Notas iniciais
Oi *-*

Prólogo

Era uma linda manhã de inverno quando ela nasceu, a neve caía constante, fria e insensível. O Olimpo estava na mesma e entediante paz de sempre. Foi quando ele viu. Uma roseira que devia estar morta pelo frio, os galhos se levantavam novamente, adquirindo um tom de verde estonteante. Uma botão de rosa apareceu. Apenas um. Ali, naquele momento, uma rosa tão vermelha quanto o sangue que ele mesmo muitas vezes derramara, desabrochou. As pétalas sedosas e fortes, o caule cheio de grandes espinhos. Caminhando lentamente até o templo tumultuado onde Deméter apresentaria seu filho aos deuses, ele se surpreendeu ao ver os campos vastos cobertos de neve ficando verdes novamente, de um verde tão vivo que chegava a doer os olhos em contraste do branco da neve. Frutos amadureciam nas árvores, trepadeiras brotavam em colunas de mármore, flores de todos os tipos, cores, tamanhos, formatos e espécies desabrochavam em todos os lugares.

O inverno se transformava em primavera tão rapidamente que era impressionante. Um lírio branco e majestoso cresceu bem aos seus pés. Tocou as pétalas com a ponta dos dedos e, no mesmo instante a flor esfarelou em sua mão, negra e feia. Sempre acontecia. Ele odiava aquilo tanto quanto odiava a própria vida. Ficara com a pior parte. Pelo menos ele tinha a escuridão, onde ele podia refletir. Mas refletir sobre o quê? Um rei, solitário, de um mundo de mortos. Seus mortos. Eles lhe faziam companhia, mas não eram pessoas em carne e osso. Muito menos deuses. Ninguém sabia, ninguém nunca soube de seu maior desejo. Era tanta bobagem que até ele, muitas vezes, esquecia.

Cada passo era mais dolorido. Pensar que ele poderia estar morando ali, naquele majestoso palácio branco e alegre o fazia sentir tonto e desprezível.

Ele só queria voltar ao buraco de onde veio, ao seu palácio negro e o seu rio de sonhos perdidos. Ao seu jardim de pedras preciosas, com seu manto negro de desespero. Era o seu lar, afinal. Mas sempre pensava que a morte poderia ser menos dolorosa. Menos horrível. Olhar pessoas queimando da janela do quarto não era o tipo de vista que se quer ter. Ver mulheres lindas com os olhos vazios e confusas nos Asfódelos não era bom. Visitar velórios, geralmente para abençoar a morte de simples e bons mortais era um de seus passatempos. Ver pessoas chorando o tempo inteiro e desejar poder chorar com elas para não ter de guardar tudo dentro dele mesmo. Talvez fosse isso que o tornou tão amargo. Tão solitário.

Ele tinha a capacidade de amar, ele sabia o que era querer uma mulher com ele, mas não podia leva-las pra lá, simplesmente. Seria dolorido demais ver suas amadas sofrerem, mais dolorido ainda que estar naquele lugar.

As vezes só queria poder morrer. Esticar as canelas, bater as botas. Simples assim. Mas nem mesmo a morte adiantaria pra ele. Então deveria se contentar com a imortalidade. Irônico. O deus da morte ser imortal.

Continuou seu caminho, observando as plantas. Não sabia quem estava fazendo aquilo mais sem dúvida era incrível. O templo de Deméter era um pandemônio de flores. Uma enorme floresta colorida. Já havia estado lá antes e sabia como o templo era grande. As portas estavam abertas e se ouvia risadas.

Entrou, devagar, observando a multidão se havia se formado no meio do templo, envolta de algo.

Olhou em volta, percebeu sua irmã, a rainha Hera encabulada, sentada no canto, provavelmente odiando tudo aquilo. Coitada, seu marido a tinha traído, feito um filho com sua própria irmã e ainda tinha que presentear a criança.

Ele nunca olhara para Deméter, nunca a desejara como Zeus e Poseidon. Sempre preferiu Héstia ou Hera, suas pequenas irmãs.

Foi até a deusa encolhida.

Vira a raiva nos olhos dela ao se aproximar.

-O que faz aqui? – pergunta a deusa.

-Vim ver a criança, irmã.

Hera começou a falar alguma coisa, mas ficou tensa de repente.

Uma voz ribombou, autoritária.

-Hades.

O deus virou-se, sem medo algum. Uma coisa que ele tinha aprendido muito bem a controlar. Não deveria temer seu irmão mais novo, Zeus.

-Olá. – disse, a todos.

-O que veio fazer aqui? – perguntou uma voz estridente e melosa, atrás de Zeus. Deméter. Escondida e ridícula, como sempre.

-Só quero ver seu filho, Deméter.

-Fique longe dela!

Hades caminhou até onde a criança estava. Em um berço florido, um bebê de olhos grandes e feições bonitas olhava atentamente para ele.

Sentia todos os olhares penetrando na pele, olhares acusatórios e desprezíveis. Dentre todos aqueles olhares havia apenas um que sorria, apenas um que importava. O bebê. A menina que estava no berço, ela sorria pra ele. Seus olhinhos pequenos sorriam. As mãozinhas gorduchas agarravam o ar, pedindo colo.

De repente não havia mais ninguém ali, só ele e a garota. O sorriso travesso, o perfume de flores, os olhos lindos, os cabelos cor de caramelo, o ciúmes, as risadas, o jardim, a alegria. Então ele soube. Era ela, apenas ela que poderia salvá-lo.

Notas finais
Espero que tenham gostado, vem continuação por aí