A Salvação
4 Capítulo 4
Notas iniciais
Suas palavras não causaram o impacto planejado, pois os mortais se espantaram mais com a menção ao seu pai do que com a afirmação de que o próprio rei havia condenado-os.
Mas o rei Gael convidou-o a entrar em seu forte com eutimia, como se fossem velhos amigos… aquele era um mortal estranho, supostamente mortais deviam ter vidas breves e envelhecer rapidamente, mas aquele rei, no auge de seus setenta anos, não parecia ter mais que quarenta, ainda caminhando ereto e só tendo umas poucas madeixas grisalhas próximas às têmporas. Seria a espada estendendo-lhe a vida? Provavelmente.
—Então é realmente um deus? — o rei quis certificar-se novamente, enquanto Morpszany olhava a volta, tomando nota de que as simples moradas humanas estavam ainda muito distante das construções divinas, inclusive do palácio subterrâneo com o qual o pai presenteara a mãe — Nunca ouvimos falar sobre Anlaraph ter um filho…
—Somos cinco ao todo! — surpreendeu-se — E quando a Xynard? Criador das estrelas que guiam os mortais, deus das estrelas, mapas e viajantes! E Kareiell? A deusa escorpião patrona da magia! Lihaw e Luhaw as serpentes gêmeas? Deusas da medicina, patronas dos venenos e antídotos!
—Refere-se aos filhos com os quais Elyri presenteou a humanidade?
—Eles são também de Anlaraph! — impacientou-se.
—E vossa excelência?
—Sou o filho do meio. — respondeu desconfortável.
—Sim, mas me referia à sua jurisdição, é um deus patrono de…?
De coisa alguma, todos os seus irmãos já haviam encontrado seus caminhos, exceto por ele, era um deus simplesmente por nascimento.
—Não vem ao caso! — desconversou — Vim saber porque andas espalhando injúrias sobre meus pais e causando grande confusão no mundo terreno, você esteve lá, sabe que as coisas não aconteceram da forma que contou.
—Sim, eu sempre antecipei o dia em que os deuses confrontariam-me com isso, mas eu contei a verdade. — declarou o rei cansado — Contei-a dezenas de centenas de vezes, mandei-as ilustrá-las com gravuras por todo forte inclusive! Mas independente do que eu faça ou diga, as palavras que chegam aos ouvidos de meus súditos sempre se deturpam quando saem de suas bocas, e a história ganha vida sem que eu possa controlá-la.
Morpszany apiedou-se daquele rei, pois entendia seu dilema, ele também tentara de tudo para salvar os mortais da ignorância: canções, pinturas, teatro de sombras… se ao menos houvesse uma maneira de transmitir as histórias sem depender das falhas interpretações dos mortais…
Ah, os olhos de Morpszany iluminaram-se.
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