Três anos depois:

Na noite em que completei dez anos, uma estrela desceu do céu.

Estava deitada na grama, observando o céu como fazia todas as noites, e pensei que fosse apenas um delírio causado pelo cansaço.

Mas, conforme aquela luz brilhante se aproximava, algo em meu peito despertou — uma sensação antiga, como se estivesse prestes a reencontrar algo perdido.

Não era uma estrela. Sua luz intensa foi se dissipando, revelando uma forma sólida e terrena. E então, eu a vi. Frosh.

Ela não era apenas uma raposa. Frosh era uma criatura que desafiava a compreensão, ao mesmo tempo era bela e imponente.

Seu pelo branco cintilava sob o luar, absorvendo e refletindo a luz de uma maneira que fazia parecer que ela carregava a própria essência da noite em seu corpo.

Mas o que realmente a distinguia eram as manchas negras espalhadas por sua pelagem, formando um desenho intricado e extraordinário: um relógio.

Os ponteiros desse relógio estavam em seu flanco esquerdo, perfeitos e detalhados.

Porém, aquele não era um relógio comum. Ele pulsava com algo que eu não podia explicar — uma força antiga e poderosa, algo profundamente conectado à vida e ao tempo.

Frosh caminhou em minha direção com passos leves, quase flutuantes.

O mundo ao nosso redor pareceu parar, como se tudo estivesse aguardando aquele momento.

Seus olhos, de um âmbar brilhante e penetrante, encontraram os meus, e senti um arrepio percorrer minha espinha.

_ Frosh... — Murmurei, minha voz quebrando o silêncio da noite.

Ela inclinou a cabeça, um gesto que parecia mesclar curiosidade e reconhecimento.

Quando sua pelagem tocou minha mão, um calor suave percorreu meu corpo, preenchendo-me com uma calma que não sentia havia anos.

Era como se eu estivesse conectada a algo maior do que eu mesma, algo primordial.

Meus irmãos estavam distantes, observando, mas, por um instante, eu quis que se aproximassem.

Queria compartilhar aquele momento com eles, mas também sabia que Frosh era minha, assim como eu era dela.

Quando ela falou, sua voz não veio de sua boca, mas preencheu minha mente, suave, mas firme:

_ Mestra, senti sua falta.

Minhas pernas tremiam. Era como se uma parte de mim, uma que eu não sabia que estava perdida, tivesse sido restaurada.

_ Também senti sua falta, Frosh. — Minhas palavras estavam carregadas de emoção e alívio.

Ela inclinou a cabeça novamente, desta vez com um brilho divertido nos olhos.

_ Mas temos serviço para fazer. Vamos logo.

Suspirei, revirando os olhos. Claro, serviço. Frosh nunca aparecia apenas para me confortar. Ela estava ali com um propósito.

Cruzei os braços e permaneci onde estava, encarando-a.

_ Por que você está aqui? — Perguntei, minha voz tingida de impaciência.

Frosh fixou seu olhar em mim, e as manchas do relógio em seu flanco pareceram brilhar por um instante.

_ Porque o tempo está mudando, mestra. — Franzi o cenho. _ Mesmo não sendo mais a Deusa do Tempo, do Infortúnio, eles me enviaram para cuidar de você e do tempo que você está mudando.

Suas palavras trouxeram uma gravidade que não pude ignorar.

O ar ao meu redor pareceu se comprimir, e senti o peso do que estava por vir. Frosh nunca era direta.

Nunca entregava todas as respostas de uma vez.

_ Concentre-se. — Disse, sua voz reverberando em minha mente. _ O futuro nunca é um caminho reto.

Antes que pudesse questioná-la novamente, ela se aproximou e roçou sua pelagem em meu braço.

Quando minha mão tocou as manchas em forma de relógio, o mundo ao meu redor desapareceu.

Fui engolida por uma escuridão densa, mas não opressora. Era como estar em um limbo, um espaço entre tempos.

Visões preencheram minha mente, borradas e desconexas. Um campo desolado coberto de flores murchas.

Rostos familiares, alguns sorrindo, outros chorando. A lua partida, derramando uma luz prateada sobre um mundo sombrio.

E o som de um relógio — tique-taque, tique-taque — ecoando ao longe, constante e implacável.

Abri os olhos com um suspiro ofegante, meu coração acelerado. Frosh me observava, seus olhos profundos e calmos. Mas havia algo mais lá — urgência.

_ O que isso significa?

Ela se aproximou mais uma vez, seus olhos firmes e gentis.

_ Significa que o tempo não espera, mestra. E você também não deveria.

