A Rosa e a Constelação.
1 Sonhos Im(Possíveis)
Notas iniciais
Num belo campo, existia uma linda rosa cor de rosa, era a mais bela rosa de todas. Os beija-flores a adoravam, as abelhas recolhiam seu pólen para o mais doce mel, e as borboletas sempre a visitavam. Todas as rosas daquele campo ou a amavam ou a invejavam, ela cuidava de suas pétalas, a deixando sempre brilhosas e bonitas. Seus espinhos afiados para os pequenos predadores e mesmo quando se encolhia para desabrochar ainda era a mais bela.
Porém tudo isso era pouco para a pequena rosa. Ela se entediava com facilidade por simplesmente tudo ser tão simples, não havia muitas dificuldades em sua vida de flor, o que podiam a tomar como arrogante, mas ela não se importava com aquilo, ela queria dificuldades, queria por exemplo, viver um grande amor, era uma romântica incorrigível desde sua raiz.
Foi quando pela primeira vez se apaixonara por um cravo, era ingênua na época e acreditava que podia ser eterno, mas por inveja das outras flores, o Cravo foi convencido por elas que a Rosa não prestava e que não merecia o seu amor. Ela simplesmente saíra despedaçada, e o Cravo ficara ferido. Mas ela decidiu que nunca mais se apaixonaria daquela forma, ser despedaçada doía demais, era melhor apenas se divertir.
Tão errada estava a Rosa, apesar de todos a desejarem, ela novamente quando recuperara sua beleza estava entediada daquilo tudo, ainda lembrava da dor de ser ferida, e com isso muitas noites ela ficava acordada. Uma vez ouvira de humanos que estrelas atendiam desejos. Então inutilmente conversava com elas... Não só com elas, com uma constelação especifica. Falava sobre o dia, sobre outras flores, sobre o mundo cor de rosa que ela imaginava.
O que a Rosa não imaginava, era que aquela constelação a ouvia todas as noites, mas por serem estrelas tão distantes da terra, podiam apenas brilhar de volta a ela, o que a constelação ria de suas histórias mais malucas, e desejava fortemente falar diretamente com aquela rosa, dizer que ela era uma Rosa incrível.
Foi numa noite ruim, a Rosa estava mal, pois o Cravo viera lhe atormentar novamente, sua reputação abalada entre as flores, e todo o amor que tinham por ela, fora transformado em desprezo. Ela desejou fortemente que a constelação a respondesse.
Tão forte, tão doloroso era o desejo da Rosa, que pela primeira vez ela pode ouvir a voz da constelação. Foi um simples “olá”, num tom grave e macio, místico, nenhuma voz se igualava aquela da constelação.
— Olá... — A rosa respondera surpresa, nunca esperava que aquela chance lhe surgisse. — Você é...
— A constelação com quem tem conversado esse tempo todo. — A voz mística agora tinha um tom divertido, as estrelas brilhavam mais forte. — Para vocês na Terra, eu sou Orion.
— Muito prazer, Orion. Eu nunca achei que você realmente me ouviria.
—Mas eu ouço, sempre ouvi, sempre ouvirei quando precisar, e agora posso te responder.
— Sua voz é linda. Ainda bem que pode! Eu... Eu não sei o que fazer, Orion. Estou tão perdida... Todos me odeiam agora.
— Não está perdida. Siga as estrelas e sempre terá um norte para ir. Eles não te odeiam, Rosa. Apenas estão em conflito.
— Essa conflito é doloroso... Mas, eu sempre falei muito de mim. Agora eu realmente quero ouvir de você. Quem é você, Orion? O que já viu desse mundo?
A constelação riu, um riso que era um tilintar bonito, somente aquela rosa podia ouvi-lo, mas ele lhe contara histórias, histórias sobre como ganhara seu nome, sobre as estrelas e sobre o mundo. A rosa descobrira como os humanos passavam as vidas fora dos campos, como eles não vinham só para lhes arrancar das raízes, como corriam, como amavam, como lutavam e seus dilemas, a rosa desejara pela primeira vez na vida, ser humana, poder passear correr, cantar, se produzir como um ser humano.
Orion achava aquilo engraçado, nunca conhecera uma Rosa com desejo de se tornar humana e com uma mente tão afiada para uma planta. Eles conversavam dias e noites, ele contava histórias, ela sobre os desejos dela, aos poucos outras flores notavam o brilho maior que aquela rosa estava, tão mais bonita que antes se fosse possível. Ninguém acreditava naquilo, e quando perguntavam o que ela fazia, ela dizia que era o brilho das estrelas que a iluminava.
