A Rosa de O'Brian
3 Capítulo III
Senti o colar arranhando-me o pescoço quando o estúpido Rei O’Brian o arrancou-me do pescoço com violência. A corrente quebrou e o pingente ficou a reluzir contra as chamas das velas próximas. Meu pescoço ardia um pouco, e tal ardência escorregou-me por todo o corpo quando a vergonha ou mesmo humilhação que O’Brian me fazia de mim se apoderou. Vi um Esdras afoito pegar a jóia no chão e ralhar com o pai, como que suas palavras enraivecidas fossem ofender o imponente Rei, o qual mais parecia considerar o filho um bastardo. Também vi de relance um dos cavaleiros – o mais adorado pela família — aparentemente mover-se a fim de querer apartar a discussão.
O constrangimento me era tão intenso que por alguns segundos apenas congelei em minha expressão de susto, mas tão logo observei os olhares desafiantes das mulheres invejosas e os de compadecimento dos homens, exclamei:
— Mas porque fez isso? Se querias esta jóia era apenas solicitar-me.
A plateia nos assistia como estivéssemos numa complexa peça teatral cujo enredo parecia distante da coerência, então filho e Rei fitaram-me. O’Brian aproximou-se de mim ao ponto de arrancar-me um beijo, suas sobrancelhas unidas como fosse uma e a boca fechada numa linha de tensão me fez recear um pouco, pois que eu ainda não o havia visto tão absorto em cólera.
— Não me faça perguntas cujas respostas não saberá. E que fique claro que não quero você usando esta jóia tão cedo em sua vida. – Ameaçou-me, logo chamou seu adorado cavaleiro entregando-lhe a jóia e exigindo que nela desse um fim. – Sente-se e seja simpática com nossos convidados agora. – Ele terminou.
Como nada houvesse ocorrido ele volveu-se aos convidados ainda muito confusos e estupefatos e disse com afabilidade:
— Perdoem-me caros amigos! Sai-me um pouco das rédeas, realmente, mas meu filho deve saber que tem de pedir-me a permissão para trazer objetos desconhecidos ao meu castelo. Não costumo aprovar que traga coisas de outros lugares sem saber a procedência.... Vocês devem me entender, sim? Agora esqueçam o infortúnio do momento e se divirtam com a música e o banquete que já será servido. Mais uma vez, peço-lhes o perdão pelo constrangimento, e não se preocupem que já está tudo em ordem. – Mentiu ele.
Inconformada e desentendida de tudo, o desobedeci e recusei a sentar-me na cadeira de ouro da família Real. Esdras, astuto verbalmente, porém covarde em atitudes sentou-se a resmungar do lado da Rainha, a qual descansava a fronte na mão e tinha os olhos baixos, talvez ainda profundamente envergonhada por todo aquele cenário. Já a flagrei diversas vezes com mesma expressão e suponho que a rainha Helena seja tão infeliz quanto eu estou no momento.
Observei o cavaleiro chamado Daniel guardar meu colar no bolso da calça. Tive ímpetos de tomar-lhe a jóia, porém me arriscar aos olhos do Rei seria insensato, pois ele é deveras fiel às suas ameaças e eu ainda pretendo viver para um dia sair deste reino maldito. Então apenas me conformei em perder-me na multidão de convidados para que Esdras não me encontrasse e me entupisse o ouvido de lamúrias contra o pai. Neste ínterim, o cavaleiro de O’Brian seguiu-me com os olhos, decerto para depois denunciar-me ao seu senhor aonde eu estava indo, porém não me importei, pois esperteza para esconder-me não me faltava.
