A Rosa do Outono

3 Capítulo 2


Notas iniciais
Desculpa ter demorado a postar, sou insegura com a escrita e tambem trabalho o dia inteiro, como faço faculdade, então o meu ritmo e um pouco lento. Porem espero que gostem.

Arthur Harrow encontrava-se estranhamente desconfortável naquela carruagem. Não por falha do veículo, tampouco pela presença de uma dama a bordo circunstância que, em outros tempos, lhe teria parecido apenas apropriada, mas por um estado de inquietação constante que se recusava a abandoná-lo desde a partida.

A viagem parecia arrastar-se com deliberada lentidão. O tempo, ao que tudo indicava, havia decidido não cooperar. Arthur apoiava o olhar na janela, como se a simples insistência pudesse fazer surgir, por encanto, Ashford House no horizonte. No entanto, tudo o que lhe era concedido era o verde contínuo dos campos, pontuado aqui e ali por uma carruagem em sentido contrário ou por uma casa solitária, erguida como se tivesse sido esquecida pelo mundo.

Com um suspiro contido, tornou a retirar do bolso interno do casaco a carta timbrada, o selo do duque ainda intacto, imponente mesmo após tantas leituras. Passou os olhos pelo papel uma vez mais, embora soubesse cada linha de cor. O desejo de encontrar-se com ele misturava-se a uma apreensão antiga, quase infantil.

A última vez que se haviam visto fora nos terrenos de Oxford, quando Arthur ainda mal compreendia a extensão do que lhe era oferecido. Fora deixado ali para iniciar os estudos em Direito, um gesto que, mesmo agora, lhe parecia improvável. O homem jamais lhe negara sustento, jamais falhara em cumprir seus deveres e ainda assim, a convocação repentina reacendia perguntas que Arthur aprendera a manter em silêncio.

Dobrou a carta com cuidado e tornou a guardá-la, endireitando-se no assento.

As horas avançavam sem qualquer delicadeza. Arthur retirou novamente o relógio de bolso do colete; os ponteiros marcavam quase duas da tarde. Tornou a guardá-lo com um estalo seco e deixou escapar um suspiro breve quando sentiu a carruagem diminuir o ritmo até enfim parar.

Reconheceu o lugar antes mesmo de observá-lo com atenção. Sabia o que vinha a seguir e, ainda assim, não demonstrou entusiasmo.

O cocheiro desceu com agilidade e abriu a portinhola.

— Senhor Harrow, chegamos à estalagem Cardo do Rei — anunciou. — A comida é bastante apreciada por viajantes da estrada. Caso deseje se servir, cuidarei dos cavalos enquanto isso. Partiremos em breve e, mantendo o ritmo, chegaremos a Ashford ao início da noite.

Arthur assentiu com educação e desceu, ajeitando o sobretudo antes de entrar.

A estalagem era simples, porém bem cuidada. O salão principal exalava o cheiro de caldo quente, pão recém-assado e madeira antiga. Havia poucas mesas ocupadas: viajantes solitários, um casal em silêncio e dois homens discutindo em tom baixo perto da lareira.

Antes de pensar em comer, Arthur dirigiu-se discretamente ao fundo do estabelecimento, seguindo a indicação do estalajadeiro. O aposento destinado às necessidades ficava fora da construção principal, protegido por uma pequena estrutura de madeira. Ali, em reservado, fez uso da latrina, lavando as mãos em uma bacia de água fria disposta logo à saída, secando-as em um pano grosseiro, como era de costume.

Ao retornar, sentou-se à mesa mais afastada. Não sentia verdadeira fome, mas a prudência falava mais alto. Pediu um caldo simples e um pedaço de pão, que consumiu lentamente, sem pressa, mais atento aos próprios pensamentos do que ao sabor.

A mente de Arthur avançava em círculos, incapaz de repousar. Em breve pisaria naquela residência e, embora conhecesse cada corredor apenas por lembranças distantes, não conseguia antecipar o que o aguardava agora.

Pensava no duque. Sabia que a duquesa falecera havia sete anos. O filho mais velho, o herdeiro legítimo, morrera cinco anos antes. O segundo, menos de um ano atrás. Restava apenas ele. John Harrow, o Duque de Ashford envelhecido, adoecido e sozinho em Ashford House.

