A Secret ...

3 Parte 3 ...


Notas iniciais
Lucie declarou, após desmaiar de cansaço, o amor proibido que sentia por sua irmã Celine, deixando-a um pouco confusa. Porém Celine prometera que não a abandonaria ou, sequer, ficaria chateada com ela.Porém, dentro de si, Celine começava a se questionar... começava a refletir...

Anoitecia e Celine entrara na cozinha. Apesar de Lucie sempre se destacar em preparar a comida e no batente diário, Celine também não ficava para trás: aprendera, junto de sua mãe, a ajudar na limpeza e arrumação da casa e, também a ajudar na cozinha. Porém, por ser a mais nova, Lucie aprendera primeiro e, de uma forma de zelo, ela até impedira de sua irmã o fazê-lo.

Tais memórias a faziam sorrir, de uma forma emocionada. Sempre sua irmã cuidara dela, até quando ambas eram bem pequenas e isso sempre a deixava feliz. Porém sentia agora um aperto em seu peito. Um aperto que a fazia sentir medo e dúvidas.

“Celine... eu... te amo...” Tais palavras, ditas por Lucie, tocavam-lhe fundo e pareciam repetir-se em sua mente. Também lhe faziam sentir confusa: temia pelo que seu pai sempre aconselhara a ambas e ela temia que isso fosse um grande pecado. Algo terrível e monstruoso que a impediriam de, quando chegassem o momento de ambas, lhes fossem negadas a entrada nos reinos de Hesperus. Sentia calafrios e pavor com tal hipótese.

Começando a preparar a comida, Celine suspirou, preocupada, em descobrir que só daria para preparar outra sopa de repolho, pois era a única coisa que tinham em casa. Em sua mente, no entanto, pensou o que Lucie sentia quando preparava a comida. Sentia preocupação? Temia pelo dia seguinte, se não tivessem mais nada para comer? Mas, mesmo se ela pensasse em tais questionamentos, ela sempre sorria quando estava ao lado dela, no quarto, lendo alguma história, mesmo cansada de todo o trabalho que tinha que fazer.

“Ela... se sacrifica demais...” Pensou Celine, triste.

Em poucos instantes, acendeu o fogo do fogão de pedra e preparava uma panela de barro, depositando o conteúdo de um balde de água que havia pegado no poço e a colocou para ferver. Em seguida, acrescentava alguns temperos, enquanto preparava e cortava o repolho para colocá-lo junto com a água. Porém, acidentalmente, machucou um pouco o dedo ao fazê-lo e o colocou na boca, para aliviar e chupar um pouco do sangue que vazou em uma pequena quantidade.

As memórias retornavam. Lembrava de uma vez que, ao tentar preparar a comida, machucara o dedo e chorou copiosamente. Lucie, no entanto, segurou sua mão delicadamente entre as suas e beijou o local ferido, mas fez uma expressão séria.

“Nunca faça isso! Deixe que eu preparo, ouviu-me?” Exclamou, de forma taxativa, Lucie e Celine concordara com a cabeça.

Celine recordara-se que, na ocasião, sentira medo de Lucie, pela forma como ela reclamara consigo. Porém, agora, compreendeu que ela reclamara de tal forma apenas para protegê-la.

“Como uma irmã mais velha... ou não?” Pensou e sentira-se mais confusa. Também se sentia confusa, quando o pai tentara arranjar um marido para ela, mas além de ninguém aceitar mais as crenças e os mandamentos da antiga ordem Imperium Sanctus, que ele tanto fazia questão, ela também ficara grata, pois não tinha realmente planos para se casar.

“Teria ficado grata... por já gostar de mim, na ocasião?” Pensou Celine ainda mais confusa. Negara, então, com a cabeça, na tentativa de afastar todas aquelas dúvidas e questionamentos, para então poder voltar a se concentrar na cozinha.

Em poucos instantes, a água começava a ferver e colocara os vários pedaços de repolho na panela, observando e mexendo o conteúdo da mesma por algum tempo, porém o fazia de forma distraída.