De forma gradual o baile voltara a normalidade. Conversas, risos e músicas já embalavam os nobres como o infortúnio de poucos minutos não houvesse ocorrido, inclusive, eu considerava cômico a aparente e defeituosa memória recente dos Taihenses, pois ainda que O’Brian cometesse algum erro drástico e injusto para com eles muitos se faziam de desentendidos ou logo esqueciam-se, mantendo-o sempre no poder com justificativas não muito plausíveis ou irrelevantes no momento, tais como sua clássica batalha contra as Bruxas Banshee vinte anos atrás onde, como muitos o julgam, fora destemido e livrara Tanhai do agouro. Não posso muito afirmar se todos os fatos que giram em torno deste marcante duelo foram verídicos, pois os anos correm e a história altera-se, por vezes, em mentiras ou em exageros e o que somente sei nesta pouca estadia em Tanhai é que O’Brian, atualmente, é um péssimo Rei que não mais sabe administrar as conta do reinado.
Acaso eu e meu querido Tio Lucius estivéssemos a par destas informações, de certo, não teríamos nos refugiado aqui um ano atrás. Ainda lembro-me muito bem o dia em que abandonamos nosso antigo reinado pertencente aos O’Connor – já um tanto dizimado por guerras e com escassez alimentícia – a fim de aqui encontrar prosperidade e paz.
— Será um nova vida, minha pequena. Logo nos acostumaremos...
Ele dizia-me cheio de esperanças no dia que partimos. Naquele momento eu não tinha muita fé nisto, apesar de saber que as dividias contraídas por Lucius nos impelia a fugir. Vivíamos momentos críticos e nenhuma ajuda familiar tínhamos visto que eram apenas nós dois; minha mãe, segundo ele, falecera em meu nascimento e meu pai ele desconhecia. Confesso que muitas dúvidas sobre minha origem me assombram e me entristecem. Lucius fora sempre minha única referência, porém o que sabe a respeito de meus pais para mim é muito escasso. Diversas vezes em meus interrogatórios suas respostas eram vagas e não me satisfaziam, pois era como se faltassem peças ao quebra-cabeça desenhado em meus pensamentos, entretanto, ao tempo em que amadureci, negligenciei algumas destas dúvidas e conformei-me em ter de seguir em frente.
Descansei no rosto a máscara que a rainha Helena entregou-me no dia em que, através de seus lábios finos fiquei a saber a data do baile em comemoração a meu infeliz noivado com Esdras, e fiquei a passear a esmo pelo salão, porém alerta à vestígios dele ou de seu cavaleiro concubino, o qual, por vezes, me esqueço o nome. O baile estava demasiado belo, estranhamente O’Brian empenhou-se em exigir a decoração mais suntuosa, e digo “estranhamente” porque estou a par de sua profunda resistência quanto a este noivado que, me é, no fundo, um desgosto...
Por ventura, tudo estaria muito mais belo caso os noivos realmente se amassem. Admito que em momento algum o príncipe fisgou-me ou me atraiu a atenção e com todo o agrado eu concederia meu lugar Real para qualquer uma das donzelas que invejam-me, entretanto um poder de decisão me escapa das mãos feito poeira visto a insistência de meu Tio Lucius ser intensa e esperançosa, pois acredita que uma vez casada com o Príncipe nossa vida mudará afortunadamente.
A música que ressoava era doce e animada, em meu íntimo eu realmente gostaria de dançar, porém como o objetivo era esconder-me fui descansar num pequeno banco em um corredor pequeno ao lado do salão. Dali eu ainda ouvia a cacofonia exaltante dos convidados, tudo parecia estar realmente muito divertido e, inclusive, eu suponho que notando minha ausência alguma moça decerto tentaria alguma investida com Esdras...
— Com licença, mas o baile é no salão ao lado, não no corredor. Estás perdida?
Um homem alto, trajado em belas vestes negra e com uma capa belíssima, aparentemente de veludo, indagou-me cortesmente. Ele me era familiar e seus olhos cinzas encaravam-me com uma curiosidade cômica.
— Não. Apenas estou descansando um pouco.
— Descansando de um baile que mal se iniciou?
— É.. – E sorri baixo – Que irônico, não é?
Ele sorriu no canto dos lábios. Seu cabelo loiro fora penteado todo para trás e a máscara descia até as bochechas de forma que estava um pouco complicado reconhece-lo apesar de permanecer a acha-lo familiar...