Mas seriam apenas os dois?

E os criados? Reconheceriam-no? Observá-lo-iam com aqueles olhares contidos, carregados de especulação, próprios de quem sabe mais do que diz? O bastardo de um duque, carregando ainda por cima o mesmo sobrenome do pai. Harrow.

Sim, Arthur era filho ilegítimo do Duque de Ashford. Um fato conhecido por pouquíssimos e, ainda assim, jamais verdadeiramente oculto. Não era comum que um bastardo herdasse o nome do pai, e isso alimentava murmúrios silenciosos.

A versão aceita era conveniente. Dizia-se que sua mãe fora uma viúva pobre, ligada a um parente distante e sem qualquer nobreza, a quem o duque, por caridade cristã, decidira amparar. Que apadrinhara o menino por misericórdia, nada além disso.

Mas ninguém ignorava o óbvio.

Arthur era a imagem do duque em juventude. O mesmo porte, os mesmos traços severos, o mesmo olhar atento demais para ser apenas coincidência. Por isso, mesmo quando nada era dito, ele era sempre observado.

Ele e a mãe viveram com dignidade. Nunca em luxo ostensivo, mas jamais em necessidade. O duque, sempre à distância, cuidara de tudo com discrição: boas escolas, tutores adequados, uma formação impecável. Eton. Oxford. O Direito. Tudo cuidadosamente providenciado.

Na infância, via-o em datas específicas, encontros breves e formais. Na adolescência, ainda menos frequentes. Quando adulto, quase nunca. A comunicação passou a existir sobretudo por cartas, escritas com a mesma frieza educada que marcava todos os gestos do duque.

Nos últimos anos, até isso cessara.

Sua mãe lhe contara a verdade quando julgara que ele tinha idade suficiente para suportá-la. Arthur jamais soubera a extensão do envolvimento entre ela e o duque. Apenas que fora governanta em Ashford House. Que tudo chegara ao fim no instante em que a duquesa descobrira. Que partiram em silêncio, sem escândalo, como se nunca tivessem existido ali.

E agora, depois de tantos anos, uma carta.

Escrita pela mão do próprio duque.

Solicitava sua presença. Não em qualquer lugar, mas na residência principal. E o motivo, ainda que não declarado em detalhes, era claro: John Harrow encontrava-se gravemente enfermo.

Arthur fechou os olhos por um instante.

Porém algo o arrancou de seus devaneios. Um som súbito de espanto cortou o burburinho baixo da estalagem, seguido por um silêncio desconfortável. Arthur ergueu os olhos e reconheceu, quase de imediato, a jovem que seguia de carona na carruagem.

A confusão se desenhava diante dele.

O encarregado do serviço, um rapaz franzino e mal-apessoado, havia se aproximado das mesas com as tigelas fumegantes apoiadas em uma bandeja. No instante em que passou junto à mesa da senhorita, tropeçou. A tigela escorregou-lhe das mãos e todo o conteúdo se derramou sobre o vestido dela, espalhando-se pela saia em manchas quentes e escuras.

— Céus… — exclamou a senhorita Winnifred, erguendo-se num sobressalto. — O senhor deixou cair em mim!

Ela levou as mãos ao tecido encharcado, mais aflita pelo estrago do que pelo calor da sopa. O vestido, simples e claro, agora estava irremediavelmente manchado.

— Eu… eu não tive culpa — disse o rapaz, apressado, olhando em volta como quem procura socorro. — A senhorita se mexeu de repente.

— Isso não é verdade — respondeu ela, num tom contido, porém trêmulo. — Eu estava sentada. A sopa era minha, eu já havia pago por ela.

Algumas cabeças se voltaram na direção deles. Um casal interrompeu a conversa. Um viajante mais adiante apoiou o cotovelo na mesa, curioso. O silêncio foi se tornando pesado.

O estalajadeiro aproximou-se com passos firmes, o semblante fechado.

— O que está acontecendo aqui? — perguntou, avaliando rapidamente a cena.

O rapaz não hesitou.

— Foi um descuido dela, senhor. Moveu-se quando eu estava servindo.

