Gravidez.

Não é nada fácil.

Principalmente se você for uma alma alienígena no corpo de uma hospedeira humana.

Está é a minha vida.

Eu amo está criança. Amo este bebê. E agora que vou completar sete meses, sinto-me cada vez mais ligada.

Minha barriga está crescendo. Sinto-me fraca. E o que me mantém firme é o fato de querer o melhor para o bebê.

Jared e Sharon me entreolhavam todos os dias. Mandando-me avisos. De que estavam por perto.

Eu e Ian, não nos falamos com frequência e nem temos nenhum tipo de contato amoroso. Achamos melhor nos afastar, para poupar mais aborrecimentos. O que eu sinto por ele é algo intenso e inexplicável. Uma atração e um sentimento que preenchia todo o meu coração. O amor transmite isso a quem o sente.

Melanie estava sempre presente comigo. Eu sentia muita tristeza com o fato de ela estar aprisionada em seu próprio corpo, sem poder controlá-lo. Conversávamos sobre desejos, que sexo seria, se teria os olhos do Jared ou os dela, sabe... Esses tipos de coisas. Que se conversa com o pai da criança. Infelizmente o pai da criança quer me matar. Apenas no momento certo. Jared anda perturbado. E isso me assusta. Afinal... Qual será o real momento que ele irá tentar me matar? Ele anda cabisbaixo, sempre pensando. Suas olheiras estavam cada vez maiores, o que indicava que ele não dormia, pensando eu suponho.

Sharon estava sempre a sua volta. Pronta para qualquer situação.

Mediante a tudo o que acontecia, eu também tinha quem intercede-se por mim. Jeb se fazia presente constantemente. Sempre comigo, me dando apoio e me ajudando no que fosse preciso. Doc ficava de olho na minha gestação o tempo inteiro.

–Bom dia Wanderer.

–Bom dia Doc.

Falei me deitando sobre o catre.

–Como está se sentindo?

–Um pouco cansada.

–E as dores?

–Ainda estão presentes.

Ele suspirou.

–Se eu fosse mulher e estive-se grávida, no meio de toda essa tensão... Tenho certeza de que eu não estaria bem.

Assenti para ele.

–Você anda pálida ultimamente. Deve estar com anemia.

–Estou bem.

Eu não estava nada bem.

–Wanderer, sou médico. Sei quando meu paciente não está bem. Temos que prestar mais atenção na sua alimentação.

–Já disse que estou bem Doc. Não quero que tenha mais trabalho. Falei sem forças.

–Wanderer. Você está doente. Tenho te observado e sei disso. Me preocupo com você. Me preocupo se o bebê está bem... Lamento não ter melhores condições para você.

Peguei em sua mão.

–Você faz o melhor que pode. Sou grata por isso.

Ele sorriu compadecido de minha situação.

–Você é uma alma boa Wanderer. Enfrentou dificuldades para chegar aqui. É corajosa e determinada. Assim como a Melanie. Que...

Ele não queria terminar.

–Que?

–Que está consciente.

A palavra que ele queria usar era presa.

–Doc. É normal você sentir algum tipo de repulsa por mim. Eu irei entender.

Sorri para ele sem humor.

–Eu não sinto repulsa por você. Você não escolheu ser uma alma. Apenas penso que ela deve estar sofrendo, como o fato de não ter controle de sua própria vida.

–Bem... Teve momentos que ela já esteve no controle. Agora não mais. Tenho medo de ela sumir. Ela está na minha cabeça há tanto tempo...

Ele me fitou sério.

–Você realmente gosta dela não?

–Sim. Ela é muito importante para mim. É com ela com quem converso todos os dias. Contando coisas entende?

–Sim. Entendo.

Inspirei fundo.

–Apenas não quero que ela vá embora. Eu preciso que ela aguente firme até o bebê nascer.

Doc parecia estar curioso.

–Como assim?

Não respondi de imediato.

–Eu não estarei aqui por muito tempo Doc.

–Não tem com que se preocupar. Jeb não deixará ninguém chegar perto de você. Muito menos o Ian irá permitir.

Balancei a cabeça em negação.

– Doc, você precisa saber de uma coisa. Mas terá que me prometer que não irá contar a ninguém.

Ele assentiu que sim. Sentei-me no catre e o olhei nos olhos.

–O corpo... Que estou, pode estar me rejeitando.

–Como assim?

