A Sad Courtesan Story

2 The Rise of a Cherry Blossom


Notas iniciais
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A noite caiu serena enquanto Qiu se encolhia dentro da capa branca. Estava longe de conseguir dormir, o peso das estrelas sobre sua cabeça era demasiado forte.

Pode notar que o cavalo branco lutava para conseguir atravessar o campo gelado. Sentiu pena de Tai, mas também teve medo, para onde estaria levando ela?

A carruagem estremeceu com um solavanco e parou.

O empregado pervertido de seu pai desceu.

Antes de sumir totalmente pelas gramíneas altas, ele acenou com a cabeça para Qiu, esboçando um sorriso perverso que a fez recuar.

Tai entrou na carruagem e sentou ao seu lado. Ofereceu-lhe um pedaço de pão e um pouco de água.

– A senhora Qiu precisa comer.

A garota franziu as sobrancelhas.

– Senhora Qiu? Por que me chama de senhora agora? Não o usou desde que... Bem desde que...

Ela parou de falar, tentando conter algumas lágrimas em soluços simplórios.

– Não podia chamá-la de senhora na casa de seu pai, já que não é mais uma flor da casa Wan.

Qiu abaixou a cabeça.

Tai, com discrição pousou uma das mãos no ombro da garota e então a puxou para um abraço, deixando que sua cabeça pendesse em seu peito.

Qiu assustou-se, afinal, uma pobre garota rica era do que se podia chamar, sem carinho ou calor. Seu corpo era tão frio quanto as joias que costumava usar, ou agora, quanto o crisântemo maldito que carregava no bolso da capa.

Suspirou, então fechou os olhos, molhando o quimono de Tai com suas lágrimas geladas.

O céu ficou mais escuro e a paisagem mais fria. Qiu havia adormecido, mas quando acordou o sol já estava raiando, trazendo um pouco de calor e o cheiro de flores e frutas.

Observou o pão pular e ser jogado de um lado para o outro no chão da carruagem. Seu estômago estava roncando, mas comer algo naquele estado a faria vomitar.

Ela colocou a cabeça para fora da janela, respirando um delicioso ar perfumado. Tentou observar Tai guiando o cavalo, mas ele parecia muito distante.

Apenas quando a carruagem parou, Qiu colocou a cabeça para dentro e fingiu que nunca tinha o observado.

Tai abriu a porta, mas dessa vez, ele não estava sorrindo.

– O que houve?

– Senhora Qiu... – disse ele olhando para o chão – Entenda que isso é para o seu bem, eu não tenho outro lugar para te levar. Aqui é o único lugar que eu conheço para alguém como você.

– Alguém como eu?

Espiou por cima do ombro do homem e então enxergou uma grande placa. Era de madeira polida, e em enormes letras douradas, escritas em uma caligrafia feminina e arrastada estava escrito ‘’Pavilhão Qin Huai’’.

– Pavilhão? – repetiu ela – Pavilhão Qin Huai... Um prostíbulo? Você está me chamando de prostituta, Tai?

– Senhora! Não! De maneira alguma! – negou ele, desesperado – Me desculpe senhora Qiu, me desculpe...

Ela percebeu o belo perfume de flores vinha do pavilhão, junto com risadas distantes e música.

Visto do lado de fora, era um lugar muito agradável, ela não pode deixar de admirar sua beleza real, com um jardim vasto de orquídeas e jasmins, mas o que tinha em beleza tinha também em vulgaridade.

– Eu não posso fazer isso, Tai, eu não posso...

– Você tem que fazer senhora.

Dito isso, Tai pegou as duas mãos de Qiu e a guiou para a entrada do bordel. Ele as segurava com força, puxando-a pelos pulsos, já que esta se recusava a andar.

As portas do pavilhão estavam abertas, mas Tai aguardou até uma mulher vir falar com ele.

Estava usando um vestido sem alças cor de rosa e um quimono aberto de seda transparente por cima. Usava diversos adornos no cabelo e belos brincos de marfim.

