A Seleção - Versão Schreave
3 Capítulo 11
Notas iniciais
Era uma quarta. Houve o café, mas poucas meninas compareceram à sala de jantar. A maioria pediu o café da manhã ou no Salão das Mulheres ou como America, pediram no quarto. Após o café da manhã fui para a biblioteca e comecei a ler o primeiro diário de Gregory Illéa que foi escrito antes dele tomar o poder para si, não sabia porque meu pai queria que eu lesse aquilo. Gregory era um homem cruel.
Ronald não é um bom presidente. Não sabe manter sua família na linha, muito menos o povo. A guerra está se aproximando e cada vez mais o povo tem se apegado a mim. Eu deveria governar, mas presidente é algo pouco. Poderia ascender a monarquia como na Inglaterra, eles tiraram o primeiro-ministro e agora reinam. Sim, farei isso. Amanhã haverá a guerra e o Ronald quer ir, vou ao farmacêutico que também é meu primo e pedirei um veneno. Logo após a morte dele, a escolha do povo por mim será obvia.
20/10/2025
Essa parte me fez parar. Era assim que terminava o primeiro diário de uma lista de dez. Presidente Ronald era amigo próximo de Gregory e ele matou seu melhor amigo. Senti uma leve repulsa e agradeci por minha descendência vir do Schreave, nós também não éramos melhores. Mas não havia assassinato algum para chegar ao poder. Ler tudo isso só me dava mais vontade de mudar o país, de ser um rei diferente, de ser alguém que o povo ama. Minha mente borbulhava de ideias, mas ao mesmo tempo sabia dos contras como meu pai, os assessores, a Casta Dois, toda essa minoria que concentrava o poder não me deixaria fazer o bem para os menos favorecidos. Daqui a duas horas teria que passar o primeiro relatório para o meu pai.
Ao sair da biblioteca e trancá-la, vi uma senhorinha que trabalhava no palácio. Ia pedir-lhe que entregasse o bilhete a America. Mas sabia que os funcionários comentavam entre si sobre quem eu saía e chamava, especulavam quem seria a próxima rainha. E tudo com a America era tão mais simples e informal, era mais leve, calmo, tranquilo. E eu precisava apenas falar com ela, não ter um encontro que fosse exibido pra todo país.
Desci e fui até o corredor das Selecionadas, senti uma leve brisa, morna e agradável. Vinha de um quarto, o único que estava com a porta aberta, e logo reconheci que era o de America. Parei na porta sem fazer barulho e observei uma cena tão improvável que fiz o máximo para não interromper. America estava sentada com suas criadas jogando baralho, rindo como se não tivesse nada a lhe preocupar, e na realidade não tinha. Ela estava sendo ela mesma com pessoas que gostavam dela. Pela visão periférica America viu minha presença e logo as outras criadas também, era visível que estava com um sorriso estampado no rosto.
— Ai, meu Deus — sussurrou um delas, provavelmente a chefe e todas se levantaram também.
— Senhoritas — sorri e saudei-as informalmente.
— Majestade É uma grande honra. – falou a chefe meio nervosa.
— Para mim também — respondi com um sorriso para quebrar o clima. As criadas se entreolharam, sentindo-se lisonjeadas. Todos permaneceram calados por uns instantes, sem saber ao certo como agir.
— Já estávamos de saída. – disse uma delas, uma loira de meia-idade.
— Sim, estávamos mesmo — acrescentou uma morena, a mais nova de todas. — Íamos... hã... — Ela olhou para a chefe em busca de socorro.
— Íamos terminar o vestido da senhorita America para sexta-feira — completou Anne.
— Isso mesmo. Faltam apenas dois dias.
Com um sorriso enorme estampado no rosto, as três lentamente desviaram de nós para se retirar do quarto. Entendia porque toda aquela ansiedade, não era comum termos contato com elas. Mas as criadas de America eram tão amáveis que pensei que deveria aprender o nome delas e até mesmo arrancar alguma informação sobre America delas. E sexta-feira America seria apresentada formalmente no Jornal de Illéa como Selecionada.
