A Salvação de um Uchiha
17 Capítulo dezesseis
Saímos da Vila quando o sol começava a ceder espaço para o crepúsculo. O vento frio da tarde carregava o cheiro das folhas e do fogo distante, lembranças da vila que, por mais que tentássemos negar, sempre pesava no coração quando partíamos.
Itachi caminhava ao meu lado, em silêncio, como sempre. Mas havia algo diferente nele, algo mais leve, quase imperceptível.
Talvez fosse o modo como seus olhos buscavam o horizonte, como se enxergassem além das sombras.
_ Já pensou no nosso futuro? — Perguntei, quebrando o silêncio enquanto ajustava a bandana.
Ele desviou o olhar do caminho e me encarou com calma.
_ Nosso futuro?
_ É, quando tudo isso acabar, as missões, as guerras, a escuridão. — Mordi os lábios. _ A última vez que falamos disso éramos crianças, talvez seus pensamentos tenham mudado, quer continuar no distrito quando nos casarmos ou morar em outro lugar?
Respirou fundo antes de responder.
_ Acho que... moraria em um lugar tranquilo. — Sorriu de canto, pensativo. _ Onde pudesse ver o céu nascer todos os dias.
_ É uma boa mudança de ares, gostei disso. — Fechei meus olhos, imaginando isso por alguns segundos.
_ E você?
_ Quero ter uma casa pequena, cercada por árvores. Talvez um jardim com crianças correndo por aí. — O observei. _ Quantos filhos teremos?
Itachi arqueou uma sobrancelha.
_ Dois filhos, talvez três. — Sorriu, imaginando.
_ Uma menina e dois meninos. — Completei e o vejo acenar.
_ Já pensou nos nomes? — Ficou curioso.
_ Akira para o mais velho. Ele teria o olhar sereno, como o seu. A menina, terá o nome de Hana, para lembrar o mundo de florescer mesmo nas sombras. E o mais novo será Shin, o pequeno que traria luz aos dias nublados.
Itachi permaneceu em silêncio por um momento, pensativo.
_ Se tivéssemos um quarto, chamaria ele de Ren. — Disse enfim. _ Significa "lótus", uma flor que nasce na lama, mas se ergue pura.
Sorri, tocando de leve o braço dele.
_ É um nome bonito.
_ E se tivéssemos mais uma menina... — Observou o céu. _ Talvez Airi, porque gostaria que ela respirasse livre, diferente de mim.
Ficamos em silêncio por um tempo, caminhando lado a lado enquanto a noite se derramava sobre a estrada.
_ E o casamento? — Mudei de assunto.
Ele olhou para mim de soslaio, com aquele olhar calmo que parecia atravessar a alma.
_ Você fala disso como se já tivesse data marcada.
_ Ora, e se tivesse? — Retruquei, divertida. _ Escolheria um dia de chuva.
_ Por quê?
_ Dizem que casamentos sob a chuva duram mais.
_ É mesmo?
_ É. Porque quando chove, o céu chora de emoção.
Itachi riu, baixinho, um som tão raro e precioso que me fez parar por um instante.
_ Então espero que chova no nosso casamento.
O leve rubor que subiu à sua face me fez sorrir.
Continuamos a viagem, e o vento começou a mudar.
O céu, antes calmo, agora se cobria de nuvens escuras. Raios cortavam o horizonte distante, e gotas começaram a cair, lentas no início, firmes em seguida.
Quando cruzamos o limite do País do Relâmpago, já estávamos encharcados. A paisagem se tornava mais selvagem.
Árvores altas, rochas cobertas de musgo e um ar elétrico que parecia vibrar com cada trovão.
_ Está tudo muito quieto. – Murmurei. _ Nenhum chakra nas redondezas.
Itachi fez um selo rápido, ativando o Sharingan. Seus olhos rubros cortaram a escuridão, e ele assentiu algo.
_ Há uma barreira mais adiante. Oculta.
Avançamos em silêncio, atentos, até que a ruína apareceu diante de nós: um antigo posto ANBU, coberto pela vegetação, mas ainda pulsando com chakra residual.
As runas brilhosas nas paredes denunciavam um selo de proteção.
_ Estão usando energia vital para mantê-lo ativo. — Notei.
Itachi aproximou-se.
_ E a origem está aqui...
Quando tocamos o selo juntos, um pulso atravessou nossos corpos. O chão tremeu. As runas se desintegraram, revelando uma passagem oculta.
Entramos com cautela, o som da chuva ficando distante lá fora. Dentro, encontramos restos de papéis, frascos quebrados e inscrições que denunciavam experimentos antigos.
_ Estão tentando reanimar corpos com chakra residual. – Murmurei, fazendo que minha raposinha saísse do meu corpo e encontrasse mais pistas sem que alarmasse o garoto ao meu lado.
Itachi examinou as marcas.
_ Não há ninguém aqui. Parece que o laboratório foi evacuado recentemente.
_ Sabiam que viríamos.
O trovão retumbou acima de nós, e um clarão atravessou a entrada, como se meu irmão dissesse que era exatamente isso.
Será que eram aquelas pessoas? Ou era apenas Orochimaru fazendo suas experiências estranhas?
Não dava para descobrir isso aqui e nem agora, com tão pouca informação.
Por um instante, vi o reflexo de nossos olhos, o vermelho do Sharingan se cruzando como se o destino nos observasse.
Ele se virou para mim, a expressão mais suave agora.
Porém, algo em mim se recusava a relaxar, não era o perigo. Era o momento, aquele instante suspenso, cercado pelo som da chuva, pelo calor do corpo dele tão próximo.
_ Itachi...
Ele ergueu o rosto, e antes que qualquer palavra fosse dita, dei um passo à frente.
A chuva caía forte lá fora, respingando pela entrada da ruína. Meu coração batia rápido demais.
_ Acho que estamos sendo vigiados. — Sussurrei.
E então o beijei.
Foi um beijo lento, denso, como se o mundo tivesse parado. A chuva batia nas janelas, misturando-se com os sons de nossas respirações, ao calor que se formava entre nós.
Ele respondeu ao beijo com a mesma calma que carregava em tudo, mas havia paixão ali, contida, profunda, inevitável.
Quando nos afastamos, encostei minha testa na dele.
_ A esquerda, duas pessoas com capas pretas...
_ Não parece que irão fazer alguma coisa.
_ Estão se afastando... — Apertei suas roupas. _ Os deixe ir, vou fazer que algo os siga para que possamos sair daqui ilesos.
_ Consegue ver tudo isso assim? Sem ativar...
_ Também o amo, meu amor. — Sussurrei, rindo. _ Somos apenas um casal que encontrou um lugar para ter algo romântico.
Apertou minha cintura e beijou minha bochecha, me fazendo observar claramente as pessoas que nos viam, eles sumiram nas sombras, mas já estava acostumada a elas.
Akatsuki... Mais cedo que o previsto.
Mas o que eles faziam aqui? Por que eles precisavam de corpos? Ou não era eles e sim, outra pessoa?
Itachi respirou fundo e, com a voz rouca, respondeu:
_ Se foram. — Acenei, mas já sabia que não era tão simples.
Minha raposinha não havia encontrado nada e isso me deixou um pouco aflita, meu tempo havia acabado, já era hora daquele dia chegar.
Do lado de fora, a tempestade se dissipava lentamente. O trovão agora soava distante, e o vento trazia o cheiro fresco da terra molhada.
A missão estava cumprida.
Mas o dia da nossa despedida já tinha data e hora marcada...
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