A Rosa do Outono

2 Capitulo 1.


Escócia, ano de 1842

Era início da manhã de um dia nublado de março de 1842, quando Winnie e a senhora Clarissa Fairborne aguardavam na estação de trem de Edimburgo. A primavera começava a se impor com certa hesitação: o ar era fresco, não frio, carregado da umidade típica da cidade, misturada ao cheiro de carvão queimado que saía das locomotivas. O céu permanecia fechado, mas havia uma promessa silenciosa de luz por trás das nuvens. O vapor do trem subia em nuvens densas, envolvendo a plataforma como um véu morno, enquanto o chão de pedra ainda conservava o frescor da noite recém-encerrada.

Winnie permanecia um pouco afastada da linha férrea, segurando com firmeza a velha mala de couro, já marcada por rachaduras e manchas do tempo. Vestia um traje simples, apropriado para alguém de sua condição: um vestido de lã escura, fechado até o pescoço, mangas longas e discretas, sem qualquer enfeite. Um xale gasto protegia-lhe os ombros, e os sapatos, bem engraxados por cuidado mais do que por luxo, denunciavam o quanto ela prezava por manter dignidade mesmo na pobreza.

A senhora Clarissa Fairborne, ao contrário, destacava-se com naturalidade. Usava um vestido de tecido fino, em tons sóbrios, mas claramente bem cortado, acompanhado de luvas claras e um pequeno chapéu elegante preso com alfinetes delicados. Sua postura era firme, serena, de alguém acostumada a ser respeitada. Não trazia bagagens. Não viajaria.

O apito distante de um trem ecoou pela estação, mas ainda não era o dela.

— Está com tudo aí, Winnie? — perguntou a senhora Fairborne, lançando um olhar atento à mala.

— Sim, senhora Fairborne — respondeu Winnie prontamente, endireitando a postura.

Clarissa então levou a mão ao bolso do casaco e retirou um envelope cuidadosamente dobrado e lacrado. Entregou-o à jovem com calma, como quem oferece algo de grande importância.

— Tome esta carta — disse em tom baixo. — Entregue somente nas mãos da minha irmã. Ela encontrará um lugar apropriado para você na casa desse nobre para quem trabalha. É apenas uma carta de recomendação… mas ela aprecia boas moças.

Winnie segurou o envelope com cuidado quase reverente, como se aquele pedaço de papel fosse mais do que tinta e palavras. Era, para ela, uma chance.

Ao redor, passageiros se apressavam, empregados carregavam malas, e o som metálico dos trilhos vibrava sob os pés. O trem começava a se preparar para a partida.

Winnie respirou fundo, sentindo o coração apertar no peito, e manteve-se em silêncio, aguardando o momento em que teria de seguir sozinha.

— Há mais uma coisa — disse a senhora Fairborne, após um breve silêncio.

Ela levou a mão ao bolso interno do casaco e retirou um pequeno saquinho de tecido, simples, porém claramente bem cuidado.

— Coloque a mala no chão, se fizer o favor.

Winnie obedeceu de imediato, ainda que sem compreender por completo. Talvez… compreendendo mais do que gostaria.

A senhora Fairborne pousou o saquinho discretamente nas mãos dela.

— Quero que fique com isto. Caso precise se alojar por uma noite, ou adquirir algo essencial… há o bastante para qualquer imprevisto.

Winnie sentiu o peso do objeto e apressou-se em devolver.

— Não é necessário, senhora Fairborne. A senhora já fez tanto por mim desde a morte do senhor Veymore. Sou-lhe profundamente grata por tudo.

Clarissa fechou os dedos de Winnie em torno do saquinho, firme, mas gentil.

— Aceite, sim. Garanto-lhe que não me fará falta. E, por favor, não veja nisso arrogância alguma — disse com suavidade. — Considere apenas… uma ajuda. Uma amiga estendendo a mão a outra.

