A Seleção-Novo Mundo
12 Loras
Notas iniciais
Zuzete e mamãe ardiam em febre e o porco do meu pai estava bêbado demais para poder fazer alguma coisa. Os meses de verão costumam ser prósperos para outros lugares, mas no Norte, são apenas três meses que não neva, não significa que o frio nos deixa em paz. Desde o dia em que Lauren foi mandada para o Sul as coisas aqui em casa ficaram difíceis. Antes tínhamos três pessoas para alimentar cinco bocas, agora são apenas duas para alimentar quatro. Agora Lauren era a pessoa mais rica do Sul, pois ela iria se casar com o tal herdeiro de lá. Queria poder ligar para ela, pedindo ajuda, pedindo de que algum modo voltasse para casa e me ajudasse nesses tempos difíceis, mas isso estava fora de questão.
Quando Laur foi embora, nos deram o endereço e o numero privado do palácio, mas todas as nossas tentativas de mandar cartas ou de ligar para ela foram falhas. Apenas Lauren podia nos ligar ou escrever para nós, e então nós iríamos enviar cartas em resposta as suas. Mas não chegou nenhuma carta até agora, e o telefone nunca pareceu tão silencioso.
– Loras, onde está a Laur?- Zuzete falou com a voz tão fraca que chegava a falhar. Peguei suas mãozinhas geladas e as esquentei com as minhas. Ela está delirando de febre, pensei. Ela sabe que Lauren foi embora... Merda! Corri para as janelas comecei a gritas por socorro. Nós temos vizinhos, eles virão ver o que está acontecendo.
Não se passaram muito minutos até alguém bater a porta, e quando abri eram duas mulheres em suas camisolas de dormir.
– Ouvimos gritos de socorro, está tudo bem?- a mais velha perguntou. Ela tinha olhos cinza e cabelos escuros e lisos, uma típica aparência das pessoas do Norte. Sacudi a cabeça negativamente.
– É minha mãe e minha irmãzinha, estão delirando em febre. – eu disse tentando manter a voz calma. Elas se olharam com preocupação, então passaram por mim, subindo as escadas e entrando no quarto de onde vinham as tosses.
A mais nova colocou as mãos sobre a testa de mamãe e de Zuzete, e se espantou com a quentura. – Há quanto tempo elas estão assim? – pergunto.
– A mais ou menos três dias.
– E a febre não abaixou?- a mais velha perguntou enquanto colocava bandanas de água fria em sua testa. Algo em seu olhar sobre mim me deu a entender que ela observava todos os meus passos.
– Só aumentou, tive que dar leite de papoula para elas. – eu disse sem tirar meus olhos dos seus. A mais velha sacudiu a cabeça, olhou para mim com os lábios abertos, prontos para dizer algo, mas vacilou, sacudindo novamente a cabeça.
– Elas estão com a febre, senhor. Não há nada que se posso fazer, o tratamento é muito caro, e suspeito que você não tenha dinheiro o suficiente para paga-lo. – a mais nova concluiu. Meus olhos se encheram de lagrima.
Já havia ouvido falar na febre. Ela era passada através da carne do porco, e por algum motivo só afetava o povo do Norte. Soubemos de pessoas do trabalho da minha mãe cujo os filhos morrerão por causa dela, e também havia historia que essa febre levava a loucura, sendo que a melhor maneira de fazer passar a dar do indivíduo seria o matando.
– NÃO! Não.. – gritei em meio ao choro. Elas tentaram me segurar, enquanto eu caía aos pouco nos chão gelado de pedra. Se Lauren escrevesse, se ela ligasse... Poderia salvar a vida delas, mas ela não ligou, e suspeitava que elas já estivessem mortas até lá. Segurei a bainha da moça mais velha, abafando meus gritos nelas, então ela começou a acariciar os meus cabelos.
– Ei eu conheço você, você é irmão daquela garota que virou uma noiva do Sul, não é mesmo?- a mais nova falou. Fiz que sim com a cabeça, e então me virei para ela.
– Não adiantaria, eu não posso ligar, eu não posso mandar cartas. Até ela se comunicar comigo elas estarão mortas! MORTAS! – gritei a ultima palavra, como se ela estivesse presa em minha garganta de um jeito que queimasse.
– Elas têm alguns dias até a febre as levarem a loucura, você pode dar a sorte até lá. – a mais nova disse.
Talvez ela estivesse certa, talvez não, mas não poderia arriscar. precisaria agir logo, e rápido.
