo na horizontal o meio das paredes, com exceção da parte interior do box de declives irregulares cor cinza, onde os azulejos cobriam tudo, a não ser o teto de gesso, sobre a banheira negra recostada em uma das extremidades do cômodo, onde o chuveiro estava.
Jogou a toalha que usava, também verde musgo, em cima da cama. Abriu o armário à direita da cama de casal de estrutura de tabaco, assim como a porta do seu guarda-roupa, adentrando em seu closet, de onde tirou uma calça social negra, seus sapatos engraxados que brilhavam mais que o Sol; e uma camiseta azul escura de cetim, que havia ganhado da sua querida irmã mimada, no começo do ano passado. Só mesmo mulher pra comprar uma roupa dessas pra ele. Sabe o pior? É que realmente ele tinha ficado bem nela. Realçava seus olhos, também azuis, apesar de mais claros, e fazia seu cabelo parecer mais escuro. Ele gostava de quando o cabelo parecia mais escuro. Tinha uma certa implicância com isso. Odiava seus fios castanho escuros, como se dizia na ilha, parecia cor de burro quando foge, indistinguível. Por isso, quando eles pareciam mais escuros, e mais distantes do castanho, ele se sentia, sei lá, mais gato. É idiotice. Ele sabia. Mas é daí? Todo mundo tem algo anormal, alguma espécie de toque, sei lá como se fala — dizia para si mesmo.
Voltou ao quarto e se olhou no espelho em frente a cama, ao lado da porta, que ficava acima de uma pequena cômoda vintage de cor amarela. O espelho refletia um dos dois criados mudos, se é que dá pra se chamar assim, uma vez que não tem pernas e são grudados na estrutura da cama. Em cima desse citado, estava seu celular, sobre alguns livros que ele nunca lia, e no outro, um abajur moderno que sua mãe lhe doara quando se mudara para o apartamento. Deu-lhe também um tapete de cor marrom bem felpudo, que ele pôs no centro do quarto.
Saiu para a cozinha, abrindo a geladeira duplex de aço, que combinavam com a clara bancada de superfície de mármore escura, onde em uma parte estava preso o fogão, e em outra o lava louças. Havia três banquinhos contra os balcões, três banquinhos de madeira com um leve estofado preto, sem costas; lá ele costumava tomar café, feito pela cafeteira, juntamente com uma torrada, feita pela torradeira. Mais americano que isso não dá pra ficar.
Tirou uma revista da pequena mesa de vidro com quatro cadeiras também de madeira com leve estofado negro, que separava invisivelmente a cozinha da sala, onde havia um sofá laranja de dois lugares, perpendicular a duas poltronas de mesma cor, e entre elas, uma mesa de centro também vintage, de cor escura, onde havia um aparelho blu-ray, ligado a tv smart embutida na parede.
Abriu a porta envidraçada que levava à breve sacada, onde Luís deixava duas gostosas cadeiras de madeira com estofado vermelho. Tratou de afastar as cortinas brancas da entrada para que a vista e a luz fosse manifesta a todo o cômodo.
Depois de voltar ao quarto para escovar os dentes, saiu de lá com um blazer escuro, pois a manhã ainda estava gelada.
No elevador, aproveitou a solidão e ajeitou rapidamente no espelho do mesmo os fios desengonçados. E quando cansou de tentar arrumá-los, jogou-os para trás como que rendido. Não ia dar jeito mesmo. Tanto faz.
Entrou pelo estacionamento onde encontrou uma mãe levando seus filhos à escola. Estava num carro grande, digno de famílias grandes. Talvez um dia eu seja assim. . . "Naahh..." — desdenhou, já dentro de seu carro do ano de cor marrom metálico, um novo tom lançado há pouco tempo.
Na rádio as coisas estavam bem balançadas. Como sempre, haviam pessoas retirando seus prêmios conseguidos no dia anterior. Para divulgar filmes e o próprio local, o cinema sempre oferecia um ingresso grátis para qualquer filme e dia, válidos por uma semana, para ser sorteado pelo canal. Havia também outros tipos de ingressos, como para shows e assim vai; além de vez em quando utensílios e vale compras de lojas em liquidação e queima de estoque.
No caminho a sua cabine, uma ou duas pessoas o pararam para elogiar sua bela voz. Mal sabem eles que eu uso falsete — pensou — se bem que a voz continua sendo minha.
