Sorriu consigo mesma. De novo. Guardou o vestido da noite anterior no cabide usual. Passou as mãos por ele outra vez para certificar-se de não ter se esquecido de alguma sujeira. Mas não havia nada, claro. Mal comera ou bebera na noite passada. Nem pagou um drinque. Um drinque lhe foi pago. Porém, desta vez ela aceitou. Também, persistente do jeito que era, realmente lhe vencera pelo cansaço.

Pensou nele por um tempo. Era um homem bonito, com certeza. Parecia ser uma pessoa legal. Era gentil, era educado, era inteligente, não ficava lhe dando cantadas a todo instante. Apenas mostrava sua determinação de uma forma digna. Ou quase digna. Tirando o dia que a seguira até o cemitério, ou na noite anterior, quando lhe beijou.

Está bem. Não foi um beijo. Aquela coisa desengonçada não podia ser chamada de beijo. Se bem que não foi nada ruim. Ele cheirava bem, e tinha lábios macios, e braços fortes. . . Ele era tão fofo!

Bem, não custa sonhar, não é?

Recostou o corpo na parede branca, e deixou-se cair até o rodapé de mármore cinza, como o piso. Segurou as canelas junto ao peito, apoiou o queixo sobre os joelhos, e arfou. Olhou em volta do cômodo, as araras cobertas de roupas, as prateleiras cheias de sapatos, as diversas caixas com os diversos acessórios. . . Tudo aquilo lhe deu um cansaço! Suportar aquele disfarce estava começando a lhe dar nos nervos. Há três meses, isso ainda parecia fantástico, mas agora, estava simplesmente deprimente. Ninguém havia descoberto. Mas estava a um passo disto.

Sabe? Gostava de cantar. Desde criança. Sempre sonhara em seguir carreira e rodar o mundo fazendo turnês. Lembrava-se de quando subia na mesa da cozinha e fazia seu show, e depois apanhava por ter postos os pés imundos ali em cima; e continuava fazendo a mesma coisa, mesmo apanhando vez após vez. Lembrou-se também do ensino médio, quando já estava enlouquecendo seus pais por uma aula de canto, que eles lhe diziam que nunca iriam lhe pagar. E não pagaram. Contudo, não teve problema. Ela arrumou um emprego de meio período e conseguiu pagar pelas próprias aulas. Seus pais nunca foram exatamente contra seu sonho, entretanto, lhe diziam, continuamente, que música não enchia barriga de ninguém. Bem, eles não estavam de todo equivocados. Os três anos de aula realmente fizeram bem a alma dela, todavia, não para o currículo. E se soubesse que decairia tanto, talvez tivesse abdicado aquele desejo há tempos. . . Mentira. Nunca faria isso. Cantar fazia parte dela. E quer saber, não importa se ela fique rica ou não com isso. Ser feliz estava muito além disso. E podia afirmar, com toda a certeza, que era mais feliz agora, do que há meses atrás, quando tudo o que fazia era levantar, trabalhar, voltar pra casa e dormir. Fazia o que queria fazer, talvez não dá forma que tinha imaginado. Mas fazia. E era isso. Cantaria no bar até quando pudesse. Se fosse descoberta. . . Ah! Isso ela veria depois. Decidiu que viveria um dia de cada vez.

Quanto ao Luís, ele era um fofo, isso era fato. No entanto, se se envolvesse com ele, as coisas ficariam difíceis. Ou será que não? Era tão ruim namorar alguém? Não. E ele parecia ser um cara legal. Não parecia do tipo que espalharia tudo que descobrisse dela. Parecia um moço sincero.

– Você ficou maluca?! — murmurou em tons repreensíveis, antes de se reerguer.

Isso que dá pensar demais. Nunca sai nada que presta.