– Pensei que nunca mais viria Tai! – disse dengosa, fazendo uma cara de triste.

– Eu não vim para isso Yan Yan.

– Seu... Seu... Você veio para ver ela, não é? A outra! – gritou, batendo de leve nos ombros de Tai.

– Yan Yan... – disse ele, cansado – Sabe que não tenho mais dinheiro para pagar você.

– Sim, e também sei que nunca me deu aqueles brincos de jade que me prometeu... Os da sua mãe.

– Yan Yan, prometemos qualquer coisa quando... Deixa para lá, eu quero que faça um favor para mim.

Ela começou a rir muito exageradamente, colocando o leque na frente do rosto.

– Um favor? Para você? Desde quando lhe devo favores?

– Faça pela Qiu.

– Qiu? Quem é Qiu? – perguntou ela, um pouco séria.

– Ela é a Qiu.

E então ele empurrou de leve a garota pela frente, deixando-a ser iluminada pela luz interior da bela construção.

Ele observou os olhos de Yan Yan brilharem.

– Tai... Onde encontrou essa joia pura? – perguntou, fascinada, passando as mãos pelo rosto de Qiu.

– Ela foi deserdada da casa Wan.

– Deserdada? E pelo o que?

Tai abriu a boca para falar, mas Qiu interveio, tirando as mãos de Yan Yan do seu rosto.

– Eu não sou mais pura, se é isso que quer saber.

E então o encanto no rosto de Yan Yan se desfez.

– Haha! Tolice a minha acreditar que um dia você nos traria algo como uma virgem, Tai. Foi você quem fez as honras? – continuou – Oh, esqueci de que não tem dinheiro... – disse, enfatizando a palavra dinheiro.

– Eu não sou uma prostituta! – gritou Qiu.

– Mas vai ser se continuar aqui.

Yan Yan então se virou para Tai, demonstrando certo cansaço.

– Tai, não precisamos de mais uma garota.

– Mas você estava interessada nela antes! – exclamou ele.

– Estaria se ela fosse uma virgem, mas como não é não estou mais.

E com isso ela sorriu, dobrando sutilmente as enormes mangas de seda, se preparando para sair.

– Yan Yan, espere! Imagine quantos virão para ver Qiu da casa Wan, imagine quanto lucro ela iria dar!

Qiu estremeceu sobre os braços de Tai. Não queria de jeito nenhum entrar naquele lugar, desejou que Yan Yan não o escutasse, mas infelizmente ela parou e virou-se para os dois com um sorriso.

– Muito bem, mas não irei pagar nada por ela, já que é um favor para você, querido Tai – disse, passando os dedos longos pelo queixo do homem.

– Obrigado Yan Yan.

Ele a saudou, rendendo alguns risinhos para ela, e então, entregou a mão de Qiu para Yan Yan, saindo sem se despedir.

A mulher pousou as duas mãos suavemente nos ombros de Qiu e observou Tai partir, até sua carruagem sumir em uma curva.

Qiu agora estava sozinha, sozinha em um mundo de mulheres.

– Não se preocupe você não está mais sozinha – disse Yan Yan com uma voz aveludada.

Tão fraca sentimentalmente, a garota foi guiada pela cortesã para dentro do pavilhão, onde o cheiro das flores e do vinho era bem mais forte.

Enquanto Yan Yan ia empurrando Qiu para dentro daquele mundo, desandava a falar sem parar:

– Sabe Qiu, mesmo que tenha sido uma Wan, não poderá usar esse nome aqui. Todas no pavilhão Qin Huai tem belos nomes e Qiu, se me permite dizer é muito... Enfim, — deu uma pausa, tomando fôlego para continuar – Aqui não é uma mera casa de prostitutas, vendemos nosso amor e beleza, além dos artigos de luxo que usamos, vestimos e da bela música e dança que sabemos executar, por que acha que os homens vem ao pavilhão Qin Huai? Para se sentirem amados...