Durante o programa, recordou-se brevemente do tempo em que sonhava em ser cantor. No banheiro passava horas, no espelho, ainda mais. E embora fizesse tanto esforço, não conseguia fazer bonito. Seus pais o puseram num curso de canto. Todavia, avisaram que ele podia, sim, cantar, contudo, esta não seria sua carreira. Tudo nem — aceitou. Com o tempo, realmente se desencantou com tal sonho.
Na volta para casa seu pai o chamou para jantar em casa. Ele recusou. Estava querendo descansar. Era sexta-feira. Estava um pouco cansado. Queria passar a noite melhor do que brigar com os pais; coisa que estava acontecendo muito frequentemente, posto que Luís já não suportava mais viver ali.
– Nossos negócios estão aqui! Por que iríamos para outro lugar?
– Não estou pedindo para irem comigo. Mas eu não quero mais viver aqui!
– Ah, não? E quem vai cuidar dos negócios?
– Que tal o Flávio?
– E você? Pretende fazer o que pra viver?
– Não sei, direito. Mas com certeza não é tocar uma rádio!
– Você já tem 28, não pode mais agir como criança.
– Eu não estou agindo como criança. Vocês é que me tratam como se eu não fosse capaz de me sustentar sozinho.
E assim vai. Jogar-se-ia na cara dele que seu apartamento era presente dos pais. Ele diria que devolveria. Eles diriam que não queriam, que apenas desejavam que ele fosse responsável. Depois de mais argumentos furados, ele sairia antes de comer o pudim, todos ficariam tensos e ele iria embora.
– Não, obrigado, — repetiu a si mesmo, já no automóvel, guiando-se para casa.
No jantar, experimentou pedir comida japonesa no novo restaurante do bairro. Até que não era ruim.
Após jogar o resto no lixo, saiu para a sacada, onde permaneceu sentado por alguns minutos. Lembrou-se novamente da capital, época cuja característica principal era festa. Sim. Ele nunca ficaria parado numa sexta-feira à noite se ainda estivesse lá.
Olhou o relógio outra vez. Vinte e duas horas. E nada de sono. Estava cansado, de fato. Porém, não queria dormir. Estava indignado! Era deste jeito que terminaria a semana?
Foi quando algo chamou sua atenção. Algo na rua. O que era aquilo? Aquele ponto vermelho e negro dançando na calçada? Espera aí. É uma mulher? E ela estava sozinha? Seria uma prostituta? Não. Estava vestida demais. Aproximou-se da grade escura que o protegia da queda, e olhou mais fixamente. Ela estava de máscara, tinha um vestido comprido, rasgado até metade das pernas, que sinceramente, eram muito bonitas. Estava com um xale, talvez para espantar o vento. Quem era ela? E o que fazia ali? De repente, ela entrou em algum lugar. Num bar. Isso. Naquele bar da esquina. Iria fazer um show ou algo parecido?
O bar era o bar do Seu Romão. Era um bar com entrada franca, embora não fosse qualquer "molambo" que pudesse entrar ali. De um jeito mais honesto, era um bar para ricos empresários beberrões e descontentes com seus casamentos. Suas mulheres sabiam da existência do lugar, apesar de nunca suspeitarem que seus infelizes maridos, após estas pegarem no sono, as abandonassem para ver qualquer mulher patrocinada por milionários locais cantar no caraoquê. Acontecia de bandas se apresentarem de vez em nunca ali, também. Era um local bem badalado. Não havia ido ali ainda. Mas aparentemente, era um local que tinha um lema: o que acontece no bar, fica no bar. Foi o que seu colega lhe disse na semana passada, ao convidá-lo para ir lá. Convite este que fora rejeitado pelo mal humorado Luís, que ainda sonhava com a capital.
De qualquer modo, agora aquele bar parecia interessante. Voltou para a sala e calçou os sapatos. Pegou o blazer e saiu de casa. Precisava saber quem era aquela maluca das roupas extravagantes. Seria bonita? Desceu pelo elevador e saiu pela portaria, cumprimentando Seu Zé, porteiro noturno do prédio.
Foi a pé mesmo, uma vez que tudo que precisava fazer era atravessar a rua.
