A Sereia
18 Capítulo 18
Notas iniciais
Acompanhe aqui minha nova história!
* * *
Passou-se semanas. Meses. Com a chegada de Dezembro, Raven tornou-se mais fria e menos acolhedora. Poucas pessoas arriscavam-se a enfrentar as ruas geladas e a maioria o fazia por pura necessidade. Contudo, Jade era diferente deles e suas visitas não haviam diminuído mesmo sob o mau tempo.
–Já lhe disse um milhão de vezes, Jade – Eu a empurrei porta afora, acompanhando-a até o Chevrolet velho que ela conseguira em troca da caminhonete amassada. – Não posso levá-la pra caçar.
Estava tentando despistá-la. Fazia semanas desde minha última refeição, e apesar da comida de Jade ser um alívio para meu lado faminto, tudo em mim gritava por sangue. Ainda que não sentisse remorso em me alimentar dos humanos, não queria chamar a atenção do xerife. Os casos de Shaw Natburn e Connor Stuart, o bêbado do Pub, ainda estavam em análise e algumas patrulhas rondavam a estrada Whitaker em busca de qualquer evidência.
–Tudo bem, já entendi – Jade bufou, irritada. – Mas precisa me prometer que qualquer dia vai me levar pra caçar com você!
–Veremos. Agora vá!
À contra gosto, minha amiga entrou no carro e partiu. Assim que o Chevrolet saiu de vista, corri floresta adentro, empolgada com a ideia de caçar novamente.
* * *
Voltei para casa no cair da noite. A chuva castigava a floresta, derramando-se gelada. A água açoitando como agulhas afiadas picando a pele. Entretanto, nada poderia abalar meu humor àquela noite. Estava satisfeita e renovada. Tinha abatido três cervos em poucas horas, me divertindo durante a caça.
Parei sob a escuridão da orla a floresta, observando. Alguma coisa se movia na varanda do chalé. Um borrão no escuro, arrastando-se até a porta e, de início, imaginei que fosse algum crocodilo vindo do lago. Apenas quando a massa negra ergueu-se e tentou abrir a porta percebi que não se tratava de um animal. Era uma pessoa. E ao que parecia, não estava nada bem.
–Você!!!? – Gritei, espantada quando cheguei até minha casa.
–Me ajude... – Murmurou ele, entorpecido pela dor. Seus olhos reviravam nas órbitas. Ele ía e voltava para mim, como quem beira o desmaio.
Com dificuldade, puxei seu braço por sobre meu ombro e o levei para dentro. Deitei seu corpo enfraquecido no sofá, porque não tinha força suficiente para levá-lo até o quarto. Enquanto preparava compressas com água quente e recolhia o KIT de primeiros socorros no armário da sala, meus pensamentos íam longe, imaginando o que acontecera.
–Yen – Chamei seu nome, mas ele mal conseguia abrir os olhos tomados por inúmeros vasos sanguíneos estourados. – Consegue me ouvir?
–Fle... cha... – Sussurrou ele, engasgando.
–Foi acertado por uma flecha!? Uma flecha dourada!!? – Eu recuei, assustada, levando as mãos ao peito. Meus olhos examinaram seu corpo, mas eu não via sinal de ferimento. – Por onde a flecha entrou, Yen!!?
Ele tossiu e gemeu antes de desmaiar.
–Yen!!! – Gritei seu nome, sem coragem de tocá-lo. Flechas douradas disparadas pelo povo do mar eram capazes de matar em muito pouco tempo. Uma vez enterrada ao corpo, a ação da flecha impedia a cicatrização espontânea, causando perigosa perda de sangue ao Siren atacado. – Sei que ela está em você. Posso... Senti-la – Fiz uma careta, com repulsa.
Qualquer ser do mar que tentasse tirar a flecha dourada de alguém ferido sabia que, pela própria magia envolvendo as flechas, traçaria um destino cruel para si mesmo. Se o ser flechado viesse a morrer, aquele que tentara ajudá-lo morreria junto.
–Flechas douradas nunca são disparadas em vão – Murmurei para mim, enquanto abria cuidadosamente as vestes de batalha de Yen. – Elas só acertam aqueles marcados para morrer – Espiei o rosto contorcido de dor de meu amigo. – O que você fez para receber esse castigo, Yen?
Notas finais
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