— Irônico? Sim, realmente. Permita-me? – E ele referiu-se a sentar-se ao meu lado. Me afastei permitindo-o – Irônico verdadeiramente seria dizer que a futura princesa não desfruta de amor pelo príncipe e mesmo assim se casará com ele em breve. Não concordas?
Pasma, pestanejei um pouco. Como um estranho ousava isso afirmar? Acaso estou falhando em simular minha paixão?
— Concordaria em primeiro dizer-me seu nome e a razão disto achar. – Respondi fitando-lhe os olhos.
— Bom, porque não me dizes primeiro o seu? Por vezes apresentações são desnecessárias quando o diálogo se faz mais relevante.
— Responda-me primeiro – O cortei imperativa
Em vez de encarar-me como eu já o fazia, o jovem desconhecido mirou um ponto invisível do corredor e no momento rira como estivesse a zombar-me ou algo parecido.
— Não se exalte, pequena Sora, digo, Madame... – Disse entre os mesmos risos
— Como sabes meu nome? – Eu pasmei mais ainda — A máscara não está aceitável o bastante para ocultar-me a identidade?
— Mas isso é demasiadamente simples. Não era você, a moça de vestido azul e cabelos castanhos que teve a jóia quebrada pelo Rei?
Oh sim. A apresentação formal e usual dos O’Brian já me denunciou as vestes e a identidade antes mesmo de eu tentar esconder-me com a máscara. É claro! Que tola.
— De certo – E lançando lhe um olhar avaliativo, acrescentei – Agora diga-me, estranho, porque razão achas que não amo o meu príncipe? Não te achas audacioso demais em fazer tal afirmação?
— Olhe, não me julgues mal por já saber teu nome e não revelar-te o meu. – Ele fez uma breve pausa e continuou — Perdoe-me, mas já deves saber que todo o reinado estar a par de quem tu és, com ou sem máscara...
E desviando a vista do corredor, ele volveu-se a mim; seus olhos cinzas fisgaram-me com intensidade, o que me esquentou as bochechas. Enquanto afoita eu ansiava por sua resposta, refletia como diabos um estranho estava tão a par de minha hipócrita paixão por Esdras, o qual, por ventura, deveria já estar enlouquecido a minha procura. Minhas mãos coçavam para arrancar-lhe do rosto aquela bela máscara de couro, pois seu silêncio já me incomodava.
— Vamos, responda-me! – Ordenei impaciente,
Ele sorriu no canto dos lábios e disse:
— Perdão Madame, mas o baile é em homenagem ao vosso noivado, então se amas teu futuro marido, não deverias estar ao seu lado em vez de escondida? É um tanto quanto contraditório, não achas?
E o estranho riu. Não um riso jocoso, mas sim desdenhoso. Ele ergueu-se e girou o corpo em direção ao salão, no entanto, antes que sumisse de minhas vistas, exclamei com ultraje:
— Ora essa, quem és tu? É ouro que pretendes ganhar com meu constrangimento?
— Se o Ouro ao menos fosse satisfazer-me... – Disse ele num tom suavemente emudecido – Peço agora que me dê a licença...
— Diga! Quem és afinal? Estás a me espionar? – O desafiei, pondo-me de pé
Então ele fez uma sutil reverência e abandonou-me em meio a pensamentos soltos e queixosos.
— Ora que audácia!
Quem afinal era e porque entreter-me com diálogos bobos? Não estaria ele com o intuito de ganhar algo em troca, quiçá ameaçando revelar a todos a hipocrisia de minha paixão por Esdras...? Que homem peculiar e que infelicidade é eu não saber quem és. É surpreendente como após a entrada de Esdras em minha vida, minha privacidade esvai-se como pó entre meus dedos.
