A Rosa de O'Brian
4 Capítulo IV
CAPITULO IV
Devo dizer que o baile ocorreu de forma verdadeiramente oposto ao o que imaginei. O vexatório inconsequente entre O’Brian e Sora jamais largará as muitas recordações do Taihenses. Tenho quase certeza, ademais porque um lazer adorado por eles é fofocar as maledicências do reinado ou falhas imperdoáveis de seus membros reais.
Porque um colar aparentemente valiosíssimo reproduziria tamanho asco em meu Rei? A incompreensão me chega a doer os neurônios, como estivessem a fritar entre tantos pensamentos queixosos. Acaso Esdras teve a imensa desventura de encontrar uma joia que fosse pertencente a outro Rei e por isso terminantemente proibida de obter outro dono? De fato, desconheço ainda uma causa justa para tentar compreender a fervorosa cólera de O’Brian, que neste momento descansa em seus aposentos, quiçá esfriando a mente para, mais tarde, ir ter com o filho a respeito deste assunto certamente comentado já por todos.
Uma chuva frívola nos embalou ao longo da noite. Trovoadas ressonantes fizeram-se ouvir entre curtos intervalos de tempos, sempre antecedidos por relâmpagos intensamente luminosos, tal como uma espécie de luz divina a busca de pecadores ocultos. O vento estava fustigo o bastante para arrebentar as vidraças de minha e outras casas, inclusive, a do meu quarto espatifou-se assustando-me na calada da noite. Apesar do cansaço do baile na noite anterior ter nos amortecido deveras, creio que muitos assustaram-se com esta tempestade somente aguardada no inverno, isto é, daqui uns cinco ou seis meses.
Ao início da alvorada, tão logo cheguei ao castelo para cumprir meu dever de lecionar ao Príncipe a arte da luta, soube através de uma criada que o porão do castelo estava ligeiramente alagado. Logo em seguida observei os criados deixarem os objetos molhados no campo a fim de secarem sob um sol cálido enquanto praguejavam a chuva maldita e inesperada. Por alguns instantes fiquei a ajuda-los; aquela atividade mecânica de pegar alguns itens molhados e larga-los ao sol me fez os pensamentos trabalharem e me guiarem ao baile.
É bem verdade que o desejo fulminante em ter Sora para mim exclusivamente ao longo da noite me atormentou a todos os minutos, em especial quando a vi mergulhada em vergonha durante o pequeno escândalo ainda inexplicável do Rei; minhas mãos coçaram para agarrá-la pelo pulso e leva-la à um local seguro onde ninguém a julgaria, algo que, com transparência fizeram naquele momento, exceto Esdras e a Rainha – alarmados com o desjuízo de O’Brian.
Após o infortúnio intrafamiliar, já trajado com uma capa negra, luvas de couro e a máscara – itens que ocultei tanto do Rei como do Príncipe a fim de que não me reconhecessem – perdi-me entre os alegres convidados em busca de minha amada que decerto fora priva-se em algum canto do castelo de possíveis cochichos ou questões inconvenientes. Meus olhos moviam-se ávidos a encontrar ao menos o rastro de seu vestido azul-celeste, porém mulheres risonhas surgiam-me como obstáculos ou casais colidiam-se comigo atrapalhando-me, inclusive ainda mais, pois deveria eu ser veloz antes que Esdras, em sua possessividade latente, a encontrasse tomando-a somente para si. Troy ainda trombou comigo já ligeiramente exaltado por conta do Gim, entretanto o afugentei impaciente, então ao fim do salão vi de relance a minha pista tão procurada.
O diálogo que tive com Sora fora para minha infelicidade tão breve quanto aquelas ligeiras chuvas de verão que recebemos apenas para nos refrescar momentaneamente. A principio fora amistosa, porém ao ver-me delongar o diálogo em observações a respeito de seus sentimentos superficiais pelo príncipe sem revelar minha identidade, fora tornando-se azeda como um limão por constar que, no fundo, minhas palavras eram verossímeis. Seus olhos inflamados de desconfiança me mapeavam o rosto tentando reconhecer-me. Ela mordiscava o lábio inferior vez ou outra, como numa espécie de tique nervoso – impaciente com minha identidade oculta — até que por fim ergueu-se ligeiramente irritada. E ai preferir retirar-me propositalmente a fim de atiçar-lhe mais a curiosidade em descobrir quem sou.