Em sua mente, no entanto, apesar de todos aqueles questionamentos e temores que sentia, Celine começava a pensar em si mesma. No que ela sentia. Pensava em todos os momentos que ambas podiam ficar juntas, quando acabavam os trabalhos em casa e elas se reuniam no quarto.

Lembrava que sempre a aguardava, de forma ansiosa, para que esta lesse alguma história para si. Sentia-se meio como uma criança, mesmo quando chegou aos 17 anos. Gostava de ouvi-la contar aquelas histórias, mesmo que Celine já soubesse ler: Lucie sempre sabia ler e narrar tão bem, além de sua bela voz, completando o cenário das histórias de uma forma totalmente diferente, quando era Celine que lia para si mesma.

Corou brevemente também, ao lembrar-se de quando ambas dormiam juntas e ela sentia os braços de Lucie a envolverem de uma forma protetora e repleta de zelo. Porém não sabia dizer o que sentia.

Compreendia que se sentia protegida e segura e que, qualquer coisa que viesse acontecer com elas, Lucie estaria ali, para protegê-la. Gostava dessa sensação, porém não sabia explicar se era por imaginar Lucie como sua própria mãe, que as amparava.

“Ou... se era algo... além...” Pensou e sentiu o rosto completamente corado.

Celine também se sentia ansiosa e tensa, ao mesmo tempo, preocupada, quando sua irmã trabalhava em cuidar das plantações, da única vaca que tinham e em lavar as roupas. Especialmente, em dias tão frios, como estavam sendo esses últimos anos. Lembrou-se quando perguntou, preocupada, para Lucie, se havia algo que ela pudesse fazer, para diminuir a sua carga.

Lucie havia exibido um amplo e belo sorriso, negando com a cabeça.

“Não precisa se preocupar... eu estou bem.” Tinha sido sua resposta.

Celine suspirou. Sabia que não estava bem e que Lucie sentia-se exausta, mas o evitava exibir, para que ela não se preocupasse. Sentiu os olhos marejarem e as palavras, mencionadas no quarto, retornaram em sua mente.

“Por isso... peço-lhe: se não sentes o mesmo por mim, apenas... não me abandone. E-eu... não... conseguirei viver sem você.”

Celine sentiu novamente o seu peito apertar, penalizada. Tudo o que ela queria, tudo o que ela mais desejava, era o seu bem estar, ao ponto de sacrificar-se ao seu máximo por isso.

O som da sopa a borbulhar com mais freqüência, no entanto, trouxe Celine de volta a realidade e, em questão de instantes, levou a panela, reclamando para si mesma de quase queimar a sua mão. Porém sentia algo, agora mais claro para si, que tinha que ser forte e inspirou fundo, superando aquele incômodo, enquanto levava a panela para a sala de jantar. Em seguida, pegou três pratos e serviu-os com a sopa.

Porém, a lembrança desses dias todos, da quantidade de comida que ela servia a seu pai e a Celine ser maior do que ela se servia, vinha-lhe a mente e compreendera que era mais um sacrifício que ela fazia para eles. No entanto, Celine suspirou, com um breve sorriso no rosto e serviu o prato de Lucie com uma generosa quantidade, assim como para o seu pai, deixando apenas um pouco para ela própria.

Sentia fome, isso era um fato, mas Lucie sacrificara-se tanto todos esses dias que ela merecia desse cuidado no momento, já que se encontrava debilitada. Queria vê-la sorrir novamente. Um amplo e belo sorriso.

Como Lucie o fez, momentos antes de entregar-se ao sono.

Trazendo o pai e ajudando-o a ir para a mesa, Celine vinha em silêncio, sem bater na porta do quarto delas. O pai suspirou, com certa preocupação no rosto.

“Como... ela está?” Perguntou Jason, tendo conhecimento do desmaio de Lucie. Celine suspirou, levemente cabisbaixa.

“Dormindo, pai... Eu vou... levar a comida dela para o quarto para que ela coma depois...” Respondeu Celine e o pai suspirou, concordando com a cabeça em seguida.

