Minhas pálpebras estavam pesadas, como se várias pessoas estivessem em cima de mim.

Tentei me levantar sem precisar da minha visão, mas meu corpo foi empurrado para trás, e antes que pudesse falar, uma voz rouca e envelhecida falou mais rápido:

_ Você foi envenenada e caiu de uma altura considerável, acha mesmo que conseguirá sair daqui desse jeito?

Minha respiração estava irregular, e um gosto amargo preenchia minha boca. O ar ao meu redor era denso, impregnado com umidade e um cheiro metálico.

A superfície sob mim era fria e áspera, provavelmente pedra. Meu corpo inteiro pulsava de dor, e por mais que tentasse movimentar os músculos, um peso invisível me prendia.

Forcei meus olhos a se abrirem, piscando algumas vezes até que minha visão começasse a se ajustar à penumbra ao meu redor.

A caverna era vasta, com estalactites gotejantes e paredes irregulares cobertas por musgo escuro.

Algumas tochas fracas lançavam sombras distorcidas no teto rochoso, criando a sensação de que a própria escuridão estava viva.

E então, eu o vi.

A figura ao meu lado estava sentada em uma cadeira improvisada de pedra, o corpo magro e envelhecido, a pele pálida como pergaminho antigo.

Seus cabelos longos e grisalhos caíam em cascatas desordenadas sobre os ombros, e seus olhos eram como brasas moribundas que me analisavam com um misto de curiosidade e exaustão.

Mas o que mais chamou minha atenção foi os tubos conectados ao seu corpo, finos como serpentes, ligando-o a uma estrutura estranha atrás dele.

Líquidos escuros e translúcidos fluíam por eles, desaparecendo nas sombras.

Minha mente lutava para processar a cena diante de mim. Quem era esse homem? O que fazia ali, enterrado no ventre da terra, cercado por esses dispositivos estranhos?

_ Quem... quem é você? — Minha voz saiu arranhada, um reflexo da dor e do veneno que ainda queimava em minhas veias.

Ele soltou um riso baixo, seco como o vento sussurrando em tumbas esquecidas.

_ Sou um fantasma do passado. Uma sombra que se recusa a desaparecer.

Minha cabeça latejava. Ele não me deu uma resposta direta, mas algo em sua presença, na forma como me olhava, fez um arrepio percorrer minha espinha.

_ E por que está aqui? — Insisti, tentando ignorar o frio que se infiltrava em meus ossos.

O homem inclinou-se levemente para frente, os olhos brilhando sob a luz trêmula das tochas.

_ A pergunta certa não é essa, menina. — Sua voz, mesmo enfraquecida, carregava uma autoridade inegável. _ A pergunta certa é: por que você veio parar aqui?

Engoli em seco.

Não tinha resposta para isso, afinal, apenas cai aqui.

Respirei fundo, tentando me lembrar de tudo, até que olhos vermelhos apareceram em minha mente, me fazendo recordar de apenas um homem.

_ Uchiha Madara. — O nomeei.

O homem me observou assustado, se levantando.

Tudo que ele fez foi se ajoelhar na cama (?) e pegar minha mão, apertando com sua pouca força.

_ Como ousa falar meu nome...

_ Então você continua vivo. — Não sabia de onde tirei forças, mas consegui me sentar e retirar minha mão de sua posse. _ Você está acabado. — Toquei meu rosto, sentindo falta da minha máscara. _ Mas não posso falar muito, já que estou pior.

_ Como pôde me reconhecer? — Ativei meus olhos, o observando enquanto tremia levemente. _ Uchiha...

_ Agradeço por ter me salvado, mas preciso ir. — Tentei me levantar.

Ele riu, uma risada seca e rouca que reverberou pelas paredes da caverna.

_ Você não pode ir a lugar nenhum, garota. Não percebe? Seu corpo está fraco, envenenado. Se der um passo sequer para fora dessa caverna, será seu fim.

Meus olhos se estreitaram. Madara queria me manter ali. Mas por quê? Não era simplesmente por causa do meu estado físico.

_ E o que pretende fazer comigo? Me manter presa aqui até que eu morra? — Minha voz carregava um tom ácido, mas ele apenas me olhava, sua expressão impassível.

_ Você diz isso como se eu fosse seu inimigo. Mas se pensar bem, estar aqui comigo pode ser o melhor destino para você.

Respirei fundo, tentando ignorar a dor que latejava por todo meu corpo. Eu sabia que se ficasse aqui por muito tempo, estaria à mercê dele. Madara não fazia nada sem um propósito, e aquilo não era um ato de bondade.

_ Você quer que eu fique. — Afirmei, sem rodeios. _ Por quê?

Madara se levantou lentamente, os tubos que se conectavam ao seu corpo balançando levemente com o movimento.

Seus olhos vermelhos e profundos cravaram-se nos meus.

_ Porque você é valiosa. — Ele disse simplesmente. _ Você sabe coisas que preciso, estou aqui sem informações e você parece saber mais que os outros. — Balançou minha máscara. _ Essa máscara não é da ANBU.

