Notas iniciais
Olá pessoas! Para não assusta-los optei por um capítulo inicial breve. É minha primeira original postada aqui, logo sinceramente espero que gostem, tenham uma ótima leitura e que a curiosidade peça novos capítulos :)

Distante do monopólio dos meus olhos, ela passeava em tranquilidade pelo bosque do castelo sem quaisquer receios de ser domada pelos meus braços que há muito a desejavam. Metida em um vestido longo que marcava seus quadris curvilíneos e lhe cobriam o busto e os braços, a pequena jovem caminhava daqui à ali em passos suaves, como quisesse lerdar o tempo ou interrompê-lo naquele momento por motivos que realmente desconheço. Aliás, a desconheço em muitos aspectos, pois as únicas informações obtidas até o momento são de seu futuro casamento com o Príncipe Esdras.

A pequena Sora se abaixou em uma nesga de sombra fornecida por uma esbelta mangueira. Agachou-se e ficou a observar um pequeno trevo que tinha em mãos. Eu, em minha humilde insignificância, optei por me manter oculto por alguns rabustos daquele bosque cujas folhas, flores e arvores já me são uma espécie de amigos confidentes.

A saudade me apertava, chicoteava e me incomodava. Há alguns dias a menina Sora sumira do alcance de meus olhos e ela nem mesmo sabe que eu vivia a espiona-la à qualquer oportunidade tida. Por Deus, o único e, mais forte, desejo que me acometia em meu cotidiano era tê-la em meus braços para que assim eu dela cuidasse.

— Sora! Sora! — Ouvi ao longe uma voz familiar que já me incomodou os nervos

A menina ergueu-se de súbito como a fim de fugir ou de ali mesmo ficar, dominada pela curiosidade em saber quem a chamava afoitamente. Eu encolhi-me entre os arbustos.

— Querida! Onde está você? — A voz retornou mais próxima, desta vez me causando náuseas, pois que a reconheci ser do Principe Esdras

Sora arrematou uma exclamação enfadonha, dizendo onde estava e aguardou o afoito príncipe chegar a seu encontro para, mais uma vez, enclausurá-lhe em seu imenso castelo como morresse de medo de que algum cavaleiro pudesse roubá-la para sempre.

— O que fazes aqui? Não sabes que pelo bosque pode aparecer criaturas perigosas? — Ele indagou-a em seriedade

— Ora essa! Falas comigo como se eu fosse uma criança inexperiente. Ainda está cedo Esdras, não tem porque eu privar-me de alguns passeios a fim de afastar o enfado

— Sora, minha amada, sabes que tenho muito medo de perder-te. Não quero ver-te sozinha. Chamarei o...

— Não! — Ela o cortou confiante, arregalando aqueles olhos negros com autoridade – Você não chamará aquele seu servo para ficar às minhas costas. Sei cuidar-me muito bem sozinha. — E então abaixou o tom de voz para um sibilo – E não penses que me trancará no castelo dessa vez. Estou indo para a casa de meu tio. Nos vemos mais tarde... No baile.

Mal sabes ela que o meu maior desejo no momento é tornar-me seu Guarda Costas a fim de defendê-la e protegê-la.

Sou um dos cavaleiros do príncipe Esdras – filho primogênito do Rei Carlos O'Brian. A única oportunidade que avistei para me ascender mais fora passar por treinamentos como cavaleiro e tornar-me um a fim de ganhar honra e lealdade em batalhas acaso eu alcançasse a vitória. Entretanto e desafortunado, quando a jovem Sora surgiu-me ante os olhos todo o destino que tracei modificou-se em um quebra-cabeça deveras complicado.

Esdras ficou parado por longos segundos, imaginando que sua amada apenas o rejeitava a cada investida que desse ou a cada carinho que fosse capaz de fornecer. Era um tanto quanto estranho encontrar uma mulher no reinado que não gostaria de ser desposada pelo jovem príncipe – tão aparentemente valente, austero e trajado comumente em vestes de gala. O Rei fazia eximia questão em espalhar as características mais belas de seu filho e muitas das vezes eu desentendia tamanha exaltação, pois nunca fora muito afetuoso com o mesmo. No fundo ou pelo menos para mim, Esdras não passava de um mimado criado embaixo da saia da mãe – a rainha Helena.