— Eu não tinha a intenção de atrapalhar o trabalho de vocês — Maxon disse ainda fascinado. — Que turma você tem — aproveitei o momento para observar o quarto era simples, agradável e bonito como America.
— Elas me mantêm motivada – respondeu com o mesmo sorriso da foto, o que me deixou animado, ela estava feliz.
— Está claro que se afeiçoaram a você. Isso é difícil de encontrar. Não é assim que imaginava seu quarto. – disse, e não era mesmo. Pensava que elateria mudado tudo como as outras selecionadas. Ela levou a mão a cintura cética.
— Mas este não é meu quarto, é? Ele é seu. Só está me emprestando. – senti-me fazer uma cara estranha, gostava da sinceridade dela, e gostava um pouco menos de como ela sempre tinha razão. Mas isso fazia dela especial
— Mas com certeza disseram-lhe que você poderia mudar alguma coisa. Uma cama nova, uma pintura diferente...
— Uma camada de tinta não vai tornar este quarto meu. Garotas como eu não moram em casa com piso de mármore — deu de ombros e riu. E então era tudo paz de novo, ela valoriza de onde de veio. Amava sua cultura.
— E como é seu quarto de verdade?
— Hum... O que você veio fazer aqui exatamente? — um pergunta respondida com outra pergunta. Era difícil arrancar informações dela. Mas fui ao assunto.
— Ah, é que tive uma ideia.
— Sobre?
— Bem, já que você e eu não temos o relacionamento típico que procuro ter com as outras garotas, — infelizmente - talvez devêssemos usar... meios alternativos de comunicação.
Parei de frente às fotos delas, nunca tinha visto uma família tão grande, e agora queria que a minha família futuramente fosse tão grande quanto.
— Sua irmã mais nova é a sua cara.
— Ouvimos isso quase sempre. E o que você ia dizer sobre comunicação alternativa?
Fui até o piano, sabia que ela tocava vários instrumentos, mas estava gostando de conhecê-la mais. Parei e olhei para ela, mais propriamente em seus olhos, queria que ela visse o quanto queria que deixássemos de ser apenas amigos.
— Visto que está aqui para me ajudar, ser minha amiga e tal, talvez não devêssemos recorrer aos tradicionais bilhetes entregues por criadas nem aos convites formais para encontros. Pensei em algo menos cerimonioso.
— Foi você quem trouxe? – disse me referindo à partitura do piano. Queria poder conhecer mais de música para ter algo para conversar com ela. Quem sabe ela achasse que eu era entendido e resolvesse pensar em mim como algo mais. Suspirei, eu estava pensando demais nisso. Talvez devesse ser mais natural, deixa tudo acontecer normalmente. Um dos meus defeitos que mais odiava era minha ansiedade.
— Não, já estava aqui. Consigo tocar de cor as músicas de que realmente gosto. – mais uma vez impressionado. Ela era uma Cinco nobre. Alguém profissional, deveria ser mais conhecida e viver melhor.
— Impressionante. – olhei-a admirando sua personalidade, seus talentos. Aquilo estava me sufocando. Calma Maxon concentre-se.
— Você poderia parar de fuçar e completar o raciocínio, por favor?
— Muito bem. Estava pensando que podíamos ter um sinal ou um jeito de dizer que precisamos conversar sem que os outros notem. Talvez coçar o nariz? — parecia uma ideia idiota, mas eu não tinha culpa se não era nada criativo com coisas do tipo.
— Assim vai parecer que seu nariz está entupido. Não é atraente. – olhei meio confuso com a observação, era verdade. Dei um leve sorriso e tentei outra.
— Muito bem. Talvez apenas passar a mão no cabelo.
— Meu cabelo passa a maior parte do tempo preso com grampos. – disse quase que imediatamente — É quase impossível passar a mão nele. Além disso, o que acontece se você por acaso estiver usando a coroa? Ela vai acabar caindo.