Passou pela porta sob o nome em néon verde, e viu de primeira o breve palco que continha alguns instrumentos, e ao lado, o bar, cheio de bebidas e homens que queriam bebida. Havia alguns sofás nas extremidades das paredes, com mesas embutidas no chão. No centro, mais assentos, com mais gente. Enganara-se. Pelo visto, ali também era um lugar ideal para encontros. Viu alguns casais comendo pratos bem feitos com um aroma incrível. Pelo visto, número dois, ali não era simplesmente um bar, mas um restaurante bar. E parecia bem conceituado. Apenas não era um restaurante para famílias. Pelo menos não depois das oito e meia da noite. Agora que notara, o lugar era grande. Tinha uma iluminação amena, romântica, um tanto afrodisíaca. Era agradável.
– Em que posso ajudá-lo, senhor? — perguntou uma moça um tanto maquiada demais, bonita, de seus dezenove ou vinte anos.
– Só uma mesa, por favor.
– Claro. Está sozinho ou esperando alguém? — aquela pergunta lhe deu uma pontada no coração. Estava sozinho. Odiava ir a bares sozinho. Antes tivesse aceito o convite semana passada de ter ido ao bar com seu colega. No mínimo poderia convidá-lo para acompanhá-lo hoje nesta noite.
– Sozinho. — a moça imediatamente tratou de passar os olhos cuidadosamente em cada detalhe de Luís, terminado com um contato visual talvez adulto demais para a idade dela.
– Está bem — e seguiram até uma mesa de dois assentos. Provavelmente a única vazia do salão. — Se precisar de alguma coisa, ou companhia, sei lá, é só chamar.
– Obrigado. — disse secamente, como que não ouvindo o que acabara de ocorrer. De criança ele estava cheio.
E como que quase esquecendo seu verdadeiro motivo para estar presente, anunciara, alguém no microfone.
– Carinhoso, de Pixinguinha. — disse um senhor de meia idade barbudo.
Ao som de palmas, alguém sobe no palco. Seu nome não fora dito. Entretanto, mesmo no caraoquê, sua voz era capaz de se sobressair de um jeito tão belo, que não havia ali quem não houvesse apreciado. Era aquela mulher. A da máscara. Ela tinha feições bonitas, um nariz fino, um boca carnuda, não de forma exagerada. Os olhos cobertos, e o cabelo castanho avermelhado caindo sobre os ombros em ondas belas, leves e regulares, que brilhavam sob a luz de néon. O vestido sem alça, de um vermelho vivo, e como suspeitara, um xale rendado negro, além de um sapato fechado com um salto enorme. Como vira mais cedo, o vestido tinha uma profunda fenda na coxa, embora o comprimento da roupa chegasse ao seu calcanhar, o que valorizava muito sua silhueta. No pescoço, um colar de pérolas bem simples, e nos braços, uma luva escura. Fosse quem fosse quem ela queria representar, estava fazendo muito bem, pois em outras situações, aquela roupa seria ridícula. Mas nela estava tão radiante! A mulher literalmente havia sido tirada de um filme dos anos setenta. Não era velha. Era jovem, e que jovem. Quem era ela? Por que seu nome não fora anunciado? E por que escondia o rosto? Será que possuía uma daquelas cicatrizes enormes que nem mesmo o mais poderoso creme à base de aloe vera era capaz de retirar? Não sabia. Mas algo lhe dizia que o que a moça tinha escondido era tão bonito quanto o que ela mostrava.
Ainda falando da mulher, assim que a música acabou, ela desceu do palco ao som de aplausos, e logo se perdeu em alguma mesa realmente muito distante.
Não havia outro jeito. Ela tinha que falar com ela. Necessitava! Levantou-se da mesa e se pôs a correr a seu encontro. Entretanto, no caminho, foi barrado, por nada mais, nada menos, que seu dito colega.
– Luis! Que surpresa te ver aqui! — falou, abraçando o amigo.
– Oi Sérgio, tudo bem? — disse, desviando-se.
– Tudo ótimo! Veio curtir a sexta no bar do Seu Romão?
– Pois é.
– Senta aqui comigo, cara, o pessoal da rádio também vieram. Tão logo ali.
– Eu já falo com vocês, mas eu tenho que fazer uma coisa primeiro. — disse Luís, tentando ser o mais rápido possível.
– O que você tem que fazer? Veio encontrar alguém?
– Não exatamente. . .