Aquelas palavras fizeram um arrepio percorrer minha espinha. Ele queria algo de mim. Algo que só eu podia oferecer.

Um pequeno sorriso se formou em meus lábios.

_ Informações... — Tive que rir. _ Para quê? Para morrer mais rápido? — Inclinei levemente a cabeça. _ Não me entenda mal, mas não vou falar nada.

_ Tem certeza? — Acenei. _ Então ficará aqui até que morra comigo.

_ Não gostei muito dessa opção, então, estou indo embora. Até algum dia. — Levantei-me, mas assim que tentei dar um passo, uma onda de vertigem me atingiu com força brutal.

As bordas da minha visão se turvaram, e meu corpo cedeu, quase me fazendo desabar novamente. O chão parecia girar, um turbilhão indistinto que ameaçava me engolir.

Minhas mãos tremiam incontrolavelmente, a sensação de formigamento se espalhando pelos meus dedos, como se fossem perder a conexão com meu próprio corpo.

Meu coração palpitava em um ritmo fraco e irregular, como se cada batida fosse um esforço árduo.

O veneno já percorria cada centímetro do meu ser, drenando minhas forças a cada instante. Se tentasse avançar mais um passo, sabia que não conseguiria suportar.

_ Então? — Balançou um vidrinho. _ O que acha de contar o que está acontecendo com Konoha?

_ Pensei que tivesse um informante para dizer tudo isso. — Voltei a me sentar. _ Ou me enganei?

_ Você sabe de mais. — Pensei que ele gostasse disso. _ Ele se foi...

Semicerrei os olhos e fiquei o observando, tentando pensar em mentiras que ele pudesse acreditar, mas sabia que nada sairia da minha cabeça nesse momento.

Suspirei e acenei, poderia ter sido uma Deusa, mas agora sou apenas mortal e meus poderes são pequenos comparados aos meus do passado.

Preciso de tempo, mais tempo que o possível.

Respirei fundo e perguntei:

_ O que você quer saber?

_ Quem é você?

_ Apenas uma garota que entrou para uma organização diferente. — Estalou a língua. _ Não sou uma renegada, se é isso que está pensando.

_ Nunca falei isso. — Jogou o vidrinho para mim e não me fiz de rogada, o destampei e o tomei, sentindo o gosto ácido penetrar em meu corpo. _ Quero saber de mais. — Certo.

E então, eu contei.

Contei sobre o que estava acontecendo nos bastidores de Konoha.

Sobre as tensões crescentes, os sussurros de traição que se espalhavam como veneno. Sobre aqueles que estavam tramando algo maior, algo que poderia abalar os alicerces da vila.

Movimentos silenciosos nas sombras, reuniões discretas, olhos vermelhos brilhando no escuro. Contei sobre o descontentamento, sobre a sensação de que o equilíbrio estava prestes a ruir.

Mas não mencionei nomes... Acho que não precisava.

Eu sabia que Madara não precisava deles. Ele era esperto o suficiente para juntar as peças sozinho.

Quando terminei, o silêncio se estendeu entre nós. Ele me observava, avaliando cada palavra, cada expressão. Então, sorriu de um jeito que me fez arrepiar.

Eu sabia que, de alguma forma, havia acabado de colocar algo em movimento.

E não havia mais volta.

_ Você está satisfeito agora? — Não respondeu. _ Agora, preciso ir. — Toquei meu peito e sinto o pergaminho. _ Até algum dia.

_ Não terá mais dias...

_ Nós sabemos que terá, afinal, você será ressuscitado.

_ Como sabe? Quem realmente é você? — Levantei-me lentamente, sentindo os músculos de meu corpo se esticarem com o movimento.

Estalei minha coluna, um som satisfatório que percorreu minha espinha e me deu uma leve sensação de alívio.

Respirei fundo e, sem hesitar, dei um soco em meu estômago. A dor momentânea foi como um choque, mas sabia que era necessário. Era o que meu corpo pedia.

De repente, uma onda de calor começou a tomar conta de mim. Fechei os olhos e senti o veneno se espalhando internamente.

Ele queimava de forma insuportável, mas algo estava diferente desta vez. O ácido em meu corpo parecia estar se dissolvendo, transformando-se em algo mais... fluido.

Meu corpo reagia, e aquele veneno, que antes parecia me consumir, agora estava se tornando parte de mim, algo que eu poderia controlar.

Gargalhei baixinho, sentindo uma estranha sensação de poder preencher cada célula minha. O veneno não me afligia mais; ao contrário, eu o absorvia, o usava a meu favor.

Cada respiração parecia mais profunda, mais forte, enquanto eu liberava o líquido negro através de minha boca.

Era um vômito pesado, mas, à medida que o veneno escorria, eu me sentia mais leve, mais centrada.

Quando finalmente parei, sentia uma clareza renovada. Minhas energias estavam restabelecidas, meu corpo mais afiado, como se a substância tivesse purificado algo dentro de mim.