Ainda muito intrigada e chateada, ergui-me disposta a encontrar Esdras antes que enlouquecesse e pusesse seus cavaleiros a minha procura. O baile desenrolava-se de uma forma pior a que eu imaginei; primeiramente o Rei realizou um desnecessário escândalo em função de um tolo colar e segundamente um anônimo me aparece com informações minhas tão intimas que um calafrio de medo escorreu-me pelo corpo.
Eu ainda jazia intrigada e em busca da razão do espetáculo funesto do Rei. Suponho no momento que ninguém detém uma justificativa plausível. Esta definitivamente não fora a primeira vez que já presenciei alguma exaltação do mesmo, de modo que acostumei-me com certos comportamentos estranhos seus, tais como não beber no mesmo copo de outra pessoa, não cear caso alguém sente em seu lugar a mesa, solicitar limparem seus sapatos todos os dias ainda que não fosse usá-los e, a principal, recusar-se frequentemente a apertar a mão de quem quer fosse caso estivesse suja. Já também ouvi rumores sobre seu mau humor usual. Em infelizes oportunidades o vi ralhar sem razão alguma com os criados, Esdras e até mesmo a Rainha.
Porém não se trata de um rei acomodado em questões de negócios (apesar de nem sempre saber administrar suas contas, como já disse) e guerras por territórios ou riquezas. Seu espirito audacioso, apinhado de honra e coragem mantem-se intacto, pois mergulha frequentemente em qualquer conflito que ameace sua autoridade ou seu povo, não medindo esforços se tiver de participar de alguma batalha apesar de seus muitos cavaleiros insistirem para não o fazer por não haver a necessidade ou por ele não ter mais a idade adequada para isto – 45 anos estranhamente não tão expressos em seus belos traços maduros de um aparente homem de vinte.
Em meu breve passeio entre os convidados mascarados e animados pela música ou pelo Gym, senti ímpetos de seguir rumo à saída e descansar como há tempos não fazia em minha humilde casa. Desde que Esdras iniciou seus cortejos e solicitou à meu tio a permissão para namorar-me, fui impelida a morar no castelo a fim de que nossos laços se estreitassem por sugestão dele. Não que me fosse desagradável ter tantos criados a me satisfazerem os desejos a qualquer hora; o príncipe deixou em grande evidência o desejo em ver-me satisfeita a todo o momento, no entanto meu coração jaz além de deparar-se com tal satisfação e como diversas outras moças tive de conformar-me à submissão ao poder masculino tanto de Esdras quanto de meu tio Lucius – insistente em ver-me desposada.
Perdida em meus pensamentos não logo percebi alguém me enlaçando a mão e puxando-me, ao virar os olhos azuis e penetrantes de Esdras fitavam-me intrigados.
— Porque vives a fugir de mim? – Indagou enquanto me embalava ao som de mais uma melodia
Desviei o olhar por não aguentar a pressão do azul de seus olhos e disse:
— Não vivo a fugir, você somente é disperso.
— Achas mesmo? – E ele girou-me assim como os demais casais – Se a dispersão me fosse tão característica eu estaria a imaginar, então, as diversas investidas que tantas donzelas me fazem – Ironizou a fim de atrair-me o ciúmes.
— Bom, então vejo ai que estás começando a ficar um pouquinho mais esperto, não é? – E ri, irônica
— Me desprezas como fosse um criado teu – Disse ofendido, após curto silêncio
— Não seja dramático. Eu estava apenas a vagar pelo salão, desejosa de encontrar algumas amigas que me afirmaram vir hoje.
Obviamente não havia amiga alguma, isto fora apenas um pretexto para eu desconversar o drama que logo ele iniciaria. Por vezes, o acho muito dramático sem razões plausíveis, tal como uma vez em que fui à igreja sem avisar-lhe e ele impôs à três cavaleiros que me procurassem por todas as redondezas. Ninguém me encontrou, é claro, talvez por acharem ser eu desprovida de fé por não viver a citar o nome de Deus ou Jesus, e quando ao castelo retornei defrontei-me com um Esdras absorto em melancolia e desespero.
