A Salvação de um Uchiha
27 Capítulo vinte e seis
_ Você parece nervosa. — O olhei, claro que estava nervosa, a primeira vez que me casei com Itachi foi apenas uma brincadeira.
Uma surpresa que me tirou lágrimas e me mostrou que ele era realmente o homem que eu queria passar a eternidade juntos.
Mas agora, com o quimono, flores no cabelo e toda arrumada para entrar com ele naquele lugar repleto de gente.
Eu não sabia o que fazer, se eu andava de um lado para o outro, ou simplesmente respirava fundo para não pular de alegria.
_ Pai, eu não sei o que fazer. — Sussurrei. _ E se ele desistir de mim?
_ Não desistiu nem quando pensava que estava morta, imagina agora. — Acariciou meu rosto, me atracando uma risada. _ Estou orgulhoso de você, filha.
_ Papai...
_ Agora não chore, apenas respire fundo e vamos achar seu futuro marido, você precisa se casar. — Concordei.
Respirei fundo.
Uma.
Duas.
Três vezes.
Mas parecia que o ar não era suficiente para acalmar o que estava dentro de mim.
Minhas mãos tremiam levemente, escondidas entre as dobras do quimono. As flores no meu cabelo balançavam a cada pequeno movimento, como se também sentissem a minha ansiedade.
Olhei ao redor.
Aquele lugar... não era apenas bonito.
Era vivo.
Lanternas suaves iluminavam o ambiente, pétalas de cerejeira caíam lentamente como se o próprio tempo tivesse decidido desacelerar só para aquele momento existir.
Pessoas.
Muitas pessoas.
Mas não eram apenas convidados.
Eram histórias.
O clã Uchiha.
Vivo.
Ali.
Rindo.
Conversando.
Respirando.
Meu peito apertou.
Por um segundo, eu não era a Sukui que lutou, que voltou no tempo, que enfrentou deuses.
Eu era só uma filha.
Uma menina.
Que olhava para aquilo e pensava:
"Deu certo..."
Senti a mão do meu pai apertar a minha.
_ Está na hora.
Assenti.
Mas meus pés não se moveram.
_ Sukui. — Chamou, mais suave dessa vez.
Olhei para ele.
Os olhos dele estavam diferentes.
Mais leves.
Mais em paz.
_ Você já carregou o mundo nas costas. — Ele disse, baixo. _ Agora só precisa caminhar até alguém que escolheu te amar.
Engoli em seco, sentindo o movimento descer lento demais pela minha garganta, como se até o meu próprio corpo estivesse relutante em avançar.
Havia algo naquele instante que me prendia, não medo, não exatamente, mas um peso silencioso, como se cada passo à frente significasse atravessar tudo o que ficou para trás.
Ainda assim, eu me movi.
Dei o primeiro passo.
O som foi baixo, quase inexistente, abafado pela terra e pelas folhas ao redor... mas, dentro de mim, ele reverberou como um estalo, como o início de algo irreversível.
O segundo veio logo depois, e então o terceiro, e mais outro... até que o ritmo começou a se tornar natural, quase automático, como se meu corpo soubesse o caminho antes mesmo que minha mente aceitasse.
E, conforme eu avançava, o mundo começou a se dissolver ao meu redor.
Não de forma abrupta, não como um genjutsu ou ilusão, mas como algo mais sutil, as vozes ao fundo foram perdendo forma, se tornando indistintas, como ecos distantes que já não importavam.
O som do vento entre as árvores se tornou um sussurro apagado. Até mesmo a sensação do ar contra a minha pele parecia enfraquecer, como se tudo estivesse, pouco a pouco, sendo empurrado para longe de mim.
Ou talvez...
Estivesse me afastando de tudo.
Porque meus olhos encontraram os dele.
Itachi.
E, naquele instante, todo o resto deixou de existir com uma clareza quase brutal.
Ele estava ali.
Não como uma memória.
Não como um arrependimento.
