A Sacerdotisa
1 Capítulo 1 - Novo pupilo
Notas iniciais
Você nunca mais verá a luz do sol!
Não pense que me esqueci de você, jovenzinha.
Apenas um amor antigo, que realmente se arrependeu de seus atos, poderá quebrar sua maldição, até lá, aproveite a escuridão.
Apenas aquelas frases ecoavam em sua mente, enquanto em seu coração as lembranças passavam como um flash-back de um filme antigo. Thabitha nunca esquecera a última vez que viu algo, lembrava-se vagamente do verde das árvores, do colorido das flores, das inúmeras belezas da natureza e da vida. Era uma pena que havia perdido sua visão ainda tão jovem, tinha tantas coisas que ainda desejava ver, mas agora estava impossibilitada e restrita a enxergar somente pelos olhos de outro alguém, em algumas ocasiões.
Contudo com a perda do sentido outros fatores se aprimoraram com o passar dos anos, como por exemplo, sua sabedoria e compreensão. Além dos outros sentidos terem ficado mais aguçados como o tato e a audição, algumas vezes chegava a se comparar com uma raposa ou até mesmo um lobo selvagem, que conseguia escutar algo a metros de distância, ao contrário dos humanos que não possuíam tamanha habilidade. Inicialmente ficava assustada e completamente horrorizada vendo apenas a escuridão, mas agora sentia-se extramente confortável, afinal podia saber o que cada um era por dentro sem julgar sua aparência.
Tomando uma profunda respiração formou um ligeiro sorriso ao sentir uma brisa fria passar por si, carregando consigo risadas de crianças e conversas banais de reles adultos preocupados demais com a vida ao redor, estava acostumada a ouvir tais coisas. Suspirou baixo ignorando os sons que o vento havia trago, Thabitha se ergueu com a ajuda de seu cajado dourado, este não era muito maior que ela, talvez tivesse a altura de homem adulto de porte atlético, entretanto mesmo sendo grande, o objeto nunca a incomodou de fato. Sentia-se bem o segurando, o usava para se guiar e também para lutar, além de gostar de imaginar o que havia no topo deste.
Devido ao movimento, seu fiel amigo de longas datas bocejou, acordando do cochilo que havia tirado aos seus pés descalços.
— Vamos Kurama! — chamou já iniciando a caminhada. — Larga de ser preguiçoso seu tigre branco, temos muito o que fazer.
O felino se espreguiçou enquanto bocejava mostrando suas poderosas presas, diferente de muitos tigres de sua espécie, Kurama não tinha listras em sua pelagem e sim linhas curvas que poderiam ser facilmente confundidas com listras, caso não olhasse de perto. Thabitha o tinha encontrado ainda filhote, completamente ferido e sozinho, gentilmente ela o carregou para casa e cuidou de seus machucados, agora os dois andavam lado a lado com um laço de amizade tão forte que somente a jovem entendia o que falava.
Na mesma floresta algumas árvores mexiam seus galhos ajudando Fenryll, uma mestiça de elfo com vampiro, a fugir mais depressa do pequeno grupo furioso de elfos, entretanto ela apenas sorria como uma criança arteira sem se incomodar com a perseguição. Estava acostumada e agora que havia recebido um treinamento melhor poderia muito bem colocar um fim naquelas malditas perseguições, qual o problema de ser mestiço? Não estava manchando o nome de ninguém, apenas era o fruto de um amor verdadeiro, que mal havia nisto?
Entretanto, sabia que todos no vilarejo a olhavam com desprezo e nojo, durante quase toda sua infância seus amigos se resumiam nas árvores da floresta, seus primos sempre foram um pouco mais velhos sempre se esforçando para lhe dar atenção, muitas vezes não conseguiam e como seu pai na época tinha saído em busca de seu irmão mais velho, só lhe restava brincar na floresta e fazer amizades com os animais. Por isso sempre fora tachada como estranha e muitas das vezes recebia pedradas das crianças mais velhas, lembrava-se bem das vezes que corria chorando para os braços de sua mãe.