Ela fez uma breve pausa, observando o rosto jovem à sua frente.

— Você precisa de um recomeço, Winnifred. Sempre se mostrou dedicada, correta… e, por vezes, a vida surpreende permitindo que pessoas boas cruzem nosso caminho. Pessoas que, de fato, desejam o nosso bem.

Winnie engoliu em seco, incapaz de responder de imediato. Apenas assentiu, apertando o saquinho como se ele fosse mais do que moedas… como se fosse promessa.

— Você merece um recomeço — disse a senhora Fairborne, com aquela convicção serena que não admitia réplica.

No mesmo instante, o apito do trem ecoou pela estação, solene e definitivo, anunciando o embarque imediato.

— Tudo ficará bem — acrescentou ela, com um pequeno aceno de cabeça. — Diga-me apenas… está com tudo em ordem?

— As passagens, a mala… tudo — respondeu Winnie. — E, ainda assim, não encontro palavras suficientes para lhe agradecer, senhora Fairborne. Desde aquele infortúnio, a senhora me concedeu abrigo e sustento, ainda que por um tempo que jamais esquecerei.

Seus olhos marejaram, e ela desviou o olhar, tentando recompor-se.

— Não se permita tal emoção, minha querida — disse Clarissa, erguendo-lhe o rosto com delicadeza, pousando os dedos em sua face. — Tenho por hábito reconhecer mérito quando o encontro. Sempre tive.

Sorriu, então, com ternura.

— E, entre nós, pode chamar-me simplesmente de Clarissa.

— Além disso — continuou, em tom quase conspiratório — a Inglaterra é pródiga em oportunidades. Lá, uma jovem de espírito e caráter ainda pode aspirar a um bom destino. Quem sabe… até mesmo a um lorde.

Winnie soltou uma breve risada, suave e autoconsciente.

— Receio não possuir o desembaraço de Elizabeth Bennet — disse ela — nem o ardor romântico de uma Marianne Dashwood.

Fez um gesto discreto, como quem alude a uma lembrança compartilhada.

— Dos romances que a senhora teve a bondade de me emprestar no último inverno.

E concluiu, com um sorriso resignado:

— Ademais, já me encontro perigosamente próxima do limite que a sociedade considera aceitável. Tenho vinte e dois anos.

— Que tolice — replicou Clarissa com um meio-sorriso firme. — Quando um cavalheiro verdadeiramente se apaixona, a idade é o último detalhe a lhe ocupar o espírito.

O apito do trem soou outra vez, mais insistente agora.

— Vá — disse ela, com doçura prática. — Escreva-me assim que estiver bem acomodada. Minha irmã lhe oferecerá abrigo e um emprego digno, como merece.

As duas se abraçaram. Não foi um gesto apressado, mas um daqueles que tentam guardar calor para o futuro. Ao se afastarem, Clarissa tomou o rosto de Winnie entre as mãos, como fizera instantes antes, e disse, com solenidade quase cerimonial:

— Toda a boa sorte do mundo, Winnifred Stirling.

As lágrimas escaparam apesar do esforço. Clarissa a soltou, e Winnie apanhou a mala. Acenou uma última vez e seguiu em direção ao trem. Subiu os degraus, entrou no vagão e, ao olhar pela porta, viu as duas trocarem um derradeiro adeus. A plataforma começou a deslizar para trás quando o trem se pôs em movimento.

Já acomodada, Winnie levou a mão ao bolso do vestido e retirou o bilhete. Um funcionário ferroviário, de uniforme escuro e boné rígido, passou pelo corredor. Ela lhe estendeu o papel; ele o tomou com um gesto experiente, picotou-o com precisão e seguiu adiante. Winnie respirou fundo. O recomeço, enfim, estava em marcha.

***

Durante a viagem, Winnie mantinha o olhar fixo na paisagem que corria além da janela, mas era para dentro que sua memória insistia em retornar. A gratidão que sentia pela senhora Clarissa Fairborne vinha misturada a algo mais profundo: a sensação estranha de estar, enfim, deixando de sobreviver para tentar viver.

