Ela poderia ser casada. Isso explicaria as roupas, explicaria a necessidade de ir disfarçada. E dependendo da personalidade do homem, ela seria proibida de sair de casa. Todavia, se ela anda tão bem vestida, para que precisaria de dinheiro? A não ser que quisesse se separar do marido, mas não tivesse para onde ir, ou algo parecido. . . Porém, seu esposo notaria suas constantes saídas.

Se ela fosse divorciada, e tivesse filhos, isso explicaria sua máscara (uma vez que a cidade era fofoqueira, e ela costumasse sair tarde da noite para cantar em bares, ficaria mal falada, ainda mais por ser mãe); e explicaria a necessidade de dinheiro. Mas de onde viriam as roupas? De uma vida com um antigo marido? Além do mais, divorciada ou viúva? Não poderia ser viúva. É tão jovem! E se tivesse herdado aquelas roupas do antigo casamento, havia de herdar uma certa riqueza. Ah não ser que a tivesse gastada por inteiro. E se não era viúva, e fosse realmente divorciada, o pai não haveria de cuidar da criança financeiramente? E se fosse mãe solteira? Fruto de uma relação casual com um homem rico que lhe dava presentes, e que por ela acabar engravidando, largasse-a? Afinal, ela teria ou não filhos? Não deveria estar um pouco mais acabada com tudo isso?

E se o problema fossem seus pais? Isso explicaria a necessidade de se esconder (pais conservadores que não creem na música como fonte de renda estável), explicaria as roupas (ricos), e explicaria a necessidade de dinheiro — possivelmente ela estaria lutando pela independência financeira. Mas tudo isso levantaria outra questão: a idade. Ela parecia ter seus vinte e três ou vinte e quatro anos. Ainda que morasse com pais superprotetores ou conservadores, já poderia escolher sua carreira e seguir a vida. Além do mais, era século 21, não 17.

Essas eram as três coisas que ele conseguia pensar, e todas divergiam em algum ponto. A não ser que existissem circunstâncias que ela não conheciam e possibilitasse a alguma das alternativas, ou criasse uma nova. Como um namorado brigão, uma família problemática, pendências com o governo, ou até com a polícia. Reveses econômicos ou até mesmo distúrbios mentais. Ou seria isso tudo simplesmente uma fantasia? Sim! E se em todo esse tempo em que ele estava correndo atrás dela e formulando teorias para sua identidade secreta, a mulher estivesse rindo da cara de todo mundo? Se fosse uma atriz desempregada que estivesse fazendo isso apenas para se divertir? Sim. Podia ser simplesmente uma pessoa contratada para cantar, com uma pitada de suspense. Uma personagem criada pelos donos do estabelecimento, que fazia render uma curiosidade e uma grande soma de dinheiro.

Quer saber de uma coisa? Não importa o que ela seja, já havia decidido sair com ela, e era isso o que faria. Estava mais perto. Perto do que, não sabia, mas estava mais perto. E se tinha uma certeza, era esta: não se vestiria de mulher.

***

Sérgio havia passado a manhã feliz. E não porque tivesse conseguido falar com sua paixonite, e sim porque Luís não tinha conseguido falar com a dele. Quanto mais Luís se desse mal, menos ele precisava falar com Sara. Ele não pretendia fazer aquilo, de qualquer forma. A não ser que seu amigo estivesse quase conseguindo o que estava planejando. Desta maneira teria de se apressar e convidar Sara para sair. Situações desesperadas requeriam ações desesperadas. E se havia algo realmente desesperador que pudesse vir de Sérgio, era ele chamar Sara para sair. Contudo, não precisava se preocupar, pelo menos não pelos próximos dois meses. Só partiria para o ataque quando Luis estivesse para ser destruído. Se não conseguisse, se renderia ao trote, ou talvez negociasse com o colega uma outra forma de compensar os danos. Talvez ele não aceitasse, mas ele lutaria até o fim, com sua covardia como escudo.