Elas ficaram aqui a noite toda, colocando e tirando bandanas. Esperei estarem muito distraídas para que minha ausência não fosse notada, então sai de casa, entrando no bosque escuro ao lado dela. Sabia o que deveria fazer e era isso o que faria, não importa as conseqüências.
Eu iria roubar, não importa o que e não importa de quem, mas se essa fosse minha única opção, então eu iria fazê-la. A punição para quem infringe a lei são doze chicotadas nas costas na praça publica, e é o próprio infrator que deve realizá-las. Totalmente uma das piores torturas.
Era noite, talvez madrugada, mas eu não tinha um relógio para confirmar. A vila das mansões são onde todos os moradores ricos da minha província moram, e por acaso eu conhecia um certo alguém que estava fora, o comandante.
Esse verme atormentou mulheres de todas as idades, convidando elas para sua cama em troca de algumas moedas, e o que eu mais temia era que Lauren estivesse desesperada demais e fosse procurá-lo. Mas graças aos céus esse temor já passou.
Parei em frente a sua enorme mansão, de enormes colunas e feita de pedras. Eu não era burro, sabia que a casa era completamente protegida por todos os tipos de mecanismos... Que identificassem a ficha de uma pessoa, e que por acaso eu não possuo por ser um ex-rebelde. Atravessei o enorme gramado e cheguei até a porta. Abri ela e nada aconteceu, então adentrei o lugar.
Todos os habitantes ricos possuem a ala hospitalar, onde tem praticamente todos os remédios para cura de doenças. A sala de estar era bem ampla com moveis bem espaçosos, com os papeis de parede do branco ao verde. Já trabalhei em casas de pessoas ricas, então eu sabia que a ala hospitalar deveria estar no porão. Fui para a cozinha e desci a escada que ali estava, abrindo uma porta de metal quando desce um lance de escada. Do outro lado da porta havia um ambiente estéril e com poucos moveis, só uma maca e um armário cheio de coisas medicas. Abri as gavetas procurando por antídotos, quando um me chamou a atenção.
ANTÍDUTO PARA A FREBE DO PORCO
Peguei dois frascos deste e sai fora do lugar, tentando deixar tudo como estava antes. Algumas pessoas que passavam na rua estranharam quando me virão saindo da casa, provavelmente pelas minhas roupas. Os ricos usavam casacos elegantes e bem ajustados, com suas botas de couro, já os pobres usavam parcas de frio e galochas de borracha.
Sai da casa como se nada houvesse acontecido, colando os frascos dentro do bolso da parca. Abaixei a cabeça e coloquei o capuz, indo de cabeça baixa até o bosque novamente.
– Por onde você esteve?- a mulher mais velha perguntou enquanto eu entrava na casa. Ultrapassei-a, indo direto para Zuzete. Peguei o frasco e li sua bula. Eu precisava injetar na veia delas, mas não fazia idéia de como fazer isso. Desci as escadas e fui para a cozinha, abrindo uma das gavetas e pegando uma seringa. Mamãe sempre teve essa seringa guardada aqui em casa, e sempre que eu perguntava o porquê ela me respondia que um dia talvez fosse necessário.
– Me dê, deixe que eu faça isso. – a mais velha falou. Ela pegou o frasco e colocou a agulha dentro, pegando todo o liquido. Deu dois petelecos na seringa e pegou o bracinho de Zuzete, procurando por uma veia. Ele então colocou a agulha no antebraço de Zuzete, injetando o antídoto. Notei que Zuzete ia ficando corada aos poucos, então dei um suspiro, caindo são seu lado, segurando sua mãozinha.
– Obrigada. – sussurrei para as moças.
Elas fizeram o mesmo procedimento com mamãe, e novamente mamãe ia ficando corada. Me ajoelhei encostado a cabeça na parede, estava muito cansado. A mais velha veio até mim e se agachou ao meu lado.
– Eu sei o que você fez, mas não direi nada. E o meu nome é Hanna alias. – ela disse. Peguei sua mão e a beijei.
– Muito obrigado Hanna.
Sabia que agora estava por minha conta, e que agora que havia descoberto o crime, não iria parar. Não faria isso por maldade, faria isso por necessidade.
UMA SEMANA DEPOIS
RAPAZ DE 16 ANOS É PEGO ROUBANDO E LEVA DOZE CHIBATADAS NAS COSTAS EM PRAÇA PUBLICA
Fale com o autor