–Quando o hospedeiro está consciente, a alma que habita o corpo esta em perigo. Fiz uma pausa. –Nenhum corpo, deve haver duas pessoas. Assim como, nenhum hospedeiro deve permanecer vivo.

Ele estava em silêncio.

–Involuntariamente, Melanie... Está me matando. Sua consciência me enfraquece a cada dia que passa. Sei que ela não faz por querer. Mas é isso que está acontecendo.

Ele estava perplexo.

–Como sabe de tudo isso?

–Eu sou uma alma experiente. Já presenciei coisas assim. Alguns casos são piores que outros. Acontece que... Estou ficando fraca a cada dia que se passa. E não estou com medo do que irá me acontecer.

Ele demonstrava tamanha preocupação.

–Temos que dizer ao Jeb.

Falou dando as costas a mim. Segurei seu braço o impedindo de sair.

–Não. Não pode falar nada. Não até o momento certo. Por favor, eu não lhe contaria se soube-se que não tinha palavra. Preciso que não conte a ninguém.

Ele aparentava que eu havia colocada uma brasa em sua garganta.

–Ao menos me diga que tem uma solução. Por favor, me diga isso.

Segurei em suas mãos bem firmes.

–A solução mais lógica seria eu ter outro hospedeiro.

–Vai ser complicado. Mas iremos dar um jeito...

Ergui a mão lhe interrompendo.

–Não Doc. Eu não quero tomar a vida de mais ninguém. Eu decidi por conta própria aceitar o que está por vir. Tenho vivenciado coisas maravilhosas. Mesmo no estado que estou. Eu irei aguentar firme até a criança nascer. Mas ai todas as minhas forças terão se esgotado.

Ele estava cada vez mais apreensivo.

–Quando o Walter faleceu mês passado, nós sofremos muito. Mas ele estava sofrendo e merecia descansar. Estou ficando cansada demais. Dois meses é o máximo que eu vou conseguir. Conheço as limitações do meu... Do corpo da Melanie.

–A Melanie sabe de tudo isso?

Senti uma pontada em minha cabeça.

–Ela soube no mesmo momento que você soube.

“Como não me contou...?”

“O que iria adiantar? Nada.”

–Oh Wanderer... E quanto ao Ian? Não acha que ele precisa saber? Ele te ama.

–Eu também o amo. E é por eu amá-lo que não quero vê-lo sofrendo com antecedência.

Doc ficou sentado ao meu lado, agora segurando uma de minhas mãos.

–O que acontecerá com Melanie?

Sorri de leve.

–Ela poderá ficar com o filho, o Jared e a família. É o que ela mais quer.

–Tenho certeza que não sem você.

Olhei para o chão.

–Admiro você Wanderer. Tem muita coragem.

–Obrigada Doc. Palavras assim me mantém forte a cada momento.

–Iremos dar um jeito. Eu prometo. E vamos começar primeiramente com sua alimentação. Está realmente anêmica e precisa se alimentar bem.

Assenti.

–Fique deitada um instante. Eu vou pegar uns remédios. Não demorarei.

Segurei sua mão.

–Obrigada por tudo.

Ele assentiu.

–Disponha.

“Por que Wanderer? Por que logo você está padecendo desse jeito?”

Falou Melanie lamentando.

“Uma coisa que aprendi nos planetas de onde eu vim, é que coisas acontecem com propósitos. Era o meu propósito trazer você até aqui para ficar com sua família. Meu propósito ter o seu bebê. Melanie eu não lamento o que tenho passado. E sim agradeço por tudo.”

“Não consigo ter uma visão tão bonita das coisas como você...”

“Não precisa ter. Apenas confie em mim Melanie. Tudo acabará bem. E você terá a sua vida de volta. Tenho reunido forças para aguentar a gestação. Sei que se eu entregar os pontos agora... Haverá um parto de um bebê prematuro. E nas condições que nos encontramos o bebê não sobreviverá.”

“Não sei o que pensar... Wanderer, eu não posso simplesmente deixar você morrer. Tem que me mandar embora. Mande-me embora. Você irá ficar bem.”

“Não Melanie. Não entende? Você é importante demais. Para mim e para todos.”

“E por isso devo permitir que você se sacrificasse?”

Fiquei em silêncio.

“Eu não espero que entenda.”

Falei por fim. Fechando os olhos para descansar um pouco.

Acordei sentindo a presença de alguém na sala. Era Jeb.

–Jeb...

–Olá querida. Com fome?

–Um pouco.

