A Royal Couple
2 Um Amor Acima de Qualquer Instância
Notas iniciais
Já havia se passado algumas horas desde que a ambulância chegara ao St. Bart’s. Lestrade estava lá, esperando impacientemente a cirurgia do seu mais novo amor; estranho dizer isso, já que o detetive sentia como se o conhecesse há muito tempo.
Lestrade estava tão perdido em seus pensamentos que nem viu a chegada de Sherlock e John; só os percebeu quando Watson tocou levemente seu ombro. Reagindo ao toque, o inspetor abraçou firmemente seu amigo e pôs-se a chorar como nunca havia chorado em sua frente.
– Por que Watson, logo agora que estávamos prestes a nos acertar... Porque?
– Calma Greg, vai dar tudo certo; veja, eu com certeza não conseguirei que me deixem entrar na sala de cirurgia, mas prometo que vou tentar ao menos ficar mas galerias e te trago notícias mais rapidamente do que a equipe, ok?
– Por favor... Eu preciso saber!
John soltou o abraço e foi em direção ao centro cirúrgico; só então Lestrade pôde ver o estado de seu detetive consultor. Holmes estava visivelmente abalado, inquieto, os olhos claramente demonstrando preocupação. Havia quem dizia que Sherlock era um sociopata; havia quem dizia que ele odiava seu irmão; mas Lestrade assim como John, sabia que tudo não passava de aparências. Sherlock sentia pelo irmão o mais profundo respeito e amor, como se ele fosse a única pessoa capaz de acompanhar seu raciocínio, o que de fato não ficava muito longe da realidade; tal sentimento havia ficado para trás após muitos anos de desavenças, mas retornara sempre em momentos de extrema necessidade como quando o próprio Sherlock se envolvera com drogas, ocasião essa em que o próprio Lestrade conhecera Mycroft.
O inspetor aproximou-se do Holmes mais novo e tocou-lhe o ombro.
– Sherlock...
– Eu sei Lestrade... Vai ficar tudo bem, qualquer um da família sabe que nós somos teimosos demais para desistir por qualquer coisa!
Lestrade deu um sorriso amarelo e voltou a sentar-se nas desconfortáveis cadeiras da sala de espera.
Não demorou muito para que Watson voltasse com notícias, sendo recebido pelo inspetor, claramente uma pilha de nervos e ansiedade.
– O tiro acertou seu fígado em cheio e saiu pelas costas. É um órgão vital e muito vascularizado, por isso o sangramento tão intenso; ele já tomou vários concentrados de hemácias para garantir a circulação. Os médicos controlaram a hemorragia, por hora ele está fora de perigo; agora o que resta saber é se o fígado vai responder bem e voltar a funcionar totalmente. Se voltar, vida normal, só algumas semanas de recuperação; se voltar parcialmente uma vida mais regrada e restrita deve bastar para resolver o problema...
– E se não voltar?
– Uma bala pode estar contaminada por todo o tipo de coisa... Sem contar o fato de que ele ficou com uma ferida aberta; ele pode ter uma infecção a qualquer momento, além disso se o fígado não voltar ao menos parcialmente nas próximas horas; teremos menos de setenta e duas horas para arranjar um doador ou...
– Ou o que Watson?!
– Ou ele morre!
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A cirurgia finalmente terminou; Watson tomou o prognóstico oficial dado pela equipe de médicos, que confirmou suas suspeitas. Agora o jeito era esperar pela reação do político às horas pós cirurgia.
Lestrade finalmente teve permissão de visitar Mycroft no quarto, mais ou menos uma hora depois da operação ter terminado.
O Holmes mais velho estava acordado embora bastante grogue devido aos anestésicos.
– Ei!... Você por aqui; deve ter esperado por horas!
– Mais é claro; você tomou aquele tiro no meu lugar, era para eu estar ai, não te abandonaria nunca sozinho nesse hospital, ainda mais sabendo que você se sente como eu, que há alguma coisa entre nós!
– Eu te amo desde pouco tempo depois da nossa primeira intervenção para tirar Sherlock das drogas, mas não podia dizer nada, você estava casado e... Eu não tenho por natureza demonstrar meus sentimentos; meu trabalho só acentuou ainda mais essa minha característica, tenho que ser feito de puro gelo, ter extremo auto controle para exercer a tarefa que a Coroa me incumbiu!
– Mas agora tudo isso está distante, agora temos só nós dois; para mim você pode mostrar quem você é de verdade, confia em mim?!
– Sinto que posso mesmo confiar totalmente em você Greg!
– Então... Estamos oficialmente... Juntos?
– Sim!
Lestrade não esperou mais nem um segundo para selar os lábios de Mycroft, que corou imediatamente arrancando um risinho abafado por parte do inspetor. Greg sentou-se ao lado do seu namorado e começou a acariciar seus fios avermelhados, sentindo a incrível textura daqueles cabelos que exalavam um perfume amadeirado agradabilíssimo para o policial.