Passou as mãos pelo colo, desamarrotando a saia cor de gelo, e o avental branco por cima dela. Olhou os sapatos claros, e os ombros do vestido justo. O franzido da manga estava meio amassado. Passou os dedos pelo coque do cabelo ruivo, e olhou no reflexo do espelho de chão de moldura prata, e viu os olhos castanhos claro meio embaçados. Droga. Teria de limpar aquilo outra vez. E todos os vidros ali. Tinha asseado no dia anterior, e tornara a embaçar. Seria o ar-condicionado? Não importa. Estava sujo, ou aparentava estar sujo, lá estava ela, à disposição.

***

Luís se sentia como um adolescente. Havia beijado ela. Aquilo fora quase um encontro. A única diferença é que não a havia convidado. Simplesmente estavam ali, aproveitando a companhia um do outro, quase que acidentalmente. Então não era um encontro. Todavia, pressentia que estava próximo. Na realidade, hoje mesmo pediria. Isso! Mas voltou a pensar no beijo. Ou no selinho, sei lá o que aquilo tinha sido. Ainda assim, eles se tocaram, e isso era o que importava.

Meu Deus. Ele estava doente. Realmente doente. Realmente maluco. Parecia uma criança! Quer saber? Tanto faz. Eu vou ficar feliz mesmo, porque vou sair com quem eu gosto, e ainda vou ver meu amigo correndo travestido pelas ruas da Ilha Jambo. Melhor que isso só ganhar na loteria.

– E esse sorriso de bocó aí, hein, moço? — disse Sérgio, sentando-se na cadeira à frente do amigo, que administrava as finanças da rádio. Deixou sobre a mesa cheia de papéis dois cafés, e se recostou no estofado marrom do assento.

– Estou trabalhando, Sérgio, fica de boa. — respondeu o Sr. Bocó, cruzando os braços e se jogando de um lado para outro, a fim de fazer sua cadeira girar, como um imbecil.

– Dica, amigo, as atividades não se fazem sozinhas, nem com a força do pensamento. A gente tem que mexer as mãos, sabe? — caçoou, gesticulando, como de costume.

– Eu até poderia me afetar com suas piadinhas idiotas. Mas estou ocupado demais sendo feliz. — rebateu, com um sorriso largo e bobo.

– Ah, é? Posso saber o que aconteceu? — perguntou, aproximando-se da mesa para pegar um copo, e dar um gole.

– Bem, digamos que. . . — começou Luis, pegando o outro copo.

– Hey! — reclamou Sérgio, batendo na mão do amigo, — é meu café!

– Os dois?

– Algum problema?

– Fora seu egoísmo e sua barriga enorme, não tem nenhum!

– Quer brigar, cara?

Sérgio fingia uma irritação. E estava tão concentrado no papel, que nem viu quando um amigo deu um salto e roubou o copo, voltando para sua posição original, e bebericando a bebida quente.

– Ladrão.

– Senta aí e fica quieto. Deixa eu te contar as coisas.

– Está bem. — e deixou o copo vazio sobre a superfície de novo, antes de cruzar os braços e fechar a cara — Mas o café era meu.

– Como eu estava falando — ignorou Luís — hoje eu vou chamar a sereia para sair.

– Legal. Sabe o nome dela, pelo menos?

– Não. Mas ontem a gente conversou. E até se beijou.

– Aham. . . — respondeu, incrédulo. — Sei. Ela sabe disso também, não é?

– Ha ha. — forçou uma risada falsa — claro que sim. E acho que ela gosta de mim.

– Que bom.

– É sério! A gente realmente conversou!

– Sobre o quê?

– Sobre ela.

– E agora, o que você sabe dela?

– Não muito, mas bem mais do que há uma semana.

– Você acha que ela vai aceitar seu convite?

– Não tenho certeza. Não custa tentar, certo?

– É. Acho que eu realmente vou ter que chamar a Sara pra sair.

– Você ainda nem tinha pensado nisso, não é?

– Claro que não! Eu ia esperar você se dar mal pra eu tentar alguma coisa. Mas agora que você possivelmente vai se dar bem, acho que tenho que mexer os pauzinhos.