Recordo-me muito bem de quando passei a prestar meus serviços de cavaleiro no castelo. Esdras não sabia percorrer 100m pelos bosques tortos sem perder-se ou sem que algum de nós cavaleiros o escoltasse, sua imaturidade e inexperiência eram fatores críticos caso ele tivesse de ir à alguma batalha, pois para nada serviria; não passaria de um alfinete perdido no palheiro. E fora por este e algumas outras razões que o velho rei O'Brian, numa tarde de um outono melancólico, chamou-me em segredo para solicitar-me meus serviços de proteção ao príncipe com a recompensa de oferecer-me um pedaço de terra para que eu construísse, enfim, minha humilde morada. Confesso que a recompensa me fora uma tentação, pois há algum tempo eu almejava construir um lugar seguro para mim e para minha tia Sabine, logo esta oportunidade fora irrecusável.

Meu trabalho consistia em basicamente instruir ou estimular o espirito de cavaleiro enterrado na alma de Esdras e o proteger em caçadas ou batalhas que poderiam surgir. Nada que me exigisse muito trabalho. O que apenas me estarrecia, verdadeiramente, era saber que Sora daqui alguns dias seria sua esposa e não mais eu obteria a chance de, pelo menos, arrancar-lhe um beijo. Ensinar a cavalgar, como segurar, manejar uma espada, o escudo e atacar o inimigo me eram tarefas básicas de fazer e ensinar o príncipe.

Mas voltando-me ao presente, Esdras, após suspirar algumas vezes, sabe se lá de tristeza ou chateação, pegou o mesmo rumo da jovem, mas dirigindo-se ao castelo estonteante cujas torres mais pareciam que arranhavam o céu e todas as vezes eu me perguntava quem foram os arquitetos ousados a realizar uma construção onipotente como aquela. Eu finalmente me retirei de minha camuflagem e espreguicei todo o corpo estalando alguns ossos cheios de preguiça. O sol se punha detrás de nuvens gordas e rosadas, o céu encontrava-se com um coloração distinta – um azul multifacetado em nesgas ligeiramente rosas o concediam uma coloração graciosa como aquele dia houvesse sido frutífero e feliz à todos os habitantes do reinado. Não que houvesse sido um dia mais feliz ou infeliz para mim, em realidade meu cotidiano era uma jornada de dias comuns, minha rotina pouco alterava-se. Pela manhã trabalho com a pequena colheita que cultivo no quintal de minha casa, no turno vespertino e noturno fico a vagar pelo castelo e a obedecer algum desejo do rei ou do príncipe, o qual está com a mania de querer treinar lutas todos os dias e, por fim, por volta das nove me recolho para minha casa.

Os dias que classifico como belos são aqueles que, por feliz coincidência, encontro a jovem Sora a vagar pelo castelo em seus passos suaves e guiados pela curiosidade em saber e conhecer cada detalhe do mesmo.

Após alguns segundos, segui um pouco enfadado para o castelo, pois recebi um recado de que o Rei desejava ter comigo.

— Daniel, aproxime-se — Disse o Rei O'Brian deitado em sua cama suntuosa. Estava acometido por um resfriado que não o dava trégua – Como já deves sabe, hoje teremos um baile. Será o noivado de Esdras com sua pequena rata. — E uma tosse rouca escapou de seus lábios secos

Engoli um nó seco que se formou no mesmo momento em minha garganta

— E o que eu tenho haver com iss... Digo – E simulei uma tosse a fim de camuflar a audaciosa frase anterior – Quais serviços queres que eu preste esta noite?

— Nada além do que já fazes. Somente quero que estejas alerto a qualquer sinal de invasão de intrusos e principalmente a todos os passos que a pequena rata dará. – E ao mencionar a futura princesa, os olhos estreitaram-se em um firme olhar exigente.

Apesar de desconhecer as exatas razões para o Rei assim chamá-la e porque tanto a rejeitava, me seria um dever tentador e deveras fácil. Sorri com aprovação no canto dos lábios. O Rei tossiu mais algumas vezes feito um cachorro e após algumas reclamações vãs e suspiros, finalizou:

— Posso contar com você para isso?

— Certamente, vossa Majestade

— Então pode retirar-se. O baile começará às 20h. Esteja pronto e em vestes de gala. Agora ande, preciso repousar para estar melhor mais tarde – E me expulsando com gestos afoitos da mão eu me retirei mergulhado em ânimo.

Roupas de gala eu não ainda as tinha, no entanto, para minha sorte, eu já sabia onde as conseguiria sem mesmo gastar um ouro qualquer. Então, afoito me dirigi ao estábulo e lá peguei meu cavalo e companheiro de todos os dias rumando a galopes breves para casa. Talvez além de eu dever cumprir com minha tarefa de vigiar a futura Princesa eu poderia fazer desta noite uma nova e fortuita desventura.