Um dia, a muitos e muitos anos atrás, quando os elfos ainda habitavam nosso mundo junto de nos homens e até mesmo antes de existirmos. Quando dragões dançavam a sua dança da morte nos céus e destruíam cidades inteiras, quando valentes cavaleiros os matavam, numa época em que magos bondosos se punham contra os magos maléficos, no tempo em que os deuses ouviam mais atentamente a nós. Naquele tempo existiu um elfo chamado Artur Namahar.

Artur não era como qualquer elfo, ele nasceu com seu destino já traçado pelos deuses. Tudo o que ocorreu em sua vida teve um motivo, tudo que o machucou, tudo que quase, quase o matou, foi tudo um presente dos deuses para ele, para que conseguisse vencer o seu maior desafio. Ele superou tantas coisas em sua vida como há de estrelas no céu, que naquele tempo era um número ainda maior do que a hoje, mas o pior ele superou em sua infância.

O elfo tinha recém tido o décimo dia de seu nome quando sua família fora assassinada. Um terrível e horripilante dragão negro, com asas que quando balançavam criavam vendavais, com urros que ensurdeciam a todos que ouvissem em um quilometro de distancia, com garras e presas que poderiam perfurar o mais duro dos diamantes, com um olhar que fazia quem o encarasse em preda e com um jato de fogo que queimava tudo que alcançasse, foi esse dragão que assassinou cruelmente os pais do jovem Artur e tantas outras pessoas.

Ele ficou em choque, sem poder fazer nada enquanto presenciava a cena. O garoto seria o próximo a ser morto pelo dragão, mas Artur Namahar encarou o dragão com um olhar que dizia muitas coisas: dizia que o garoto se vingaria, dizia que Artur era destinado há algo muito grande e dizia que todos os deuses juntos abençoaram o rapaz e que nada nem ninguém conseguiriam derrota-lo. E mais ainda, o garoto sustentou o olhar contra os olhos do dragão e pela primeira vez em toda a eternidade o garoto não foi petrificado. Vendo aquilo o dragão disse para o garoto em desafio, pois o dragão não temia nem aos deuses e nem a ninguém e queria apenas caos e destruição:

– Você garoto, agora é Aquele-Que-Sobreviveu-Ao-Olhar-Do-Dragão-Negro. Eu matei seus pais e por isso você deve se vingar de mim. Em dez anos quando já for um homem feito venha me procurar e me encare em um duelo. Caso não venha e irei atrás de você, destruirei esse mundo inteiro se for preciso, mas o encontrarei e farei em cinzas com as minhas chamas!

– Eu irei dragão, tenha certeza disto. E quando o achar, eu o farei em pedaços fera imunda! – rebateu Artur.

O dragão assustado com a resposta do elfo levantou voo e foi para além do Fim Do Mundo, onde nenhum homem e nenhum elfo jamais foi, o lar dos monstros. E era para lá que Artur Namahar iria, dali a dez anos.

Depois disto Artur aventurou-se por este mundo. Descobriu a charada do Leão, salvou mil e uma donzelas, travou mais de dez vezes dez mil batalhas e a todos venceu e inúmeras outras aventuras que são contadas desde aquele tempo até hoje, mas são demais para hoje serem contadas. O que importa é o que ele fez ao passar os dez anos que o dragão disse e como conclui o seu grande destino depois daquilo.

Assim que se passaram os dez anos, Artur Namahar viu que deveria tratar de ir logo até o dragão, mas ele sabia que não conseguiria atravessar o Fim do Mundo sozinho. Portanto, ele encontrou um mago muito poderoso, este que uma vez fora maléfico e agora era um mago bondoso e devia sua vida e tudo que era a Artur e com isso teve de ajuda-lo naquele momento. Quando lhe foi pedida ajuda o mago então disse:

– Muito bem, mas para conseguir atravessar o Fim do Mundo, você deve derrotar um espectro. Quando você matar o espectro, deve aprisionar seu poder em sua espada, se você atravessar o Fim do Mundo segurando firmemente na empunhadura dela nada acontecera contigo.

Artur partiu atrás do espectro, numa perseguição que durou dois longos meses, mas no fim Artur conseguiu ficar frente a frente com o espectro e o derrotou com apenas um olhar, o mesmo que sobreviveu a petrificação do dragão. Assim o elfo aprisionou dentro de sua espada o poder da criatura e lhe concedeu o nome de Matadora de Espectros.