Olhou para o amigo mais uma vez, da porta do estacionamento do prédio da rádio, antes de vê-lo entrar no seu carro. Admitiu para si: ele era bonito. Muito bonito, na realidade. Com cabelo escorrido, olhos azuis e uma ótima altura. Tinha um emprego estável, bom salário, se vestia consideravelmente bem, tinha casa própria, automóvel pago, e nem chegara aos trinta! Não que tivesse inveja dele. Aliás, Sérgio era inteligente, engraçado, ganhava quase a mesma coisa e também tinha carro; além de ser um gatinho fofo (na sua opinião). No entanto, não conseguia compreender que tipo de menina louca não toparia sair com ele. Quer dizer, o cara não era um psicopata que colecionava cabeças de moças virgens, talvez só um pouco metido. . . Está bem, muito metido. Só que era uma boa pessoa. E o tipo de muita mulher. O tipo tenho um carro e ganho bem. Até Sérgio recebia cantadas de certas mulheres, até muito bonitas, que só estavam interessadas em seus chocolates, dinheiro e bens, as quais ele rejeitava por esta mesma razão; imagine o quão assediado era seu amigo, então! O idiotia podia muito bem deixar essa sereia em paz e viver a vida com uma moça bonita e direita, ou várias moças até. Era um infeliz, isso sim. Miserável. Só quer o que não pode ter.

– Talvez eu não ganhe — murmurou para si — mas ele vai perder.
Bem, era isso que Sérgio achava.

***

Fizera bem em não contar ao amigo as últimas novidades. Não que houvesse, de fato, muita coisa nova pra contar. Era só que Luís se sentia mais perto dela do que nunca. Agora ainda achava que tinha uma chance. Antes, sua esperança era tão cega que se lhe contassem que ela era um extraterrestre, ele acreditaria. E lhe ajudaria a sair do planeta, fazendo-lhe até companhia, se ela quisesse. Bem, agora as coisas estavam mais claras, se arriscava até num quem sabe?, sentia que tudo era possível.

Se bem que, pensou, dependendo do seu segredo, ele não se sentiria à vontade a sair com ela, nem a moça com ele. Por exemplo, se ela fosse casada? Não sairia com uma mulher casada. Ou se ela fosse uma criminosa perigosa, cuja polícia nacional está atrás desde 2005? Ou se fosse mãe de sete crianças e mulher de um traficante? Ou se fosse filha de um traficante? Ou se fosse irmã de um traficante? Ou se fosse prima de um traficante?

Chega! Antes de decidir se sairia ou não com ela, precisava saber quem era. E pedir. Se bem que achava que quem se esquivaria de um compromisso seria a tal sereia, e não ele.

Em seus sonhos, a mulher era incrível, com olhos claros e brilhantes, e era uma pessoa culta, que pensasse, que tivesse opiniões e soubesse do que ele falava, e que deixasse ele falar, em vez de tagarelar o tempo inteiro. E mesmo que não soubesse o que estava sendo discutido, perguntasse sobre, em vez de simplesmente acenar a cabeça e fingir que concorda com tudo. Além de tudo, uma mulher discreta, que sabe o que dizer e quando fazê-lo. De tudo citado, sabia que ao menos a última qualidade ela possuía. Mesmo no bar, ela era o cuidado em pessoa. Sempre quieta, sem grandes frases, pisando em ovos com as palavras, sem nunca se revelar. Garota esperta.

Passou em casa antes de seguir para o bar novamente, na presente segunda-feira, para comer alguma coisa e deixar a gravata em casa, ficando apenas com a camiseta num azul bem claro e discreto, com a gola e pulsos brancos, e com a calça risca-de-giz em tons de preto e cinza pouco discerníveis. Passou as mãos pelos cabelos escuros, tentando bagunçá-los um pouco, e desceu para ouvir aquela maravilhosa voz mais uma vez.