Winnie abriu a boca para protestar, mas a voz lhe saiu baixa demais.

— Não foi assim… — insistiu. — O vestido… olhe o meu vestido.

O homem lançou-lhe apenas um olhar rápido, depois voltou-se para o empregado.

— Tenha mais cuidado da próxima vez — disse, como se o assunto estivesse encerrado. Então voltou-se para ela. — A sopa já foi servida. Se desejar outra, terá de pagar novamente.

Ela empalideceu.

— Mas eu já paguei — disse, quase num sussurro. — E foi um acidente que não causei.

O estalajadeiro deu de ombros, indiferente.

— Não posso arcar com prejuízo. As regras são claras.

O rubor subiu-lhe ao rosto de uma vez, tingindo-lhe as faces e o pescoço. Sentia os olhares sobre si como pequenas agulhas. Apertou a pequena bolsinha que trazia consigo, passando os dedos nervosos pelo tecido gasto, calculando mentalmente as poucas moedas ali dentro. Não havia margem para erro. Não havia sobra para caprichos, nem para injustiças.

— Não será necessário — disse por fim, baixando os olhos. — Ficarei sem a refeição.

Houve um breve murmúrio ao redor. Alguém desviou o olhar. Outro continuou observando sem pudor.

Ela sentou-se novamente, rígida, tentando alisar inutilmente o tecido manchado do vestido. O rapaz do serviço afastou-se aliviado. O estalajadeiro já havia perdido o interesse.

Arthur, ainda em sua mesa, acompanhara tudo em silêncio. E foi naquele instante, ao vê-la engolir o constrangimento com uma dignidade frágil e dolorosa, que decidiu que não permaneceria apenas como espectador.

Ele pegou a sua tigela e os pães e foi até a mesa dela. Winnie ergueu o olhar de súbito, o espanto evidente em seu rosto, como se não soubesse onde pousar os olhos ou as mãos.

Arthur chamou o jovem novamente, com um gesto contido.

— Traga outra sopa — disse, num tom firme, porém baixo. — Eu pagarei por ela.

Retirou algumas moedas do bolso do casaco e estendeu ao rapaz, que as recebeu sem ousar questionar.

— Não precisa, senhor… — Winnie respondeu de imediato, a voz apressada, quase tropeçando nas próprias palavras. — Já está resolvido. Eu… eu ficarei sem.

Ele voltou-se então para ela, com a expressão séria, mas educada, como quem mede cada frase antes de pronunciá-la.

— A senhora não deveria ser privada de uma refeição por algo que não causou — disse simplesmente.

Ela desviou o olhar, o rubor subindo-lhe às faces, consciente dos olhares curiosos ao redor.

— Ainda assim — insistiu, com delicadeza —, não gostaria de causar-lhe incômodo.

Arthur pousou a tigela sobre a mesa dela, como se encerrasse a discussão sem necessidade de novas palavras.

— Considere apenas um gesto de cortesia — respondeu. — Nada além disso.

E sentou-se à sua frente, retomando a própria refeição com aparente tranquilidade, enquanto o salão, pouco a pouco, voltava ao seu murmúrio habitual.

Ela comeu em silêncio, mantendo o olhar cauteloso sobre ele por entre pequenas colheradas. Em alguns momentos, desviava os olhos e um leve rubor lhe subia às faces, denunciando o desconforto que tentava esconder. Arthur arqueou discretamente uma sobrancelha, percebendo o gesto, mas não se atreveu a perturbá-la. Não era uma situação que pedisse palavras.

Sem perceber quando começara, passou a observá-la com mais atenção. Havia algo curioso na cor de seus olhos. Verdes? Talvez azuis. Ou uma mistura inquieta de ambos, impossível de definir com precisão. Uma tonalidade rara, pensou, quase intrigante. Ela estava prestes a terminar a refeição quando, sentindo-se observada, ergueu o olhar e o encontrou.

— Senhor? — disse ela, hesitante.

— Sim? — respondeu ele, despertando do próprio devaneio.

Ela tornou a baixar os olhos por um instante, como se organizasse os pensamentos, e então falou:

— Agradeço pela refeição. Irei me retirar agora… tentarei limpar minha roupa.

