A Rosa e O Escorpião
11 Carta Maldita
Notas iniciais
Estou na frente do espelho do banheiro, em casa, olhando meu rosto assustado com o que acabei de ver. Estou segurando um teste de gravidez em minha mão, um teste que diz que estou grávida, um teste que diz que estou gerando alguém dentro de mim. Um teste que diz positivo.
Não posso definir como me sinto agora se não com a palavra medo. Estou assustada, confusa e não sei mais o que fazer. Não tenho ideia de como meus pais vão reagir a isso, não tenho ideia de como Scorpius vai reagir a isso. Nem eu mesma sei direito como reagir a isso.
Chego à conclusão de que mais cedo ou mais tarde eu terei de contar aos meus pais. Então que seja mais cedo.
–Mãe – chamo-a. Estamos todos em casa, hoje é véspera de Natal e a festa na casa de minha avó está bem perto de ocorrer.
Eu abro a porta do banheiro e escondo a mão direita com o teste atrás de mim. Quando minha mãe vê minha cara de espanto, medo e palidez, fica preocupada.
–Está passando mal, filha? – pergunta colocando a mão em minha testa para ver se estou com febre.
–Não mãe, mas eu preciso conversar com você e com o papai, mas antes quero saber que não importa o que acontecer, você não dirá uma só palavra a ele sobre Scorpius antes de eu ter certeza de uma coisa, tudo bem?
–Sim.
***
Estou sentada entre minha mãe e meu pai em meu quarto, me preparando para jogar a bomba neles. Decidi contar logo para os dois de uma vez só, porque achei que não aguentaria falar a mesma coisa duas vezes e receber a mesma bronca duas vezes.
O teste de gravidez está em meu bolso e estou sentada sobre ele, ainda formulando as palavras para começar a contar.
–Eu quero dizer primeiramente que eu sei que o que fiz foi errado, sei que deveria ter me protegido, mas não foi de proposito, acreditem em mim. Foi apenas um descuido, um deslize, um grande deslize que eu não deveria ter cometido. E eu entendo que terei que assumir as consequências deste deslize. Então...
Os dois me fitam confusos, eu respiro fundo e tiro o teste de gravidez do bolso, mostrando-o para minha mãe, porque sei que meu pai não vai entender e isso vai me dar mais algum tempo para me preparar para sua fúria.
Minha mãe pega o objeto em sua mão e sua expressão confusa desaparece completamente. Ela me olha com a boca entreaberta e os olhos repletos de repreensão. Meus olhos se enchem de lágrimas, isso vai ser mais difícil do que imaginei.
–Desculpe.
–Não peça desculpas Rose Weasley! Estou grata que você sabe que o que fez foi errado, mas deveria ter percebido isso antes mesmo de fazer – minha mãe diz, sua voz assume um tom zangado.
–O que está acontecendo? – meu pai pergunta ainda confuso.
Mordo o lábio e fecho os olhos antes do que vem a seguir.
–Ela está gravida Ronald, gravida!
A expressão confusa de meu pai também some e seu rosto agora está também zangado, uma lagrima escorre por minha bochecha e sei que é agora que o pior virá.
Mas o pior não vem, pelo menos não de imediato, meu pai olha em meus olhos e seu rosto agora já não está mais zangado, mas percebo que ele fica magoado.
–De quem você está grávida, Rose Granger Weasley? – sua voz sai falhada quando ele fala e eu não consigo mais conter a enxurrada de lagrimas que vêm a seguir.
Olho para minha mãe como se dissesse silenciosamente “você prometeu” e ela não diz nada.
–Não posso dizer, não ainda, pai me desculpe.
Meu pai se levanta da cama e sai sem dizer nada, seria melhor se ele tivesse gritado comigo, me chamado de irresponsável, eu me sentiria menos culpada assim.
Olho para minha mãe, que me abraça surpreendentemente e beija o topo da minha cabeça carinhosamente.
–Todos nós cometemos erros filha, nós só queremos que você saiba que o que fez foi muito grave, e que deveria ter pensando antes de... Bem, você sabe, sem proteção alguma.
–Eu sei mãe, eu sei.
Por fim ela também se levanta e sai do quarto. Também seria melhor se ela tivesse gritado comigo ao invés de me olhar daquele jeito. Eu seria agora uma decepção para minha família inteira.
***
Estávamos todos prontos para ir à ceia de Natal aquela noite, todos estávamos reunidos em frente à lareira para ir para a casa de minha avó, quando uma coruja pousou na nossa janela com uma carta. Eu fui até ela e desamarrei a carta de sua perna, ela voou de volta para de onde quer que viera.
Olho para o remetente, a carta é de Scorpius.
–Vamos Rose, ou vamos nos atrasar, você lê a carta depois – meu pai disse sem me olhar.