Mas agora havia crescido e não se abalava mais com as provocações, apenas erguia a cabeça e seguia em frente, sem olhar para trás. Era isso que deveria fazer sempre, mesmo que fosse doloroso e difícil precisava se erguer para conquistar a felicidade. Ainda mais agora que pretendia construir uma família ao lado de seu amado.
Fenryll correu por mais alguns metros até avistar uma pequena clareira, deixou uma breve risada escapar antes de apressar o passo alcançando o terreno aberto. Aquela altura o grupo de elfos já teria se perdido na floresta, deixando-a em paz, estava completamente acostumada com aquelas perseguições, sempre conseguia despista-los, mas desta vez ela não notou que outro grupo se aproximava por trás. Quando percebeu, eles já estavam quase em cima de si, contudo não iria dar-se por vencida tão facilmente.
— Podem vir — chamou erguendo os punhos. Estava desarmada, mas ainda poderia usar sua boa e velha força física, além de ter uns truques mágicos na manga, sorriu com o canto dos lábios quando uma fumaça azulada envolveu seus punhos. Estava pronta para briga. — Não vou cair sem lutar.
Conforme eles se aproximavam, mais a mestiça notava que não teria tantas chances como pensava, mesmo com seus poderes provavelmente seria facilmente abatida pelos dois grupos que a fechavam na clareira. A floresta até tentava ajudá-la, mas aparentemente era em vão, já que o grupo pequeno se transformava em um grande.
Era melhor pedir ajuda e rápido! Recuando alguns passos concentrou-se na imagem de Mohaylin, o deus dos juramentos e das criaturas mágicas, sendo também seu marido. Já tinha alguns anos desde que se conheceram, recordava-se do deus segurando-a no colo antes de carregá-la para casa para que cuidasse de seus ferimentos.
Mohaylin? Preciso de ajuda, agora! Pensou antes de olhar em volta, vendo-se encurralada pelos elfos, os quais tinham semblantes irritados. Seria tão difícil assim poder viver em paz? Contudo, antes que qualquer um fizesse algum movimento em sua direção, Fenryll sentiu-se sendo puxada para o colo por um par de braços fortes, virou o olhar para seu salvador abrindo um largo sorriso.
— Você está bem, Fen? — Mohaylin a olhava preocupado, como se procurasse algum arranhão, mesmo sendo um deus, ele ainda se preocupava imensamente com sua amada mestiça, a qual acenou com a cabeça em resposta recebendo um sorriso seguido de um rápido beijo na ponta de seu nariz, sorriu com o ato antes de abraçá-lo pelo pescoço deitando sua cabeça no ombro do deus loiro. A divindade não usava sua forma divina e por isso se assemelhava mais a um humano comum, a tirar pelos cabelos loiros tão claros que mais pareciam ouro recém-lapidado e também pelos olhos azuis claros brilhantes como se tivessem sido banhados em prata, tirando estes meros detalhes. Ele parecia mais um humano do que uma divindade. — Então quem é o primeiro a morrer?
Antes que qualquer um avançasse uma voz firme soou:
— Parem!
Trocou um olhar com o deus, na esperança de que soubesse quem havia gritado, porém ele negou com a cabeça, tão confuso quanto ela. Voltou seu olhar para os elfos ficando ainda mais perdida ao vê-los baixando as armas, mesmo resmungando enquanto abriam caminho para uma moça, até então desconhecida para a mestiça, a qual a observava, curiosa e desconfiada.