Levantou-se com certa pressa, ainda um pouco sem jeito, e antes que ele pudesse dizer qualquer coisa, afastou-se, desaparecendo entre as mesas da estalagem. Arthur permaneceu onde estava, em silêncio, por um motivo que não soube nomear naquele instante, apenas acompanhando com o olhar o espaço que ela deixará para trás.

***

Pouco depois, Arthur estava novamente na estrada, acomodado na carruagem. O restante da viagem deveria durar três, talvez quatro horas, segundo o cocheiro. Não tornara a ver a senhorita desde a estalagem. Quando retomaram o percurso, avistara apenas um breve vislumbre de um vestido à frente, sentado na boleia, e nada mais.

O relógio de bolso voltava às suas mãos com frequência excessiva, assim como a carta, já amassada de tanto ser aberta e fechada. A ansiedade lhe roçava os nervos de maneira constante, quase insuportável. Ainda assim, contra sua vontade, a lembrança daqueles olhos insistia. Verdes… ou azuis. Uma cor que se recusava a ser definida.

Fazia tempo que não permanecia tão próximo de uma mulher por tantas horas. O tédio da viagem, somado ao peso do que o aguardava, tornava sua mente propensa a divagações. Ela não parecia pertencer a uma família de posição. Viajava sozinha, sob a proteção informal de um cocheiro, o que, aos olhos da sociedade, não deixava de ser curioso. Ainda assim, não se mostrara excessivamente desconfiada quando ele se sentara à mesa, como muitas damas fariam.

Arthur reconhecia, com certa franqueza consigo mesmo, que não dominava todas as sutilezas das convenções sociais. Algumas regras lhe escapavam, outras lhe pareciam arbitrárias demais para merecer atenção.

Talvez aquela viagem lhe rendesse uma distração. Não era um libertino, mas tampouco se considerava um santo. Tivera suas aventuras, como qualquer homem de sua idade e posição. E, naquele momento, a simples possibilidade de desviar o pensamento do que o aguardava em Ashford lhe pareceu perigosamente tentadora.

Ficou pensando. Aquela senhorita era bonita, de cabelos escuros e daqueles olhos difíceis de definir. Havia nela um bom porte, algo que imediatamente lhe despertara o interesse. Perguntou-se, então, se ao chamá-la para dentro da carruagem ela permitiria que ele lhe desse algumas estocadas. Ou, no mínimo, alguns beijinhos. Ou seria ainda virgem?

Perguntas. Apenas perguntas.

Arthur olhou em volta, avaliando o espaço da carruagem, imaginando se seria possível fazer algo ali sem que o cocheiro ouvisse. Pensou se ela seria daquelas que faziam muito barulho ou se permaneceria rígida, deixando que o cavalheiro fizesse tudo sozinho, em silêncio.

Distraiu-se com esses pensamentos, alimentando-os, enquanto arquitetava mentalmente como poderia atraí-la para dentro da carruagem.

Ele não sabia dizer se Deus ouvira seus pensamentos, mas a mudança do tempo foi súbita. A chuva começou a tamborilar contra a madeira da carruagem, primeiro tímida, depois insistente, como se o céu tivesse decidido desabar de uma vez. Arthur só percebeu o quanto o tempo havia fechado quando o som se tornou quase ensurdecedor.

Incomodado, bateu duas vezes com os nós dos dedos na parede interna da carruagem, um gesto curto e firme, como mandava o costume. Poucos instantes depois, a carruagem diminuiu o ritmo até parar, e o cocheiro surgiu à pequena janela lateral, protegendo-se como podia da chuva.

— O senhor chamou, senhor? — perguntou ele, respeitoso.

Arthur inclinou-se ligeiramente para a frente.

— Senhor Murray — disse, num tom calmo, quase casual —, creio que não seja apropriado que uma dama viaje exposta a este tempo. A senhorita está na boleia, não está? Com essa chuva, pode adoecer. Peço que lhe ofereça abrigo aqui dentro.

O cocheiro hesitou apenas o necessário para manter as formalidades.

— Irei perguntar à senhorita Winnifred se deseja vir, senhor — respondeu, antes de se afastar.