No caminho para o estabelecimento noturno, ponderou naquela voz mais uma vez. Era bonita, era brasileira, mas não de um jeito comum, e sim de um jeito sofisticado. Isso! Ela elevava a cultura do país a um nível elegante, resgatando nomes antigos da história da música no Brasil, trazendo de um jeito diferente os ritmos das canções mais clássicas de que o povo já ouvira falar. Ouvir e vê-la era como voltar no tempo. Num tempo de bares com espetáculos, de salões com festas exuberantes, com mulheres de longos vestidos rodados e homens de ternos que tiravam seus chapéus para as damas que passavam com seus lenços delicados e expressões inocentes. Mesmo quando cantava os rock's nacionais das últimas décadas, não perdia a batida característica do estilo que apresentava. Ainda mais agora, desde que, na última semana, havia uma banda regular no bar, se é que aqueles dois velhos violonistas podem ser chamados de banda. Tocavam e cantavam aquelas canções antigas de corno, às vezes acompanhados por alguém, como a sereia, ou algum outro que subia para se divertir, às vezes sozinhos. Cada qual com seu violão, de Chico Buarque a Legião Urbana. Digamos que eles tocavam pra caramba. Nem sempre o que os jovens gostavam de ouvir, mas tocavam, sim. Apesar do caraoquê digital, ficavam ali, sendo pagos quando requeridos pelos amantes do "vintage brasileiro".

Como previsto, lá estava ela, mais agitada que o comum, elevando sua voz na famosa "Mas que Nada". Ela parecia feliz, estava sendo acompanhada por palmas, e até um breve coro de alguns poucos que sabiam a canção.
Perguntou-se por um breve instante por que ela não tentava uma carreira. Tinha talento. E mesmo que não conseguisse criar suas próprias canções, se regravasse antigas canções nacionais, poderia ganhar um bom dinheiro. Muito mais que se cantasse apenas em bares. Ou bar, no singular, que no caso era só esse.

Ao término do breve show, Luís já estava sentado na mesa de costume da moça. Tão costumeira que quando esta desceu do palco, nem notou que ele estava ali. Bem, quando notou era meio tarde demais. Não a deixaria escapar com menos de um cumprimento.

– Oi. — disse Luís.

– Oi. — respondeu por trás da máscara de sempre, ornando o vestido negro de mangas compridas com bocas largas que escorregavam pelo pulso dela, além do evasê da saia que lhe cortavam os tornozelos, presos pelo salto de veludo, também escuro, dando charme ao colar de pérolas falsas sobre a clavícula nua no decote em V do tecido justo, que só afrouxava nos largos quadris, emanando beleza. — Me desculpe. De longe eu não vi que a mesa estava ocupada, de novo. É que eu costumo sentar aqui. Mas vou achar outro lugar.

– Vai recusar de novo se lhe convidar para se sentar aqui?

– Se o senhor continuar sentado nela, eu vou, sim.

– Não sou tão chato quanto pareço.

– Acredito que seja uma boa pessoa.

– Então deixe que a boa pessoa lhe pague um drinque — ela nunca deixava ninguém falando com as paredes. Mesmo cortando a conversa, ela jamais fazia a indelicadeza de ignorar. A não ser que estivesse correndo para o cemitério, ou estivesse sendo seguida até o cemitério. Desta forma, ela ignorava sim. Ou fugia. Sim. Fugia era mais apropriado.

– Olha, moço. . .

– Luís, pode me chamar de Luís.

– Tudo bem. Olha Luís, se não notou, eu não costumo beber com as pessoas no bar. Você sabe disso, mas continua insistindo. Aliás, de todos, você foi o que me perseguiu por mais tempo.

– Obrigado!

– Você sabe que não foi um elogio. E também sabe que não vou sair com você. Fico grata pelo seu interesse, mas não.

– Tudo bem. Entendi. Vou te fazer uma proposta. A última. Você senta aqui comigo, conversa um pouco, eu te pago uma bebida, e se não gostar, pode sair e eu nunca mais corro atrás de você. Te deixo em paz pelo resto dos seus dias. Se você não se sentar, eu vou te perseguir e te encher o saco até você aceitar falar comigo.

Ela olhou para ele como se estivesse pensando no assunto. Considerando as opções. Luís sorriu, e talvez ela também tenha sorrido. Mas sua resposta foi:

– Não.

– Então está bem. Eu vou te perseguir pelo resto da sua vida. Não vou te deixar em paz. Vou te vencer pelo cansaço.
Dessa vez, ela realmente gargalhou.

– Será?

– Não vou desistir. Eu até pensava em fazer isso. Mas agora estou totalmente decidido. Um dia você vai sair daquela porta de mãos dadas comigo.

– Quer saber? Eu aceito a primeira proposta. — e sentou-se à frente dele.