De certa forma fora tudo um pouco cômico, pois ainda que zangada estivesse, continuava belíssima e este seu gênio aparentemente indomável apenas alimentou a paixão que carrego no peito. Quanto a sua joia, não a destruí como o Rei mandou, em vez disso a carrego no bolso de minha calça, como mantivesse Sora junto a mim. Após concertar a corrente, pretendo ainda devolvê-la.
Mas afinal, não me entristeço de todo, pois aqueles breves minutos me foram um contento em meio à um baile de razões tão desgostosas. Reconheço minha profunda imprudência por nutrir profundos sentimentos afáveis à futura esposa de Esdras, no entanto, tal paixão me incapacita todo o juízo e eu realmente não sei o que fazer...
— Sabes se Esdras já está acordado? – Indaguei Alina, uma das criadas
— Certamente, pois os O’Brian já devem estar a fazer o desjejum, exceto o rei. A rainha nos solicitou para não o incomodar. Acredito que ainda deve estar muito cansado – Ela me respondeu entretida, limpando uma galinha que talvez tenha acabado de matar.
Toda a criadagem me respeitava e tratava-me muitíssimo bem, decerto porque a reciproca era a mesma; não me agradava humilhar aqueles que estavam abaixo de minha classe social somente por um puro prazer perverso. E Alina, além de ser parte da criadagem há anos, é também minha tia e irmã mais nova de Sabine. Ela sempre fora afetuosa comigo, de uma forma à beira do maternal, por vezes me fazendo indagar se por, talvez, não ter filhos projetava a mim toda esta áurea materna. Obviamente me era um deleite ser tão bem tratado, inclusive porque Sabine era um tanto quanto desprovida de tal instinto maternal.
— E porque chegastes tão cedo ao castelo? Vá divertir-se um pouco, criança. Hoje é sábado! – Ela indagou-me ainda entretida com a galinha morta. No canto dos lábios fez-se um sorriso maroto
— Vim apenas lecionar Esdras a lutar – E rindo acrescentei – Sabes como é patético vê-lo manejar uma espada
— Fales baixo! – Me repreendeu entre risos – Sabes que as paredes têm ouvidos e mato tem olho. Mas diga-me, gostaste do baile de ontem? Acaso provou minha torta de chocolate?
Alina era a cozinheira-chefe do castelo, seus dotes culinários eram famosos por todas as redondezas e os segredos de suas receitas ela mantinha a sete-chaves.
— Sim, diverti-me muitíssimo – Menti – E Infelizmente não degustei nenhum dos pratos que foram servidos
— Ora essa, que donzela foi esta que te privou da fome? – Ela rira audaciosa, limpando as mãos e fitando-me com seus claros olhos verdes
Pestanejei um pouco. Ainda que ela fosse doce comigo e em seus traços mais maduros eu pudesse encontrar confiança, jamais me atreveria a relatar-lhe o segredo que poderia conduzir-me à forca.
— Uma jovem moça que me apresentaram. Mas somente dançamos, nada demais. Eu, inclusive, estava cansado demais para delongas. – E fiz um gesto vago com a mão como não me importasse mais com a tal donzela
— Bom, mas tenho quase a certeza de que nenhuma donzela ontem presente estava tão bela quanto a menina Sora – Disse ela encarando um ponto qualquer – Digo isto porque encarregaram-me de ajudá-la a se arrumar, mas pobre menina, parecia tão triste! Por acaso viste que escândalo fora este que todos estão a comentar?
Suspirei com pesar enquanto os olhos negros e perspicazes de Sora invadiam-me a mente. Alina tinha toda a razão, apesar das vestes das demais moças serem mais adornadas que a da princesa, esta encontrava-se realmente encantadora em toda sua timidez, a qual, por ventura, lhe incutia um charme peculiar.
— Sim, Alina, eu estava presente. – E então brevemente lhe relatei o triste ocorrido a observando moldar a face ora numa expressão de pasmo ora em lamento.
— Mas que horror! É claro que já vi o Rei agir exaltadamente sem razões, mas não desta forma tão pública! – Concluiu horrorizada.
— Ninguém por quanto sabe a verdadeira razão por ele ter agido de tal forma... – Disse eu com lamento, com a face ruborizada de Sora em meus pensamentos.