A chuva engrossou ainda mais, martelando o teto da carruagem. Arthur não conseguiu ouvir o que foi dito lá fora, mas poucos momentos depois a porta se abriu.

A senhorita surgiu com o rosto impassível, os cabelos escuros levemente úmidos, e o tecido do vestido colado ao corpo pela chuva. Ao entrar, trouxe consigo o cheiro de água fria e estrada. Arthur sentiu um leve estremecer ao notar, apesar de si mesmo, o contorno discreto de suas curvas sob o pano pesado.

Ela acomodou-se com compostura, sem dizer mais do que o necessário.

E ele soube, naquele instante, que teria ali uma distração mais eficaz do que qualquer paisagem ao longo do caminho.

Ele notou então que a senhorita tremia levemente, como folha ao vento, o tecido ainda úmido colado ao corpo denunciando o frio.

— Está com frio, senhorita Winnifred? — perguntou com cautela, mais para quebrar o silêncio do que por real ousadia.

Ela pareceu hesitar por um instante, como se não quisesse impor-se.

— Não… não me incomoda, senhor Har— — interrompeu-se, percebendo o erro quase no mesmo instante.

— Harrow — corrigiu ele, com suavidade, sem qualquer dureza.

Um rubor imediato subiu-lhe ao rosto.

— Harrow — repetiu ela, mais baixa, desviando o olhar.

Winnie voltou-se então para a pequena janela da carruagem, observando a chuva que riscava o vidro e o espaço fechado ao redor, como se ainda se acostumasse àquela proximidade inesperada.

— Já esteve numa carruagem fechada antes? — perguntou Arthur, num tom casual, embora atento.

— Sim… — respondeu ela, após um breve silêncio. — Mas faz muito tempo.

A voz embargou por um segundo, como se alguma lembrança tivesse aflorado. Logo, porém, sua expressão se suavizou, recomposta, e ela voltou a manter a postura correta, mãos unidas sobre o colo.

O silêncio que se seguiu não era desconfortável — apenas carregado de coisas não ditas.

Ela tremia de fato. Não era apenas nervosismo; o frio começava a vencer a resistência do corpo ainda úmido pela chuva.

Arthur percebeu, quase contra a própria vontade. Após um instante de hesitação, retirou o sobretudo de lã escura que usava por cima do paletó, peça comum e bem cortada, própria de um cavalheiro em viagem.

— Desse modo acabará adoecendo — disse, em tom baixo, como se fosse uma constatação simples.

Ela recuou instintivamente, surpresa com o gesto, mas ele já havia se aproximado pelo banco estreito da carruagem. Com cuidado, colocou o casaco sobre os ombros dela, ajeitando-o para protegê-la melhor do frio.

Por um breve momento, ficaram próximos demais.

Arthur ergueu o olhar e então a encarou com mais atenção do que deveria. Os olhos dela tinham aquela cor indefinida, algo entre o verde e o azul, mudando conforme a luz fraca que entrava pela janela.

— A senhorita tem olhos muito belos — disse, quase sem perceber que falava em voz alta.

O efeito foi imediato. O rosto de Winnie se incendiou num rubor intenso, vivo, como fruta madura ao sol.

— Sinto-me… lisonjeada, senhor — respondeu ela, com evidente constrangimento, afastando-se um pouco pelo banco, como se precisasse recuperar espaço e compostura.

O sobretudo, porém, permaneceu sobre seus ombros.

E o silêncio que se seguiu pareceu ainda mais denso do que antes.

Arthur voltou a observá-la por alguns instantes antes de tornar a falar. A carruagem avançava num ritmo constante, o som dos cascos misturando-se ao tamborilar distante da chuva no teto de madeira. A luz que entrava pela janela era difusa, suficiente apenas para desenhar contornos.

— E o que leva a senhorita a Ashford? — perguntou enfim, num tom deliberadamente casual. — Londres, ao que me parece, oferece oportunidades mais vastas para alguém… da sua idade.

Ela ergueu o olhar de imediato, como quem se vê levemente desafiada.

— Alguém da minha idade? — repetiu, arqueando a sobrancelha com uma dignidade inesperada. — O senhor não aparenta ser muito mais velho do que eu.

