A Rua dos Sonhos
5 Uma Grande Decepção
Kira Izuru queria passar segurança para Sora, esperaria o momento certo para declarar-se, algo lhe dizia que não era aquele ainda. Assim que voltaram ao quarto de Sora ele fez questão de zelar pelo sono dela, então, escorou-se na cama e a deixou dormir em seus braços, enquanto afagava seus cabelos macios. Quando Sora acordou, ele não estava mais lá, mas ainda assim, seu dia começou agradável. Ela andava como se em nuvens pisasse, até dançava enquanto arrumava a mesa para o café da manhã. Akira foi o primeiro a aparecer, ela o cumprimentou com um beijo na bochecha e um forte abraço. O irmão estranhou o bom humor de Sora, mas não quis perguntar nada. Em seguida, Daisuke e Miaka apareceram, ela os cumprimentou com uma reverência alegre e os serviu – algo que nunca fazia.
– Ohayo! Espero que gostem do café... Resolvi caprichar hoje.Daisuke não disse nada, Miaka se limitou a sorrir.– E você, não vai comer? – Perguntou Akira desconfiado.– Não, onii-chan! Comi mais cedo para poder varrer o templo...– Eu vi você levando uma bandeja cheia para o quarto de madrugada, Sora-chan. – Comentou Miaka, — Desde quando você gosta de refrigerante?– Desde ontem – respondeu Sora sem desmanchar o seu sorriso perfeito. – Amo você, nii-sama! Nos vemos mais tarde, hoje o grupo que vem aqui é grande, então, quero terminar de arrumar tudo.Sora saiu a tempo de ouvir o comentário de Miaka, se pudesse, voltava e afundava o rosto dela na tijela de arroz.– Acho que Sora está escondendo mais que um cachorrinho no quarto.Sora imitou Miaka com raiva, varria com força, tentando descontar tudo no chão. Mal conseguia se concentrar no ritual que representava varrer o templo, sempre pedia para que as coisas ruins fossem embora junto à sujeira. O tempo passou rápido, o ônibus com os visitantes de uma escola já havia chegado. Sora os recepcionou com uma reverência e logo começou a mostrar o lugar. Era sempre o mesmo trajeto, as mesmas histórias e a sacerdotisa fazia tudo com a mesma alegria. O próximo caminho era o que ela mais gostava, levava os visitantes até um lago sagrado e estes colocavam uma moeda sobre um papel na água. O tempo em que o papel levasse para submergir seria o tempo em que a pessoa demoraria a casar. Quanto mais rápido o papel afundasse, mais rápido a pessoa arranjaria casamento. Sora guiou os visitantes até as lojinhas do templo, lá, Miaka assumiria. Ela discretamente voltou ao lago e fez o ritual, colocando o papel e a moeda na água. Neste exato momento, pôde reparar que alguém havia feito o mesmo e o papel deste afundou ao mesmo tempo em que o dela, rapidamente. Ela levantou-se e olhou para trás, com certeza era uma surpresa. Kira estava sorrindo, usava uma calça jeans clara, tênis branco e uma camisa preta. Sora o abraçou com força, ignorou o tempo e o lugar quando se perdeu no beijo dele. Na banca, Miaka fazia de tudo para agradar um jovem visitante, nunca havia visto alguém como ele. A tatuagem no rosto chamava a sua atenção, se perguntava a respeito do “69” no rosto dele ter algum significado sagrado. Ele vestia uma camiseta vermelha, calça jeans azul e um tênis preto, parecia à vontade olhando alguns livros. A jovem Miko resolveu chamar a atenção de Hisagi Shuurei.– Interessado em um amuleto para atrair o amor da pessoa amada?– Ah, não... Obrigado! Na verdade, estou sozinho. – Ele agradeceu com simpatia, novamente, se atentou aos livros.– Então, um talismã para ter sorte no amor...– O único amor que possuo é por uma boa garrafa de sakê, felizmente, é recíproco!– Entendi – ela deu de ombros, realmente não tinha sorte com rapazes.– Você é a única Miko do templo? – Ele perguntou interessado.