Trajando uma espécie de kimono japonês e carregando um cajado dourado, a misteriosa moça possuía o cabelo de um tom mais claro de castanho enquanto era preso num simples rabo de cavalo, também era baixa já que o tigre branco ao seu lado alcançava facilmente sua cintura, mas o que mais chamava atenção para seus olhos esbranquiçados – talvez fosse cega já que aquilo não parecia ser natural — eram as diversas sardas espalhadas por suas bochechas. Ela possuía uma aparência bonita, mas não podia se deixar levar pela aparência, não podia confiar em ninguém respeitado pelos elfos, afinal eles quem haviam rejeitado seu irmão mais velho anos antes, entretanto a moça não parecia fazer parte do grupo, apenas era respeitada por eles, aquilo a deixava curiosa e ao mesmo tempo desconfiada.
Ela sorriu carinhosamente para o casal antes de se virar para os grupos.
— Sumam daqui, não tem nada para ver. — Bastava a desconhecida ser misteriosa, os elfos abaixaram totalmente as armas se afastando por completo. Logo só os três estavam na clareira. — É a primeira vez que vejo uma mestiça de vampiro com elfo.
Fenryll se surpreendeu com aquilo, ela enxergava? Como? Como ela conseguia? Seria alguma magia poderosa? Estava prestes a perguntar algo quando a voz da divindade soou, num sussurro distante carregado pelo vento:
— Thabita...
Ele se lembrava bem do dia que a vira pela primeira vez, na época ainda não havia tirado “férias” e vivia no mundo dos deuses junto de seus amigos, naquele dia o deus tinha se juntado com a entidade do destino para assistir a moça sendo amaldiçoada, tinha sido uma treta e tanto, mas não imaginava que iria revê-la após aquilo ainda mais como sacerdotisa.
Thabitha estranhou ao ouvir o homem falar seu nome tombando a cabeça para o lado, a sacerdotisa tentou puxar pela memória se o conhecida de algum lugar, mas não se recordava dele em momento algum. Como ele sabia seu nome?
— Como sabe meu nome?
Mohaylin balançou levemente a cabeça ajeitando à mestiça nos braços, esta permanecia calada observando tudo com atenção.
— Não é nada, falei por impulso. — Inventou. Ela não podia saber sobre seu segredo, a única exceção era sua esposa e Rosália, fora isso mais ninguém daquele mundo saberia. Por alguns instantes achou que ela fosse questionar, mas a sacerdotisa sorriu e coçou, gentilmente, a cabeça do enorme felino o qual ronronou amando o carinho.
— Preciso que venham comigo. Explicarei quando chegarmos. — Sem dizer mais nada Thabitha virou-se novamente para a floresta, sendo acompanhada do felino, como sempre.
O que estava acontecendo? Teria outra guerra se aproximando? Eles corriam perigo? Assustada com as possibilidades, Fenryll abraçou o amado mais forte. Eles seriam separados após tantos anos?
— Eu estou com medo, Mohaylin. — Sussurrou sentindo os olhos marejarem. Não queria separar-se do amado, nunca. O que seria de si sem ele? Antes conseguiria se imaginar sem ninguém, mas agora não conseguia sequer cogitar a ideia. O amava tanto que não enxergava sua vida sem seu amado. A divindade sentiu o peito afundar quando notou as lágrimas se formando nos belíssimos olhos acinzentados dela, odiava quando estes brilhavam em medo.
— Fen, não precisa ter medo. Tudo está bem e tudo vai ficar bem. — Sorriu ele antes de colar as testas. — Prometi no dia do nosso casamento que nunca a deixaria, que sempre estaria ao seu lado, quer você querendo ou não, sempre seguraria sua mão e diria um eu te amo sussurrado para a única pessoa que merece ouvir isso. — Tais palavras fizeram um sorriso brotar nos lábios da mestiça, sendo seguido por uma vermelhidão nas maçãs de seu rosto.
— Tudo bem, confio em você. — Ela o beijou rapidamente antes de voltar a aninhar-se em seus braços. — Agora é melhor irmos, sinto como se devêssemos ir.