— Excelente argumento. – mais uma vez correta, ela poderia parecer muito impulsiva, e era. Mas quando se propunha a pensar com calma tinha razão quase sempre. — Humm... – continuei a caminha pelo quarto pensando em algo e na tentativa de achar mais alguma informação sobre ela.
— Mexer na ponta da orelha? – disse e fazia sentido. Aquilo era tão cômico, era um paradoxo em minha vida. Sempre tive tudo que eu queria, mas aquilo que eu sentia que precisava não tinha nenhuma chance visível de ter.
— Gostei. Simples o bastante para ser discreto, mas não comum a ponto de confundirmos com outra coisa. Mexer na orelha. É isso.
— Estou feliz por você ter gostado. Da próxima vez que quiser falar comigo, basta mexer na orelha e virei assim que puder. Provavelmente depois do jantar — sorri concluindo e dando de ombros.
E então vi um jarro simples de barro e com algo dentro parecido com uma moeda.
– Mas o que é isto? – perguntei
– Receio que esteja além de qualquer explicação. – disse suspirando e então seu olhar parecia perdido novamente.
– Receio que eu deva ir.
– Já? – disse America segurando meu braço, olhei para trás surpreso. Quando ela percebeu que me segurava soltou meu braço e pôs-se de pé andando comigo na direção da porta. Quando um serviçal bateu dizendo que meu pai me chamava. Eu tinha que ir. Olhei para America e abracei-a dando um beijo em seu rosto. Ela tinha cheiro de flores e seu cabelo era bastante sedoso.
Percebi que nos encaixávamos perfeitamente bem.
Entrei no escritório do meu pai ele escrevia alguma coisa e assim que me viu guardou.
– Olá Maxon. Como anda as leituras dos diários?
– Terminei o primeiro hoje senhor.
– E o que achou? – esse era um dos momentos mais importante, cada palavra que dissesse poderia provocar uma reação diferente.
– Bom, espero saber escolher bem quem estará próximo de mim. Quem eu considerarei amigo. Não quero um traidor ao meu lado. Principalmente diante dos ataques rebeldes.
– Muito bem. Quero o próximo diário para próxima semana. Ah, e ajeite suas malas vamos visitar a família de sua mãe sairemos de madrugada. Você conhece os moldes, ninguém pode saber. Voltaremos no sábado para o Jornal.
Sexta-feira logo chegou. Cada vez mais minha família ficava melhor com as habilidades de sairmos sem ser descobertos. Íamos visitar minha família em Hondurágua por parte de mãe uma vez por mês, poderíamos chamar todos aqui para o palácio, mas depois da morte da minha avó. Minha mãe tem pedido para voltar lá mais vezes e meu atendeu. Mas era hoje, foi estranho passar vários dias sem saber de America e eu não poderia vê-la antes do Jornal. Ir para Hondurágua era estranho, eu era normal lá. Não saia de casa, mas era bom ter primos, na realidade vários primos, pois Tia Adele teve muitos filhos. E as fotografias é claro, ia sempre à varanda da casa de Tia Adele que ficava de frente para a praia tirar algumas fotos antes de voltar.
No momento estava sentado no trono ao lado do meu pai esperando as selecionadas chegarem, as pessoas ajeitavam câmeras, verificavam como estávamos vestidos e Gavril corria para lá e para cá verificando tudo. Quando finalmente estava tudo em ordem veio falar conosco.
– Meu rei. – meu pai saudou-o e eles deram um aperto de mão. Meu pai era assim com poucas pessoas, mas ele conhecia Gavril Fadaye antes mesmo de nascer. – Minha rainha. – minha estendeu e ele beijou-a delicadamente. E então virou para mim. – Meu princip... Ah Maxon é você, esquece ninguém liga.
