Tudo começou há muito tempo atrás, ainda na escola, agora não é mais do mesmo jeito, as confusões das quais eu tive que tirá-lo agora são diferentes, não posso negar que sempre soube que ele terminaria assim, afogando o tempo perdido num bar, me culpo em partes por deixar que ele chegasse a esse ponto, eu e minha covardia.

Então eu entrei no recinto, o teto marrom por culpa do tempo e do cigarro, andei apressada até o balcão do bar e sentei num banco, bem do seu lado. Tinha a cabeça apoiada na sua mão e sua olheiras estavam mais fundas, ainda não sei porquê ele não pede o divórcio, tem dinheiro o suficiente para pagar a pensão do seu filho. Ele e suas fantasias da família perfeita.

Passei a mão nos seus cabelos, antes macios e brilhosos, mas agora ásperos e sujos, não liguei para isso. Ele ergueu a cabeça e consegui ver a confusão em seus olhos. Tirei a carteira da bolsa azul e joguei algumas notas no balcão. Ajudei ele a levantar-se e passei sua mão no meu pescoço, ele tentou não apoiar todo seu peso em mim, mas não conseguiu, nunca foi muito pesado mesmo, muito menos agora, seu rosto parecia uma cova.

Fedia à bebida e sua barba estava por fazer, a blusa branca de botões amarrotada e um pouco suja, os sapatos cobertos de cinzas do cigarro alheio, a imagem se completava com o dono de tal corpo desolado sendo carregado por uma mulher pequena e magra demais para os padrões do normal. Sempre achei que na madrugada é que podíamos ver a verdadeira face da humanidade.

Saímos do bar, ele se desvencilhou de mim e cambaleou até conseguir sentar no meio-fio, ele olhou para mim e deu tapinhas no seu lado, fiz sinal com a mão indicando que esperasse um pouco. Do outro lado da rua se localizava um beco de ambulantes, atravessei a rua e aventurei-me no beco, atrás de alguma barraquinha de comida, logo achei. Perguntei ao senhor idoso, que era aparentemente era o dono da barraca, se vendia café, ele afirmou. Pedi dois copos de café, especifiquei que precisaria deles sem açúcar e assim foram entregues a mim. Paguei.

Voltei ao meu amigo, entreguei a ele o café e sentei ao seu lado, bebendo longos goles do meu café, afastando os resquícios de um possível sono. Ele havia acabado seu café, perguntei se podia levar seu copo até o lixo, ele assentiu.

Sentei no meio-fio junto à ele e num piscar de olhos ele estava deitado em meu colo, olhos bem abertos, olhando o céu e toda a sua imensidão. Não foram preciso palavras, ambos sabíamos da grandeza de tudo aquilo, muito maior que nós dois. Todos esses anos, toda essa rotina sem rotina, nos tornamos bons e velhos amigos, olhei por um momento seus olhos e comecei a chorar e ele sabia que era o culpado, mas estava bêbado demais para ligar, eu apenas comecei a falar e não consegui parar:

- Veja onde você foi parar, tinha tudo pela frente, podia ter sido tudo e acabou reduzindo a todo esse teatro patético, você está se matando aos poucos e vai acabar me matando junto e eu estou deixando.

Ele olhou para mim, sabia que eu dizia a verdade, nunca consegui mentir para ele, de modo que ele sempre evitava as perguntas, a menos que quisesse ouvir a verdade.

- Você me ama?

Suspirei, elevei meu olhar ao céu e me perguntei mais uma de muitas vezes se o amava.

- Se isso não é amor, então não é nada. — sussurrei com simplicidade. — Queria poder te salvar de você mesmo. — soltei o ar em meus pulmões.

Acariciei seus cabelos e seu rosto, tracei o contorno de seu nariz e de suas sobrancelhas, ele fechou os olhos. Apenas queria que dormisse e que eu fosse parte de um dos seus sonhos, para que quando acordasse ainda tivesse 15 anos e um mundo pela frente, mas ele abriu os olhos e o olhar morto continuou lá, suspirei.

-Eu queria ter a coragem para sair dessa, mas sempre que tento fazer algo acabo me afundando mais, você sabe de tudo isso. Queria a mulher perfeita e estou casado com a pessoa errada em todos os sentidos, com um filho e uma vida profissional furada. É realmente patético. — ele riu – Onde você vai estar semana que vem?

- Aqui, eu estarei de folga próxima semana, é Natal.

- Vai passar aonde?

- Pra quê tudo isso?

- Responda.

- Não sei ainda. Talvez eu passe um tempo com minha mãe e depois eu não sei. E você? O mesmo de sempre?

Ele não respondeu, levantou-se e começou a andar, fiz o mesmo.

Era uma da manhã e nós andávamos pelas ruas, ele parecia procurar alguma coisa, eu procurava um sentido naquilo, mas não ousei parar de segui-lo, percebi que havíamos chegado ao centro verde da cidade. Ele pulou a grade e eu fiz o mesmo, continuamos andando, mas logo ele parou, bem no meio, na grama.

Virei e o encarei, olho no olho.

- Existem verdades que nós sempre soubemos, apenas queremos ignorar, como o fato de queijo ser leite estragado. — ele disse apenas, sem nenhum motivo aparente.

- Vem, eu vou te levar para sua casa. Está tarde e você devia estar em casa, eu também, meu noivo deve estar preocupado.

- Um noivo...

- Sim, mas disso você já sabe.

- Ainda aquele papo. Você não o ama, porque insiste nisso?

- Ele me ama e nunca me deixaria.

- Mas você me ama.

- Existem vários tipos de amor, tem o que é o grande amor da sua vida, esse você nunca vai deixar de amar, independente de tudo e tem aquele que você aprende a amar, o amor seguro, esse te ama de volta e nunca vai te deixar sozinha e tudo que você tem que fazer é amá-lo de volta.

- Talvez...

- Eu vou embora.

Dei as costas e comecei a andar em direção a grade, em direção a nada em particular.

- Fica.

Continuei andando, queria estar convicta do que estava fazendo, mas não estava, como sempre eu só continuei andando.

Tentei me concentrar em todos os detalhes do lugar, menos nas duas pessoas que estavam nele. Tinha cheiro de natureza contida, uma pequena parcela selvagem na selva de pedras. O frio da madrugada era um terrível contraste com o calor do dia, ele percorria a pele de meus braços nus como garras afiadas, desejei estar com um casaco. Podia-se ouvir o som de carros e pessoas ao redor do lugar, tal como se ali fosse uma ilha, a parte do barulho dos acontecimentos fora dela, só podendo ser ouvidos à distância, ecos de gritos de socorro na grande noite.

- Fica. — o som da noite foi cortado, com mais um pedido dele, sua voz soava imperiosa e imponente como eu nunca ouvira antes.

Dessa vez ele segurou minha mão e puxou-me para perto dele, acolheu-me em seus braços e segurou-me forte.

- Fica. Fica. Fica. Fica. Fica. Fica. Fica. Fica. Fica. Fica. Fica. Fica. Fica. Fica. Fica. — ele disse várias vezes como uma oração. — Eu não vou te deixar ir, não como eu venho fazendo todas as noites em que você vem no mesmo velho bar me salvar de mim mesmo. Só continua aqui.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.