Ela ficou um breve momento, já cortando delicadamente os pedaços da galinha morta, a refletir a respeito de meu relato, talvez se fazendo a mesma indagação que já tanto nos incomodava – Porque afinal o rei agira tão arrogantemente com Sora em razão de uma joia tão tola? Enquanto refletia também com meus botões e via que minha presença masculina já um tanto incomodava as criadas que me olhavam entre olhares furtivos de vergonha ou timidez, me despedi de Alina e segui ao aposento onde o rei guardava as diversas espadas colecionadas ao longo do tempo a fim de duas delas escolher para iniciar mais uma aula de defesa e luta com Esdras.
Anteriormente minha entrada ao covil real, eu já de antemão sabia que o castelo que era um local permanentemente frio. Línguas fofoqueiras contaram-me que o rei se tratava de um sujeito comumente isolado em seus próprios pensamentos obsessivos – fosse em referência ao desejo de ter seus sapatos sempre limpos, ou fosse em tentar ser um bom administrador, algo que por vezes não conseguia, de fato, ser. Seu usual humor ranzinza, de poucos risos e palavras rasas conseguia colar-se as paredes de sua fortaleza; quem ali adentrasse decerto não logo sentir-se-ia bem visto a frieza constituinte e costumeira de nosso rei inebriar todos os ângulos e cantos dali. Confesso que lerdei um tempo para cultivar a vontade de ter de vir aqui, pois a inospitalidade deste castelo é capaz de afastar quaisquer reles mortal.
E refiro-me à “covil real” pois como toda família, os O’Brian são criaturas complexas e cheias de demandas individuais, as quais nem sempre são respeitadas ou ouvidas por eles mesmos, desencadeando dai diversos conflitos muitas das vezes insolúveis, como dizem.
Helena, a rainha, é costumeiramente uma mulher também reservada. Não interfere nas decisões de seu marido ainda que saia prejudicada de alguma forma. Seus afazeres diários limitam-se em cobrar os serviços da criadagem, ouvir as diversas lamentações de Esdras, tocar piano umas duas vezes ao dia e trancar-se no quarto fazendo lá se sabe o que. É uma bela e madura mulher que tem todo o meu respeito. Nas poucas vezes em que com ela tracei uma breve prosa, seus olhos escuros sempre estavam um pouco cabisbaixos e o semblante ligeiramente carregado de uma estranha melancolia. Me indago se feliz seria. Seu comportamento reservado somado a voz baixa e cautelosa faz-me interpretá-la como uma jovem mulher sábia, no entanto vê-la submetida ás arrogâncias do Rei me faz cair em contradição.
Já Esdras... Bom, deste eu me poupo de bons adjetivos! Como talvez já disse, não passa de um menino muitas das vezes rabugento e mimado. Já observei aqui e ali a Rainha desfazer-se em elogios e mimos para o dito cujo, que não passa de um maricas.
Reflito se esta frieza local não seria uma das razões de Sora não expressar contentamento com o noivado com o príncipe. Por vezes, finco-me na suposição de que ela não o ama, porém tem de submeter-se ao futuro casório por alguma razão muito aquém de seus desejos... Lamento muito ter de ver minha amada dirigir-se em via de obrigação à um sujeito incapaz de protegê-la, no entanto neste momento minhas mãos encontram-se infelizmente atadas.
A esta altura eu já encontrava-me na ala de espadas do Rei. Em realidade, tratava-se de um quarto pequeno todo forrado por um veludo vermelho-sangue, nomeado por O’Brian como Ala das Espadas. Ali encontravam-se as usadas e novas, todas guardadas em caixas de vidros, variando-se entre Punhais, Espada de Perto, Florete e a boa e velha Sabre. A mais atraente era o punhal de bainha dourada com pequeninos diamantes incrustados, localizado no fundo do quarto, um pouco afastado das demais e dentro também de uma caixa de vidro.