– Eu sou seu futuro rei você deveria beijar meus pés. – nos mantemos sérios olhando um no rosto do outro e quando finalmente não aguentávamos mais, rimos estrondosamente. Levantei e abracei-o. Gavril era meu padrinho, ele passava horas comigo quando eu era criança e fora minha mãe, ele era o único que amava minhas fotografias. Quando sentei pude vislumbrar como sempre sua tatuagem na nuca sempre escondida pelo paletó. Era parecida com uma estrela, mas como nunca podia vê-la eu não tinha certeza. Quando criança perguntei o que era e ele simplesmente respondeu metaforicamente “Uma verdade que no futuro logo será revelada meu menino. E você vai estar bem próximo quando tudo acontecer.” Enquanto pensava sobre a frase as selecionadas chegaram, mas America não estava entre elas.
– Maxon venha cá. – chamou minha mãe. Quando fui até ela, ela fez o de sempre.
– Sei que você está nervoso – e começou a ajeitar meu cabelo – mas...
– Lembre-se de ser você mesmo e nunca esqueça de que... – continuei a frase e seus olhos brilharam de orgulho. Ela sempre dizia a mesma coisa todo Jornal.
– Se você errar improvise, ou olhe para mim, eu vou sempre te ajudar. – completou ela e sorriu. – Você está crescendo Maxon. – e falou no meu ouvido – Mas sempre será meu bebezinho. – então comecei a rir, era bom a sensação de ser amado.
Quando virei o rosto, percebi que America observava tudo e me senti meio envergonhado. Mas ela não me viu, pois estava sendo guiada por Silvia até seu lugar. Resolvi sentar e dessa vez observar America. Lutava com o impulso de não ficar de queixo caído. America estava no mínimo deslumbrante. Seu vestido azul escuro deixavam seus olhos azuis claros mais vívidos e seu cabelo contrastava. Ela estava linda. Quando seu olhar bateu com o meu passei a mão pela orelha, e ela prontamente sorriu e fez o mesmo.
O hino começou a tocar, e eu já sabia de cor. Meu pai subiu ao palanque e começou a falar sobre os ataques e como o reino lutava pela segurança de todos. Era o mesmo discurso de sempre só que mudava as palavras e as notícias de vez em quando. E então Gavril começou.
— Boa noite a todos. Tenho um anúncio muito importante hoje. Faz uma semana que a Seleção começou e oito moças já voltaram para casa. Restam agora vinte e sete belas mulheres para o príncipe Maxon fazer sua escolha. Semana que vem, haja o que houver, a maior parte do Jornal Oficial de Illéa será dedicada a essas incríveis jovens. Antes de chegarmos às senhoritas, falaremos com o homem do momento. Como Vossa Alteza está esta noite, príncipe Maxon? – fui pego de surpresa, deveria apenas observar. Rapidamente um homem veio e pôs o microfone em meu paletó. Sorri o mais confiante possível.
— Muito bem, Gavril, obrigado.
— Tem gostado da companhia até agora?
— Sim! É um prazer conhecer essas senhoritas.
— São todas moças doces e gentis como aparentam? — segurei-me para não entrar em uma crise de riso. Olhei para America e segurei firme o olhar. Aquilo era um segredo nosso e eu fiz questão de mostrar que eu lembrava dela.
— Humm... quase.
— Quase? — Gavril pareceu surpreso. — Alguém ali está sendo desobediente? O que essas garotas fizeram que não foi exatamente meigo? — Gavril quis saber do príncipe.
— Muito bem, deixe-me contar. – aquilo era um jogo que sou eu e America conhecíamos e estávamos no divertindo com isso.
— Uma delas teve coragem de gritar comigo de um modo bem agressivo em nosso primeiro encontro. Levei uma bronca duríssima — disse demonstrando estar profundamente surpreso e desentendido. Pelo ponto de vista periférico vi America erubescer.
— Uma bronca? Por quê? — continuou Gavril.
— Honestamente, não sei. Saudades de casa, talvez. E foi por isso que a perdoei, claro.
Maxon estava solto e tranquilo. – Conversava com Gavril como se não houvesse mais ninguém. E toda essa atuação fazia parte desse jogo cômico que eu e America participávamos.
— Então ela ainda está conosco?
— Ah, sim. Ainda está — falei com bastante certeza. E com um enorme sorriso deixei minha última declaração. — E planejo mantê-la aqui por um bom tempo.
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