– Não... Há outra, a Sora-chan. – Miaka ergueu a sobrancelha, não acreditava que alguém tão bonito pudesse estar perguntando por Sora. – Ela sumiu há alguns minutos.– Arigatou – Hisagi mostrou para ela um livro sobre a história do Xintoísmo e entregou algumas notas de dinheiro.– É muito dinheiro. – Miaka sorriu, então, devolveu parte das notas para Hisagi.– Me dê alguns amuletos para o amor então... E antes que pergunte, são para um amigo. Ele anda atrás de um amor impossível, quem sabe, não ajudem.– Nada é impossível para o amor – filosofou Miaka após entregar três amuletos diferentes para o fukutaichou e pegar o dinheiro. – Diga que ele só precisa ter fé.– Eu garanto para você que é impossível, Miko-san. É mais fácil o céu desabar do que o meu amigo ficar com esta garota – explicou Hisagi sorrindo. – Vou procurá-lo agora... Sayonara!Miaka o acompanhou com os olhos, ficou surpresa, dificilmente veria novamente alguém como ele. Ela correu os olhos ao redor e estranhou ter visto o seu primo, Daisuke, saindo da trilha para o lago, estava com o semblante carregado. Ela o acompanhou com os olhos enquanto ele andava em passos furiosos, até perdê-lo de vista. Kira e Sora passeavam de mãos dadas, ele ainda não havia recebido ordens para voltar à Soul Society, entretanto, não tinha esperança de que elas tardassem. A jovem mulher apontou para um gato que estava deitado sob a sombra de uma árvore e o fukutaichou caminhou em passos lentos até ele, queria segurar o bichano. O gato abriu os olhos e saiu em disparada, Kira agarrou apenas um punhado de folhas e deixou-se cair no chão, encostando-se no tronco da árvore.
– Seu bobo! – Sora começou a rir, quando ela se aproximou, ele a derrubou em seu colo e a abraçou. – Isto foi para provar que você consegue ao menos surpreender uma mulher? –Indagou com a expressão zombeteira. – Já o gato...– Não... Foi só uma desculpa para abraçá-la mesmo. – Ele olhou para os lados, queria ter certeza de que ninguém os via.– Izuru-kun, eu não ligo a mínima se alguém nos enxergar. É tão bom poder abraçá-lo...– Eu só não quero que você tenha problemas.– Ninguém tem nada a ver com a minha vida... Não mais.– Sora-chan... Você quer sair para jantar comigo esta noite? – Convidou ele um pouco sem graça, com os olhos voltados para baixo. – Meu amigo e eu fizemos alguns trabalhos esta manhã, conseguimos algum dinheiro.– Quero sim! – Respondeu ela sem rodeios. – Você pode vir me buscar?– Claro! Pontualmente, às 19:00.Sora foi falar algo, porém, o Denreishinki de Kira começou a tocar. Ele sibilou quando viu o sinal de três hollows no centro de Karakura. Hisagi apareceu ali correndo, Sora levantou-se com a ajuda de Kira.– Oe, você deve ser o Hisagi-kun! – Ela acenou sorridente.– Yo! – Ele acenou de volta. – Teremos a chance de nos conhecermos depois... Venha, Kira!O fukutaichou do Sanbantai beijou a testa de Sora e saiu correndo junto ao companheiro. Ela suspirou, achava que tudo estava conspirando contra ambos. Os visitantes saíam das lojinhas, por sorte, teve tempo de acompanhá-los até saída do templo, cumprindo as formalidades rapidamente. Em poucos minutos, Sora chegou como uma furacão na porta de sua casa, deixou as sandálias de qualquer jeito e entrou.– Nii-sama querido... Vou sair esta noite!– Para onde?Akira franziu o cenho e acompanhou Sora até a porta do quarto, ela estava jogando roupas para todos os lados, não sabia o que vestir.– Jantar com um amigo.Ela escolheu um vestido azul royal de comprimento um pouco acima dos joelhos, sapatos de salto baixos na cor branca e um colar de turquesas que pertencera a sua mãe.– Você não pode sair com estranhos!