Não como um fantasma que minha mente insistia em manter.
Ali.
Real.
Presente.
Esperando.
Como sempre esteve.
Era uma constatação silenciosa, mas esmagadora: o mundo inteiro poderia ter desmoronado mil vezes, poderia ter sido reconstruído e destruído novamente, poderia ter arrancado tudo de mim... e ainda assim, de alguma forma, ele teria encontrado um jeito de permanecer exatamente ali.
Esperando por mim.
Meu coração se contraiu com força, um aperto tão intenso que, por um segundo, pensei que fosse dor.
E talvez fosse, mas não da forma que eu conhecia. Não era a dor que rasga, que destrói, que consome até não restar nada.
Era uma dor diferente, cheia, viva, quase insuportável justamente por carregar algo que eu já não reconhecia com facilidade.
Sentimento.
Verdadeiro.
Incontornável.
E então eu sorri.
Não foi um gesto calculado, nem algo que eu decidi fazer. Simplesmente aconteceu, surgindo aos poucos, quebrando a rigidez do meu rosto como algo que há muito tempo não encontrava espaço para existir.
Porque, dessa vez não era dor.
Era amor.
Continuei andando, mas agora havia uma leveza estranha nos meus passos, como se o peso que eu carregava tivesse sido, por um momento, suspenso. Cada passo parecia mais fácil que o anterior, mais natural, como se eu estivesse, finalmente, caminhando para algo e não fugindo.
Quando parei diante dele, a distância entre nós era pequena, quase inexistente... e ainda assim, carregava tudo o que não foi dito, tudo o que foi perdido, tudo o que ainda precisava ser reconstruído.
Por um momento, ninguém falou nada.
O silêncio não era vazio, ele era denso, carregado, vivo de significados que não precisavam de palavras para existir. Era o tipo de silêncio que só acontece entre duas pessoas que já disseram tudo... e ainda assim têm tudo para dizer.
Ele apenas me olhou.
E aquele olhar... não era simples.
Não era superficial.
Era profundo de um jeito quase desconcertante, como se ele estivesse, de fato, memorizando cada detalhe meu, não apenas meu rosto, mas minha presença, minha respiração, a forma como eu existia diante dele naquele instante.
Como se estivesse confirmando que eu era real.
Como se ainda não acreditasse que, depois de tudo... eu realmente estava ali.
_ Você é real. — Murmurou, tão baixo que só eu ouvi.
Senti meus olhos encherem de lágrimas.
_ Dessa vez não vou desaparecer. — Respondi, com um sorriso pequeno.
A mão dele subiu devagar... hesitante.
Como se tivesse medo de que eu sumisse ao toque.
Mas quando seus dedos tocaram meu rosto... ele fechou os olhos.
E eu senti.
Tudo.
A dor.
A saudade.
Os anos.
As perdas.
E... o amor que nunca deixou de existir.
_ Eu esperei. — Ele disse.
_ Eu sei.
_ Mesmo achando que você estava morta.
_ Eu sei...
A voz falhou.
Mas não precisei dizer mais nada.
Porque ele sabia.
Ele sempre soube.
O silêncio entre nós não era vazio.
Era completo.
_ Você ainda quer isso? — Perguntou, finalmente, abrindo os olhos.
Sorri.
Com lágrimas escorrendo.
_ Eu atravessei o tempo. — Minha voz saiu baixa, mas firme. _ Eu enfrentei tudo só para ter isso.
Segurei a mão dele.
_ Então sim, eu quero.
Um suspiro escapou dos lábios dele.
E então...
um sorriso.
Pequeno.
Mas verdadeiro.
Raro.
Só meu.
As vozes ao redor voltaram aos poucos.
Alguém começou a chorar.
Outro riu.
Naruto gritou alguma coisa ao fundo.
Sasuke revirou os olhos, mas estava sorrindo.
Hinata segurava as mãos juntas, emocionada.