Na casa dos Veymore, sobreviver sempre fora o verbo correto.

Ela não fora acolhida ali; fora tolerada. Desde pequena aprendera que ocupava um espaço provisório, um corpo a mais sob o teto de alguém que jamais a quisera. Comia o que sobrava, quando sobrava. Nunca se sentava à mesa principal. Seu prato era entregue depois, frio, muitas vezes incompleto, como se a própria presença dela fosse um erro de cálculo.

Dormia num depósito afastado da casa, um espaço destinado a móveis quebrados, caixas esquecidas e ferramentas enferrujadas. Ali, estendiam-lhe um colchão estreito, recheado de palha e restos de algodão, que arranhava a pele e jamais aquecia o suficiente. Ratos circulavam sem cerimônia, e Winnie aprendera a dormir imóvel, temendo chamar atenção até deles. Tudo o que possuía cabia numa pequena caixa escondida entre tábuas soltas: algumas moedas, uma agulha boa, um pedaço de fita, lembranças mínimas que eram apenas dela.

Trabalhava desde que o sol surgia até depois que a casa se recolhia. No começo, errava. Não por preguiça, mas por ignorância infantil. E cada erro vinha acompanhado de punição. A senhora Veymore não economizava nas mãos nem nas palavras. Os filhos seguiam o exemplo, repetindo o gesto aprendido. O senhor Veymore, por sua vez, jamais a tocava, mas fazia questão de lembrá-la, com comentários cortantes, de que ela existia por pura conveniência. A humilhação diária, dita em tom baixo e calculado, ensinou Winnie que a vergonha podia ser uma forma refinada de violência.

Nada nunca era novo para ela. Tudo o que vestia já havia pertencido a alguém antes. Às vezes vinha das moças do bordel, vestidos gastos pela noite, mas ainda inteiros o suficiente para cobrir o corpo. Outras vezes eram sobras da filha da casa, Helena, que fazia questão de estragar o que não queria mais. Rasgava uma bainha, derrubava vinho, pisava na barra, e só então permitia que o vestido fosse entregue a Winnie. Era um ritual de desprezo que se repetia com precisão cruel.

O bordel do senhor Veymore tornou-se parte inevitável da rotina. Durante o dia, Winnie limpava o que restava das noites: lençóis, copos, pisos marcados. Nunca foi tocada, mas aprendia observando, ouvindo, compreendendo cedo demais. As mulheres que ali trabalhavam foram, paradoxalmente, algumas das poucas pessoas que lhe ofereceram gentileza. Foi entre elas que Winnie começou a costurar de verdade. Remendava vestidos, reforçava costuras, salvava tecidos condenados. Suas mãos tinham memória. Afinal, antes de tudo ruir, ela fora ensinada.

Poucos sabiam disso. Mas Winnie era filha legítima de um barão. Antes da morte da mãe, tivera tutora, aprendera bordado, leitura, postura. Tudo lhe fora arrancado quando o pai, afogado em dívidas e desespero, a perdera numa aposta infame. Entregá-la fora mais fácil do que enfrentar a própria ruína. Winnie raramente falava disso. Era uma história que doía até em silêncio. A senhora Clarissa Fairborne foi uma das únicas a ouvir fragmentos, ditos com cuidado, como quem entrega algo quebrável demais para ser tocado por muitos.

A costura tornou-se sua salvação silenciosa. Aos quinze anos, começou a aceitar pequenos trabalhos às escondidas. Bordava monogramas, lençóis, enxovais simples. Cobrava pouco, apenas o suficiente para comprar coisas que jamais lhe seriam dadas: um par de luvas decentes, um pouco de rouge, uma fita nova. Pequenos luxos que a faziam lembrar que ainda era uma jovem, não apenas uma sombra. Guardava cada moeda com zelo, escondida no fundo da bolsa, somadas ao longo dos anos com paciência quase dolorosa.