Como de costume, o pai conduziu uma prece que Celine até tentara acompanhar, mas o fato que, após todos os questionamentos e reflexões sobre Lucie, fizeram-na perder a vontade em rezar.

Havia ouvisto, apesar do pai quase surrá-la certa vez, sobre os ideais da nova religião que se ascendera com a queda da Imperium Sanctus. Não compreendera muito na época, mas agora percebia as coisas com mais clareza.

Compreendera os mais diversos significados que era pregado pelos seguidores; pelos ideais ditados por Cerys e a elfa Ainariël, que lutaram por um mundo livre das opressões e por uma nova forma de reflexão e tolerância, além de outros inúmeros ideais. Tais reflexões a fizeram reavaliar os conceitos que aprendera há tanto tempo, porém, mesmo assim, ainda sentia-se temerosa quanto ao assunto.

Em questão de segundos, o pai terminara a reza e Celine parou de fingir, começando a comer de sua sopa. Como a quantidade que se servira era pouca, não demorou muito tempo para acabar, mas aguardou que seu pai o terminasse, para que ela o ajudasse a levá-lo para o quarto e cuidasse das louças. Enquanto o aguardava, no entanto, percebera que voltava a chover novamente e agradecera o fato de já ter se banhado, antes de preparar a comida. Porém, a lembrança de sua irmã, na noite anterior, de tomar um banho no frio a preocupou.

“Será que... por conta disso, ela também se encontra nessa situação?” Pensou, preocupada, Celine. Porém suspirou. Não desejava mais nenhum questionamento, já que sua mente encontrava-se cheia por demais. Suspirou profundamente, apenas trazida de volta a realidade quando o pai depositou a colher, de forma ruidosa, dentro do prato.

Levantando-se, Celine o ajudou, levando-o em direção ao quarto dele. Tão logo o colocou na cama, o beijou na testa, com um preocupado sorriso.

“Boa noite, pai...” Disse Celine, ajudando-o a se cobrir. Este deu um curto sorriso, em agradecimento e tentava dormir. Em seguida, Celine deixou o quarto, fechando delicadamente a porta e rumou em direção à sala de jantar, arrumando a mesa e guardando os pratos vazios, mais a panela, em um canto da cozinha. Assim como a sua irmã havia feito na noite anterior, deixaria para lavá-los amanhã, de manhã.

Retornando a mesa, Celine avistou o prato com a sopa, mais um talher, que levaria para o quarto. Apesar de ainda sentir fome, iria sentir-se feliz de retribuir o favor que Lucie havia feito tempos atrás, quando Celine ficou bem doente e Lucie encarregara-se de servir comida em sua boca. Corou levemente ao se recordar desse momento e não pode impedir um largo e emocionado sorriso. Em seguida, abriu a porta do quarto e pode contemplá-la, ainda adormecida na cama. Entrando no quarto, Celine fechou a porta do mesmo e depositou a sopa na escrivaninha e sentou-se delicadamente na beira da cama. Não queria despertá-la e permaneceu a observá-la.

Celine percebia que Lucie dormia serenamente, tão calma, que não condizia com o estado que ela se encontrava, até algum tempo atrás. Ela a contemplou por alguns instantes, admirando-a. Ela estava linda. Não que houvesse acontecido algo em especial que a tivesse ‘transformado-a’ de tal forma. Parecia, na verdade, mais radiante, menos tensa e, poderia até dizer que, exibia menos daquela expressão séria.

Percebia também que ali, longe de todos os sacrifícios e trabalhos que Lucie costuma fazer por todos naquela casa, ela parecia tão diferente. Tão delicada e indefesa, como se ela usasse uma máscara durante o dia a dia para se fazer de forte para todos, mas naquele momento, dormindo a sua frente, Celine conseguia perceber tal expressão. Sorriu brevemente, enquanto corava e podia sentir, para sua surpresa, o seu coração a bater mais forte em seu peito.