O’Brian o pôs acima de uma pequena plataforma de granito. A ponta do punhal cintilava densamente quando algum raio de sol se intrometia para dentro do aposento. Por esta razão, era inevitável meu interesse em sempre observar esta espada aparentemente inofensiva, mas letal se usada corretamente. Além disso, a bainha muito bem condecorada por cristais também me atraia, fazendo-me questionar quem fora hábil o suficiente ao fazê-la. Certa vez, O’Brian contou-me que com ela assassinara a líder das bruxas Banshee – criaturas, segundo ele, que queriam lhe tirar o poder. Em suas palavras envoltas pelo orgulho da honra, ele dizia:
“Espetei a maldita exatamente no ventre e a vi agonizar diante meus olhos”
Quando contou-me tal feito heroico, os olhos estavam ligeiramente esbugalhados e a fala carregada de um prazer desmedido, o que me guiou à conclusão de que o assassinato desta mulher ainda muito comprazia sua honra. Disse-me que fizera questão em guardar o Punhal, pois além de muito bem feito, representava o maior feito de sua vida, logo ninguém jamais deveria tocá-lo.
Não sei bem se os fatos históricos coincidem, de fato, com o seu relato. Realmente circula por anos a história da perseguição às bruxas Banshee e de como elas desgraçaram o reinado com as pragas que lançavam. Algumas mulheres, tenho eu ouvido, dizem-me, inclusive, que ainda oram para não haver o regresso destas bruxas, no entanto eu realmente não acredito em um possível retorno. Nem mesmo sei se o assassinato contado por O’Brian fora desta forma tão violenta; muitos homens tem a infeliz mania de inventar feitos heroicos, então porque não supor o mesmo do Rei? Talvez estas bruxas nem mesmo ameaçaram o reinado. As más línguas tendem a aumentar os fatos! Escolhi duas espadas e me direcionei ao campo onde, certamente, Esdras e sua antipatia me aguardavam.
Ao alcançar o campo, meu pobre inimigo já encontrava-se lá e recostado ao tronco de uma árvore esguia. O clima agradável, que nos agraciava com uma brisa cálida advinda do Oeste, jazia propicio à um embate.
— Levanta-te! – Exclamei lhe atraindo a atenção – Tome, acabei de pegar dos aposentos do castelo – O entreguei a espada, uma Sabre.
Ele levantou-se um pouco preguiçoso, então percebi que não trajava a veste de cavalaria que o solicitei a fim de que se acostumasse gradualmente a já usá-la em combate.
— Porque não estás usando as vestes de cavalaria?
— Você está usando, por acaso? – Respondeu com petulância sutil, tomando a espada da minha mão.
— Bom, não sou eu o aprendiz aqui. Pedi que você a vestisse para que já se acostumasse a usá-la nos combates.
— Acontece que hoje não me sinto confortável o suficiente para usá-la, ou seja, não estou a fim.
Ele manuseava levemente a espada com as mãos, não dirigindo-me o olhar e assemelhando-se à uma criança deveras saliente. O príncipe tinha a incrível capacidade de usualmente irritar-me. Seja por faltar aos treinos, por lerdar a aprender golpes básicos ou por petulâncias como esta. Após a oficialização de seu noivado com Sora ele me tornou, inclusive, ainda mais detestável.
— Tudo bem Esdras, vo..
— Opa, opa! – Interrompeu-me levantando o dedo indicador – Para você é príncipe Esdras. Apesar de ser um dos cavaleiros de meu pai, não passas de um vassalo que vende a força de trabalho para nós.
Sua infeliz mania de inferiorizar-me perante si e os outros também me era um desgosto. Inúmeras vezes minha mão coçou para lhe esmurrar as feições delicadas, e certa vez, quase realmente o fiz. No entanto a possibilidade de me expulsarem do reino como consequência me acovardou naquele momento, apesar de saber que não seria o Rei a me expulsar, mas sim os inúmeros pedidos da Rainha e do próprio Esdras.
É bem verdade que há dois anos presto meus serviços de proteção à família real e sou um dos cavaleiros-líder. Por conservação da hierarquia social me aloco entre os nobres, e é por esta razão que não compreendo porque Esdras se compraz em me humilhar constantemente visto pertencermos à mesma classe social.
De qualquer forma, esta implicância comigo era tão insistente que eu já achava cômico. Entre risos, retruquei:
— Eu te chamo como eu bem quiser. Deverias procurar respeitar-me mais, ao menos que queira que eu vá ter uma conversinha com vosso pai...
Ele crispou os lábios e fincou a espada no chão, como estivesse muito ofendido. Vi olheiras amarronzada em torno de seus olhos pequenos e azuis. Teria passado a noite em claro arrependido da oficialização do noivado à noite de ontem?
— Não se iluda em pensar que tem tamanho poder de influência sobre meu pai.