Continuou guiando Qiu até uma grande porta de madeira, cuja fumaça perfumada saía de suas extremidades.

– Iremos falar com a mestra, e então depois, você pode ir se lavar, está um caco, sabe? – indagou Yan Yan, torcendo o nariz para a capa de Qiu.

A garota percebeu que entravam na casa de banho. O lugar usufruía de uma boa iluminação. Suas paredes eram brancas, com desenhos floridos e azuis, característicos das clássicas e delicadas porcelanas chinesas.

Por todo lugar, havia cortinas transparentes de passagem, feitas de seda, variando entre o azul e o branco.

Pelo chão estavam dispostas piscinas redondas e quadradas, dotadas de uma grande variedade de águas, como águas coloridas e perfumadas, com espuma ou com pétalas de flores.

Havia também tinas de madeira em algumas dependências mais elevadas do salão, onde moças nuas e solitárias tomavam seus banhos de perfume. Algumas cumprimentavam Yan Yan, não esquecendo também da novata.

Subiram algumas escadas e então entraram em uma sala bem decorada. Dragões e flores dançavam em ouro pelas paredes do lugar.

Em um divã de seda, descansava uma mulher com ar respeitável. Aparentava ser um pouco mais velha do que todas as garotas do pavilhão, embora também esbanjasse maior beleza.

Yan Yan fez uma sutil reverência ao entrar, dando um tapa grosseiro na nuca de Qiu indicando que fizesse o mesmo.

– O que me traz de novo, Yan Yan?

– Esta aqui não foi comprada. Tomei-a como um favor de um cliente meu.

– Um favor? – a mulher riu – Vê poder em si mesma, não é?

– Eu sou o poder, senhora – brincou Yan Yan, empurrando Qiu para perto da mestra.

A mulher se levantou, deixando-se ser iluminada pela luz da casa de banho, mostrando seu elegante vestido roxo.

– Você é muito bonita garota, dará muitos lucros para o pavilhão Qin Huai, sim?

Qiu não respondeu, deixou que Yan Yan confirmasse com a cabeça.

– Muito bem, vejamos um belo nome para você...

– Belo nome? – questionou Qiu – Eu já tenho um nome, eu me chamo Wa... – suspirou – Qiu.

– Qiu? – debochou – Como uma cortesã poderia ter um nome tão simples? Além do mais, um nome que você mesma escolheu não é valido.

– Minha mãe deu este nome para mim – disse Qiu, decidida.

– Sua mãe? – perguntou surpresa – Você é o que? Alguma nobre por acaso?

– Senhora, a garota realmente tinha um nome. Ela foi deserdada da casa Wan – disse Yan Yan.

E então, os olhos da mulher brilharam, assim como os de Yan Yan.

– Deserdada? De uma família rica? – ela suspirou – Aconteceu algo horrível com você, não é?

Yan Yan não entendeu muito bem, mas Qiu voltou o seu olhar para o chão. Não havia mais o que chorar, visto que não teria sucesso em escapar daquela situação.

– Não se preocupe garota, iremos arrumar um belo nome para você. Aqui você florescerá novamente... Não como uma Wan, mas como uma cortesã.

Com o afável toque de mão, Lin, a mestra, trouxe Qiu para perto de si, delineando o rosto da jovem com seus dedos longos.

– Você é tão delicada quanto uma flor de cerejeira... Talvez seu nome deva ser Yu Mai.

Os olhos de Qiu, ou melhor, de Yu Mai se encheram de água. Algumas lágrimas molharam seu rosto.

Lin sorriu, e com um gesto de mão, pediu para que esperassem. Sumiu alguns minutos pelo aposento rico e voltou com um belo vestido de seda lilás, com estampas douradas de cerejeiras e lírios.

– Deverá vesti-lo na próxima noite.

Yan Yan assentiu, entregando o vestido cuidadosamente dobrado aos braços de Mai, a empurrando para saída.

Ela estava boquiaberta com o vestido enquanto descia as escadas cor de marfim.