Foi assim que conheceu Clarissa Fairborne. A viúva exigente, conhecida por não se agradar facilmente, encontrou em Winnie algo raro: excelência sem arrogância. Seus bordados eram precisos, delicados, carregados de atenção. Clarissa reconheceu talento onde outros viam apenas uma criada. A partir dali, passou a chamá-la sempre. Enxovais, lenços, monogramas. Inclusive os da própria filha, quando se casou.

Quando o senhor Veymore morreu, a tolerância que sustentava a presença de Winnie chegou ao fim. Os filhos já estavam casados. O mais velho assumira os negócios do pai. A senhora Veymore preparava-se para partir, mudar-se para uma cidade mais quente da Inglaterra, onde viveria com a filha. Winnie, para ela, era um peso antigo, uma despesa indesejada. Disse-lhe, sem pudor, que já havia comido demais de sua comida, dormido demais sob seu teto. Não a levaria. Não a queria.

Foi Clarissa quem abriu a porta quando todas as outras se fecharam.

Agora, no trem que deixava a Escócia para trás, Winnie sentia que aquela despedida não era apenas geográfica. Levava consigo pouco dinheiro, uma mala simples e uma vida inteira de perdas. Mas também levava algo novo: a possibilidade real de não ser tratada como sobra. Pela primeira vez, o futuro não lhe parecia um castigo anunciado, e sim um terreno incerto onde, talvez, pudesse finalmente escolher quem seria.

***

Winnie seguia com destino a Ashford, no condado de Kent, onde passaria a trabalhar na casa de um nobre local. Não sabia ao certo qual era sua posição ou título, apenas que se tratava de um homem que frequentemente necessitava de empregados. A senhora Clarissa Fairborne tinha uma irmã que atuava como governanta naquela residência, e era a ela que Winnie deveria se apresentar. No fundo do bolso do vestido, cuidadosamente dobrada, trazia uma carta de recomendação, a garantia silenciosa de que teria ao menos uma oportunidade de ser aceita.

Foi a própria senhora Clarissa quem adquiriu suas passagens. A viagem de trem ainda era uma novidade naquele país, e para Winnie tudo parecia extraordinário: o ruído metálico das rodas, o vapor espesso, a sensação de velocidade que fazia o coração acelerar. O trajeto exigia algumas trocas. De Edimburgo até Londres, a distância era longa; de Londres até Ashford, ainda havia um bom caminho a percorrer.

Ao chegar à capital, Winnie ficou momentaneamente sem fôlego. Londres pulsava. Havia movimento por todos os lados: carruagens cruzando as ruas, homens apressados, mulheres elegantemente vestidas entrando e saindo de lojas, estações e salões. Era um mundo maior do que tudo o que conhecera até então.

Seguindo as recomendações de Clarissa, Winnie não prosseguiu de trem até Kent. Em vez disso, adquiriu uma passagem numa carruagem de correio, que transportava correspondências e passageiros até o interior. Era mais segura, mais protegida contra o vento, a chuva e o frio imprevisível, além de menos exposta para uma jovem viajando sozinha.

Quando atravessava a rua em direção a uma pequena agência onde poderia informar-se sobre passagens, Winnie foi detida por uma voz que reconheceria em qualquer lugar.

— Winnie?

Ela se virou de imediato. O burburinho de Londres pareceu diminuir por um instante quando seus olhos encontraram o rosto conhecido.

— Charles Williams…

Aproximou-se com surpresa genuína. Charles encontrava-se de pé junto à rua, ao lado de uma carruagem de aluguel, acariciando com cuidado o focinho de um dos cavalos enquanto aguardava um passageiro. Vestia o casaco escuro típico de cocheiro, bem gasto pelo trabalho honesto, e trazia no rosto a mesma expressão cordial de anos atrás.