Houve um breve silêncio. Arthur esboçou um meio sorriso, mais de surpresa do que de divertimento.

— Não tive intenção alguma de ofendê-la — respondeu. — Apenas achei curioso vê-la desacompanhada, viajando para uma cidade do interior. Não é o percurso mais comum, sobretudo para uma dama sozinha.

— Dama — ela repetiu, com suavidade, mas havia ali uma ponta de ironia. — Sou uma mulher que recebeu uma boa oportunidade de trabalho em uma casa respeitável, de uma família de nome. Algo que não posso me dar ao luxo de recusar.

Ela ajeitou discretamente o sobretudo sobre os ombros, como se reafirmasse a própria compostura antes de continuar:

— E já que o senhor se permite curiosidade, devo confessar que também me surpreendeu vê-lo tão bem vestido a caminho de Ashford. Não é exatamente o tipo de lugar que exige tamanha elegância… ao menos não para um simples viajante.

Arthur inclinou ligeiramente a cabeça, reconhecendo o ponto. O olhar dele, até então atento, tornou-se mais cauteloso.

— Digamos que não viajo por lazer — respondeu, escolhendo as palavras. — Há assuntos familiares que exigem minha presença.

— O senhor é advogado, pelo que ouvi dizer — comentou Winnie, com uma inflexão quase travessa na voz. — Vai processar alguém?

Arthur inclinou levemente a cabeça, avaliando-a.

— Não irei — respondeu.

Ela franziu o cenho.

— Ainda assim… não sabia que se podia processar parentes.

Ele soltou um pequeno suspiro, como quem já dera aquela explicação antes.

— Não se processa o parentesco — começou, paciente. — O que se questiona são atos jurídicos. Testamentos mal executados, tutorias abusivas, administração indevida de bens. A lei inglesa permite que se conteste a validade de documentos, a omissão de direitos ou o uso impróprio de propriedades, mesmo quando envolvem membros da mesma família.

Arthur percebeu o olhar dela perder o foco em algum ponto do discurso.

— Naturalmente — continuou — isso passa pelo Court of Chancery, o que torna tudo mais… moroso. E desgastante.

Winnie piscou algumas vezes.

— Entendo… acho — respondeu, com certa hesitação. — Confesso que assuntos jurídicos sempre me pareceram… excessivamente secos.

O canto da boca dele se moveu num quase sorriso.

— Não é uma opinião incomum.

— Fui criada por uma tutora bastante rigorosa — disse ela, endireitando-se um pouco no assento. — Para ela, a mente devia ser cultivada com o que elevava o espírito. Música, línguas, pintura. Não havia grande apreço por números ou leis naquela casa.

— E a senhorita se deu bem sob tal disciplina? — perguntou ele, curioso.

— Sobrevivi — respondeu, com um lampejo irônico nos olhos. — Aprendi piano. Um pouco de Mozart, algumas peças de Clementi. Minha tutora insistia que a música moldava o caráter… ainda que eu suspeite que moldava mais a paciência.

Arthur a observou em silêncio por um instante mais longo do que o necessário.

Piano.

Clementi.

Aquilo não era aprendizado comum.

— Não é o tipo de formação que se encontra com facilidade — comentou. — Especialmente fora de certos meios.

Ela desviou o olhar para a janela, como se a paisagem subitamente exigisse atenção.

— As circunstâncias mudam — disse apenas.

Houve algo na forma como fechou o rosto, no modo como encerrou o assunto sem levantar a voz, que despertou nele uma curiosidade cautelosa. Não era timidez. Tampouco ignorância.

Era contenção.

Arthur apoiou-se melhor no banco, sentindo que aquela jovem carregava mais história do que deixava escapar. E, pela primeira vez desde o início da viagem, a ansiedade que o acompanhava deu lugar a outra sensação, mais sutil.

Interesse.

A conversa foi rareando à medida que a paisagem começou a mudar, mas o silêncio que se instalou era tudo menos pacífico. Arthur percebeu a mudança antes mesmo de ver as primeiras construções: o balanço da carruagem tornara-se mais regular, as rodas já não lutavam contra sulcos profundos. Ele tentou focar no exterior, lançando um olhar pela janela.