– É difícil ela presentear alguém? – perguntou a garota, apreensiva.

– A mestra? Muito, principalmente quando se trata de novatas. Mas, Mai – disse Yan Yan de maneira devagar – Isso está longe de ser um presente... Tsc, um vestido caro como esse, terá que trabalhar o dobro para pagá-lo.

– Pagar? A ela?

– Sem mais perguntas Mai, dê-me isso aqui e me espere, volto em pouco tempo.

Relutou se podia confiar o vestido para aquela mera prostituta, mas afinal, Yan Yan não parecia ser uma pessoa tão má, por hora. Entregou-o para a mulher e esperou tímida, ao pé da escola, enrubescendo ao ver como as mulheres andavam nuas e sem pudor por entre as piscinas.

Não deixou de sentir uma pontada de inveja, ao ver que o corpo das prostitutas eram tão mais bonitos e bem cuidados do que o seu. Afinal, por que alguém iria querer passar uma noite com ela, quando teria a disposição cortesãs mais bonitas e bem treinadas? Suspirou, com medo e vergonha de suas imperfeições.

Quando sua apreensão estava prestes a se transformar em lágrimas, Yan Yan tocou-lhe o pescoço, fazendo Mai voltar ao mundo real.

– Por favor, Mai, tire essas coisas.

– Essas coisas? Minhas roupas? – assustou-se a garota – Na frente de todas essas mulheres?

Yan Yan suspirou.

– Não me diga que é uma dessas garotas sem graça. Está vendo alguém com vergonha aqui? Não tenha medo, nós não iremos morder o seu corpo, bobinha – disse, rindo.

– Não quero tirá-las!

A expressão da mulher ficou séria.

– Oras Mai! Você não pode tomar banho de roupas!

– Quem disse que eu quero tomar banho? Eu não queria estar aqui para começar.

– Mas já que está, vai tirar as roupas, ou vou jogar você dentro de uma dessas piscinas. Acha que pode ser uma cortesã com medo de mostrar o corpo? É como querer ser um pescador com medo da água!

– Eu não quero ser uma cortesã e muito menos pescadora!

Yan Yan suspirou novamente, e após alguns segundos em silêncio, usou de sua força para tirar as roupas de Mai.

A garota tentou lutar, mas a cortesã era maior e mais forte que ela, perdendo a pequena disputa, caiu sentada no chão, com o quimono na altura da cintura. O crisântemo de prata voou para os pés de Yan Yan.

– OOOH! O que tem no bolso Mai? Isso é seu? – perguntou fascinada, apanhando o crisântemo e o analisando.

Derrotada, ela assentiu com a cabeça.

– Uau, vocês ricos sabem mesmo como gastar dinheiro... Será que posso ficar com ele? – indagou, visualizando mentalmente o enfeite em seus cabelos.

Mai não respondeu.

Yan Yan olhou para a garota, e então percebeu que deveria a enxergar com compaixão, pois o medo e a tristeza gritavam em seus olhos.

A mulher sorriu sutilmente, então o guardou no bolso.

– Poderá tomá-lo depois do banho. Levante-se.

Yu Mai levantou-se, então Yan Yan ajudou-a a retirar o resto das roupas, as dobrando gentilmente e colocando-as em cima de um banco de madeira.

– Venha comigo.

Acompanhou-a, enrubescida como um pimentão. Os braços tão fortemente cruzados na altura dos seios começaram a doer.

Yan Yan guiou-a até uma tina vazia. Indicou em silêncio para que sentasse em um dos bancos e Mai o fez. Observou a mulher preparar o seu banho cuidadosamente.

Apanhou um jarro de porcelana com água quente, encheu-o de água e o despejou na tina sucessivas vezes até ela ficar suficientemente cheia para comportar Mai. Então, despejou um jarro com óleo perfumado, algumas pétalas de flores e uma substância que fez a água espumar.

– Entre Mai, irei te ajudar.