Vendo que deveria agir rápido ou logo o dragão viria atrás dele deixando um rastro de destruição, Artur partiu rumo ao Fim do Mundo no mesmo instante em que nomeou sua espada e percorreu os mais de mil quilômetros até lá em dez dias. Quando Artur finalmente chegou ele desembainhou a espada que no mesmo instante emitiu um brilho azul e no seguinte se tornou invisível como o próprio Artur. Assim ele pode passar por uma trilha estreita entre florestas, montanhas e desertos. Caminhou seguindo sempre para frente por um mês inteiro e percorreu quase cinco mil quilômetros nesse tempo, mas enfim ele conseguiu atravessar o Fim do Mundo, o que nenhum homem jamais pode se gabar de ter feito antes.

Depois disto em pouco tempo Artur achou o Dragão Negro. No centro do Reino de Sombras onde moravam os monstros, lá o dragão residia, dentro da mais alta das montanhas o dragão dormia aguardando o dia em que Artur chegaria. O elfo subiu a montanha até ficar frente a enorme fenda no topo dela e espiou para baixo onde dormia o dragão, apenas a cabeça dele aparecia dali de cima, o resto do corpo ficara encoberto pelas sombras daquele lugar maldito.

– Acorde dragão! – Chamou Artur.

Então o dragão abriu os olhos e encarou uma vez mais o elfo que sequer desviou o olhar. O Dragão Negro soltou uma grande chama negra que emergiu da fenda na montanha e logo depois começou a descer, como sempre acontecia nos vulcões, o lar dos dragões quando eles acordavam.

Artur passou dificuldades com a lava do dragão que escorria da montanha, mas usando o seu escudo encantado forjado pelo próprio deus das forjas o elfo conseguiu se defender daquele golpe do dragão.

– Eu estou acordado Aquele-Que-Sobreviveu-Ao-Olhar-Do-Dragão-Negro. Sobreviveu também as minhas chamas?

– Sim, eu sobrevivi, e agora também sou Aquele-Que-Sobreviveu-As-Chamas-Do-Dragão-Negro!

– Aquele-Que-Sobreviveu-Ao-Olhar-Do-Dragão-Negro ou se preferir Aquele-Que-Sobreviveu-As-Chamas-Do-Dragão-Negro, agora tente sobreviver as minhas garras e presas!

E assim o Dragão Negro fez. Ele levantou-se ao céu, saindo de seu vulcão e lutou contra o elfo usando suas garras e presas, assim que viu que não era possível derrotar o elfo com aquilo disse:

– Muito bem, agora você também é Aquele-Que-Sobreviveu-As-Garras-E-Presas-Do-Dragão-Negro.

Com medo da morte o Dragão Negro sem saída evocou seus irmãos para a batalha. Ele chamou A Morte, uma criatura transfigurada ao longo da eternidade que carregava uma foice e um manto escuro e apenas existe para ceifar a vida. Chamou O Destruidor de Mundos, um monstro sem precedentes que se alimenta de homens para sobreviver. Também convocou O Senhor do Medo, um demônio que alimenta-se do medo que provoca. E por último chamou o seu irmão mais velho, o rei dos dragões, O Dragão Original.

Foi assim que a batalha teve inicio, a batalha que Artur estava destinado a travar, que se ele conseguisse a vitória livraria o mundo daquelas cinco criaturas infernais. Porém, antes que tivesse inicio, Artur Namahar sentiu algo que não sentia há muitos anos, ele sentiu medo. Ele já não tinha medo de sua vida, não tinha medo de perder o que ele tinha que era apenas itens mágicos que usava em suas aventuras e não teriam mais utilidade alguma caso estivesse morto, ele temia por falhar e não conseguir cumprir o seu destino, mas mesmo assim ele partiu para a batalha que foi conhecida como A Batalha das Batalhas.

E realmente foi uma sem igual. Durou nove dias e dez noites inteiras e sem um segundo de descanso para ambos os lados. O primeiro a cair foi O Destruidor de Mundos na terceira noite, o segundo foi A Morte que caiu no quinto dia. Depois O Senhor do Medo e o Dragão Original na nona noite. Mas o pior de todos fora o Dragão Negro que caiu apenas na décima noite. As últimas palavras do dragão foram:

– E agora você é Aquele-Que-Matou-Os-Cinco-Irmãos-Infernais.