Minha respiração acelerou novamente. Algo grande estava prestes a acontecer, e, no fundo, eu sabia que não havia como voltar atrás.

_ Quem é a primeira pessoa que preciso mudar o destino?

Frosh ergueu as orelhas, como se escutasse algo muito distante.

_ A mãe de Hinata. — Respondeu. _ Ela está à beira da morte, lutando para trazer uma nova vida ao mundo.

Minhas visões fizeram sentido. A mulher de cabelos escuros e olhos claros, coberta de suor e dor. E, ao seu lado, um choro frágil — um bebê.

_ Hanabi... — Sussurrei, o nome saindo de meus lábios como se sempre tivesse estado ali.

Frosh assentiu.

_ O parto está difícil. Ela não tem muito tempo. — Continuou me observando. _ Se você não intervir, o destino dela será selado.

Meu coração disparou. Sabia o que precisava ser feito, mas salvar uma vida nunca era simples. O destino sempre cobrava um preço.

Olhei para as sombras que se afastavam e sabia que não tinha mais volta...

_ Mostre o caminho. — Ordenei.

Frosh saltou à frente, seus movimentos rápidos e graciosos. Segui-a através da noite, sentindo o peso do Relógio da Vida pulsar dentro de mim, marcando cada segundo como se fosse o último.

Quando chegamos à casa dos Hyuuga, o ar estava pesado, carregado de desespero. O portão rangeu ao se abrir, e cada passo que dei foi acompanhado por um aperto no peito.

Frosh liderava o caminho, sua presença silenciosa mas resoluta me mantendo focada.

A porta da casa estava entreaberta, como se convidando a entrar, mas o silêncio lá dentro era quase ensurdecedor.

Atravessei o hall e comecei a subir as escadas, cada degrau ecoando com um som que parecia pesar mais que o normal. No topo da escada, avistei Hinata.

Ela estava encolhida perto da porta do quarto de sua mãe, com os joelhos contra o peito e lágrimas escorrendo pelo rosto.

Seus soluços eram baixos, quase inaudíveis, mas carregados de um sofrimento profundo que me fez hesitar por um instante.

Frosh parou ao meu lado, seus olhos brilhando com algo que parecia ser compaixão.

_ Hinata... — Chamei suavemente, me ajoelhando ao lado dela.

Seus olhos se levantaram para encontrar os meus, cheios de medo e desespero.

Ela tentou falar, mas as palavras não saíram. Em vez disso, apontou para a porta, onde uma sombra fraca se movia atrás do papel translúcido da divisória.

Passei a mão em seu cabelo, tentando confortá-la.

_ Está tudo bem, vou ajudar. — Prometi, embora não tivesse certeza de como faria isso, afinal, não sou mais uma Deusa.

E o peso do Relógio da Vida parecia mais intenso, cada tique-taque ressoando dentro de mim como um lembrete da urgência da situação.

Levantei-me e, com um último olhar para Frosh e Hinata, empurrei a porta, entrando no quarto onde o destino aguardava.

A cena que me aguardava era exatamente como nas visões: a mãe de Hinata estava lá, pálida e exausta, enquanto Hanabi chorava fraco ao seu lado.

_ Mestra. — Frosh murmurou, a voz suave, mas carregada de urgência. _ O relógio dela está quase zerado. Se hesitar, será tarde demais.

Meu coração disparava como um tambor descompassado. As batidas pareciam ecoar em meus ouvidos enquanto olhava para o relógio invisível que pulsava diante de mim, ligado à vida daquela mulher.

Os ponteiros avançavam lentamente, mas havia algo... estranho. Uma resistência. O tempo parecia hesitar.

_ Por que está tão difícil? — Perguntei, sentindo a frustração subir à superfície.

Frosh inclinou a cabeça levemente, o olhar ponderado.

_ Você está com medo. — Claro que estava. _ Se você não mudar, ele o mudará para você e sabemos que essa é a pior decisão.

_ Saber, eu sei. — Respirei fundo. _ Apenas que só tenho o poder de ver o futuro e não reescrever o destino dos outros, perdi esse...

_ Pare de reclamar e faça, mas quando fizer, se prepare para as consequências. Isso sempre exige um preço.

_ Então por quê...

_ Clã Uchiha.

Engoli em seco.

Sabia o que isso significava, mas nunca estava preparada para ouvir aquelas palavras.

Mudanças no tecido do destino não vinham sem consequências, e o preço nem sempre era claro.

Às vezes, ele vinha mais tarde, como uma sombra que nunca te abandona.