Percebi que vários casais realizavam a mesma coreografia que a nossa e que aquela era a tradicional dança dos bailes. Ao longe e sentados nas cadeiras vermelhas e felpudas, jaziam o Rei e a Rainha; ela um pouco sorridente, tamborilando os dedos no braço da cadeira como estivesse contendo impulsos de dançar, e ele enfadado, com a cabeça a descansar na mão direita. Por breves segundos senti a intensidade de seu olhar sobre mim. Desviei os olhos.
— .... Você deveria confiar mais em mim, a propósito – Sugeri à Esdras
— E tu deverias procurar ser um tanto quanto mais amorosa. É assim que vais portar-se no dia do teu noivado? Fugindo de mim?
Olhei ao redor e observei inúmeros olhares de homens e mulheres direcionados a nós ou a mim, como estivessem a fazer a mesma indagação causando-me uma horrorosa pressão emocional.
— Perdão, mas como queres que eu aja, então? Não penses que irei submeter-me a todos os teus desejos por ser tua noiva.
Ele riu baixo e girou-me novamente, e neste momento o mesmo estranho que minutos atrás esteve comigo, passou por nós feito um vulto com sua capa farfalhando ao ar. Fora tão fugaz e chamativo que quase perdi-me na dança.
— Saibas que não adianta mascarar-se de tamanha audácia já que é isto o que mais me atrai em ti – Disse ele ainda entre risos. – Mas não quero te obrigar a nada, apenas gostaria que fosse um pouco mais doce comigo...
Enquanto muitos ali certamente desejavam beber até perder o juízo ou cair de exaustão após embalarem-se nos acordes animados entoados pelos músicos, eu somente gostaria de refugiar-
me longe dos braços possessivos de Esdras, o qual a mandato do ciúmes, talvez, transformaria meu cotidiano num inferno após o casório.
Numa nova tentativa de desconversar sua carência, eu disse intrigada:
— Afinal já sabes o que ocorreu com o juízo de teu pai?
Ele entortou os lábios e realizou um novo passo de dança
— Por enquanto ainda não. O que ele fez te foi uma ofensa enorme! Quanta audácia para um velho rabugento... Há de pagar-me – Respondeu envenenado de irritação
Um riso quase escapou-me dos lábios. Me é óbvio demais que aquelas eram puramente palavras soltas, pois decerto Esdras se curvaria à soberania do pai e meu momento de constrangimento jamais seria vingado. Não é de hoje que a covardia de meu futuro marido me é notória, algo que deveras me incomoda além de seu ciúme a beira do patológico. Inclusive agradeço as breves aulas de defesa e luta que Lucius me lecionou poucos anos atrás. Como os vários golpes ainda estão claros em minha mente, me tranquilizo quanto a saber defender-me acaso algum inimigo invada as propriedades do reinado uma vez que sei da possível incapacidade de defesa de Esdras.
— E o que vais fazer, então? – Questionei desafiadora
— No momento ainda não sei ao certo, mas acalma-te, pois a soberania de meu pai não perdurará mais por tanto tempo.
Encarei seus olhos azuis que me envolveram com uma firmeza não tão convincente. Ele sorriu no canto dos lábios e me beijou a bochecha suavemente buscando aliviar-me alguma tensão que supunha poder estar a me incomodar. A entonação ligeiramente rabugenta de suas últimas palavras não me deixou tão certa de que ele fosse, de fato, realizar algum feito contra o pai, pois além de temê-lo, no fundo reconhece não estar de todo apto a governar um reino entupido de parasitas loucos a usurpar-lhe o poder. A ocorrência de assassinatos misteriosos de algum membro real ultimamente tem-se tornado frequente nos reinados a fora. Recordo-me que quando Lucius e eu morávamos no reinado dos O’Connor; o filho mais velho do Rei fora encontrado morto em suas dependências sem qualquer sinal de ferimento ou sangue. Em desespero, o Rei exigiu a realização de uma intensa investigação pelo aposento a fim de encontrar algum veneno ou substância semelhante, entretanto tamanho esforço fora em vão e o motivo do falecimento de seu filho manteve-se no anonimato desde então.