Conheciam-se desde a infância. Charles morara na mesma rua dos Veymore, nos tempos em que Winnie ainda era pequena, antes de aprender cedo demais o peso da rejeição. Fora um dos raros meninos que nunca a evitara, nunca a tratara como indesejada. A amizade sobrevivera ao tempo, à pobreza dele e à queda silenciosa dela.

— O que a traz a Londres? — perguntou ele, ainda incrédulo. — E depois de tanto tempo…

— Estou apenas de passagem — respondeu Winnie. — Sigo para Ashford. Há uma oportunidade de trabalho na casa de um cavalheiro abastado.

Charles arqueou levemente as sobrancelhas.

— Ashford? — repetiu. — Confesso que me surpreende. E os Veymore… permitiram que partisse assim?

Winnie respirou fundo antes de responder.

— O senhor Veymore faleceu — disse com calma. — Após isso, a esposa decidiu deixar Stirling. Seus filhos já estão casados, e ela partiu para viver com a filha no sul. Não desejava levar-me consigo. — Houve um breve silêncio. — Disse que já havia sustentado um fardo por tempo suficiente.

Charles baixou o olhar, visivelmente constrangido.

— Sinto muito, Winnie.

— Não é algo que lamente — respondeu ela, com serenidade surpreendente. — Talvez tenha sido o fim necessário.

Ele assentiu, então mudou de assunto, com delicadeza.

— E Meredith? — perguntou ela, suavizando o tom.

O semblante de Charles se transformou por completo.

— Está bem… muito bem. — Sorriu, orgulhoso. — Agora deve estar em casa, cuidando de tudo… e de sua condição. Se Deus permitir, esperamos a criança em abril.

Os olhos de Winnie se iluminaram.

— Não posso acreditar. Meus parabéns!

Charles riu, um riso contido, quase tímido.

— Estamos extremamente ansiosos. Eu creio que será uma menina. Meredith insiste que será um menino. Seja como for, será profundamente amado.

— Isso me alegra imensamente — disse Winnie. — Envie minhas lembranças a Meredith, por favor.

— Assim farei — respondeu ele. Então, após um breve silêncio, acrescentou com sinceridade: — A senhorita sempre foi gentil conosco. Especialmente quando nos casamos. Jamais esquecerei.

Winnie sorriu, lembrando-se. Fora ela quem costurara o enxoval de Meredith, ponto por ponto, recusando qualquer pagamento, mesmo sabendo que o pouco que ganhava lhe fazia falta. Charles passara por grandes dificuldades na época, mas o casamento fora por amor, e isso, para Winnie, bastava.

— Fiz apenas o que estava ao meu alcance.

— Ainda assim — insistiu ele, com voz firme —, jamais esquecerei. Quando nos casamos, mal tínhamos como começar. E, no entanto, a senhorita costurou o enxoval de Meredith com as próprias mãos, recusando pagamento. Bordou lençóis, ajustou vestidos, fez-nos sentir dignos de algo melhor. — Sorriu, com gratidão sincera. — Nunca poderei retribuir tal bondade.

— Ajudar vocês foram uma alegria — respondeu Winnie com simplicidade.

— Então permita-nos ao menos oferecer hospitalidade — disse ele. — Ashford é distante, eu sei, mas nossa porta lhe estará sempre aberta. Seria uma honra recebê-la. Sempre o será.

— A honra seria inteiramente minha em visitá-los — respondeu Winnie, com um sorriso gentil e contido, daqueles que não pedem nada, mas agradecem muito. — E, ao que me parece, Londres tem sido generosa com vocês.

Seu olhar deslizou naturalmente até a carruagem à qual Charles se apoiava quase com familiaridade, como quem confia o próprio sustento àquele conjunto de madeira, ferro e cavalos bem tratados.