– Eu o conheço há anos – retrucou ela sem paciência. – Agora vou tomar banho... Ele vem me buscar mais tarde, você poderá conhecê-lo se quiser.– Humm...Akira saiu com raiva, apertou com força as rodas da cadeira, odiava aquela idéia da irmã e não esconderia nem do ilustre desconhecido o seu descontentamento. Sora demorou uma hora no banho, queria deixar os cabelos macios e sedosos, sua pele precisava estar impecável. Assim que ela saiu do banheiro enrolada em uma toalha branca, encontrou Daisuke sentado em sua cama, ele a olhava de cima a baixo. Sora foi até a porta, forçou e ela não abria. O homem mostrou a chave e a balançou, rindo da situação.– Isto não tem graça, Daisuke-kun! Devolva a chave...– Venha pegar, Sora-chan – disse ele docemente.– Por favor...Daisuke levantou e com agilidade, pegou Sora pelos braços e a jogou sobre a cama. Ela bateu a cabeça com força e uma mancha de sangue sujou o seu papel de parede cor de rosa. Desnorteada, não conseguiu desvencilhar-se dele quando a apertou contra a parede. Tudo o que pôde fazer foi gritar...– Alguém me ajude!Ele colocou a mão sobre a boca dela e com a outra, arrancou a toalha, deixando-a apenas com as roupas de baixo. Akira batia na porta, tentava arrombá-la usando a força de seus braços.– Sora, abra!A sacerdotisa conseguiu golpear o nariz do agressor com a palma da mão e então, foi em direção à janela quando ele a soltou. Ao tentar abrir, ele a pegou pelos cabelos e a derrubou no chão com violência.– Nii-sama, — ela gritou aos prantos – chame ajuda...– Cale a boca!Daisuke bateu no rosto dela. Akira pôde reconhecer a voz do amigo, não sabia o que fazer. De tanto bater na porta, suas mãos estavam feridas. O homem tentou deitar Sora de frente e pôs uma das mãos sobre o ventre dela, com a outra, segurava-a pelo pescoço, apertando com força. Assim que ele foi abrir as próprias calças, sentiu um puxão em sua camisa, sendo lançado contra a mesa de estudos de Sora.– Izuru – balbuciou Sora. – Meu... Anjo...– Desgraçado! Era você!Gritou Daisuke, ele levantou-se com agilidade e desferiu vários golpes contra o shinigami, todos aparados ou desviados. Kira precisou apenas socar o estômago do homem e o jogou contra a janela, fazendo-o cair desacordado.– Sora-chan...O fukutaichou foi até Sora, ela estava desmaiada, então, ele a colocou sobre a cama. Como reparou que Daisuke estava acordando, o golpeou na nuca e tratou de amarrar as mãos dele com um obi que encontrou no chão, pertencente ao traje de Sora. Akira entrou no quarto chorando quando Kira abriu a porta, não podia acreditar no que ouviu. Ele não quis perguntar nada para Kira, apenas aproximou-se da irmã e cobriu o corpo dela com um lençol.– Este homem não poderá sair impune – falou Akira apertando os punhos feridos. – Por favor, chame a polícia.– Polícia? – Indagou Kira. – Eu não sei como...– Quem é você? – Perguntou Akira tristemente. – Não preciso saber mais que o fato de você ser o salvador da minha irmã, mas, eu gostaria.– Kira Izuru – ele apresentou-se seriamente.– Cuide dela enquanto eu chamo a polícia... O pânico não permitiu que eu fizesse isto antes.Kira reparou que a fronha branca do travesseiro de Sora estava manchada de sangue, então, com cuidado ele verificou o ferimento na cabeça dela. Era preocupante, ela precisava de tratamento rápido. As regras da Soul Society eram claras, shinigamis não podiam ter qualquer ligação com casos humanos. Naquele momento, seu coração falou mais alto, usando a Soul Candy, ele saiu do gigai.