A Royal Couple
1 Quando o governo caiu de amores pela Lei
Notas iniciais
O mundo parecia estar em tons de cinza. Tudo na rotina do detetive-inspetor Lestrade parecia doloroso demais; irritava-se até mesmo com o barulho dos teclados de computador no escritório da Scotland Yard.
Há alguns meses atrás sua esposa o abandonara e se não fosse a ajuda do seu amigo, sim, podia chama-lo dessa forma, Mycroft, a sombra da Rainha, ele já teria se matado há muito tempo.
Agora os sentimentos que lhe tomavam a cabeça eram outros. Ainda estava deveras deprimido mas algo em seu coração dizia que era apenas pela falta de uma companhia, pelo excesso de solidão que agora rondava sua existência; os sentimentos residuais da perda de sua mulher, aos poucos, foram se dissolvendo com o passar dos meses.
Lestrade estava absorto em seus pensamentos até que Donovan veio lhe falar com notícias de um dos casos em aberto em que estavam trabalhando.
— Temos confirmação de que a transação entre nossa quadrilha de traficantes e os exportadores vai acontecer hoje à noite! Os peixes grandes vão estar todos lá!
— Aonde?
— Em Heathrow.
— Faz sentido, se os exportadores forem mesmo gente de dinheiro eles podem muito bem passar pela segurança do aeroporto e fazer negócio em algum hangar com um jatinho pronto pra decolar... Avise a segurança do aeroporto para que se preparem, mas deixem eles passarem, quero pegá-los em flagrante; preparem-se também iremos para lá.
Donovan saiu para retransmitir as ordens do inspetor, que finalmente pudera desviar um pouco os seus pensamentos depressivos. Não demorou muito para o telefone de Lestrade começar a tocar:
— Olá Gregory; tudo bem com você?
— Sim, estou caminhando bem graças a você Mycroft; como anda o governo?
— Você sabe... Cheio de problemas, mas estou conseguindo contorna-los bem.
— Não duvido você é realmente perfeito em qualquer coisa que faça!
Mycroft sentiu o rosto corar em meio ao elogio do inspetor e agradeceu mentalmente por não estar em uma conversa cara a cara com ele.
— Obrigado Gregory; não se esqueça, se estiver precisando de mim não hesite em me contatar!
— Claro, Mycroft, você tem sido meu melhor amigo nesses últimos tempos.
O Holmes mais velho desligou o telefone com um sorriso velado no rosto. Há tempos sentia-se atraído pelo detetive, mas nunca ousara dar qualquer passo, até porque ele era casado... A ajuda que ofereceu foi realmente sincera, como a de um amigo, porém nas últimas semanas o político com a mente mais aguçada do mundo notou que o inspetor estava um tanto o quanto confuso em relação a seus sentimentos; só não sabia se seria a hora ideal para declarar-se.
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A noite chegou e Mycroft estava em meio ao tráfego londrino indo em direção ao seu flat, quando lhe ocorreu a ideia de ir pegar o inspetor para, quem sabe, comerem algo juntos; avisou a sua mudança de planos ao motorista e pegou o celular para ligar para Lestrade, quando se conteve; certamente ele iria negar, estava muito relutante em voltar à vida social, mas se você convidado pessoalmente, Mycroft saberia dobrá-lo com facilidade.
Quando o carro oficial estava chegando perto da Scotland Yard, Mycroft pôde ver Lestrade entrando em uma viatura e partindo apressado junto a outros policiais. Holmes ficou abalado; sabia que o trabalho do detetive era tão perigoso quanto o seu próprio e que ele era muito bom no que fazia, mas isso não impedia o político de temer pelo seu amado; seria capaz de mover o MI6 para proteger o inspetor, mas limitou-se apenas a seguir as viaturas, sabendo que Lestrade estava em companhia de seus próprio policiais.
Demorou um pouco até que Holmes os viu pararem no aeroporto de Heathrow, descerem de suas viaturas e adentrarem o local.
Mycroft sabia que eles deveriam estar prestes a confrontar algum criminoso importante ou não teriam levado tantos policiais; sabia que era perigoso, mas os conselhos de sua mente foram sobrepujados pelo seu coração, e se a preocupação pela vida de Gregory estava tão forte a ponto de tornar o segundo em comando do governo inglês, amigo pessoal da própria Rainha um inconsequente, era por que seus sentimentos pelo inspetor estavam muito mais fortes do que ele havia imaginado.
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Lestrade estava correndo contra o tempo; o aeroporto já estava avisado e os seguranças indicaram o local exato por onde os suspeitos haviam entrado; realmente era um hangar para jatinhos e após entrarem ainda o mantiveram fechado reforçando ainda mais a certeza de que estavam negociando a exportação ali mesmo.
Mycroft viu Gregory passar por um dos portões de embarque privados e resolveu continuar seguindo-o. Sua identificação de político-diplomata literalmente abria-lhe portas e não foi difícil chegar até o Hangar e ver o inspetor dar ordens de prisão aos que estavam ali dentro. Claramente uma quadrilha negociando a exportação de drogas, certamente pensando que se conseguissem passar pela segurança do aeroporto estariam totalmente seguros.
O Holmes mais velho deixou-se ficar ali, à uma certa distância, apreciando seu inspetor de cabelos prateados exercer sua função. O que ele não esperava era que os contrabandistas reagissem sacando armas e começando um tiroteio insano em um pequeno hangar para jatinhos.
Imediatamente os sentidos de Mycroft se apuraram, mas em vez de correr para longe, ele focou suas atenções em Gregory, que se protegia como podia em meio a caixas espalhadas pelo local. Holmes percebeu um criminoso apontar sua arma para o detetive que estava distraído tentando orientar Donovan. Mycroft não era nenhum atleta, mas havia treinado o suficiente para correr o mais rápido que pôde e jogar-se em frente ao inspetor no momento em que o contrabandista disparou.
Lestrade mal tivera tempo para pensar, havia distraído-se um instante e agora via Mycroft esvaindo-se em sangue caído a seus pés.
Donovan conseguiu acertar o criminoso que havia efetuado o disparo; alguns outros tentaram escapar mas foram detidos pela segurança do aeroporto; os líderes da quadrilha finalmente estavam sendo presos, mas Lestrade não estava mais ligando para nada daquilo, tudo o que importava para o detetive era a vida de Mycroft.
— My... Mycroft, o que você estava fazendo aqui?!
— P... Passei na Scotland para irmos comer alguma coisa, te vi saindo e não resisti ao impulso de te proteger, meu caro...
— Não! Você não podia ter feito isso... Não agora!
— Porque Gregory?!
— Eu... Eu te amo seu idiota inconsequente! Se você morrer por minha causa logo agora, eu não vou aguentar!
— Hum... Saiba que seu sentimento é correspondido Greg, por isso não me arrependo nem um pouco de ter feito o que fiz! – disse Mycroft, que apesar de tudo mantinha um sorriso nos lábios finos enquanto perdia lentamente a consciência ao mesmo passo em que seu elegante terno sob medida tingia-se em vermelho.
As lágrimas do inspetor caiam aos montes enquanto ele apertava forte a mão do político. Donovan já havia chamado o resgate do próprio aeroporto, que havia acabado de chegar ao local. Os devidos cuidados foram tomados e a ambulância seguiu para o St. Bart’s Hospital sem que Lestrade separasse suas mãos das de Mycroft nem por um minuto sequer.
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