— Tem sido, sim — confirmou ele, com um orgulho discreto. — Foi um investimento acertado. A cidade cresce a olhos vistos, sempre há eventos, compromissos, temporadas… — fez um gesto vago com a mão. — E durante a estação social, então, não faltam nobres desejosos de carruagens particulares. Bailes, visitas, viagens mais longas… Londres paga bem àqueles que sabem se posicionar.

— Que maravilha, Charles — disse Winnie com sincera satisfação, estendendo a mão para tocar de leve a cabeça do cavalo, que aceitou o carinho com mansidão. — Eu e Cressida sempre soubemos que daria certo. — sorriu de canto. — E, falando nela… Cressida se casou.

Os olhos dele se arregalaram.

— Casou? — perguntou, surpreso. — Com quem?

— Com aquele alfaiate que a cortejava havia anos.

— O senhor Murray? — disse Charles, incrédulo.

— Exatamente — confirmou Winnie. — Estão muito felizes. E há mais… tiveram uma menina. Nasceu em janeiro.

Charles deixou escapar uma risada baixa, quase maravilhada.

— Veja só… — murmurou. — A vida, afinal, encontra seus próprios caminhos.

Então, após um breve silêncio, ele a fitou com um sorriso curioso, quase provocador.

— Parece-me que agora só falta você, Winnie, do nosso pequeno trio, a contrair matrimônio.

Ela riu, um riso leve, sem pressa de se defender.

Eles haviam sido três jovens unidos por circunstâncias duras demais para a pouca idade. Cressida, marcada pela morte precoce do pai e por uma mãe que lutara com dignidade para sustentar cinco filhos. Charles, que aprendera cedo o peso da responsabilidade, guiado mais pela necessidade do que pela escolha. E Winnie… cuja história dispensava explicações longas demais para uma conversa em meio à rua.

— Talvez — respondeu ela, por fim, com suavidade. — Mas creio que cada história se escreve no tempo que lhe convém. Algumas começam cedo. Outras… precisam sobreviver primeiro.

Charles assentiu, compreendendo mais do que disse.

— Seja como for — declarou —, espero que o próximo capítulo lhe seja gentil.

— Estou verdadeiramente a torcer por isso, Charles — disse Winnie, com um sorriso sereno, daqueles que escondem mais esperança do que ousariam admitir em voz alta. — Foi maravilhoso revê-lo. Contudo… — acrescentou, ajustando a alça da pequena bolsa ao ombro — devo ir. Preciso adquirir minha passagem para a carruagem coletiva, antes que partam sem mim.

Ela já fazia menção de se afastar quando ele ergueu a mão, detendo-a com delicadeza.

— Winnie, não há a menor necessidade de gastar o pouco que tem — disse, com uma firmeza gentil. — Para sua boa fortuna, o senhor que me contratou para esta viagem segue justamente para Ashford. Posso muito bem levá-la conosco. — Fez uma breve pausa, como quem escolhe as palavras com cuidado. — Creio que ele não se incomodará. Mostrou-se… bastante educado.

Ela arqueou levemente a sobrancelha.

— Ainda assim, receio causar transtorno — respondeu, com aquela prudência que a vida lhe ensinara cedo demais. — Homens de posses costumam ser… excêntricos.

Charles sorriu, quase divertido.

— Não se trata de um nobre — esclareceu. — É um homem instruído. Um advogado recém-formado. — Baixou um pouco a voz, como se compartilhasse um segredo. — E devo confessar que investiguei sua índole. Não aprecio conduzir qualquer um que apenas saiba pagar.

Winnie o observou por um instante, ponderando. Havia aprendido a desconfiar das facilidades oferecidas pelo mundo, mas também reconhecia quando a providência surgia sob a forma de uma mão estendida com honestidade.

Sendo assim… — disse enfim, permitindo-se um pequeno sorriso — aceito. E lhe sou grata. Mais uma vez.

Charles inclinou a cabeça, satisfeito.