A garota entrou em silêncio na banheira. Abraçou as pernas e apoiou sua cabeça nos joelhos. Curtiu a sensação da água quente tirando suas impurezas, eram como águas mágicas, que tornavam sua alma pura, para tornarem-se devassas mais tarde.

Yan Yan ajudou esfregando suas costas e escovando seus longos cabelos molhados. Limpou também o seu rosto com um pano molhado e depois, ajudou-a a se secar. Vestiu Mai com um quimono chinês simples, apenas para aquecer e comportar despojadamente o seu corpo até a hora do trabalho.

– Então Mai, você deve estar com fome, estou errada?
– Não estou com vontade de comer.

– Mas precisa, é possível que não tenha notado, mas a mestra está apostando alto em você. Estará muito mais garantida se começar a trabalhar hoje. Acha que Lin sente pena? Existem garotas com histórias muito piores nesse lugar. Então, você vai comer e hoje a noite irá começar a trabalhar – proferiu Yan Yan, decidida.

– Você não entende não é Yan Yan? O quão difícil é para eu aceitar isso.

– Não Mai, você é que não entende. Acha que o mundo é gentil com a gente? Somos mulheres, e isso não é uma coisa fácil – disse ela, suspirando – Acha que eu nasci no pavilhão? Eu era a filha mais velha da minha família, mas meus pais não podiam alimentar a mim e ao meu irmão, e então, quem você acha que eles escolheram? É claro que me venderam como uma mercadoria para esse lugar, quando eu tinha apenas 10 anos – terminou, com os olhos cheios de lágrimas.

Mai olhou para o chão, envergonhada. Não pediria desculpas, mas, naquele momento entendeu que não era a única, afinal, Yan Yan tinha mesmo razão. Ela não estava sozinha.

– Muito bem, no caminho para o seu lugar de descanso, tem várias coisas que você precisa conhecer – disse a cortesã recuperando seu ar animado – Vamos andando!

Mai seguiu-a a passos rápidos.

Saindo da casa de banho, passaram pelo elegante e grande saguão de entrada e entraram em um pequeno corredor que dava apenas para uma enorme sala.

Este lugar era composto de pinturas de cortesãs dançando e servindo chá, o que combinava com as mesas e almofadas de seda dispostas por todo o lugar.

– Aqui é a casa de chá – introduziu Yan Yan, convidando Mai para entrar – Onde servimos chá, comida e vinho para os clientes. A maioria dos homens que vem aqui preferem um tipo de entrada antes do ato, pois como eu havia lhe dito antes, não vendemos só sexo, vendemos nossas habilidades.

Mai ouvia tudo atentamente, enquanto aproveitava os detalhes artísticos da sala.

– Você precisa conhecer o seu cliente, sabe? Quando alguém lhe solicita, você precisa descobrir que tipo de mulher ele gosta, então você se adéqua ao padrão dele, o traz para cá e serve comida e bebida enquanto conta piadas, o distrai com conversas e amacia o ego dele – deu uma pausa e então continuou – Quando conheci Tai, percebi que ele gostava de mulheres dengosas e de voz fina, por isso que ajo daquele jeito quando estou com ele, mas, uma coisa que você precisa entender Mai, é que uma cortesã possui várias faces.

A garota assentiu com a cabeça, imaginando o quão nojento seria interpretar uma garota dengosa, porém, guardou a língua dentro da boca para evitar mais repreensões, e então seguiu Yan Yan para o próximo aposento.

A sala seguinte era um espaço um pouco escuro, parecido com um acervo, mas ainda sim conservava sua beleza, principalmente pelos diversos instrumentos musicais dispostos ali.

– Este aqui é o acervo de instrumentos Mai – apresentou Yan Yan.

– Temos uma casa de música, ou coisa assim? – perguntou curiosa.

– É claro que não! Imagina a bagunça que seria com várias cortesãs tocando músicas diferentes na mesma sala... Como você é boba! – disse ela, rindo – Se o seu cliente deseja se distrair com música, deve ir para o quarto e tocar para ele, a mesma coisa com a dança, a não ser que seja uma apresentação pública, deverá dançar somente para ele.

