A Sereia do Bar do Seu Romão - Ilha Jambo #1
6 Capítulo 6 - Na Mesa Lá do Fundo
Vasculhou todas as redes sociais e listas telefônicas existentes, e encontrou mais de quinhentas Elisas. Podia ser qualquer uma delas. Claro! Qualquer uma das quinhentas.
Na internet, não achou moça com foto parecida. Ela não tinha conta. Ou será que seu nome era um daqueles nomes exóticos escritos com letras estranhas? Tipo, sei lá, Elysa, ou Heliza, ou algo do tipo? Não. Ela não tinha um nome assim. Ela era amada pelos pais.
Desistiu do notebook e foi se deitar. Tirou as calças e a camiseta, e se enfiou debaixo dos lençóis. Leila ia matá-lo no dia seguinte. Ia envenenar sua comida. Ele deixara o apartamento uma bagunça. Roupas em todo canto, pilhas nos tapetes, toalhas molhadas na cozinha, pedaços de comida na sala. Nem ele sabia como tinha feito aquilo em menos de seis horas. Mas a verdade é que não conseguira ficar parado. Tinha de fazer alguma coisa. Sentiu uma hiperatividade fora do normal. Pensou que quando soubesse o nome dela, se acalmaria, mas agora que havia descoberto, estava mais nervoso que nunca.
Virou de um lado para o outro, de um lado para o outro, de um lado para outro, e quando percebeu que veria o dia amanhecer, pôs-se de pé outra vez, e rodou o cômodo escuro. Afastou as cortinas da janela do quarto e olhou a rua deserta. Como um bêbado sonhador, deu-se a imaginar sua querida descendo a rua, correndo novamente com os sapatos nas mãos, os pés levemente bronzeados descalços, saltitando as pedras, a cintura fina rebolando nas depressões do terreno, os braços esguios balançando quase freneticamente, e um sorriso travesso nos lábios. Riu consigo, e decidiu abrir a janela, e observar o tudo que o nada lá em baixo lhe oferecia.
***
Droga! Tinha estragado tudo! Era o terceiro dia que Luís não aparecia no bar, e depois dessa, ela já tinha começado a perder as esperanças.
Do que havia adiantado revelar o nome? Ele já não tinha interesse nela. Praguejou, baixinho, longe do microfone, antes de pigarrear e pedir pela introdução. Haviam lhe pedido "Chuva Fina do meu Para-Brisa", do querido Sérgio Reis. Era aquele pessoal de meia idade, que vez por outra aparecia ali. Gostavam de relembrar seus tempos de menino, como dizia seu pai, fã de carteirinha do cantor. Tudo bem. Não era tão ruim assim. Nada como uma música de corno pra alegrar a noite, pensou, e começou a cantar.
Depois de algumas músicas, ela mesma estava incomodada pelo fato de olhar para a porta a todo instante.
Desceu do palco após alguns aplausos e se sentou na mesa costumeira.
Parecia que o batuque de seus dedos era mais alto que o break que tocava no momento. Vasculhou novamente os arredores e encontrou uns dois ou três caras lhe mandando sorrisinhos. Ignorou, como sempre. Pensou em Luís outra vez, e como queria vê-lo. Apenas vê-lo. Nem precisava conversar com ele. Apenas ver seu rosto e cumprimentá-lo como de costume.
– Oi. Sentiu minha falta? — disse uma voz pelas suas costas. Virou-se rapidamente, para checar quem era. Mas nem precisou, ele já estava ali, sentado à sua frente.
– Desculpe não ter aparecido antes. É que eu fiquei meio resfriado, sabe? Peguei uma ventania por aí, e . . . — ela riu — Por que está rindo?
– Ventania? Que ventania? Nesse fim de verão? Ah, ta.
– Foi uma ventania, sim! E das grandes!
– Dormiu com a janela aberta e sem cobertor? — perguntou, entrelaçando os dedos enquanto aliava os cotovelos na mesa.
– Como você sabe?
– Você não é daqui, certo? É um daqueles menininhos da cidade que adoecem com qualquer coisa.
– Ei! Eu não sou um menininho da cidade!
– Ei, menininho da cidade, fala mais baixo, estão olhando para cá.
– Está bem! Mas eu não sou um menininho da cidade — sussurrou — e desde quando você faz piadas comigo?
– Não fique tão animado, ok? Estamos conversando, só isso.
– Está bem, vamos aproveitar que você está de bom humor. Então, como você. . .
– Que tal falarmos sobre você hoje? Eu percebi que você sabe muito sobre mim e eu não sei nada sobre você.
– Na verdade, o tudo que eu sei de você não é tão pouco que não chega a ser metade do que você sabe de mim.
– Sério? Porque tudo o que eu sei de você é seu nome.
– Está bem. — disse ele, ainda meio incrédulo com a tamanha atenção dela. — Que tal irmos para um lugar mais calmo?
– Ow! — disse ela, se afastando — Calma aí. Não pensa que a gente vai pra algum lugar e. . .