Ele me trouxe cenoura e um pedaço de carne.

–Doc acredita que está com anemia. Achamos importante que se alimente bem.

Assenti pegando a bandeja.

Quando percebi a presença de mais uma pessoa.

Levantei o rosto e vi quem era.

–Ian.

Falei cumprimentado-o.

–Wanderer.

Cumprimentou-me.

–Bem, eu devo ir ver se María precisa de ajuda com a comida. Eu não demoro querida. Trarei algo para você beber.

Falou para mim, então saindo.

–Como se sente?

–Um pouco cansada.

–E anêmica não é?

–Talvez.

Ele não conseguia me encarar.

–E as dores?

–Ainda estão presentes. Obrigada pela preocupação.

–Disponha...

Nos olhamos e ficamos nos encarando.

–Se precisar de mim. Para qualquer coisa... Eu estou aqui.

Ian estava visivelmente arrasado.

–Ian...

–Eu sinto sua falta Wanderer.

...

–Sinto falta do seu cheiro. Do seu beijo. De tudo. Sinto falta de ter você em meus braços. Nem que seja por 5 segundos...

Falou tentando forçar uma lágrima a voltar.

Estendi os braços para ele.

–Me abraça. Me abraça bem forte. Como se você nunca mais fosse me ver...

Ele veio até meus braços. Inclinou-se e me deu um abraço forte. De tirar o ar.

–Você é uma das pessoas mais importantes na minha vida Ian. Você me mostrou e vem me mostrando o real sentido do viver. É o amor. Sem amor, não há vida em coração algum.

Ele então me olhou, inspirando fundo.

–Eu te amo minha doce Wanda...

–Eu também te amo Ian. Muito.

E me abraçou ainda mais forte, dando-me um beijo no alto de minha cabeça.

Senti sangue escorrer por meu nariz e o enxuguei rapidamente para que Ian não percebe-se nada, já que estava abraçado a mim

–Ian... sem querer estragar o momento, mas... Gostaria de comer um pouco agora. Se não se importar.

Ele me soltou rapidamente.

–Você vai melhorar.

Sorriu de leve para mim.

–Mas é claro que vou.

Sorri para ele. Obviamente eu estava mentindo e Ian notou isso. E ficou aparentemente confuso com isto.

E saiu me deixando sozinha. Eu não gostava de ficar só. Meu objetivo de ter o bebê ficava em risco. Eu não sabia. Por sorte assim que Ian saiu da cozinha, Jeb voltou com um copo de leite.

–Desculpe se demorei querida.

Assenti para ele.

–Está tudo bem. O Ian ficou aqui comigo.

Ele retirou o chapéu da cabeça .

–Querida... Ando preocupado.

Fiquei tensa.

–Com sua saúde. Estamos as cegas. Doc é um ótimo médico. E possivelmente devido as circunstâncias que nos encontramos ele está tendo problemas de identificar o que você tem.

“Se o Jeb soube-se...”

Resmungou Mel.

–Wanderer, se você souber o que estiver de fato acontecendo com o seu corpo... Não deixe de me contar. Por favor.

Engoli em seco.

–Não quero que nada de ruim lhe aconteça querida. Mas para que nada lhe aconteça eu preciso que você me ajude a te ajudar.

“Será que o Doc contou para ele?”

“O Doc guarda segredo Wanderer. Ele não te trairia.”

–Jeb. Está tudo bem.

Menti tentando aparentar verdade.

–Você não mentiria para mim, olhando bem nos meus olhos não é?

“Wanderer... conta para ele!”

–Não Jeb.

Falei com as pálpebras um tanto trêmulas.

Jeb inspirou fundo, colocou o chapéu e disse:

–Queria poder acreditar em você querida.

E saiu, me dando as costas e me deixando com minha consciência arrasada.

Haverá o momento certo de todos saberem... Mas até lá, precisarei ser forte, ter perseverança e coragem para enfrentar situações complexas. Jeb é perspicaz e muito sábio. Seus conhecimentos são de admirar.

No entanto, mesmo com a minha admiração, não serei capaz de lhe falar o meu real estado. Ele irá sofrer. E a última coisa que eu quero é ver quem amo sofrendo.

Por que amar é assim, por as necessidades de quem se ama, acima de qualquer coisa.

E se quiserem achar alguma doença para explicar tudo o que tenho sentido, é simples...

Estou morrendo de amor.

Notas finais
Gostaram? Comentem se quiserem! Beijos!