Eu ainda não havia reunido coragem o suficiente para escrever uma carta a Scorpius contando o acontecido, mas talvez eu lhe enviasse como resposta para esta.
Guardei a carta no bolso do casaco e fui até a lareira, instantes depois já me encontrava na Toca.
Era tanta gente reunida na Toca em noite de véspera de natal que meu avô tinha que colocar duas mesas compridas no jardim para que todos nós pudéssemos nos sentar.
Quando cheguei, a maioria das pessoas já se encontrava presente. Eu passei o tempo todo cumprimentando e conversando com todos, o que não me deixou tempo algum para ler a carta que ainda estava em meu bolso.
Quando Lily me viu ela veio até mim, eu já sabia o que ela queria. Respostas.
–Depois a gente conversa, Lily, não posso te dizer nada aqui – falo e vejo que pelo seu olhar ela já tirou conclusões precipitadas, que provavelmente estavam certas.
O jantar fluiu como água, eu estava ansiosa para ler a carta de Scorpius e responde-la, também para contar a Lily sobre o teste, mas eu podia esperar. As conversas que rondavam a mesa eram sempre superinteressantes.
–Há rumores de que no próximo ano a Copa Mundial de Quadribol será celebrada aqui novamente – disse meu tio Jorge quando já estávamos comendo a sobremesa.
–Espero que sim – Alvo falou super animado. – Eu sou louco para ir à uma Copa Mundial de Quadribol, essa será uma chance em muitas.
Eu não havia comido muito e estava me controlando, pois realmente não queria vomitar novamente e nem que todos me vissem naquele estado.
Eu me levantei da mesa e lancei um olhar a Lily que ela bem entendeu, porque logo depois estava atrás de mim enquanto eu subia as escadas. Entramos em um quarto bem abaixo do sótão, o antigo quarto de meu pai, laranja e ainda com os vários pôsteres do seu time favorito de Quadribol – os Chudleys Cannons.
Lily fechou a porta e me olhou esperando respostas.
–Lily, por favor, a única coisa de que realmente não preciso agora é de mais e mais lições de moral, ok? Sim, eu estou gravida.
Aquilo saiu com mais naturalidade do que eu gostaria. Lily me abraçou.
–Eu não vou te dar lições de moral Rose, você é minha prima, é como se fosse minha irmã, eu só quero que você fique bem.
–Obrigada – disse aliviada. – Mas parece que meus pais não pensam do mesmo jeito.
–Eles já sabem? – ela perguntou e eu respondi balançando a cabeça afirmativamente. – Você sabe que pode contar comigo pro que você precisar, não é Rose? Comigo, com o Alvo, você é nossa flor e não deixaremos que nada de mal te ocorra.
–Obrigada pequena – digo e a abraço mais uma vez. – Eu realmente precisava de alguém que me abraçasse e me apoiasse agora.
Quando eu me separo de Lily me lembro da carta e sento-me na cama tirando-a do bolso, minha prima se senta ao meu lado.
–Ainda não contei a Scorpius, e estou começando a achar que não deveria fazer isso por carta, mas ele me enviou esta aqui hoje à noite e eu ainda não tive tempo de ler.
Então eu abri a carta e comecei a lê-la silenciosamente.
Rose,
Espero que me desculpe por estar dizendo isso por carta, mas acho que não seria homem o suficiente para olhar em seus olhos e dizer o que eu devo dizer.
Primeiramente Rose, eu quero que saiba que tudo o que eu disse e tudo o que aconteceu entre nós foi puro e veio do coração. Eu não posso dizer nada que contradiga isso, eu era completamente seu e você era minha, éramos um só. Desculpe-me se alguma lágrima cair e manchar minhas palavras, eu ainda não sei como posso estar lhe escrevendo esta carta.
Mas meu amor, como nós não percebemos isso antes, me diga? Não podemos ficar juntos, não devemos. Somos de famílias tão diferentes e tão rivais que este sonho nosso foi nada menos que uma utopia muito grande.
Temo que tenha que te deixar partir, nossos destinos certamente não foram feitos para se cruzarem, tampouco nós fomos feitos para ficarmos juntos. Só peço que me desculpe Rose, e que acredite que cada palavra que disse sobre o que passamos juntos foi verdadeira.
Scorpius
Quando eu terminei de ler a carta já não conseguia mais segurar as lágrimas, elas caíram como rios, uma atrás da outra sem parar. Como ele pôde fazer isso comigo?
Como ele pode me enviar uma carta tão linda ontem e hoje isso?
–Ele terminou comigo Lily – digo quase gritando. – ELE TERMINOU COMIGO!
–O que? Rose isso é horrível, como ele pôde...
–Não sei como ele pôde, só sei que ele me abandonou e justo no momento em que eu mais preciso dele.
–Mas ele não sabe, quem sabe se você lhe contar...