— Não se iluda você em pensar que eu não o tenho. – E rindo de sua expressão abobada, acrescentei – Vamos logo começar com isso, estamos perdendo tempo.
Nisto, tirei rapidamente a espada que ele fincara no chão e a joguei para ele. Perante seu desprezo ou mesmo despeito, minha sincera vontade era de gargalhar. Primeiramente porque nestes momentos assemelhava-se a uma criança birrenta, segundo porque meu poder de influência sobre seu pai era, de fato, maior que o seu próprio. Não nego comprazer-me disto.
Nos posicionamos e iniciamos o combate. Esdras estava ligeiramente mais hábil que dias atrás; esquivava-se com rapidez e habilidade, logo preparando-se para um novo golpe. Anteriormente sua defesa era ridícula, pois facilmente perdia a espada para mim, desequilibrava-se ou errava o golpe. Desta vez não. Seu corpo movia-se com mais fluidez e rapidez, assim como eu o ensinara, e pela primeira vez em meses receei perder a espada para ele, especialmente quando me bloqueou e me empurrou com força, fazendo-me desequilibrar um pouco.
— Vejo que hoje estás mais à alerta! – Exclamei a me recompor
Esdras riu com convencimento.
— É o amor meu caro. Sora finalmente aceitou ser minha noiva! Como deves saber, ontem foi a noite de oficialização.
— Eu sei... – E apertei com desgosto meus dedos contra a bainha da espada, a inveja picando-me. Em seus olhos via o júbilo que lhe era finalmente se apossar de Sora. – Estás feliz pelo visto...
— Muito. Aguardei ansiosamente por esse momento. O momento em que eu finalmente a domei – Sorria ainda em mesmo convencimento.
— Falas como se ela fosse um animal a ser domado – Retruquei enojado, já em posição ao reinicio do combate
Esdras continuou a rir, já um pouco distraído que logo eu o golpearia. O modo possessivo como falava a respeito de Sora era latente. Ele aparentemente não a via como uma companheira, mas sim como um objeto de posse, o que deveras me incomodou.
— Você não tem muito jeito com as mulheres não é mesmo? Percebe-se. Saiba, pois, que elas devem nos servir e se submeter aos nossos caprichos. Talvez seja a hora agora de eu dar-lhe uma lição.
— Quem precisa de boas lições é você, meu caro. Tenho pena de sua noiva. – Respondi firme e impaciente, pois ele ainda não se posicionara. – Tens certeza que ela vos ama? Terá de aguentar muitas bobagens que saem da tua boca.
Seu sorriso murchou e a boca entortou-se.
—É bom você ficar caladinho caso não queira aguentar o peso de uma demissão. – Respondeu arisco.
Então rapidamente tomou entre as mãos a espada e me golpeou, entretanto, meu bloqueio fora rápido o suficiente e nisso reiniciamos vorazmente o embate, como fossemos leões enfurecidos, competindo por uma presa. Nossas espadas entrecortavam-se habilmente no ar, respirávamos pesadamente e mais afobávamos em tomar a espada do outro. Entre golpes e defesas, eu compartilhava com ele minha inveja e despeito por ele ter minha amada em mãos ainda que não soubesse. Enraivecido, meus movimentos eram no sentido de machucá-lo, vingando-me, enfim, a inveja, no entanto, ele estava incrivelmente esperto para o meu azar.
Eu sinceramente não me importava em machucá-lo.
Após mais poucos minutos, finalmente consegui lhe tirar das mãos a espada e o joguei no chão. Dali, ele fitou-me aborrecido, buscando recuperar o fôlego.
— Confesso que achava que você realmente não tinha a vocação para isso. Acredito que hoje tivemos finalmente um avanço.
Ele ergueu-se ainda muito aborrecido, seu cabelo longo, que ia de encontro aos ombros, jazia bagunçado. Com a respiração ofegante, ergueu-se de imediato pela humilhação em ter outra vez perdido para mim.
— Cale a boca, seu verme – E me empurrando, rumou em passadas largas ao castelo.
Recolhi ambas espadas e me deitei no chão a fim de descansar. Por um instante fiquei a encarar as torres esguias e acinzentadas do castelo na expectativa, ou mesmo esperança, de que por uma daquelas vidraças estreitas o rosto de Sora surgisse para que eu o contemplasse. A breve prosa que tivemos naquele infeliz baile não esvai de minha mente. A lembrança de seus olhos escuros, ávidos de curiosidade por minha identidade, mas também de uma sutil melancolia, ficou registrada em meus pensamentos, de forma que quando fecho os olhos, eis que ela me surge.