– E agora você é Aquele-Que-Caiu-Por-Último-E-Na-Última-Noite-Na-Batalha-Das-Batalhas. – Disse Artur.

Assim que a batalha acabou, Artur imediatamente teve de voltar de volta ao Reino dos Elfos, pois era muito perigoso ficar um segundo a mais ali. Apenas quando já estava seguro em casa que finalmente pode descansar depois de meses a fio em sua aventura. E assim encerra-se a história de Artur.

***

Maxbal acordou suando. Estava até então dormindo na sala de sua casa, trouxe cobertores e um travesseiro para lá aquele dia, pois sua tia recebia a visita do namorado naquela noite e o quarto dele ficava ao lado do dela e era insuportável dormir com o rangido da cama da tia. Portanto veio para lá como já fazia a dois anos, desde que a tia começara a se relacionar com ele.

Maxbal já tinha dezesseis anos, mas ainda parecia ter catorze e quase quinze. Ele tinha o cabelo castanho claro e cortado curto, seus olhos eram negros como a noite e não havia um fiapo de barba ainda no seu rosto, o que talvez justificasse a idade que parecia ter. Ele não era muito alto, mas muito menos baixo, tinha a estatura comum um pouquinho mais alta, seu corpo tinha os músculos definidos, mas ele não chegava a ser musculoso, pelo ao menos ainda não.

Destampou-se no instante em que acordou e deixou a brisa da madrugada atingir seu corpo cheio de suor, foi um dia muito quente e a noite um pouco menos, mas era ainda ruim dormir entre as cobertas. Porém não era nada disso que passava em sua cabeça naquele instante. O seu sonho, a história de Artur, a mesma história que sua mãe lhe contara antes que o dragão chegasse à cidadela e começasse a destruí-la há seis anos.

Tentou não pensar naquilo. Vestiu uma bermuda e pegou sua espada que descansava ao lado de sua cama. No momento estava ligeiramente sem forças pela sonolência e a espada pesou um pouco mais do que costuma pesar, mas nem chegava ao peso que foi na primeira vez que Maxbal a usou, pouco tempo depois do ataque do dragão, chegara com a tia aquela vila em que vivia até hoje e na casa encontrou a espada, estava atirada na sala em que estava no momento, dentro da bainha com uma pedra de amolar ao seu lado, parecia que o destino dizia para o garoto começar a usa-la, para que treinasse para matar o dragão. Desde então, todos os dias, ao menos três horas e até mesmo chegando a seis, ele treinava. Enzo, o mercenário que namorava sua tia usava um grande martelo de guerra, mas não era estranho a espada, ele que tinha trinta e cinco anos e viveu desde a infância naquele ramo perdeu para ele uma vez. Já era quase a hora que ele iria para longe de casa, fizera há uma quinzena dezesseis anos e agora era já um homem.

Começou então a treinar.

Fazia os movimentos que lhe foram ensinados pela tia que sabia o básico da coisa, mas também fazia alguns que inventara ao longo do tempo. Executava curtas séries de dois a cinco movimentos, executava médias de cinco a dez e uma vez ou outra longas de até vinte movimentos sem dificuldades. Sabia que num combate real tudo seria diferente, mas deveria ser capaz de vencer qualquer outro espadachim de sua idade ou próxima, isso ele tinha plena certeza.

Fez uma hora daquilo sem se cansar mesmo estando ainda mais suado que antes. Então veio tudo a sua mente, tudo que não queria pensar, tudo aquilo veio de novo e ele não conseguiu impedir. Caiu de joelhos e largou à espada, lágrimas enchiam seus olhos, mas ele não permitia que escorressem. Abafou um palavrão por causa da tia que deveria estar dormindo agora, ele achava. As memórias do ataque do dragão ele reviveu vividamente e a história de Artur, aquela história era maldita, por algum motivo ele sempre se lembrava dela em seus sonhos antes de algo ruim acontecer com ele. Com doze anos sonhou com aquilo num cochilo rápido, acordou e logo depois quebrou o braço, com treze sonhou por duas noites seguidas com aquilo e no dia seguinte acabara sendo humilhado frente à garota que gostava. Mas naquela vez era diferente, quantas mais noites seguidas sonhasse com aquilo pior era, mas ele estava sonhando com aquilo por três meses seguidos daquela vez e ele sabia que em um ou dois dias a pior coisa que poderia acontecer com ele naquele momento aconteceria e por isso que acabou indo as lágrimas naquela madrugada como jurou nunca mais fazer.