_ Estou pronta. — Declarei, tentando mascarar a insegurança na minha voz. _ Qualquer que seja o preço, não vou deixar que ela parta agora.

Frosh hesitou por um momento, mas então deu um pequeno aceno.

Sua confiança em mim era reconfortante, ainda que eu não tivesse certeza se ela estava certa em confiar tanto assim.

Estendi minha mão sobre o flanco de Frosh, sentindo a pulsação rítmica do relógio em sua pele.

O poder fluía dela para mim, como um rio cheio de vida, inundando cada canto do meu ser.

Meus olhos fecharam por instinto, e foi então que senti. Não era apenas a vida da mãe de Hinata que estava em jogo.

Era a de Hanabi.

A linha entre as duas estava embaraçada, conectada de um modo que eu não conseguia compreender completamente.

_ É uma troca. — Frosh murmurou, quebrando o silêncio. _ Para salvar uma, você terá que sacrificar algo.

Minha mente vacilou. Sacrificar o quê? Eu? Algo dela? Algo do futuro? A incerteza era como um nó na garganta, mas não havia tempo para questionar.

_ Faça o que precisar, Frosh. — Sussurrei. _ Eu aceito.

A raposa fechou os olhos, e um brilho suave começou a emanar das marcas do relógio em seu corpo.

O quarto parecia congelar no tempo, os murmúrios de desespero ao fundo silenciados. Tudo o que restou foi aquele momento, aquele peso, e a escolha que eu havia feito.

Toquei o relógio mais uma vez, dessa vez sentindo como se estivesse entrando em uma corrente de energia pura.

O quarto ao meu redor desabou em escuridão, e eu me vi novamente naquele espaço entre tempos, onde tudo era possível e nada era definitivo.

Lá, diante de mim, vi duas figuras. A mãe de Hinata, seu rosto pálido, mas determinado, e Hanabi, ainda um bebê, mas brilhando com uma luz própria. Entre elas, um fio dourado, tênue, como se fosse feito de teias de aranha.

_ Este é o laço que você deseja salvar. — Frosh explicou, sua voz ecoando pelo espaço vazio. _ Mas o laço é frágil, e o tempo não perdoa fragilidades.

Estendi minha mão para o fio dourado, hesitando apenas por um instante antes de segurá-lo.

A textura era quente, quase viva, e uma dor súbita atravessou meu peito. Era como se eu estivesse arrancando uma parte de mim mesma.

_ Você não pode salvar tudo, mestra. — Sua voz soava mais gentil. _ Mas escolha com cuidado.

Minhas mãos tremeram enquanto segurava o fio, sentindo as possibilidades dançarem ao meu redor.

Salvar a mãe de Hinata significaria garantir que ela vivesse para criar suas filhas, salvar meu clã, mas o preço... ainda não sabia o que seria.

Finalmente, reuni toda a coragem que tinha e puxei o fio dourado, sentindo um calor avassalador envolver meu corpo.

O espaço ao meu redor começou a se fragmentar, como vidro quebrando, e eu fui lançada de volta ao quarto dos Hyuuga.

A mãe de Hinata deu um suspiro profundo, o ar enchendo seus pulmões de uma forma que parecia quase milagrosa.

A cor voltou ao seu rosto, e seus olhos, antes fechados, agora estavam abertos e brilhantes.

O choro de Hanabi ecoou mais forte, como se a vida tivesse sido restaurada de alguma forma.

Hinata, ainda encolhida no canto, olhou para a mãe com olhos arregalados, um sorriso tímido começando a se formar em seu rosto.

Eu, no entanto, estava exausta.

Meu corpo parecia ter sido drenado de toda energia, e minhas mãos tremiam incontrolavelmente.

Frosh se aproximou, suas patas silenciosas no chão de madeira, e inclinou a cabeça para me observar.

_ Você fez sua escolha, mestra.

Antes que pudesse falar, uma dor aguda atravessou meu peito. Era como se algo estivesse sendo arrancado de dentro de mim, uma parte da minha própria essência.

_ O que está acontecendo? — Mordi os lábios para não gritar.

Frosh apenas me olhou, seus olhos âmbar cheios de algo que parecia... tristeza.

_ Você salvou a mãe, mas tirou algo do futuro. Uma peça do destino foi removida. Agora, você terá que enfrentar as consequências.

Queria perguntar mais, exigir respostas, mas meu corpo não aguentava mais.

Minha visão começou a escurecer, e tudo o que ouvi antes de perder a consciência foi a voz de Frosh, suave e quase um sussurro.

_ O tempo não espera, mestra. E agora, ele vai testá-la.