— Importar-se-ia em vir comigo na boleia? — perguntou ele, num tom respeitoso, segurando as rédeas com firmeza.

— Nem um pouco — respondeu Winnie com simplicidade, ajeitando a mala. — Agradeço a gentileza.

— Faremos algumas paradas durante o percurso — explicou Charles. — Tanto pelos animais quanto pelo passageiro. Viagens longas exigem cautela.

— Está bem — disse ela, oferecendo um pequeno sorriso. — E, diga-me… onde se encontra esse passageiro?

— Aguardo-o neste momento — respondeu ele, indicando com o queixo a rua adiante. — Está naquela alfaiataria. Fez uma breve pausa antes de concluir: — Parece preparar-se para algum compromisso importante, ou algo semelhante. De todo modo, é um homem bem-vestido.

Winnie acompanhou o gesto com o olhar, apenas por um instante, antes de voltar-se para ele, guardando a curiosidade para si.

Porém, nesse exato momento, saiu de dentro da alfaiataria um rapaz, que Winnie calculou ter cerca de vinte e cinco anos, muito bem vestido, acompanhado por um ajudante do alfaiate. Usava roupas escuras, sóbrias e perfeitamente ajustadas, um paletó bem cortado sobre o colete fechado, a gravata simples e discreta, como alguém que prezava mais pela correção do que pela ostentação.

Tinha o porte contido, mas firme, o rosto pálido, de traços definidos, e os cabelos escuros bem penteados, ainda que sem excessivo cuidado. Seus olhos claros varreram a rua com atenção breve, antes de se deterem na carruagem.

Ele e o ajudante seguiram até onde estavam as malas, e o rapaz permaneceu ao lado, em silêncio, enquanto o ajudante acomodava cuidadosamente as roupas recém-compradas dentro do malão do cavalheiro.

O rapaz agradeceu ao ajudante com um aceno breve e aproximou-se então de Charles, ajustando as luvas como quem já se preparava para a viagem.

— Estou pronto para partirmos, senhor Williams — disse com voz contida, porém segura.

Foi nesse instante que notou Winnie. Seus olhos repousaram sobre ela por alguns segundos a mais do que o estritamente necessário, antes que ele se recompusesse.

— Senhorita — cumprimentou, com leve inclinação de cabeça.

Winnie correspondeu de imediato, em igual cortesia.

— Senhor Harrow, permita-me apresentá-lo — disse Charles, com certo orgulho. — Esta é minha estimada amiga, a senhorita Winnifred. Ofereci-lhe carona até Ashford. Ela seguirá na boleia comigo… caso não se oponha. Será companhia e, se preciso, auxílio durante o percurso.

Arthur ergueu levemente as sobrancelhas, lançando a Charles um olhar rápido, curioso, antes de voltar-se para ela.

— A viagem até Ashford não é curta, senhorita — observou, em tom ameno. — Posso saber se é por negócios ou por destino definitivo?

Winnie percebeu o interesse contido na pergunta e respondeu com serenidade.

— Por ora, apenas uma oportunidade, senhor. Espero que me seja favorável.

Isso pareceu satisfazê-lo. Um quase sorriso lhe tocou os lábios.

— Sendo assim, não vejo motivo algum para objeção, disse ele. — Arthur Harrow, à sua disposição, senhorita Winnifred.

Ele pronunciou seu nome com cuidado e suavidade, como se quisesse gravá-lo. Winnie sentiu o calor subir-lhe discretamente ao rosto e baixou os olhos por um instante, surpresa consigo mesma por notar, tão prontamente, o quanto ele era bonito.

— É um prazer — respondeu, recuperando-se logo. — Agradeço-lhe a gentileza.

Arthur inclinou a cabeça mais uma vez.

— Creio que a viagem será mais agradável do que imaginei, comentou, lançando um olhar significativo a Charles, antes de voltar-se novamente para ela.


Notas finais
Tentarei sempre postar toda semana, e porque eu trabalho....