Mohaylin acenou com a cabeça em concordância e logo estava atrás da sacerdotisa, estava curioso para saber o que ela tinha em mente. Estava vivendo naquele vilarejo fazia muitos anos e nunca tinha visto a e muito menos ouviu rumores sobre uma sacerdotisa cega.
O que será que aconteceu? Pensou enquanto a seguia, em total silêncio. Torcia somente pela segurança de sua amada.
Seguiram floresta adentro por uma trilha desconhecida. Nada era familiar nem mesmo para a divindade, era a primeira vez que passava por lá. A mata era mais fechada, quase não se via o sol graças às copas altíssimas das árvores, o som dos pássaros era mais nítido naquela trilha, o clima parecia mais frio também, além de úmido. A mestiça conseguia ouvir os murmúrios das árvores entre si, umas diziam que a sacerdotisa estava diferente, outras que Mohaylin se parecia com o deus das criaturas mágicas, com estes ela precisou conter um risinho chamando a atenção do marido.
— O que foi Fen? — perguntou curioso.
— Nada. — Ela sorria divertida. — Algumas árvores acham que você parece com o deus das criaturas mágicas. — Um risinho escapou por seus lábios. Era quase impossível não rir, principalmente depois que se descobria que ele não tinha só a aparência era, na verdade, o próprio deus. O sorriso abobado logo surgia na face da divindade conforme a mestiça em seus braços ria, amava ouvi-la rir, cada risada de Fenryll fazia seu coração aquecer-se ainda mais, jamais tinha se imaginado amando alguém como ela.
Uma mestiça de raças que viviam em conflito. Vampiros e elfos. Nunca haviam se dado bem, era comum vê-los guerreando fosse por território fosse por que já era natural de ambos, não se recordava ao certo quando o conflito começara e nem iria se preocupar com isto, apenas queria a felicidade de sua amada e nada, além disso. Por este motivo roubou um ligeiro beijo dela fazendo-a corar e resmungar, antes de esconder o rosto em seu ombro, conseguindo uma risada do marido.
Thabitha sorria ao ouvir as trocas de caricias do casal atrás de si. Mesmo não podendo vê-los era possível sentir o amor que tinham um pelo outro, um sentimento puro e verdadeiro que venceria o mais poderoso dos feitiços. Ela não pode deixar de sorrir levemente, sentia-se triste por ainda não enxergar, mas estava feliz por ter alguém que a amava esperando-a em casa com um Rote Grütze*, somente ao lembrar-se do gosto sentiu a boca encher-se d’água. Kuma sempre soubera cozinhar bem.
Balançando a cabeça levemente afastou os pensamentos. Não era hora de pensar naquelas coisas, precisava chegar logo ao destino.
Caminharam por mais algum tempo até finalmente chegarem numa igreja. Fenryll se surpreendeu ao ver a construção em perfeito estado, a julgar pela aparência o prédio deveria ter em torno de 500 anos já que a técnica usada em sua arquitetura era o enxaimel, que consistia em paredes montadas com hastes de madeira encaixadas entre si em posições horizontais, cujos espaços eram preenchidos por pedras. Os tirantes de madeira davam estilo e beleza à construção, produzindo um caráter estético privilegiado.
A sacerdotisa sorriu levemente ao notá-los impressionados e confusos, virando-o corpo na direção do casal ainda sem desmanchar o sorriso. Não podia estragar tudo com aquele momento, precisava ser clara e gentil para não assustar a mestiça, precisava dela com urgência.
— Esta é a igreja foi erguida em homenagem à Allura, uma antiga sacerdotisa destas terras, minha antiga mestra. — Thabitha precisou esconder a amargura em sua voz, fazia milhares de anos que tinha sido acolhida pela antiga sacerdotisa, tinha acabado de perder a visão na época além de estar desamparada. Por muitas vezes Allura havia sido como uma mãe para ela, até o dia em que tudo acabou. Algumas vezes podia sentir a vida da sacerdotisa escapando de seus dedos, sem que ela pudesse fazer nada além de chorar e assumir o posto somente com Kurama ao seu lado. Tinham sido tempos difíceis aqueles.