Sentindo o vento afagar-me o rosto, meus pensamentos regressaram a minha infância, quando eu morava em Greta – uma atraente cidade distante de Tanhai, cujo desenvolvimento econômico e urbano muito atrai sujeitos sedentos por melhores pagamentos – com minha tia Sabine e seu marido, Phelippe O’Neill, um comerciante muito reconhecido na área, que me proporcionou educação e estudos. Apesar de não ser meu pai biológico (meus pais faleceram logo após meu nascimento), tornou-se um ao longo do tempo. Éramos felizes, quer dizer, eu pelo menos o era. Phelippe, meu bom pai adotivo satisfazia meus caprichos, levava-me para passear e me educou com os melhores professores da cidade, inclusive fora também com ele que eu aprendera a lutar, apenas me aperfeiçoei com o passar do tempo.
Sabine por sua vez nunca fora muito afável, nem mesmo com o marido. Ela preferia ocupar-se com leituras, de modo que o escritório da casa era recheado de livros em quase todos os cantos. Algumas raras vezes ela sentava-se e lia alguma história para mim, porém era Phelippe que desfrutava usualmente de momentos assim comigo. Quando não lia, ela convidava amigas para um chá, e em nossa ampla sala elas delongavam-se em fofocas e risos a tarde inteira. Phelippe somente chegava pelo fim da tarde – meu horário predileto. Então as amigas despediam-se, os criados serviam o jantar e por fim meu pai me colocava para dormir, tendo antes, é claro, lido alguma história para mim. O que faziam após eu não me recordo, apenas de alguns gritos de protestos de Sabine durante algumas possíveis discussões, mas que logo cessavam.
Recordo-me que, infelizmente, era com ela que fazia algumas lições quando tinha dificuldades, e digo infelizmente porque o seu forte não era ter paciência e compreensão e sim o contrário, logo a qualquer mísero erro meu, ela pegava sua pesada régua de madeira e batia contra a palma de minha mão. As lágrimas ardiam feito brasa em meus olhos, no entanto eu as engolia em seco e retornava à lição, pois caso eu me negasse a continuar, haveria algo pior que palmatórias. Já com Phelippe era tudo diferente, seu belo lado paternal me compreendia em minhas dificuldades, demandas ou qualquer outra coisa. Nos dois éramos verdadeiramente unidos, o que muito causava ciúmes em Sabine; com o passar do tempo apercebi-me que suas palmatórias e broncas eram puramente formas de vingar-se por não ter a atenção de Phelippe como eu tinha.
Infelizmente, Phelippe abandonou-me quando eu tinha 15 anos. Em uma de suas viagens fora visitado pela maldita tuberculose que desde então não mais o largara. Quando retornou para casa, ao longo de três meses fora definhando e numa bela manhã do Outono, enquanto eu lia para si uma de minhas histórias preferidas, ele descansou. Sabine, é claro, ficara desesperada, mas não por não mais poder desfrutar da companhia do marido, e sim porque não saberia como pagar contas futuras e porque teria de cuidar de mim – o filho postiço que nunca muito a agradou.
Na época se não me falha a memória ela vendeu algumas joias e vestidos para que pudéssemos nos mudar, pois nossa situação em Greta já era desfavorável; Phelippe deixara algumas dívidas e Sabine não tinha como pagar. Então, após dois meses ao falecimento de meu pai, nos mudamos para Tanhai, tendo ido nos hospedar na casa de um amigo de minha outra tia – Alina, a irmã mais nova de Sabine. Para a nossa infelicidade, fora inviável à mesma nos abrigar, pois morava e trabalhava no grande palácio dos O’Brian.
Até os meus dezoito anos, Sabine e eu moramos no fundo da casa do amigo de tia Alina – Arthur, um comerciante reconhecido pela cidade e de bom coração. É claro que o ajudávamos no que precisasse, especialmente eu, já que Sabine insistia em alimentar uma preguiça cotidiana e ficava trancada em nosso pequeno quarto de aluguel, choramingando e relembrando de suas tardes infrutíferas com suas amigas gretenses. Meus deveres eram simples – cultivar a colheita no quintal da casa, adubar a terra, recolher frutos e verduras e por vezes auxiliar Troy, filho de Arthur, no comercio.