–Eu não vou dizer nada a ele, ele não vai saber nada a respeito do nosso filho, do meu filho. Eu sabia, meu pai tinha razão, os Malfoys são todos uns canalhas, eu o odeio.
A porta do quarto se abriu e Alvo entra perplexo.
–O que aconteceu minha flor? – Alvo se senta do meu outro lado e me abraça, eu me permito aconchegar-me em seus braços por um tempo. Acho que meus gritos devem ter sido escutados lá debaixo.
–Scorpius terminou comigo Alvo, ele terminou comigo – eu murmurei entre soluços.
O que me irritou mais na carta foi o seu jeito doce de escrevê-la, ele terminou comigo com uma carta romantizada, pensando me enganar mais uma vez. Seria melhor se ele a tivesse escrito como uma carta frívola e brutal.
–E eu estou gravida dele – terminei.
–E ele sabia disso? – perguntou Alvo com raiva.
–Não, ele não sabe, não vai saber. Não o quero perto do meu filho.
–Filha? – era minha mãe à porta do quarto. – Está tudo bem?
Sim, tudo bem, o meu namorado apenas acabou de terminar comigo da forma mais gentil possível, ah e não me esquecendo de mencionar que eu estou grávida dele. Mas tudo bem, sério.
Não tenho forças para dizer mais nada, então apenas lhe entrego a carta e continuo chorando no ombro de Al.
–Ele é um idiota, eu vou acabar com ele na escola pra você Rose, pode deixar.
Minha mãe termina de ler a carta e a coloca em cima da cômoda dobrada, ela me estende a mão e eu me levando apoiada nela.
–Alvo tem razão, ele é um idiota, quem deixaria a garota mais doce e linda deste mundo sem absolutamente nenhum motivo? Olha pra mim Rose – eu levanto a cabeça e olho para minha mãe, seus olhos castanhos são doces e me passam firmeza. – Você é forte e não precisa de nenhum idiota brincando com seus sentimentos. Nós vamos descer agora e informar a todos sobre sua gravidez, se você quiser podemos exigir pensão...
–Não – digo rapidamente. – Não quero nada que venha dele, não quero que ele saiba mais nada sobre mim, nem sobre a criança. E vou manter em segredo a todos, menos àqueles que já sabem – olho para meus primos. – Quem é o pai do meu filho. E eu não quero ir mais para Hogwarts.
Minha mãe não tinha dito uma só palavra até eu mencionar não querer ir mais para escola, mas eu já tinha um plano em mente e não deixei ela continuar protestando.
–Vou estudar na França mamãe, em Beuxbatons – explico e ela fica mais aliviada. Sei falar francês por conta do curso que eu faço todo ano nas férias de línguas, então falo fluentemente francês, alemão, espanhol e italiano. É nisso que dá ter Hermione Granger como sua mãe.
–Tudo bem então, tenho certeza de que conseguiremos uma vaga na escola.
Dou um leve sorriso, embora meu coração ainda doa.
***
Como meu pai reagiu quando soube que eu iria para a França, e que não queria contar-lhe quem era o pai do bebê quando eu disse que ele havia me deixado? Nada demais, apenas alguns desmaios por conta de muito acumulo de raiva.
As pessoas ficaram estupefatas, mas parcialmente felizes com a minha gravidez na família Weasley, eram todos muito acolhedores e eu não poderia esperar recebimento melhor quando contei – menos do meu pai, é claro. Pedi segredo aos meus primos depois, não queria que eles mencionassem Scorpius, porque sabia que eles tinham certeza de que ele era o pai.
Quando cheguei em casa e me joguei na cama a chorar novamente, eu percebi que havia me esquecido da rosa que Scorpius me dera no ultimo dia antes do Expresso de Hogwarts partir, então fui até a minha mala e a abri, a rosa ainda estava lá em um canto, intacta como eu a tinha deixado e ainda viva, o que me surpreendeu e me fez pensar se o colar que Scorpius tinha no pescoço ainda estava lá. É claro que estava, por mais que eu odiasse admitir, eu ainda o amava com todas as minhas forças.
Peguei a rosa na mão e a soltei rapidamente quando ela me furou meu dedo com um de seus espinhos.
Não vai te ferir a menos que...
Você me fira.
Scorpius me feriu, a rosa agora me fere quando eu a toco no caule, então eu a tomo pelas pétalas e a coloco em uma das minhas gavetas, quando fecho, percebo que meu dedo possui um pequeno sangramento no lugar onde o caule o espetou.
Mas se as pétalas da rosa ainda não murcharam, isso quer dizer que Scorpius ainda me ama, ou ele mentiu sobre o que o feitiço fazia, a rosa nunca morrerá independentemente do que ele sinta. Mas se a primeira opção for a correta, por que ele me deixou?
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