– Espere lá fora!O espírito alterado saiu pela janela e então, o fukutaichou virou a jovem de lado e espalmou as mãos próximas ao ferimento de Sora. Ele canalizava a sua reiatsu para que pudesse fechar o ferimento de dentro para fora. Sua experiência no Yonbantai sempre foi útil, ainda mais quando poderia usá-la para ajudar pessoas queridas. Akira estava parado na porta, estático. Kira olhou para ele sorrindo, sabia que podia ser visto.– Você é um shinigami – disse o irmão de Sora com veemência. – Agora eu entendo...– Quando eu olhei para você, tive a certeza de que não é um humano comum... Mas, como sabe o que eu sou?– Desde criança eu os vejo... Há muitos anos vinha um shinigami aqui no templo, eu conversava com ele. Era o responsável pela cidade de Karakura – explicou Akira com calma. – Eu suspeitei que você poderia ser um, desde que ouvi Sora conversar com a amiga quando criança, a respeito de um jovem estranho que ela viu. Desde então, ela guarda o seu desenho.– Sinto algo muito forte pela Sora-chan, sei que é errado...– Não se justifique. Há tantas coisas erradas, Kira-san. Este homem era um irmão para mim – lamentou Akira. – Sempre me ajudou desde o dia em que eu perdi os movimentos das pernas. Meu coração está ferido... Ele poderia ter matado a pessoa que mais amo no mundo, e o que eu fiz? Só consegui bater na porta.Kira ajeitou Sora no travesseiro e fez sinal para que Akira se aproximasse. Gentilmente, ele direcionou a sua energia para as mãos do homem e curou os pequenos cortes com facilidade. Minutos depois, ele voltou para o gigai, teve que aguardar a policia e instruído por Akira, deu o seu testemunho. Daisuke foi levado, continuava desacordado. Sora demorou para recobrar a consciência, quando finalmente abriu os olhos, parecia que tudo girava ao seu redor. Ela estranhamente sorriu quando viu o shinigami sentado na beira da cama, ele segurava a mão de Akira enquanto conversavam.– Izuru-kun – murmurou ela. – Arigatou...– Me diga, está doendo algo além da cabeça? – Perguntou Kira com preocupação.– Minha alma... – Respondeu ela sem conseguir conter as lágrimas. – Ele quase arrancou tudo o que mais prezo. Sinto-me suja...– Princesa – Akira tocou no rosto dela, sorrindo. Era a primeira vez que a chamava daquela forma após muitos anos. – Perdoe este seu irmão... Estou envergonhado demais, carregarei para sempre o peso da culpa. Eu errei tanto, Sora... Não sei mais como olhar para você.– Onii-chan... Você não tem culpa de nada, por favor, não se desculpe. Sei que sempre quis o meu bem... Pôs a sua vida em risco para salvar-me. O que eu tenho para perdoar? Só tenho a agradecer... Eu amo você, Akira. Amo... Amo, meu aniki.
– Eu também amo você, imooto-chan! Prometo que vou me esforçar para que tudo seja como antes entre nós. Juro que nada vai acontecer para você enquanto eu viver.Ela levantou-se com a ajuda de Kira e inclinou-se para abraçar o seu irmão, sempre pediu para que um dia ele a tratasse com aquele carinho novamente, ao menos, aquela experiência ruim lhe valeu a pena em algum aspecto.– Vou tomar outro banho... Ao menos, a água pode purificar o meu corpo.– Vá tranqüila – Kira encostou os lábios nos dela.– Venha, Kira-san! Vamos preparar o jantar...O shinigami acompanhou Akira, estava o tempo todo sem jeito, não sabia muito bem o que falar ou como agir. Ele temia por Sora, agora tinha consciência de que o irmão dela não seria capaz de protegê-la do jeito que ela deveria ser protegida. Como a Soul Society só saberia dos seus atos, caso alguém o entregasse, ele pensou em algo. No inicio, Akira não acreditou, sua fé estava esgotada.– Você confiaria em mim, Akira-san?– Não sei, amigo... Eu já me iludi tanto, nunca houve esperança para o meu caso. Já cansei de acreditar em novos tratamentos... Perdi a fé.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.
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