– Sério? — disse ele, incrédulo, sem saber o que fazer.

– Sim. Mas tem que se lembrar: só hoje. Depois de hoje, não irá mais me perseguir.

– Farei isso se você não gostar.

– Sim. No final, já sabe minha resposta.

– Se você tiver uma expressão positiva, mesmo falando não, eu ainda vou te perseguir. Você deve ser sincera.

– Está bem.

Luís pediu o drinque dela, que chegou com considerável rapidez, trazido pela garçonete da outra vez, que já não sorria sensualmente como daquela vez. Passou-se, então, um breve silêncio. As mãos da sereia sobre a mesa, com as unhas grandes e pintadas de vermelho, com dedos entrelaçados no copo e cobertos de anéis. Belas mãos. Luís, nervoso, na mesma posição da mulher à frente, sem saber como prosseguir.

– Você quer me dizer alguma coisa?

– É. . . Bem, é que. . .

– Não sabe o que dizer? Hum. . . Então acho que vou embora.

– Não! — gritou, antes de se recompor — quer dizer, não. Não vá. Por favor. É só que estou meio nervoso.

Ela sorriu novamente, os cantos dos lábios se projetando para cima, sem dentes. Uma expressão interessante.

– Não vai me dizer seu nome, não vai me mostrar seu rosto, nem vai me dar o seu telefone, certo?

– Certo.

– Mas quer saber? Nem precisa. Eu vou conseguir. Eu vou descobrir quem você é.

– Posso perguntar como?

– Claro. Ao contrário da senhorita, minha vida é um livro aberto.

– Que bom. — desdenhou.

– Vou conseguir por eliminação.

– Eliminação? — repetiu, fingindo interesse.

– Vou apresentar minhas teorias até você aceitar uma delas.

– E se eu não aceitar nenhuma?

– Seu rosto me dirá.

– A parte exposta ou a escondida?

– Ha ha. A parte exposta. A outra parte eu vou ver daqui a alguns dias.

– Gostaria de começar?

– Está bem. Mas antes, vou lhe contar o que sei.

– À vontade.

– Sei que você tem um horário que nunca quebra. Nunca vem mais cedo ou sai mais tarde. Sei que por alguma razão não quer ser descoberta por ninguém, e isso é tão importante que suportou a mentira por meses.

– Grandes descobertas. — desdenhou novamente.

– E sei que tem responsabilidades e precisa de dinheiro.

Luis sentiu que a última sentença provocou um breve choque na mulher, que oscilou os ombros por um momento, mas logo recobrou a compostura.

– O senhor gosta de ouvir pelas portas? — entregou-se.

– Não. Na realidade, eu estava indo embora quando vi a senhora conversar com o barman. Escutei uma ou duas coisas, mas não a conversa inteira. Se tivesse chegado cinco minutos antes! Eu teria mais o que dizer.

– O senhor não poderia estar mais longe da verdade. — comentou, transpirando calma.

– Vamos às opções.

– Por favor.

– Você é casada. — ela riu. E não foi uma risada bonita. — Do que está rindo?

– Você é hilário!

– Para de rir!

– Está bem. Digamos que eu seja casada, o que isso tem a ver com eu precisar de dinheiro?

– Você sustenta seu marido?

– Não tenho marido.

– Sério? A senhora é solteira então? Não tem namorado?

– Não. Nem quero ter.

– Errada! — apontou — toda mulher quer ter um namorado.

– Não sou toda mulher.

– Mas faz parte da fatia, assim como toda mulher. E estou com um forte pressentimento de que serei o seu!

– Ó Deus! Quanta presunção!

– Se não é casada é divorciada.

– Não. — se limitou a dizer.

– Mas a senhora tem responsabilidades. . . Talvez uma dívida?

– Todos temos dívidas.

– A sua é grande demais?

– Acho que não. — respondeu, recostando o rosto na mão, que estava apoiada pelos cotovelos na mesa.

– Então — pensou alto — se não tem responsabilidades com dívidas, devem ser responsabilidades com pessoas. Então você cuida de alguém. — afirmou — Você tem filhos!

– Talvez. — disse, após mais uma vez, uma súbita e breve oscilação nos ombros.

