A Separação: Relato de um Espadachim
4 Compaixão
Notas iniciais
O selvagem esquisitão já caminhava conosco por mais de duas horas. Sinceramente, no momento em que o conheci eu já estava muito desgastado com todo o percurso adentrando aquela mata tenebrosa. Parecia até que quanto mais nos infiltrávamos na selva, mais vasta ela se tornava. Animais dos mais variados surgiam nas passagens e tocas. Macacos brancos, cobras venenosas, escorpiões coloridos e até mesmo sapos eram bastante frequentes. Meus ouvidos estavam aguçados como nunca: escutavam até os mais despercebidos ruídos produzidos pela fauna da região.
— Como será que estão os outros? — Perguntou Robin. O rosto já bronzeado pelo sol. A verdade é que o dia estava quente, um verdadeiro inferno. Essa condição nos fazia transpirar mais do que o comum. Nessas horas, tomar uma refrescante água cairia muito bem. — Sabe, estou surpreso que você ainda não se perdeu, Zoro-san.
— Muito engraçadinha. — Olhei para a arqueóloga que pôs a mão na boca, abafando uma risadinha irônica. Típico dela. — Estão em um lugar melhor. Provavelmente.
— Quer dizer, mortos? — Encarei a indagação de Robin com uma careta. Essa negatividade dela chegava a ser pior que o Usopp em alguns momentos.
— Claro que não. — Sorri. — Luffy e outros devem estar fazendo piadas e rindo como os palhaços que são. — Respondi na dura. Apesar de tudo, sabia bem do nosso objetivo ao seguir aquela trilha. Eu mesmo escolhi aquele caminho e agora não iria reclamar disso. Não era do meu caráter. Contudo, confesso que já estava me irritando com a demora daquela caminhada. Esse mau-humor me fez apressar os movimentos do homem que nos guiava:
— Ô, Maison. Falta muito? — Perguntei limpando o suor do rosto com o braço.
— Quase lá. — O nativo parou de andar e me fitou com um olhar sério. — Estamos nos aproximando da tribo. — Quando ele respondeu, pensei ser conversa fiada para motivar o restante do trajeto, mas isso mudou quando ouvi um som familiar lembrando chamas ardendo. Porém... Seria realmente fogo? A minha dedução foi confirmada ao perceber o aumento da sensação térmica e o cheiro de palhas em brasa. Ao meu lado, Maison lacrimejava à medida que nos aproximávamos de um conjunto de pequenas tocas. Era o cenário de sua aldeia, mas de uma forma excêntrica e triste. Para Robin e eu, só restava o olhar de espanto.
A tribo Canapa sucumbira às chamas que se proliferavam rapidamente pela comunidade. Corpos caídos preenchiam a superfície de areia negra. Crianças choravam e esperneavam ao observarem suas casas destruídas e famílias enfraquecidas.
— O que aconteceu? — Perguntei para Maison, que, ao invés de usar o braço para enxugar o suor, o usava para enxugar lágrimas.
— Foi tudo culpa deles. — Uma expressão de ódio contornava o seu semblante. — Os Encaminhadores! — A entonação do homem apresentava uma força incrível de raiva e furor mortal pelo grupo que arruinara o seu bando. Foi como a sensação que tive na morte da Nami. Uma sensação de incapacidade por não poder fazer nada e, simplesmente, esperar que algo seja resolvido. Algo pesado, mas que não iria me fazer desistir da caça ao culpado. Dali em diante, nada me faria desistir.
Bastaram alguns minutos para que a situação de Maison me causasse uma identificação. Não sei como ou por que, mas em poucos instantes realmente passei a querer ajudá-lo. Algo que nem é da minha personalidade, entretanto, acabou surgindo em meio àquele caso. Esse sentimento tem um nome, mas sabe que eu acabei esquecendo-o? Estava na ponta da língua...
Enfim! Após isso, nós caminhamos pela desestimulante área — dotada de sangue e lágrimas. Vozes franzinas murmuravam por ajuda enquanto as poucas pessoas que ainda apresentavam algum estímulo o utilizavam para ajudar os feridos. Muitos cadáveres jaziam à luz do sol. Grande parte com flechas atravessando a pele. Outros baleados e alguns com hematomas cobrindo todo o corpo. Se observados por certo tempo, qualquer um poderia constatar que os indígenas Canapas não sofreram um ataque simples. Quem ou o que o tivesse feito, não o executou rapidamente. Foi algo cruel e covarde.
— A... Ajuda... Ajuda... — Um idoso cambaleava ao nosso encontro, as pernas finas e fraquejadas. — Eu... Ele... Dor... — Com as mãos tentando apontar em nossa direção, o senhor tropeçou em uma pedra e tombou ao chão arenoso, dando o seu suspiro final. Robin, ágil e emotiva, utilizou o seu poder para diminuir o impacto do baque. Era o mínimo que podia fazer. Após pousá-lo no solo, a arqueóloga fechou os seus olhos e disse solenemente:
— Que descanse em paz. — Deu um intervalo de tempo para que nos fitasse. — Esse homem... Tentou nos avisar algo antes de falecer. Pergunto-me se seria importante...
— Provavelmente não... — Maison se aproximou do corpo, tentando recompor o seu estado emocional. Ele falhou. — Esse é o velho Maba. Um dos nossos mais antigos anciões. Todos o chamavam de louco, mas acho que no fundo era uma boa pessoa. — Mais lágrimas escorreram e mais melancólica se tornou a situação. Minha vontade de auxiliá-lo crescia proporcionalmente a esses detalhes:
— Entendo... Sabe... Eu quero ajudar o senhor. — Notei que Robin se surpreendeu com a minha fala. — Não vou cometer o mesmo erro de antes... Vou ajudar esse pessoal. — A morena saiu de um transe de espanto e assentiu a minha decisão. Logo, rumamos em direção à cachoeira que vimos no caminho da tribo.