– Tudo bem, entendi.

– Bom, ainda há tempo para eu te ensinar a tocar algum instrumento simples. Não se preocupe, se um cliente solicitar sua música, direi que ainda não está pronta e que peça outros serviços.

– Eu sei tocar.

Yan Yan se surpreendeu.

– Sabe? E o que é que você toca?

– Pipa, eu toco pipa.

A cortesã sorriu, demonstrando incredulidade.

– Tudo bem, pegue uma e me delicie com sua graciosa melodia, deusa da pipa – brincou Yan Yan.

Yu Mai entrou trêmula no acervo de instrumentos. Costumava tocar com naturalidade em sua casa, mas sob a pressão de Yan Yan, não tinha tanta certeza da qualidade de suas habilidades.

Apanhou a pipa e sentou-se em uma banqueta. Fechou os olhos e tentou lembrar-se da última música que tocara. Havia se apresentado para todos os convidados de seu pai em uma festa que ele havia dado em sua antiga casa. A música era uma melodia folclórica e se chamava ‘’Rio Vermelho’’.

Yu Mai voltou àquela noite, quando ainda era uma flor, quando seu nome era Wan Qiu. E então, quando terminou de tocar, viu o rio vermelho correr rápido dentro dos olhos maravilhados de Yan Yan.

Ela começou a rir e bater palmas exageradamente altas.

– Não é que ela tinha razão? Ela tinha razão!

– Quem? – perguntou Mai.

– A mestra, Lin. Ela tem toda a razão de acreditar em você Yu Mai! Você toca melhor do que muitas garotas por aqui!

– Mas eu pensei que cada garota do pavilhão tivesse um talento em especial...

– Nem sempre – cortou Yan Yan – Algumas aqui só servem para roubar enfeites, roubar clientes e fazer sexo.

O rosto de Yu Mai enrubesceu novamente, o que fez Yan Yan revirar os olhos e mudar de assunto.

– Venha! Agora, só sobraram dois lugares para você conhecer – disse Yan Yan.

Mai a seguiu para um novo andar, subindo alguns lances de escadas para o que parecia o maior e mais amplo piso do pavilhão.

Era um pouco maior que o saguão principal, era mais decorado e colorido, conservava uma aparência mais rica e várias portas em grande número.

– Aqui, é onde atendemos os clientes. Cada porta dessas é um quarto, em sua maioria são todos iguais, por hora, não vamos visitar todos, mas chegará um momento em que já terá visitado todos os quartos do pavilhão, não se preocupe quanto a isso.

– Tudo bem.

– Vamos entrar em um para você conhecer.

Yan Yan então abriu a porta mais próxima, revelando um quarto aconchegante e sedutor. Perfumado e delicado.

O aposento era quadrado. Por todas as extremidades do quarto haviam várias almofadas de seda azuis e roxas.

Um tapete de veludo muito grande, no qual havia uma poesia escrita, ocupava metade do chão, combinando com as paredes cuja estampa também era de veludo e cetim, contando uma antiga lenda chinesa sobre raposas encantadas.

No centro do quarto havia um tipo peculiar de cama. Era como se fosse uma casinha de dormir, construída de madeira, com desenhos dourados e escrituras de boa sorte, trazendo em seu interior um arranjo aconchegante de almofadas, e muitos lençóis decorados.

– Atendemos aqui? – perguntou Mai boquiaberta.

– Sim. Os quartos contêm pequenas diferenças entre eles, como eu já havia dito antes. Agora, vamos para os nossos quartos de dormir, antes que você desmaie de fome.

Mai novamente seguiu os passos rápidos de Yan Yan, massageando a região do estômago.

Saíram pelo pavilhão e seguiram por uma elegante ponte suspensa, que passava por um pequeno lago em um dos mais bonitos jardins que Mai já vira.