Ele parou, e pensou.

– Se é talvez, é sim. Porque se com as que eram não, você falou não, as que são sim, você fala talvez!

– O quê?

– Ha-ha! Te peguei. Então — pensou em voz alta — Você tem filhos?

– Não. Eu não tenho filhos.

– Errada de novo.

– Bem, você pode acreditar no que quiser, mas eu nunca fiquei grávida.

– Você complica muito as coisas.

– E você é muito enxerido.

– Você aceitou o desafio. Vamos até o fim.

– Está bem. Vamos lá. Próxima.

– Já sabemos que você tem um filho, ou cuida de alguém como um filho. . .

– Quando você fala já sabemos, se referem a quem? Porque só tem você aqui.

– Sem interrupções!

– Está bem. — disse, levantando as palmas ao ar, como que pedindo calma.

– Já sabemos — ela revirou os olhos — quais são suas responsabilidades, já sabemos porque precisa de dinheiro, agora falta saber de onde vem suas roupas, e porque tem que se esconder.

– E quais são as teorias?

– Você já foi rica, certo?

Ela riu. Não tão escandalosamente, mas riu.

– Talvez. Quem sabe?

– Esse talvez realmente me deu dúvidas. Você pode ser uma falida, ou, não se ofenda, por favor, você tem um patrocinador?

– Se com patrocinador você quer dizer homem milionário que banca luxos para mim em troca de eu ser sua amante, não, eu não tenho um patrocinador.

– Desculpe, se te magoei. É que as opções estão acabando.

– Não, tudo bem. Já me perguntaram a mesma coisa. — ela parecia ter um olhar cabisbaixo, como se a mera sugestão a fizesse lembrar-se de algo.

– Até me ofereceram, certa vez.

– Sério?

– Sim. Você também vai me oferecer?

– Não. Não tenho tanto dinheiro assim.

– Está dizendo que pediria se tivesse? — incitou ela, em tom de brincadeira.

– Talvez. Se eu tivesse muito dinheiro, três divórcios, cinco pensões pra pagar, e mais de cinquenta anos, quem sabe? — ela gargalhou.

– Eu, sinceramente, nunca ficaria com um homem sob tais condições. Pode parecer brega, mas eu realmente quero ficar com alguém por amor. E não ficar passando de mão em mão, pra ver quem dá mais pra ficar comigo. Eu vou escolher uma pessoa só, e fazer de tudo para durar. — ela falava como se estivesse jogando isso na cara de alguém, mas não exatamente na dele. Mas como se tivesse um certo ressentimento com uma pessoa desta natureza; talvez o homem que lhe sugerira aquilo.

– Pensei que tivesse dito não queria namorar alguém.

– Um dia, eu vou.

– Esse dia pode estar perto.

– Eu acho que não. E acho que já falei demais. — concluiu, pegando a pequena carteira retrô preta com detalhes em vinho, que Luís só percebera que estava ali no momento, e erguendo o corpo para ir embora.

– Ainda está cedo.

– São quase dez horas, eu tenho que ir.

– Seu toque de recolher não era meia-noite? — perguntou Luís, levantando-se também, e seguindo-a até a porta.

– Não me siga de novo! — advertiu ela, apontando-lhe um dedo, e caminhando pela calçada com passos largos.

– Calma, você nem me disse o que achou de conversar comigo. — alegou, virando-a pelo braço.

– Eu não gostei.

– Está falando isso pra eu parar de te perseguir.

– Independente do motivo, eu não quero mais falar com você.

– Nem consegue falar isso olhando para mim.

– Claro que não! Você fica encarando os outros desta forma! Não tem como te olhar nos olhos.

– Que argumento mais infundado! Mas eu vou te deixar em paz. Por hoje. — ressaltou, soltando-a. Ela saiu apressada de perto dele, mas foi puxada novamente, pela cintura — Já ia esquecendo. — e a beijou leve e até mesmo desengonçadamente. Ela logo tratou de se afastar, após um fino grito de frustração, antes de sair correndo, sem dizer mais nada, apenas fugindo. — Tchau!

Como havia previsto, estava quase lá. Sérgio que prepare a purpurina, porque é ele quem vai brilhar.