A dor havia se dissipado, deixando um vazio que logo foi preenchido com uma sensação indescritível de bem-estar. O veneno já não me dominava. Eu o havia vencido.

_ Já falei que não sou ninguém. — Sequei minha boca, pegando minhas coisas. _ Apenas sou uma pessoa que consegue prever algumas coisas.

A atenção dele estava completamente em mim agora. Respirei fundo e continuei:

_ Você será ressuscitado, como tanto deseja. Uma grande guerra acontecerá, a maior que este mundo já viu. Você se tornará um Deus entre os mortais, esmagando aqueles que ousaram desafiar seu poder.

Os olhos de Madara brilharam com algo semelhante a orgulho, mas eu ainda não tinha terminado.

_ Mas... você será traído. — Minha voz desceu para um sussurro gélido. _ Morto pelas mãos daquele que mais confia.

A expressão de Madara se fechou. Sua mandíbula travou, e seus olhos se estreitaram perigosamente.

_ O garoto Uchiha? — Perguntou, a voz carregada de suspeita.

Soltei uma risada baixa, sem humor.

_ Não. Não é ele. — Também era ele, mas ele não precisava saber.

O olhar de Madara ficou ainda mais penetrante.

_ Então quem? — Sua voz agora carregava uma nota de impaciência.

Sorri e ativei meu Mangekyō Sharingan.

O mundo ao nosso redor pareceu se distorcer quando o poder dos meus olhos se manifestou. A energia se espalhou pela caverna, fazendo as tochas tremerem.

Madara arregalou levemente os olhos quando percebeu o que eu estava fazendo.

_ Veja por si mesmo. — Murmurei, lançando-o dentro da visão do futuro.

A cena se desenrolou diante de seus olhos: ele, ressuscitado, lutando em meio à guerra. Seu poder era esmagador, uma força imparável que destruía tudo à sua frente. Ele estava próximo da vitória, pronto para alcançar seu grande sonho. Mas então, veio a traição.

E seu fim.

Quando Madara retornou à realidade, seu corpo estava rígido, seus olhos arregalados enquanto absorvia o que acabara de ver. Sua respiração era pesada, e por um instante, vi algo raro em seu semblante.

Dúvida.

Seus olhos encontraram os meus novamente, e naquele momento, ele percebeu. Eu não era apenas uma mulher. Não era apenas uma shinobi.

_ Você... — Sua voz saiu baixa, quase em um sussurro. _ O que você é?

Inclinei a cabeça levemente, deixando que meus olhos voltassem ao normal.

_ Apenas uma garota tentando salvar seu clã e noivo. — Respondi simplesmente, com um sorriso misterioso nos lábios.

Mas, mesmo assim, o peso da verdade estava ali, nas entrelinhas, nas sombras de minha expressão.

Ele não disse mais nada. Havia algo em seu olhar que me dizia que, por mais que ele tentasse entender, nunca conseguiria compreender completamente quem eu era. Mas não importava. Eu já havia cumprido minha parte ali.

_ Até.

Saio da caverna em um movimento rápido e decidido, sentindo o vento frio bater em meu rosto à medida que me afastava de tudo o que era conhecido.

A jornada até Konoha não seria fácil. Meu corpo ainda sentia os efeitos do veneno, mas a clareza mental e a força renovada me impulsionavam para frente.

Corri sem parar, meus pés quase tocando o chão, atravessando os campos e florestas como uma sombra veloz. A terra parecia se abrir diante de mim, e cada passo me aproximava mais de casa.

Após horas de viagem, meus músculos finalmente cederam e Konoha surgiu à vista. O portão da vila se aproximava, mas não entrei imediatamente.

A pressão em meu peito se intensificou. A minha missão não estava completa até que eu entregasse o relatório e as informações que havia reunido. Meu mestre estava ali, esperando, como sempre.

Ele estava um pouco afastado dos portões, em uma clareira escondida entre as árvores, aguardando com uma postura impassível.

Quando o vi, algo dentro de mim se tranquilizou, sabendo que minha missão estava quase cumprida.

Cheguei até ele sem perder tempo, entregando o pergaminho com a informação detalhada sobre o que estava acontecendo fora dos muros de Konoha.

Ele pegou o pergaminho com a mesma expressão inexpressiva de sempre, mas, ao abri-lo, pude ver seu olhar afiado percorrendo cada palavra.

_ Você fez bem. — Ele disse, com um leve aceno, sem sequer levantar os olhos do pergaminho. _ Descanse por agora, daqui a dois dias quero você novamente na base.

_ Sim, mestre.

Sabia que não precisaria de mais palavras. O trabalho estava feito. Já havia cumprido minha parte.

Sem mais palavras, me afastei, passando por ele com um rápido movimento. O peso da missão agora parecia mais leve, mas sabia que isso era apenas o começo de algo maior.

Entrei finalmente em Konoha, mas, mesmo com o calor das ruas familiares, o que me aguardava lá dentro me fazia sentir uma tensão crescente.