Pouco a pouco estes hábitos tornaram-se minha rotina e então minha vida mudara completamente. A infância somada aos livros, as aulas e os lazeres permaneceram apenas em minhas memórias soltas, assim como Phelippe e seus sábios ensinamentos. De certo, sua ausência deveras machucava-me, assim como em Sabine também, eu penso. Ela a cada dia tornava-se mais ranzinza de modo que quanto menos contato nós tínhamos, melhor. Até hoje indago-me como meu pai pudera apaixonar-se por uma mulher constantemente azeda.
Eis que dois anos atrás surgiu o torneio de Cavaleiros, oportunidade que me permitiu ascender social e economicamente. Em busca de um novo exército de cavaleiros, o Rei anunciou um torneio de batalhas para jovens homens entre 15 a 20 anos, com objetivo de somar cavaleiros novos e valentes a seu exército ligeiramente defasado em função da saída de alguns, que em sua concepção, encontravam-se já velhos aos exercícios das batalhas. Aqueles que tivessem um sobrenome reconhecido e dentro da faixa-etária exigida teriam a permissão real para participarem. Eu, por sorte, tinha o sobrenome de Phelippe — um comerciante reconhecido em Greta e logicamente em Tanhai também, e com isso não me pensei duas vezes em me inscrever.
Obviamente treinei bastante com alguns colegas, entre eles Troy, o filho do senhor Arthur, e James, um bom amigo que conheci através do mesmo — alguns anos mais velho que eu e deveras galanteador.
Tivemos um mês de treinamentos árduos e frequentes. Nunca em minha vida eu tivera um objetivo tão centrado como o de ser nomeado como um Cavaleiro Real, pois minha vida mudaria afortunadamente e eu não mais teria de ouvir as lamúrias e queixas de Sabine por sermos pobres; desta vez ela teria de curvar-se à minha autoridade, ao meu ouro e eu, enfim, poderia viver em paz e liberdade. Reconheço que este fora um pensamento presunçoso, porém fora a única forma de ver-me livre de seu azedume e brigas. A propósito, ela apoiou-me na decisão de participar do torneio e orava todos os dias para que eu fosse chamado.
Quinze dias após o término do torneio, os mensageiros reais anunciaram que no último dia do mês todos os participantes deveriam estar presentes no palácio para a cerimônia de convocação, ou seja, seria numa manhã de dezembro que conheceríamos os afortunados.
“ Tens de estar minuciosamente belo e exuberante, meu filho! ”
Dizia-me Sabine enquanto ajudava-me a vestir uma roupa de gala de segunda mão a empréstimo de James. Neste dia ela estava estranhamente afetuosa e preocupada, porém já decerto sonhando com as joias que eu lhe daria. Eu acordara como se acariciassem minha espinha dorsal e meus órgãos internos com gelo. A cada minuto o nervosismo acrescia-se e eu sabia que minha vida, pelo menos ali, dependia exclusivamente daquela nomeação, pois que eu não almejava envelhecer a trabalhar em terras de um senhor feudal e muito menos ficar a sombra de um balcão de comércio.
Eu pensava alto, realmente alto e ser convocado como Cavaleiro Real deveras me interessava!
Surpreendi-me quando o Rei O’Brian anunciou-me, entre 10 jovens como um de seus cavaleiros reais. Fora uma bela cerimônia, o palácio real em toda sua beleza suntuosa fora aberto apenas aos participantes do torneio, de modo que ali jazia somente nós, alguns criados e os membros da família Real – o príncipe Esdras, a princesa Antonieta, que depois casou-se com o príncipe de Greta e a rainha Helena. Para cada um de nós o Rei nos presentou com uma espada, afirmando que seria com elas que deveríamos conquistar sua honra e lealdade, devendo nós usá-las em qualquer embate. Discursara coisas a mais e nos parabenizou por fim.
Depois que fui convocado ao exército real, descobri que Sabine somente objetivava sugar meu ouro com seus caprichos. Entretanto eu não fora tolo como Phelippe e a presenteava com joias apenas em seu aniversário a fim de que aprendesse a tornar-se mais humilde e menos fútil; por vezes também a presentava com livros para que assim o tédio não a engolisse de todo.
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