Fenryll franziu o cenho, estava confusa quanto toda àquela história, conhecia bem a floresta e nunca, na vida, tinha ouvido alguma árvore ou animal comentar sobre existir sacerdotisas naquelas terras. Então como era possível? Descendo do marido a mestiça deu um passo à frente, causando um ligeiro sorriso nos lábios da morena.
— Desde quando existem sacerdotisas por aqui? Vivi minha vida toda aqui e nunca, sequer, ouvi algum comentário sobre você, por que nos trouxe aqui? — perguntou ela. Fechou os punhos com força e fez estes emanarem uma fumaça azulada, a mesma de antes, mas agora parecia mais forte.
Thabitha suspirou baixo. Não tinha mais como fazer mistério. Precisava contar.
— Eu posso contar lá dentro, mas poderia entrar sozinha comigo? — Sugeriu, imaginava que o homem que pronunciara seu nome não iria aceitar muito bem, mas precisava tentar. — Não vou lhe fazer nada, ainda mais sou cega. — Garantiu passando a mão espalmada na frente de seu rosto, tudo o que via era escuridão. Apenas sentia as vibrações da mesma forma que Allura a ensinou.
A mestiça ponderou meio insegura quanto à proposta, não sabia o que a aguardava no lugar, talvez uma armadilha preparada por outro alguém? Não seria possível ou seria? Balançando levemente a cabeça voltou seu olhar para o marido, em busca de alguma orientação.
— Pode ir, eu espero aqui. Vai lá Fen. — Ele gesticulou com a mão indicando que ela poderia entrar, conseguindo uma cara emburrada da amada a qual resmungou baixinho antes de virar-se, novamente, para a sacerdotisa dando um aceno de cabeça enquanto desfazia sua magia.
— Tudo bem então, eu entro sozinha com você — disse conseguindo um sorriso de Thabitha, um sorriso repleto de esperança e alegria. Aquilo deixou à confusa, o que ela teria de tão especial? Seria a salvadora de algo? Talvez fosse quem quebrasse a maldição que recaia sobre a sacerdotisa? Agora que estavam perto da igreja podia notar uma aura escura cobrindo os olhos da morena, escondendo sua cor original do mundo e deixando-a cega, mas ao que parecia somente ela conseguia ver a tal aura escura.
Estava prestes a perguntar sobre este detalhe quando a moça virou-se caminhando para a igreja, o tigre branco ainda a acompanhava e parecia guiá-la também, como um grande e fiel amigo. Fenryll olhou rapidamente para a divindade que apenas sorriu dando um aceno de cabeça, como se a encorajasse a continuar com aquela pequena aventura. Um leve sorriso cruzou seus lábios com este gesto de confiança, Mohaylin continuaria com sua promessa.
— Vamos, tenho muito que explicar! — A sacerdotisa chamou, já no interior da igreja, despertando-a dos pensamentos. A mestiça se apressou em correr até lá, diminuindo o passo em respeito ao espírito de Allura.
Assim que cruzou as portas da construção seus olhos brilharam e um largo sorriso surgiu em seu rosto. A igreja continuava de pé por dentro, todas as janelas possuíam um vitral que contavam uma história diferente, não mostravam deuses e sim reis ou rainhas que marcaram a história do mundo mágico, um tapete vermelho se estendia da entrada até o pequeno palanque de concreto onde o altar deveria ficar, era uma estatua de uma moça que ocupava seu lugar.
Enquanto andava até a sacerdotisa que se encontrava nos pés da estatua, a mestiça admirava cada vitral, reconhecia alguns rostos e desconhecia outros, só havia um que mostrava mais de uma pessoa, este se encontrava bem na última janela da parede esquerda, mostrava uma moça jovem com os cabelos loiros, semelhantes aos de seu amado, de mãos dadas com um híbrido raposa com cabelos brancos e mais alto que ela, os dois sorriam um para o outro enquanto uma tempestade se dissipava acima de suas cabeças. Era um dos vitrais mais lindos que já tinha visto em toda sua vida.