– Qual é a minha situação?
– Você foi baleado no fígado... Mas a cirurgia foi um sucesso; não se preocupe com isso agora, está tudo bem!
Mycroft decidiu desistir daquela conversa naquele momento e começou a ceder ao sono em meio às carícias leves do seu amado.
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Algumas horas se passaram e a manhã finalmente chegou; Lestrade estava tão cansado que também sucumbiu ao sono e nem viu John chegar no quarto. O doutor ficou com um pouco de pena de acordar o inspetor, mas possuía boas notícias para dar.
– Ei... Greg! Greg!
– Uhm?!
– Saíram os resultados dos exames iniciais... Ao que tudo indica, Mycroft está totalmente fora de perigo e com o fígado respondendo bem ao tratamento!
– Que notícia boa! Graças a Deus!
Mycroft, que acordara há algum tempo, finalmente abriu os olhos e começou a falar:
– Então eu estava correndo o risco de ficar sem meu fígado e vocês nem para me dizerem!
– Amor... Não queria que você ficasse nervoso e além do mais, era só uma possibilidade; como seu sangue é AB, você é um receptor universal, eu mesmo ia fazer os testes de compatibilidade já que Sherlock não pode doar nada por causa do seu histórico de drogas...
– Você... Doaria uma parte do seu fígado para mim?
– E porque a surpresa... Eu te amo!
John resolveu sair do recinto deixando um Mycroft bastante corado aos beijos com um certo detetive inspetor.
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Passadas algumas semanas de recuperação, Mycroft finalmente pôde deixar o hospital; Lestrade já terminava de arrumar suas coisas e colocá-las num dos carros oficiais que costumavam servir a político.
Anthea, como sempre impecavelmente vestida e com seu inseparável Blackberry, esperava os dois dentro do veículo.
Mycroft chegou à frente do hospital em uma cadeira de rodas guiada pelo mais cuidadoso dos policiais da Scotland Yard.
Ao entrar no carro, o Holmes mais velho logo foi cumprimentado pela sua assistente:
– Olá Sr. Holmes, Fico feliz que esteja de volta!
– Eu também minha cara! Como está o trabalho?
– No geral conseguimos segurar as pontas sem o senhor, mas existem alguns conflitos no oriente médio e ao norte da África que merecem a sua atenção...
– Claro, vamos passar no escritório e...
– Mas nem pensar! – disse Greg, olhando para os dois com uma cara de poucos amigos – Você só saiu do hospital por que eu prometi ao médico respeitar seu tempo de convalescência! Vamos para o seu Flat, Anthea vai ao escritório e pega os documentos que vocês precisam para trabalhar enquanto eu faço alguma coisa decente para você comer, te preparo um banho e te acomodo no quarto. Você fica trabalhando lá, até chegar a hora dos seus remédios... Depois você precisa descansar!
Anthea e Mycroft olhavam estupefatos enquanto Lestrade disparava suas recomendações; tudo o que Mycroft conseguiu dizer depois foi um “se você prefere assim, meu bem, então assim será...”. Anthea limitou-se a baixar a cabeça levemente corada e com um risinho discreto no rosto “Nossa, finalmente alguém capaz de dobrá-lo!” – pensou.
Ao chegar ao prédio em que o político morava, os dois homens saíram e viram o carro partir novamente com Anthea; Lestrade apoiou Mycroft em seus ombros enquanto armava de novo a cadeira de rodas, para o desespero do seu namorado.
Quando ele estava devidamente acomodado na cadeira, Lestrade começou a leva-lo em direção ao elevador. Na chegada à cobertura onde ficava o flat de Mycroft, Greg abaixou até ficar frente a frente com o político e enfim falou:
– Mil perdões por ter parecido rude My... Mas eu te amo demais e fico preocupado! Naquele escritório você iria se cansar e com certeza só comeria chá com biscoitos diet; não ia ter ninguém para cuidar de você!
Mycroft não estava acreditando na sorte que dera em encontrar o amor da sua vida em um homem tão preocupado e cuidadoso, isso sem contar àquele sorriso que parecia iluminar Londres inteira emoldurado por lindos cabelos grisalhos.
– Não me senti nem um pouco ofendido; muito pelo contrário. Sabe... às vezes chego a reclamar com meu irmão pelos seus péssimos hábitos, mas em se tratando de trabalho nós dois somos iguais; sei muito bem que não me cuido quando estou trabalhando e como o meu trabalho toma mais de oitenta por cento do meu dia, minha saúde não anda mesmo às mil maravilhas... ter alguém tão preocupado comigo assim é... Muito obrigado Greg, meu bem!
Antes mesmo de entrarem, Lestrade tomou Mycroft em um beijo tão profundo que seria lembrado por ambos por muito tempo.
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