Por este e outros motivos, Esdras mantem-se tão alerta, mas infelizmente tão covarde quanto a possibilidade de assumir o posto de seu pai após a morte deste. Não digo que não o compreendo, porém sua covardia é tamanha ao ponto de entre os amigos ser motivo de chacota como algumas vezes já notei.
Suspirei, e cansada de delinear tantos passos o pedi a licença para retirar-me.
— Se estás cansadas quem sou eu para impedir-te de ir descansar. Podes ir, porém saibas que hoje terás de dormir em meus aposentos. Creio que por já estarmos noivos podemos desfrutar deste privilegio. – Sibilou em meu ouvido enquanto acarinhava-me o rosto com a ponta dos dedos.
Estanquei e o empurrei sem calcular o uso da força
— Ao menos que eu esteja padecendo do juízo para aceitar esta tua proposta indecente!
Ansiosa para retirar-me, de imediato sai do alcance de Esdras sem mesmo observar em qual emoção seus belos traços moldaram-se. Ora essa que audácia! Que petulância! Enoja-me pensar que um dia terei de deitar-me juntamente a ele. Como eu gostaria que a voz feminina pudesse ser ouvida, assim muitos casamentos coagidos seriam desfeitos para a felicidade de diversas donzelas.
Em meu quarto descansei na cama e atirei a máscara para longe. Então lembrei do anel de noivado que já cintilava em meu dedo anelar, porém antes mesmo de eu tirá-lo com repulsa, batidas na porta me atraíram a atenção:
— Sobrinha querida! – Tio Lucius exclamou quando abri a porta calmamente no receio de ser Esdras já pronto para me importunar outra vez
Ele me puxou para um abraço caloroso e eu tentei disfarçar minha pouca animosidade.
— Desculpe chegar apenas agora, tive que resolver algumas coisas e acabei atrasando-me. – E olhou-me o corpo inteiro com um sorriso de orelha-a-orelha como estivesse a aprovar minhas vestes – Veja só! Estás lindíssima! Esdras não poderia ter escolhido donzela mais bela que você – Ele riu
— Quais conflitos te exigiram tanto? Senti tua falta neste baile
Tio Lucius fez um movimento qualquer com a mão a fim de dispersar-me a atenção de seus assuntos misteriosos e disse entre sorrisos que este não seria o mais apropriado a ser tratado, logo fez-me sentar na cama e acariciou meus cabelos enquanto olhava-me com profunda afeição. Tal atitude era um infeliz costume usual seu e acaso eu insistisse em desejar ouvir as respostas de seus lábios, dos mesmos viriam reclamações para que eu me aquietasse. Por esta razão já contabilizei diversas decepções por ele provocadas.
— O que importa é que aqui já estou. Procurei-te no salão que ainda está entupido de convidados, porém não te achei. Porque logo se recolheu?
— Já estou cansada meu tio, sabes que este casório não me é em nada agradável...
Seu sorriso murchou de imediato e, por um momento, achei que ele me forneceria o apoio necessário a desfazer todo este descontente cenário.
— Achei que já estavas contente o bastante em ter um destino afortunado por casar-se com um nobre... – Disse com um quê de decepção
— Como haveria eu de ficar contente em ser desposada por alguém que estou longe de amar? Francamente meu tio, se não fostes afortunado com o amor, por favor, não me rogue esta praga
— Não estou rogando-te praga alguma minha pequena, somente anseio por preservar teu futuro
Suas palavras eram acolhedoras, porém seus olhos um tanto quanto maliciosos eu poderia supor, como a satisfação em ver-me na família real fosse aquém de desejar prevenir meu futuro contra algum mau prenúncio.
— Preservando e jogando-me num covil de cobras...