Aquilo durou exatamente trinta dias. Tempo para Orion e a Rosa se apaixonarem um pelo outro, apesar de nunca colocarem em palavras. Ambos sabiam o quão impossível aquilo era. Mesmo assim, mesmo que uma rosa não pudesse se apaixonar por uma constelação, quem era o mundo para julgar um amor verdadeiro?
Ela ouviu de Orion que os humanos já haviam alcançado a lua, e novamente ela queria ser uma, assim podia alcançar o seu grande amor. Estava para lhe falar naquele dia que iria ser uma humana, se ela tinha conseguido a atenção de uma constelação se transformar em humana deveria ser simples.
Mas a Rosa tinha atraído atenção demais. De súbito e sem avisos ela fora arrancada de sua raiz, para fazer um lindo buque de casamento, ela sentia aos poucos a vida sumir, cada lembrança passava em sua mente conforme faziam o arranjo, misturavam outras flores como ela, flores que estavam mortas, e mesmo mortas continuavam belas.
Ela persistia, persistia para alcançar ao menos a noite. Ao menos para poder dizer que o amava. A noiva estava encantada com o buque, entrou na igreja e todos olhavam para ela. A rosa conseguiu resistir ao lindo casamento que teve naquela tarde, o padre fazia um lindo discurso sobre amor, e eles disseram sim, fora uma das cenas mais bonitas da vida da rosa, ao menos, em seu fim.
A rosa só não sabia que o buque seria jogado. E quando isso ocorreu, moças puxavam de um lado para o outro enquanto ela caia pisoteada no chão. Tentava respirar e se manter, tentava durar, respirar, até o por do sol, faltava pouco ela sentia, e então poderia dizer.
Uma criança a pegou em suas mãos pequeninas. Era uma garotinha, ela levou até a mesa do salão sorrindo enquanto a girava nos dedos, talvez na mão de uma criança ela durasse mais. Mas não vou isso que ocorreu.
— Bem-me-quer... Mal-me-quer... — Despedaçava-a novamente, aquela dor agonizante, ela queria gritar para que parasse, mas humanos não entendia a língua das flores, ela descobrira tarde demais. Uma a uma, a cada puxada a rosa agonizava e morria devagar.
Na ultima pétala, um Bem-me-quer. Ela ouvira a voz dele. Tarde demais. Ela não tinha forças, não tinha forças para dizer que o amava, e aquilo era tão cruel, mesmo com tudo, desejava fortemente ser humana, para falar alto, gritar seus sentimentos, desejava ser humana para não arrancar as flores e as despedaçar, mas para criar, para amar, para poder dizer a ele. Foi nesse desejo cheio de dor, que a Rosa finalmente morrera nas mãos de uma criança, que inocente, não sabia a dor que provocara e o seu fim, saindo animada com o “Bem-me-quer”.
Orion pela primeira vez sentiu o mundo se despedaçar, que tolice, ele sabia como as coisas na terra era efêmeras, como aquilo era errado, mas não conseguia evitar, a rosa era diferente, não só por fora como por dentro, mesmo em sua morte.
Ele rodou a noite atrás da alma da rosa, mas era como procurar uma agulha em um palheiro, ele sabia que ela seria atendida, quando desejos sinceros e fortes são ouvidos pelas estrelas, se tornam realidade. Ele queria achar um jeito de encontra-la novamente. De dizer o quanto sentia por aquela flor. Tolice, diriam a ele, como uma constelação pode querer se tornar humano?
Mas ele queria. Ele faria de tudo para encontra-la novamente, não importava quantos anos passassem. Mas tinha um acordo. Estrelas só poderiam vir a terra quando achassem um sentimento tão forte e puro quanto elas.
Foi difícil, por anos, ele não encontrara nada, e tinha medo da Rosa já ter revivido, apesar daquilo, sabia que demorava a nascer. Precisava ser perfeito, precisa de algo que fosse muito além do que humanos podiam oferecer, aquele sentimento raramente acontecia. Mas Orion, pela primeira vez em uma década se viu com sorte. Em uma montanha no alto da frança, um jovem casal se amava, e tinham aquele apreço pelas estrelas, era tão puro o sentimento de um pelo outro, que por um momento, a constelação duvidara que fossem humanos.
Mas com seus poderes e a condição, ele podia viver novamente aquela vida na terra, e assim o fez, naquela mesma noite, ele desceu sua alma para aquele jovem casal, que conceberia um filho, um filho de amor pelas estrelas. E a constelação tinha uma certeza, de que a Rosa viria naquela mesma geração. E eles se encontrariam, ele sabia disso, assim, como a alma da Rosa sabia que viria a ser humana.
Sentimentos verdadeiros eram abençoados pelas estrelas.
Fale com o autor