— Parece que tivemos sorte — comentou, a voz saindo mais rouca do que planejava. — Com a chuva que caiu, eu esperava um atraso considerável.

A senhorita acompanhou o olhar dele. O movimento fez com que o sobretudo de Arthur, que ainda envolvia os ombros dela, deslizasse levemente. Ele notou. Notou como o tecido pesado de sua própria roupa contrastava com a curva delicada do pescoço dela. Arthur sentiu um aperto familiar no baixo ventre. Desde que ela entrara na carruagem, o espaço parecia ter encolhido. O cheiro de chuva e o perfume sutil de sabão dela preenchiam seus pulmões.

Ele se pegou imaginando com uma crueza que o surpreendeu como seria despir as camadas daquele vestido úmido. Se ela reagiria com um choque casto ou se entregaria ao calor que parecia emanar daquela proximidade. Alguns beijinhos? Algumas estocadas? O pensamento pecaminoso atravessou sua mente de advogado, fazendo-o apertar o punho sobre a perna.

— Talvez seja um pequeno milagre — disse ela, em tom leve, tirando-o de seus devaneios. — Ou apenas boa manutenção das estradas.

Arthur soltou um breve riso, baixo, seus olhos fixos agora na boca dela enquanto ela falava.

— Prefiro acreditar no milagre. Não costumo ter muitos ultimamente.

O cocheiro diminuiu o ritmo bruscamente para contornar um buraco lamacento da entrada do povoado. O solavanco fez com que Winnie se movesse instintivamente para a frente. Arthur reagiu como um predador que encontra sua oportunidade: em vez de apenas segurar o braço dela, ele apoiou a mão firmemente na cintura dela, puxando-a para manter o equilíbrio. O toque foi firme. Ele sentiu a estrutura do espartilho e a maciez por baixo dele. Winnie congelou, as mãos espalmadas contra o peito de Arthur para se sustentar. Seus rostos estavam a centímetros de distância.

Por um breve momento, nenhum dos dois se moveu.

Arthur sentia a respiração dela curta, irregular. Sabia que deveria soltá-la, que estavam a poucos minutos da propriedade do duque, que o aguardavam obrigações, cartas e um pai difícil. Mas tudo isso parecia distante demais diante do que tinha agora, tão perto.

— Senhorita Winnifred… — murmurou, e o nome dela soou mais íntimo do que pretendia.

Não houve tempo para ponderações. Sua mão subiu da cintura para a nuca dela, os dedos encontrando os cabelos ainda ligeiramente úmidos. Aproximou-se devagar, como se lhe desse a chance de recuar.

— Perdoe-me — sussurrou, os lábios quase tocando os dela.

O beijo começou contido, breve, um teste silencioso. Arthur estava atento a qualquer sinal de recusa. Mas Winnie não se afastou. O leve suspiro dela foi resposta suficiente.

Ele aprofundou o gesto apenas o necessário para torná-lo inegável. Não houve pressa, nem descontrole, apenas a urgência de alguém que precisava, ainda que por um instante, esquecer tudo o que o esperava.

O ranger das rodas sobre o cascalho e a desaceleração definitiva da carruagem quebraram o momento.

Arthur se afastou imediatamente, o coração batendo forte demais para o seu gosto. Recuou para o outro lado do banco, recompondo-se com rapidez treinada, ajustando a gravata, o semblante já controlado.

Winnie permaneceu imóvel por um segundo a mais, o rosto tomado por um rubor intenso. Ajustou o sobretudo dele sobre os próprios ombros como se aquilo lhe desse algum abrigo.

Do lado de fora, o cocheiro desceu, os passos ecoando próximos à portinhola.

— Chegamos a Ashford — disse Arthur, a voz firme, os olhos fixos à frente, como se nada tivesse acontecido.

— Sim… chegamos — respondeu Winnie, em tom baixo.


Notas finais
Eu fiz uma cena de desejo e beijo, queria que avaliassem, se estar bem escrito ou preciso de uma boa critica. Porque estou aprendendo. Muito obrigada pela atenção e grata por ter chegado ate aqui.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.