– Não! Não. Não foi o que eu quis dizer. Desculpe. Eu quis dizer lá fora, na rua, é que aqui é tão barulhento que eu não consigo ouvir o que você diz.
– Não sei. Que tal aquela mesa lá no fundo? — disse, apontando uma mesa num canto do bar, longe do caraoquê.
– Pode ser. É muito perto do ar-condicionado? — questionou, se referindo a seu resfriado.
– Não. É a mesma coisa que aqui, eu acho.
– Certo. — ele a acompanhou até a mesa sugerida, com assentos embutidos de couro sintético vermelho, de estrutura mogno, perto do que parecia ser uma janela. Sim, era uma janela que dava para um bairro residencial escuro. É, as pessoas aqui dormem cedo, pensou ele. E isso deixa o lugar ainda mais assustador, como uma cidade fantasma.
– Isso não é um encontro, é? — Elisa procurou conferir, sentando-se à frente de Luís, fazendo um pedido para o garçom que passava por perto.
– Não sei. Conta como encontro eu sair com alguém que eu nunca vi a cara?
– Não. Estamos só conversando.
– É. . . E as pessoas estão olhando para nós.
– Tudo bem. Eu estou de máscara.
– Pelo visto eu deveria estar também. — murmurou.
– Esqueça as pessoas, daqui a pouco elas param de encarar. – e o garçom chega, deixando os drinks.
– Tem razão. Mas e então, vai me mostrar seu rosto?
– Ainda não.
– Puxa!
– Não estávamos falando de você?
– Hunf – bufou – ok.
– Em que você trabalha?
– Está bem. Vamos fazer assim. Eu respondo uma pergunta sobre mim, e você responde uma sobre você.
– Hm. . . – ponderou — Não.
– Qual é? Vou te contar sobre a minha vida inteira e não vou saber nada de você?
– Está bem. Vamos começar. Não tenho muito tempo.
– Pode ser. Eu trabalho numa rádio.
– Você é locutor? — disse ela, verdadeiramente animada.
– Não. Quer dizer, às vezes faço um bico, mas cuido da parte administrativa.
– Ah, sei. Da parte chata.
– Eu queria discordar, mas você está certa. É muito chato! Na verdade, a empresa é do meu pai, e ele quer que isso seja meio que hereditário, sabe?
– Sei.
– Então eu e meu irmão cuidamos disso. — e tomou um gole de sua cerveja.
– Você tem irmãos?
– Calma aí, garota, sua vez de responder em que você trabalha.
– Essa eu passo.
– O quê? Não pode passar!
– Posso sim! Já passei.
– Está bem. Mas só pode passar uma vez. O que você tinha perguntado mesmo?
– Sobre seus irmãos.
– Ah, é. Eu tenho dois. Um irmão mais velho, que toca a empresa comigo. Mas a gente quase não se fala, porque está sempre muito ocupado em publicar brindes de lojas famosas e passar gel no cabelo! — ela gargalhou. Uma gargalhada bonita, que fez Luís corar um pouquinho — e uma irmã mais nova, que está terminando o colegial, que mesmo não tendo começado a trabalhar já mudou de profissões umas quinze vezes.
– Sei como é.
– Você também era assim?
– Não. Eu sempre quis ser cantora.
– Bem, agora você é.
– Quase lá. — houve uma pausa no assunto, como se as palavras tivessem acabado.
– Então, você tem irmãos?
– Uma irmã. — respondeu, bebericando o martini.
– Mais velha ou mais nova?
– Um ano mais velha, mas às vezes age como se tivesse cinco anos. Faz um monte de burrada, e quem acaba limpando a bagunça normalmente sou eu.
– Puxa! Sério?
– Sério. Mas a safada é uma boa pessoa — disse, com um meio sorriso nos lábios, como se tivesse se lembrado de algo. — Meio maluca, bem extrovertida, divertida. Gosto muito dela. Só queria que fosse um pouco mais responsável.
– Tem certeza de que ela é a irmã mais velha?
– Acho que sim. Os seios e as espinhas dela nasceram primeiro que as minhas.
E riram.
– E seus pais, como são? — ela perguntou.
– Minha mãe é daquelas mulheres de quarenta e cinco que querem ter vinte e três. Bem jovem. Mas amorosa. Melosa, na verdade. Ama me comprar algo novo. Já meu pai é bem sério, daqueles homens bem responsáveis, que querem meio que organizar a vida deles e a de quem estiver por perto. — mais um gole.
– Sei como é.
– Mas é um cara bem divertido. E bastante indireto. Quando quer algo seu, sempre te dá algo em troca, e pede isso quase que subconscientemente.
– Puxa! Parece uma família legal.
– E seus pais?
– Bem, minha mãe é uma mulher louca por limpeza. Sério. Ela é louca por limpeza e arrumação. Tudo tem que estar no devido lugar. Se você põe uma colher no lugar dos garfos recebe um longo e profundo sermão das obrigações de um filho e suas demonstrações de amor. Mas sempre está lá quando eu preciso.
– Legal, gostei dela.