– Então vem comigo que eu vou te apresentar umas pessoas aqui do bar. — o resto Luís não ouviu, porque tudo que via agora era a mulher saindo pela porta, calmamente. Ele bem que podia segui-la, se conseguisse se livrar de Sérgio de um jeito educado. Mas o cara era chato! E difícil. Também, viu outro homem ir atrás dela. Pelo jeito, possuía o mesmo plano que ele. E quem sabe conseguisse? Era um moreno alto muito bem apanhado. Ela parecia estar fugindo, mas o brutamontes não estava nem aí. Será que ela seria estuprada? — e então, o que me diz?
– An?
– Gente, bar, música, drinques. . .
– Ah, sim! Desculpa, viajei.
– Percebi. E então?
Luís respirou fundo. Estava sem paciência. Não havia mais dele para aguentar Sérgio.
– Olha, Sérgio, eu vou ser sincero. A única pessoa que eu queria conhecer acabou de sair pela porta.
– Você não está falando da sereia, está?
– Sereia? Que papo é esse?
– A mulher mascarada que cantou há alguns minutos. . .
– É essa mesma. Por quê?
– Senta aí — disse o rechonchudo e caucasiano homem de terno, recostando o traseiro em um dos bancos — eu vou te contar umas treta louca.
Luis não sabia de muita coisa, mas sabia que não queria saber de nenhuma treta louca. Ainda mais se fosse contada por Sérgio.
– Eu acho que eu vou indo. Esta meio tarde.
– Calma, cara. É sobre a mulher.
Luis bufou, e se sentou.
– O que você sabe sobre ela?
– Pouca coisa. Não sabemos seu nome, ou seu endereço, ou o seu facebook, ou o seu número de telefone. Só sabemos que ninguém sabe nada sobre ela, exceto que de segunda a sexta ela vem ao bar entre às nove e dez horas, e volta à meia-noite e uma da manhã. Ela costuma cantar mbp, ou bossa nova. Muita raramente um sertanejo ou internacional. Não aceita drinques de homem nenhum, e não puxa conversa nem mesmo com o barman.
– É. . . Isso responde minhas perguntas. — ironizou.
– Faz dois meses que ela começou a aparecer. E como você, praticamente todos os homens do local passaram a dar em cima dela. Ela se retira educadamente, sai misteriosamente. Pra não dizer que ela nunca falou com ninguém. Vez por outra surgia um malandro que puxava assunto. Me contaram que ela era sempre muito vaga, e que se despedia assim que possível. Uma vez o Bergamo tentou ficar com ela.
– Quem?
– Ah, esqueci de que você é cliente novo. Lucas Bergamo é o cara que toda garota quer pegar no bar. Voltando...
Era engraçado como Sérgio falava bem. Ele não errava palavras, quase nunca abreviava frases, nem falava tipo, ou aí, ou an. Era tão fluente! Era o nerd da rádio. Trabalhava na parte administrativa, coberto de números e estatísticas. Ele era tão bom em matemática como era em português. O que é difícil de se ver. Mas pelo menos não era bonito. Não dá pra dar tudo pra um sujeito só, não é?
Até que não tinha um papo chato, mas falava mais que a boca.
– Ele investiu nela por duas semanas, e depois simplesmente desistiu. E não quero ser maldoso, até porque você sabe como eu gosto de ti — "e gosta do seu emprego, porque estou quase te demitindo", pensou Luís. — mas se Luís Bergamo não conseguiu ela, com aqueles braços enormes e cabelos e olhos claros, você dificilmente conseguirá. Não me leve a mal.
– Não me leve a mal, você, Sérgio. Não tenho nada contra ti, cara, mas eu vou falar com ela, tu gostando ou não, e se a moça me dispensar é problema meu, não seu.
– Desculpa, só queria ajudar.
– Obrigado. Mas não temos tanta intimidade assim. — confessou Luís.
– Você pensa que é diferente. . . — continuou, como se não tivesse ouvido o colega — Uma vez um cara tentou agarrar ela e levou um chute no saco. Todo mundo riu.
– Espera aí, tentaram beijar ela a força? Quem foi esse?
– Um cara aí.
– Espera aí, foi você?
Sérgio tentou argumentar, mas Luís já estava rindo há muito tempo.
Até que a noite não tinha sido ruim, e Sérgio já não parecia tão chato, e o trabalho até que era legal, os outros colegas também. E pela primeira vez, Luís estava gostando de estar naquela cidade.
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