A nossa tarde foi gasta com o suporte à causa de Maison. Carregamos baldes de água para apagar as chamas remanescentes e coletamos frutas, caçamos javalis que habitavam a região e pescamos alguns peixes para alimentar os nativos. Foi realizado o possível e o impossível para socorrer os índios Canapas.
O dia acabou com menos euforia e o sol logo deu espaço para a lua à medida que ânimos se acalmavam frente ao esplendor de uma noite estrelada. Por sorte, de todas as tocas, algumas não foram queimadas. Maison cedeu uma cama para que ficássemos, contudo, era de casal. Em outros momentos eu ficaria apreensivo de dividir o leito com uma mulher. Ainda mais com Robin, que, convenhamos... Era certamente atrativa. Todavia, eu estava tão cansado que nem cheguei a pensar nisso. Acho que ela também não.
— Robin... O que acha de tudo isso? — Perguntei com um tom de apreensão. Ela estava deitada bem ao meu lado, apesar da cama ser bastante espaçosa. — Esses Encaminhadores e tudo... Realmente estariam ligados à morte de Nami? E por que fariam isso justamente com ela? — Esperei a resposta com um distanciamento de silenciosos segundos:
— Eu... Ainda não sei. Aliás, ainda nem entendi o significado daquela placa. — A arqueóloga virou para o meu lado. A boca tão próxima da minha... Reconheço que fiquei um pouco nervoso nesse momento, mas não cheguei a corar.
— Então... Vamos deixar de conversa e dormir de uma vez. — Virei para cima, observando a palha do teto.
— É verdade. Hoje foi um longo dia. — Ela fez o mesmo.
— Concordo... — Com isso, fechei os olhos e capotei. Eu ainda não sabia, mas aquela seria a primeira de muitas noites dormindo fora do navio.
...
Pouco após o amanhecer, pássaros começaram a assobiar melodias irritantes no exterior da toca, nos fazendo acordar em instantes, prontos para mais um dia de mistérios. O grande problema é que despertamos muito cedo. Ninguém da tribo estava acordado: o breu era enorme. Com o tédio assolando nossas mentes, passamos a andar pelo perímetro da área. Eu ainda estava meio sonâmbulo e tudo, mas não conseguia dormir naquele mormaço. Tudo mudou quando avistei algo... Algo bem interessante:
Pegadas explícitas na areia.
— Robin... Olha isso aqui. — A morena atentou ao chamado e também se admirou com o achado. — Tenho certeza que não estavam aqui ontem à noite. — Comentei com a mão no queixo.
— Ora essa... Só no resta segui-las. — É lógico. Concordei com a resposta óbvia e assim a fizemos. A curiosidade tomava meu corpo ao ver cada pegada que, por sinal, marcava o solo por uma grande distância. Era um caminho totalmente diferente do que trajamos com Maison. Ao contrário de uma selva, podíamos apenas avistar uma imensidão de rochas, limitando uma trilha de barro.
Seguimos esse caminho por um tempo razoável, até nos depararmos com o desaparecimento das marcas frente a uma caverna. Tratava-se de um orifício apertado e sujo. (Essa frase deve soar mal, mas espero que me compreendam). Diante dessa visão, nos encaramos e simplesmente continuamos, com o intuito de adentrar a pequena cavidade. Era escuro e comprido, o que nos fazia espremer um no outro. O objetivo era atingir a outra extremidade, que tinha as paredes mais distanciadas. Contudo — ao alcançá-la — um susto tremendo:
Milhares de morcegos voaram em nossa direção, e causaram pânico nos movimentos. Os repeli com um sacar de espadas e, no calor do momento, cai de bruços juntamente com a arqueóloga abismo a baixo. Nossos corpos rolaram em uma espécie de escadaria natural. Devo dizer que nos abraçamos de forma constrangedora visando proteção simultânea. Felizmente, no fim da queda, nada de grave ocorreu. Ou seja, não quebramos nenhum osso ou coisa parecida. Afinal, atingimos firmemente em uma rocha, e não é sempre que dá para sair ileso de um impacto desses.
— Você está bem? — Robin assentiu, mas eu percebi algo de estranho no seu olhar. — O... O seu rosto. Você está meio que sem cor... — Alisei a face da morena. A preocupação começava a me alertar:
O ambiente estava mais sombrio do que anteriormente à queda. Os morcegos sumiram, mas no subsolo havia algo mais irritante do que os animais. Pedras pontiagudas ocupavam toda a área, e, no centro, jazia um enorme buraco no chão. Fumaça fluía do seu interior, e, em pouco tempo notei um fulgor vindo da mesma direção. Eu não acreditava ser possível...
— E... Estamos em um vulcão. — A morena confirmou a minha suposição enquanto tentava se levantar. Dei a mão para puxá-la, mas fui ignorado. — Zoro, não precisa... Eu... Estou bem. — Ela mentia. Com certeza não estava nem um pouco bem. Ao ficar de pé perdeu as forças subitamente, caindo a tempo de ser acolhida em meus braços.
— Não é hora de dormir... — Falei tal besteira propositalmente. Sabia que não estava dormindo. Havia obviamente desmaiado. Mas, como?
Analisei o corpo da arqueóloga e não demorou muito para que eu descobrisse o motivo. Uma flecha extremamente pequena fincada aos seus pés:
...Veneno.
Pousei o corpo da Robin do meu lado e bradei as katanas.
— Você que disparou... — Apontei na direção do bastardo e sussurrei para o vazio: — Eu sinto a sua presença.
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