Obito e Kakashi discutiam baixo, enquanto Rin ria entre eles.
Madara... apenas observava.
Em silêncio.
Mas sem ódio.
Sem peso.
Só... presença.
Tudo estava certo.
Pela primeira vez.
Tudo estava em paz.
Apertei a mão dele.
E dei um pequeno passo mais perto.
_ Vamos? — Sussurrei.
Ele assentiu.
Não foi um movimento grande, nem carregado de dramaticidade, foi simples, quase silencioso, mas havia uma firmeza ali que dizia mais do que qualquer palavra poderia alcançar.
Era um gesto de decisão, de permanência de alguém que não precisava prometer nada em voz alta porque já havia escolhido, há muito tempo, ficar.
E então nós seguimos.
Lado a lado.
Sem pressa.
Sem tensão.
Pela primeira vez, não havia estratégia por trás dos nossos passos, não havia cálculo, não havia o peso invisível de sermos peças em um jogo maior.
Não éramos armas sendo apontadas, nem sombras nos movendo entre segredos, nem sobreviventes tentando apenas atravessar mais um dia.
Éramos apenas duas pessoas.
Duas pessoas que, depois de tudo, escolheram ficar.
O caminho à nossa frente era simples, quase banal aos olhos de qualquer um de fora, mas para mim, cada detalhe carregava um significado absurdo.
O som leve dos passos sobre a terra, o vento passando entre as árvores, trazendo consigo o cheiro de vida, de algo que cresce, que continua, que não pede permissão para existir.
E, ao redor, havia vozes.
Risos baixos.
Conversas.
O som de algo sendo reconstruído não com força, mas com cuidado.
Pessoas vivendo.
Pessoas tentando, mesmo depois de tudo.
Aquilo me atingiu de forma silenciosa, mas profunda. Não como um choque, não como uma revelação explosiva.
Mas como algo que finalmente encontrava espaço dentro de mim para fazer sentido.
E ali, naquele instante simples, quase insignificante para o resto do mundo... cercada por pequenas vidas recomeçando, por olhares que ainda carregavam dor, mas também carregavam esperança, por lágrimas que já não eram apenas de perda, eu entendi.
Salvar o mundo nunca teve a ver com batalhas grandiosas, com vitórias esmagadoras ou com nomes sendo lembrados na história.
Nunca foi sobre guerras.
Foi sobre isso.
Sobre dar às pessoas a chance de continuar.
A chance de rir de novo, mesmo que baixo.
De confiar de novo, mesmo que com medo.
De viver, mesmo depois de tudo ter sido arrancado delas.
Senti algo aquecer dentro do meu peito, não de forma intensa ou avassaladora, mas constante, estável... como uma chama que não precisava mais provar que estava viva. E, quase sem perceber, meus dedos se moveram.
Encontraram os dele.
Itachi.
O toque foi natural, como se nunca tivesse deixado de existir, como se o tempo entre nós não tivesse sido feito de dor, distância e silêncio.
Nossos dedos se entrelaçaram com uma facilidade quase absurda, e havia algo naquele gesto, tão simples, tão humano, que parecia mais forte do que qualquer juramento.
Como se dissesse: "agora, nós ficamos."
O vento passou novamente, dessa vez mais suave, carregando pétalas que dançavam ao nosso redor sem pressa, como se até a natureza tivesse decidido desacelerar para aquele momento.
Algumas tocaram levemente minha pele, outras se perderam no caminho, mas nenhuma foi embora sem antes existir ali, naquele instante.
E eu soube.
Não como uma conclusão lógica.
Não como uma decisão.
Mas como uma certeza que se instala no fundo do peito e simplesmente permanece.
Com toda a calma que eu nunca tive.
Com toda a verdade que eu sempre procurei.
Eu finalmente tinha chegado.
Não em um lugar.
Mas em um estado.
Em uma escolha.
Em algo que não podia ser arrancado de mim.
Eu tinha chegado...
Em casa.
Fale com o autor