A Sereia
8 Capítulo 8
Acesse aqui a trilha do capítulo!
Fui devastada por uma onda de desespero antes que pudesse evitar. O que eu tinha feito? Tampei a boca com as duas mãos em concha, incapaz de disciplinar meu corpo. Eu chacoalhava, como uma palmeira sob os efeitos dos ventos da estação. Não me sobrara força para coordenar os pensamentos. Eu sabia o que viria a seguir. Eu conhecia as consequências, e agora arcaria com elas.
-Claire, eu...
-Fique aí!! – Rosnei para ela, odiando-a por ter me desobedecido e me odiando mais por saber que não deveria culpa-la quando a responsável por aquele problema era eu. – Por que você veio!?
-Eu – Jade engrolou. Seus olhinhos brilhavam, buscando outro foco. Ela tinha razão em se apavorar. Nunca me vira tão furiosa antes. – Fiquei preocupada. Queria ver se estava bem...
-Eu pedi para não vir – Murmurei, oscilando perigosamente. – Por que não podia me ouvir só dessa vez?
Ela ficou muito quieta, o coração batendo tão alto e acelerado que fazia meus ouvidos latejarem dolorosamente.
-Me desculpe – Lamuriou-se ela, fitando os próprios tênis com amargura.
-Não se desculpe – Sussurrei, olhando-a com um ódio frustrado. – Apenas vá embora. Dessa vez não volte.
Jade suspirou, sufocou o choro e entrou na caminhonete. Vi seu rosto vermelho e inchado pelo retrovisor antes que partisse de volta à cidade.
Respirei pela boca por minutos a fio. Me sentia desnorteada, precisando desanuviar os pensamentos. E não existia outra forma, uma forma menos agressiva, de aliviar o medo que me consumia.
Passou-se apenas uma hora desde minha chegada para que a oportunidade se materializasse diante de meus olhos. Passei a língua pelos lábios, desejosa e apreensiva. Não restara quase nenhum controle em mim e deixei-me guiar pelos instintos e pela fome. Eu pensava, enquanto seguia a poucos metros atrás daquele homem pelo beco, que estava me expondo e arriscando denunciar minha existência. Se não usasse de cautela, tudo estaria perdido.
O homem tropeçava nas próprias pernas enquanto cruzava o beco ao lado do “pub” onde estivera por horas, possivelmente. Ele cantarolava e ria de si mesmo, alheio ao perigo que lhe ameaçava de tão perto. O ar atrás dele arrastava cheiro de álcool misturado a perfume barato, mas eu podia sentir algo mais. Sentia cada célula de seu corpo gritar para mim, seu sangue dançando nas veias, os músculos relaxados, o suor que lhe vazava pelos poros da pele quente.
-Olá? – Eu o chamei com inocência. Àquela altura, todo o meu corpo o desejava ardentemente. Era como estar submersa no torpor da embriaguez, depois de uma longa noite regada à bebida.
Rebolando sobre os quadris moles, ele virou em minha direção e seus lábios estenderam-se num sorriso satisfeito.
Eu sorri de volta. Já não havia mais vestígio de razão em mim.
Notas finais
.::. Seja original. Não copie ;D .::.
Fale com o autor