— Eles são lindos, não são? — A pergunta a despertou de seus pensamentos, voltou o olhar para Thabitha que apenas encarava o vazio a sua frente, seu semblante era sereno, porém havia tristeza em seu coração e ela sabia o motivo. A sacerdotisa sentia falta de poder enxergar aqueles belíssimos vitrais. Sorrindo levemente ela voltou a admirá-los.
— São mesmo, já tenho meu favorito. — Comentou, sua voz possuía um tom curioso e ao mesmo tempo fascinado. Cada imagem reproduzida ali contava uma história diferente, algumas desconhecidas para ambas, mas aquele que ela admirava escondia muito mais do que uma simples história, afinal não era comum uma jovem ter olhos rosas como cristais.
Thabitha suspirou baixinho. Desejava ainda poder se lembrar das imagens ali gravadas.
— Faz muito tempo que já não me lembro destas cores, sinto falta de ver novamente. — Outro suspiro. Kurama notando a tristeza da amiga cutucou-a com o focinho gelado, não gostava de vê-la de tal forma, todavia logo estava ronronando graças ao carinho que recebia.
Fenryll sorria vendo a cena podia perceber o forte elo de amizade que os dois possuíam. Era raro ver aquela situação, geralmente humanos temiam os tigres, até mesmo híbridos deste mesmo animal eram temidos, mas vendo a amizade que os dois a sua frente possuíam ainda havia esperança para que algum dia o mundo mudasse de ideia.
— Por isso me chamou aqui? Sou eu quem pode te ajudar a enxergar? — perguntou indo direto ao ponto, sem devaneios, estava intrigada com esta possibilidade e queria saber logo de uma vez por que tinha vindo até ali. Entretanto para sua surpresa a sacerdotisa riu, antes de erguer seu olhar para sua direção.
— Não, Fenryll. — Ela respondeu deixando-a confusa, se não era para ajudá-la, o que seria então? E como sabia seu nome? — Não foi para isso, foi por que preciso de um aprendiz.
— É o que? — a reação de questionamento foi quase automática fazendo a morena rir.
— Foi isso que ouviu, escolhi você por que é uma mestiça, ou seja, duas coisas ao mesmo tempo, como eu. — Ela sorria ternamente. — Sou uma bruxa e uma sacerdotisa, além disso, estou há anos nesse cargo e gostaria de passar adiante meus conhecimentos. Você aceita? — perguntou, sabia que não poderia convencê-la de uma hora para outra e que a mestiça deveria escolher por si só, todavia, torcia para que ela aceitasse sua oferta.
Com a audição aguçada conseguiu ouvir um suspiro pensativo, pelo menos ela estava pensando, muitos teriam dito não na mesma hora e dado meia volta indo para longe, ao contrário de Fenryll, que ponderava sobre a possibilidade.
— Eu tenho algumas perguntas. Como sabe meu nome? E eu não vou ter que largar meu relacionamento, não é? — Thabitha sorriu com os questionamentos, pelo menos não havia recebido um não.
— Em resposta a primeira pergunta: Ouço bastante na cidade quando vou, foi fácil te reconhecer pelo cheiro. — Explicou calmamente conseguindo um resmungo em troca. — E não, não precisará largar o relacionamento. Aceita o cargo?
A bruxa já estava esperando ouvir um belíssimo não, mas ela não conseguia enxergar o sorriso determinado da mestiça a sua frente.
— Aceito. — Aquelas palavras eram músicas para seus ouvidos, era a primeira vez que ouvia uma resposta positiva e com isso um enorme sorriso cruzou seus lábios.
— Então será um prazer te treinar, mas depois que a criança que carrega nascer.
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