– Apesar de estar confiante, estou com um pouco de medo, sabe? Ela me evitou por quase um mês. Agora que eu consigo ver um luz no fim do túnel, mas não tenho certeza que ela vai me aceitar. Ela é muito difícil. E tem todos aqueles segredos e tal.

– Você vai desistir?

– Nunca. Mas tenho que te lembrar uma coisa.

– O quê?

– A nossa aposta foi: quem for rejeitado, sai vestido de mulher.

– E. . .

– Que se nós dois formos rejeitados. . .

– Nós dois vamos ter que nos vestir de mulher. — completou Sérgio, com um sorriso malicioso no rosto — Que bom! Agora eu não preciso mais passar vergonha sozinho!

***

Luís estava nervoso, embora animado. Tinha pensamento positivo. Bagunçou os cabelos antes de entrar no bar, como de costume, e desabotoou alguns botões da camiseta verde escura.

A dita cuja já estava sentada no lugar de sempre. Chegara meio atrasado, então. Nem conseguira vê-la cantar. O trabalho realmente lhe exigiu muito no dia. Um estagiário tinha perdido alguns papéis importantes, e o pessoal teve que reorganizar tudo outra vez, imprimir tudo outra vez, e procurar as informações, tudo outra vez. Resultado? Mais duas horas no local. Mais tempo pra preparar o jantar, mais tempo pra terminar suas atividades em casa, e mais tempo até conseguir chegar no bar.

Correu para a mesa da moça e sentou-se, esperando boas notícias. Pediu um drinque ao garçom que passava.

– Oi! — disse animado.

– Oi. Já estou saindo. — respondeu, já se levantando.

– Mas já?

– Sim. Mas pode ficar na mesa.

– Fica mais uns dez minutos. Vamos conversar. — e segurou seu pulso levemente.

– Não posso.

– Então você só vai fingir que ontem não aconteceu nada?

– Mas não aconteceu nada ontem.

– Está bem. Não aconteceu muita coisa, mas aconteceu alguma coisa.

– Não sei do que está falando. — disse, fingindo inocência.

– É claro que não sabe. — e soltou-a. Entretanto, ela não se foi. Ficou ali, encarando-o, sob a máscara negra e as ondas dos cabelos. Luís viu seus lábios se entreabrirem, como que para falar alguma coisa, porém, ela logo desistiu, e se afastou com passos — talvez — hesitantes.

Luís tentou ficar parado, olhar as pessoas em volta, curtir a música, saborear a bebida recém chegada, mas não conseguiu. Como se fosse uma ordem, voou lá pra fora, ainda a tempo. Ela já estava quase na esquina da rua, quando ele a alcançou.

– Está bem. Esta é a última vez que faço isso. — ela se virou — Qual é o seu nome? — ela ficou quieta. — Já entendi. Esquece — expressou, pondo as mãos nos bolsos — Tchau. — e acenou — Foi legal perseguir você. Até mais.

E se afastou, lentamente. A passos calmos foi voltando para o bar.

– Elisa. — uma voz lhe disse. Ela disse. – Meu nome é Elisa.

– Como? — perguntou, virando-se novamente para a moça. Mas já era tarde, ela já estava longe. Correndo como uma maluca. Ela corria engraçado, como se estivesse sendo seguida por um cachorro de dois metros. Balançando os braços segurando os sapatos, e saltitando os paralelepípedos que brilhavam sob a luz da lua. Luís não viu seu rosto, mas concluiu que estava rindo. E desta forma, aquela gazela desajeitada não parecia tão feia. Aquele vestido comprido e rodado num tecido cinza esvoaçante que dançava pela rua já não parecia tão estranho. Muito pelo contrário. Parecia fofo. E foi aí que ele percebeu, que realmente estava apaixonado. Apaixonado por Elisa, a maluca mascarada do Bar do Seu Romão. Pensou também no fato dela finalmente ter lhe dito o nome. Ela também estava apreciando aquilo. Ela queria que ele continuasse a correr atrás dela. Luís suspirou, e disse a Elisa, que a essa hora já devia estar a milhas de distância – Desafio aceito.