Ele muxoxou alto e passou as mãos pelo rosto numa tentativa de não irritar-se por novamente debatermos aquele enfadonho assunto já muito arranhado.
— Pense em seu futuro como princesa. Quem sabe até te tornarás rainha! – Ele riu um pouco com presunção
Tio Lucius e suas manias de grandeza. Oh céus.
— Tudo bem, vamos encerrar este assunto. Fico feliz que tenha vindo me ver, pois faz tempo que não trocamos umas boas novas – E como ainda não havia feito ao longo da noite, sorri com verdadeira alegria.
É óbvio que ele me incomoda e me espeta a irritação quando seus comentários extremamente presunçosos e, por vezes, narcisistas me adentram os ouvidos. No entanto não posso de todo contrariar-me, pois que afinal é a única família que tenho e não poderei me desfazer jamais. Contou-me que cumprimentou os O’Brian, inclusive comprazendo-se com a rainha numa breve dança (o ciúme do Rei alcança a inexistência se comparado à do filho) e impulsionado pela saudade, logo veio a ter comigo. Ao longo de deliciosos minutos obtivemos um diálogo harmônico e recheado por risos altos. Informou-me que conseguira lucrar um pouco mais de ouro e que estava a desenvolver uma pequena horta nos fundos de sua residência. Sua empolgação era tamanha que até se permitiu comprar algumas vestes novas para, quiçá, atrair a atenção de alguma donzela.
Fiquei deveras contente por saber que sua vida seguia-se em momentânea paz e por vê-lo em júbilo nítido quando tomou-me as mãos para apreciar meu anel de noivado. Neste momento meu coração se acalmou um tanto por saber, apesar de minha profunda infelicidade, que eu estava a fazê-lo feliz.
“Pelo menos isso...” Refleti com melancolia a observar Lucius pegar o casaco já pronto a retirar-se no receio de a tempestade que os ventos gélidos delatavam viesse realmente. Preferi ocultar o vexame causado pelo irregular juízo de O’Brian para não o aborrecer. Embora queira inseri-me na família real nutre um desgosto pelo rei por motivos ainda não tão claros, de forma que isto me é um paradoxo latente, pois mesmo a repudiar meu sogro, à ele atira-me como mais uma de suas vítimas subservientes ainda que não saiba. Todos os residentes do castelo, da criadagem até os membros reais, são perante os olhos de O’Brian simplórias marionetes.
Ele abraçou-me longamente e beijou-me a testa com ternura paternal
— Venha visitar-me qualquer dia destes, minha querida. Desde que partira me sinto, por vezes, profundamente solitário e impelido a ter de conversar com as paredes – E riu de si mesmo
Em volta de seus olhos castanho-claro já se fazia nítido um pequeno enrugamento de pele, porém nada que deteriorasse seus traços belos de homem maduro que já muito labutou para oferecer-me uma vida cultivada em educação e conforto. A barba encontrava-se simetricamente bem-feita e ele cortara os cabelos negros de forma que os pequeninos e infinitos fios (uns já ligeiramente brancos em função do tempo) assemelhavam-se à pelugem de um porco-espinho.
— Decerto irei, meu tio, isto é, se Esdras não proibir-me a saída do castelo em função de algum ataque histérico que possa vir ter – Bufei acabrunhada
— Então já conseguiu ele domar-te? Ora essa, me admiro muito! – Gargalhou provocando-me
— Não vejo a graça que vês... O dia que ele conseguir submeter-me a seus caprichos terá de amarrar-me numa camisa de força!
— Minha jovem, não se prenda em tamanha pilhéria. Vejo que herdou realmente o gênio quase indomável de tua mãe Cath. – Aconselhou, encarando-me compadecido e um pouco risonho. – Não esqueças de ir visitar-me quando puderes. Adeus.
E tendo abandonado outro beijo em meu rosto, partiu afoito a cobrir-se com seu pesado casaco marrom.
Suspirei e não soube distinguir se de cansaço ou frustração quanto este meu destino repulsivo.
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