– Mas ela é uma pessoa simples. Apesar de louca por limpeza e arrumação, ela tem uma filosofia: você e sua casa podem ser humildes, mas devem estar asseados. — e riram novamente. — Já meu pai, ele foi um homem do exército. Um cara autoritário, mas que fala bem calmamente, bem calmamente mesmo. Ama dar lições de moral e só assiste a documentários na televisão.
– Ainda mora com eles?
– Não. E você?
– Não.
– Ah bom. Porque se sim, eu já ia me levantar. – disse ela.
Mais uma breve pausa.
– Você é do tipo família ou é do tipo sozinha?
– Eu? — repetiu ela — Acho que sou do tipo família.
– Também acho. Por falar nisso, sua família sabe que você vem aqui todos os dias?
– Não. Mas vão saber um dia.
– Você deveria contar mesmo.
– Eu sei.
– É com eles que você passa os fins de semana? É por isso que nunca vem aqui nos sábados ou domingos?
– Algo assim.
– Isso é fofo. Eu meio que fujo da minha família às vezes.
– Sério?
– Sim. Minha mãe vive tentando me arrumar namoradas e pedindo para que eu volte a morar com eles de novo. E meu pai passa o tempo todo falando sobre a rádio. Ele já passa a manhã e boa parte da tarde me enchendo com isso na empresa, e quando vamos jantar, ele continua com o mesmo papo.
– Tente mudar de assunto, então — e deu mais um gole.
– Já tentei. Eu amo eles. Mas às vezes eles meio que me. . .
– Cansam. Eu sei. Eu também tento dar umas fugidinhas. É normal. Mas tem que se lembrar de que quando as coisas ficam ruins, são eles quem vão estar lá por você.
– Verdade — concordou, divagando um pouco sobre isso.
Luís apoiou o rosto nas costas das mãos, e o braço na mesa, e pôs-se a observá-la um pouco mais, enquanto tomava a bebida, manchando o canudo com o batom vermelho. Pondo uma mecha atrás da orelha, desviando o olhar pelo salão.
– O que foi?
– Quando eu olho pra você, me parece um daqueles cãozinhos fiéis, fofos e delicados.
– Eu não pareço um cachorro! — bradou, quase irritada.
– Calma! Foi um elogio. Estou dizendo que é bonita.
– Para com isso — murmurou, sem sorriso algum, apenas com parte do rosto corada, envergonhada, sem saber como prosseguir. Ele havia deixado Elisa, a sereia do bar, sem ter o que dizer?
– Sabe de algo que iria ser legal? — mudou de assunto, já em outras dimensões — Você trabalhar na rádio. Cantando, ou sendo locutora, mesmo.
– Você é louco.
– É sério. Você tem talento. Já pensou em, tipo, gravar um CD ou algo parecido?
– Eu não componho, eu só canto.
– Mesmo assim! Poderia regravar músicas antigas com um som mais moderno.
– Muita gente já faz isso e não dá em nada.
– Mas você ia ser diferente.
– Por quê?
– Sei lá. Porque aqui na cidade quase todo mundo te conhece. Ia ser um bom começo.
Ela não respondeu. Nem hesitou, nem aceitou. Só o encarou por uns breves instantes, com a cabeça meio que de lado, como se tentasse chegar a algum lugar dentro dele. Por fim, sorriu discretamente mais uma vez, antes de dizer:
– Gosto de conversar com você.
– Sério? Por quê?
– Porque pra você tudo parece ser possível. Você tem tipo, uma esperança e uma persistência meio que desmedida. Mas isso te torna legal, e bonito.
– Está me chamando de bonito?
– Como eu disse, esperança e persistência.
– Eu tenho que dizer que não te entendo. Sério. — ela riu — Me reponde uma coisa: como eu faço pra ficar com você?
– Essa eu passo.
– Não pode passar. Já passou uma vez.
– Vamos continuar outro dia. Já está tarde. — desviou, levantando-se calmamente, exibindo o vestido negro de mangas três quartos, de decote alto e que desenhava a silhueta de seu corpo até os joelhos, onde vazava modestamente, cobrindo os modestos sapatos vermelhos fechados. Linda como sempre.
– Vai adiantar se eu pedir que fique?
– Não sei o que é pior, perguntar algo que eu nunca vou te responder, ou perguntar algo que já sabe a resposta.
– E se eu pedir um beijo, será que rola?
– Outro dia, quem sabe? Tchau. — e saiu com sua carteira vermelha.
Luís não a seguiu. Nem precisava. Estava chegando perto.
Sorriu consigo mesmo enquanto repassava a conversa na mente. A parte da esperança, a parte dos pais, a parte do bonito, até a parte do beijo que não aconteceu. Tudo. E mais uma vez, sentiu que estava apaixonado por ela.
Quando foi pagar pelas bebidas, viu uma nota de cinquenta sobre a mesa. Ela pagara a conta. E ele nem havia notado.
No caminho para casa, pensou na conversa mais uma vez, e se deu conta de que, se Elisa tinha pais simples, um militar e talvez uma dona de casa, ela não deveria ser rica. Então, onde arranjava todas aquelas roupas?
Fale com o autor