Chegaram também em outra extensão do pavilhão, esta que, estava muito mais movimentada do que o Qin Huai em si. Era também menos decorada, porém, o capricho e vaidade das cortesãs não deixava a construção perecer em beleza, decorando-a com dobraduras, lanternas coloridas e grandes tiras de seda colorida.

Subiram as escadas, Mai cumprimentando pessoas que não conhecia.

Chegaram então a um lugar do tamanho do saguão principal, cheio de pequenas camas baixas, quase rentes ao chão, preenchidas por almofadas e lençóis simples. Na frente destas havia baús, eram bem diferentes, variavam de cor, tamanho e material de feitura. Alguns estavam trancados, outros amarrados com cordas e algumas camas nem tinham esse tipo de luxo.

Yan Yan sorriu.

– Terá o seu baú quando receber presentes o suficiente de seus clientes, mas, com esse seu crisântemo de prata já da para comprar uns três! Grandes, de um bom material e com uma tranca eficiente – disse sonhadora.

– Não vou usá-lo para isso. Até lá, onde devo guardar minhas roupas?

– Pode usar meu baú. Não é confiável deixar seus vestidos e enfeites largados por aí, sabe? Tem muita gente invejosa no pavilhão Qin Huai.

– Certo.

Enquanto conversavam, a cortesã guiou a garota para a cama dela, onde do lado havia várias camas vazias.

Ela abriu seu baú e de lá tirou uma elegante caixa de madeira.

– Eu guardo algumas guloseimas aqui, já que no pavilhão só podemos comer nas horas certas. A hora de comer hoje irá demorar, então, coma um pouco destes.

Yan Yan abriu sua caixa de madeira vermelha, onde estavam dispostos elegantes docinhos coloridos, junto com alguns salgados chineses, de verdura ou peixe.

– Como mantém comida nessa caixa? Como não estraga? – perguntou Mai apreensiva.

– Um cliente me deu essa caixa e me presenteou com guloseimas...

– Ele te pagou com comida? – indagou incrédula.

– Mas é claro que não! – disse Yan Yan ofendida – Isso foi apenas um presente. De qualquer jeito, ele me ensinou uma curiosa mistura de ervas da terra dele muito usada para conservar doces e carnes. Ficam em perfeito estado por três dias.

Mai continuou olhando insegura para as comidas dentro da caixa.

– Pode comer! É seguro. Eu prometo – disse, fechando os olhos e piscando de maneira divertida para Mai.

Pela primeira vez a garota esboçou um sorriso desde aquela noite, cujo único desejo era esquecer.

Apanhou sem medo alguns lanches de vegetais e um docinho amarelo.

– Isso deve bastar – falou, satisfeita.

– Bom, Yan Yan – começou Yu Mai – Eu posso dormir? Estou um pouco cansada...

– Dormir? Cansada? Nada disso, preciso ensinar a você os truques e a arte da maquiagem. Irei ensinar você a se arrumar.

– Eu sei me arrumar!

A mulher riu, então disse:

– As garotas da nobreza não se vestem como nós Mai. Elas se vestem para serem recatadas e delicadas, já nós... Nós minha cara, nos arrumamos para sermos verdadeiros pilares da beleza, verdadeiras flores no rio Qin Huai.

Yu Mai deu de ombros, pronta para se largar na cama baixa, porém foi segurada pelo colarinho do quimono por Yan Yan, que a arrastou até o seu baú.

– Até a noite irei te transformar em uma verdadeira cortesã, Yu Mai. Essa noite, você irá florescer. Esqueça as flores do jardim Wan! Hoje você se tornará uma flor à beira do rio Qin Huai.

Yu Mai crispou os lábios, sentindo alguns arrepios percorrerem sua nuca, porém sabia, que depois daquela noite teria que esquecer seu nome. Wan Qiu não faria mais parte da pessoa que se tornaria, pois, como se lembrava com tristeza das palavras de seu pai, a família Wan não era uma família de prostitutas.