Tocando delicadamente o rosto de Lucie, Celine afastava algumas mechas do cabelo dela, porém tomando cuidado para não despertá-la. Ela pode sentir a textura de sua pele e, mais do que antes, seu coração disparava. E, como se compelida por um sentimento mais forte, Celine moveu suavemente sua mão até fazer com que seu polegar tocasse, gentilmente, o lábio inferior de Lucie. Em sua mente, naquele instante, a imagem de Lucie a beijá-la na noite anterior, veio a tona e corou novamente.

Foi então que compreendeu.

Foi então que percebera que, não era apenas por todos os sacrifícios e zelos que Lucie tinha por ela, que a fazia se sentir feliz. Não. Aquele sentimento que ela havia sentido dentro de si, momentos antes de deixar Lucie adormecida no quarto, e que não compreendera, era na verdade algo maior do que isso.

Celine não podia mais negar o que agora compreendera: ela, assim como Lucie, a amava. Todas as vezes que ambas se separavam para trabalharem e ela sentia-se só, desamparada; todas as vezes que ela desejava que Lucie, e não ela própria, lesse as histórias antes de dormir e todas as vezes que via Lucie fazer tudo por ela e seu pai, não era por uma simples afeição entre irmãs: na verdade era bem mais do que isso. Era realmente amor, o que sentia.

Corada e com o coração a bater freneticamente em seu peito, Celine aproximava o seu rosto com o de Lucie e, com o seu polegar a pressionar delicadamente, agora um pouco abaixo do lábio inferior fazendo com que ela os abrisse parcialmente, ela tocou-os com os seus. E, como Lucie o fizera antes, Celine a beijava.

Celine a beijava com todo o seu carinho e compreensão. Beijava-a de uma forma apaixonada.

Permanecendo naquele beijo por algum tempo, Celine fechara os seus olhos, sentindo-se extremamente bem e feliz. Não sentia mais outras preocupações e muito menos se importava com qualquer outra coisa. Até a fome que sentia havia desaparecido por completo. Sentia-se feliz.

Não percebera, no entanto, que Lucie abriu os seus olhos. A princípio, surpresa, porém logo os seus olhos, levemente emocionados, fecharam-se novamente, entregando-se também ao beijo.

Em sua mente, Lucie se questionava se estava apenas sonhando com aquele momento, porém, dentro de si, sorriu.

“Se for... um sonho... eu não quero acordar...” Pensou.

- Continua -

Notas finais
Este foi um capítulo difícil, mas, ao mesmo tempo, um capítulo que me diverti bastante. Me diverti e conheci mais sobre Celine. Ao receber um comentário a respeito do mesmo, de uma amiga, eu não havia parado para pensar antes, mas após o mesmo, eu realmente percebi que mudei o clima mais 'sério' da história, para algo mais meigo quando transformei a Celine em protagonista deste capítulo. Questionei várias vezes a respeito do que Celine realmente sentia e este capítulo foram, realmente, tais perguntas. O que Celine realmente sente por Lucie? Admiração? Respeito? Carinho? Amor fraternal? Ou... algo mais. Algo bem maior? Foi essa, no entanto, a resposta. Celine sempre percebera que Lucie se sacrificava bastante nas tarefas do dia a dia, em prol do pai e dela. Porém, ao avaliar tais atitudes, após a descoberta do que Lucie sentia, Celine percebeu que Lucie se sacrificava ainda mais por ela. E, até o fato de que, mesmo cansada do batente diário, Lucie destacava aqueles poucos momentos da noite, ao lado da irmã. E Celine também percebera que ela própria fazia o mesmo. Então, ao reavaliar os seus sentimentos, Celine percebeu, realmente, que ela também a amava.Realmente, não posso mais negar, depois deste capítulo, que elas realmente se amam. E, agora... aguardar pelo desfecho da história... Uma nota, no entanto: É mencionado o nome Hesperus, neste capítulo. Hesperus é um dos semi-deuses, criadores dos anjos em Tharan. O seu reino seria quase como o Reino dos Céus para nós.