A Rosa Que Sangra
5 Jardim de sangue
Notas iniciais
11:15... O silêncio impera no apartamento de Albáfica. Uma " calmaria " após a " tempestade ". Momentos antes, era audível o som da respiração ofegante e descompassada do selvagem casal.
Manigold e Pandora, ambos agora, em um sono profundo que nem mesmo a maior das algazarras poderia quebrar. Pelo menos, esse é o caso do estudante de Administração. Entretanto, sua querida parceira permanece acordada. Cobertos por um lençol branco até a cintura dele e os ombros dela, o casal mantém a inatividade juntos e sem quaisquer peças de roupas no corpo, estando essas jogadas por todos os cantos do quarto. A bela morena, com a cabeça apoiada no peito esquerdo definido e firme de seu amado, permite que as longas unhas negras de sua mão direita passeiem pela barriga do universitário.
- Como é maravilhoso escutar essa melodia ... — sussurra, exibindo um sorriso encantador ao manter a orelha colada na região próxima ao coração do amigo de Albáfica.
Assim que termina de falar, uma estranha expressão domina o rosto da namorada de Manigold. Tentando sair da cama sem acordá-lo, ela imediatamente se levanta, evitando até mesmo o menor ruído. Joga o lençol sobre o corpo dele, até seus ombros, e corre apressada para o banheiro, no fim do corredor, ao lado direito.
Assim que abre a porta desesperada, Pandora apoia ambas as mãos na pia do banheiro enquanto encara, séria, seu próprio reflexo no espelho circular a sua frente.
- As batidas do seu coração são como a melodia da vida para mim, Manigold... — fala, em um tom quase imperceptível de voz, ainda observando tal reflexo.
Alguns fios de seus negros cabelos tomam a frente de seus olhos, mas imediatamente sua mão esquerda os recoloca no devido lugar. Em seguida, ela faz um brusco movimento, aproximando seu rosto da pia e emite um desagradável som, até para si mesma. Aliás, principalmente para si mesma.
Segundos depois, Pandora reergue o rosto em uma altura qual é capaz, novamente, de ver o próprio rosto. Algo, de uma nítida e intensa cor vermelha, inicia seu trajeto de modo lento a partir da extremidade direita dos lábios. Tal cor é exatamente a mesma que tingira boa parte da pia, anteriormente branca.
Sem antes ter percebido, os olhos negros da bela mulher encontram uma rosa vermelha em um pequeno vaso, no canto esquerdo do espelho.
- Eu não havia lhe notado... — diz, com a face trêmula, levando o indicador direito para uma das encantadoras pétalas da flor.
Assim que o dedo de Pandora passa por ela, a vívida e diferenciada cor vermelha se destaca, manchando a rosa. Compreendendo o que fez, ela afasta o indicador da mesma e abre a torneira com ambas as mãos, lavando a pia e aproximando o rosto para enxaguá-lo.
Depois de alguns minutos, a morena leva as mãos até a toalha suspensa, a centímetros do espelho, em uma espécie de cabide fixo na parede. Enxuga as mãos e o rosto e sai do local, fechando a porta com cuidado.
Entrando novamente no quarto de Manigold, ela para a frente da porta sem mal dar dois passos para avançar mais. O sorriso sincero reaparece e Pandora se abraça, sem deixar de fitar o namorado dormindo esparramado na cama.
- Você é tão infantil enquanto dorme que chega a se parecer com uma inocente criança... — comenta para si mesma.
Pandora caminha de volta para a cama e deita ao lado esquerdo do dono do quarto, virada para a sua direção. Apoiando o rosto nas palmas unidas sobre o travesseiro, seu olhar se perde enquanto ela se entrega ao sono.
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Bela mulher que, mesmo durante inquietas situações de pressa e aflição, não perde seu charme inegável e sua sensualidade nata . Seus passos apressados, querendo ela ou não, são como parte de seu desfile gracioso na cidade. Quem é capaz de passar perto dela sem notá-la, sem perder-se no seu imbatível encanto? Tarefa praticamente impossível é ignorar o ar envolvente e a venustidade de tão formosa loira.
Preciso ir depressa até a casa do Tenma! Posso até não ter dito ao Albáfica a gravidade da situação por não querer preocupá-lo, mas com toda a certeza preciso estar lá o mais rápido possível.
Foi sim muito bom conversar com alguém tão parecido comigo mesma. Tive a sensação de que liamos a alma um do outro...
- Bendita hora que o Yato resolveu pegar meu carro e ir até a casa da mãe dele! — resmungo comigo mesma, rumo a casa do Tenma pelas ruas da cidade — Ele sempre consegue me render aos caprichos dele, mas esta agora foi uma irresponsabilidade tanto dele quanto minha. O Yato não tem carteira e qualquer " eventualidade " pode...
Meu celular toca. Chego a me assustar por estar tão fixa nos meus pensamentos. Sem parar de andar, abro a bolsa, pego o aparelho com a mão direita e atendo:
- Tenma, já estou chegando!!
- Sim, mas se apressa mais, Yuzuriha. — pede Tenma, aflito do outro lado da linha — Ela não vai aguentar mais e quer você aqui a todo custo !
- Claro, claro! Estou fazendo tudo o que posso para chegar ai! Não imaginava que iria ser logo hoje, logo agora ...
- Isso é obvio, você não é vidente, né? — diz ele, sarcasticamente — Bem... preciso desligar. Mas trate de aparecer aqui agora mesmo.
- Juro que em outras circunstâncias, me prontificaria a te dar uma boa lição. — afirmo, um pouco irritada — Já estou chegando ai.
- Ok. Vem logo! — encerra o namorado de Sasha, desligando.
Guardo o meu celular de volta na bolsa e ainda mais desesperada, decido correr. E corro. Pouco me importa se pareço uma garota doida fugida do manicômio nessa corrida. A situação é urgente, afinal a Sasha...
- Tenma, espera só tudo isso passar para ver se eu não te dou um belo de um chute nessa tua cara! — exclamo, com um sorriso estampado no rosto.
Mas enfim... o importante agora é me apressar e chegar na casa do " panaquinha" . O tempo, absolutamente, não vai me esperar...
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Yuzuriha. Ela, pelo pouco que pude conhecer, é uma pessoa incrível. Não se espera menos de uma amiga da Sasha, que é tão gentil e simpática. Entretanto, a loira despertou em mim algo diferente, superior a uma simples admiração, respeito ou coleguismo. Algo que me reforça o desejo de reencontrá-la mais vezes.
Há poucos instantes atrás, eu passeava tranquilo pela praça da cidade. Agora, me encontro quieto, sentado na grama verde desse lugar e admirando um pequeno jardim a minha frente. É sempre nessa praça que me refugio quando preciso refletir sobre mim mesmo. Nesse período do dia, é comum encontrar poucas pessoas por ela. Conceituo essa praça como uma espécie de fortaleza na qual me protejo, assim que me sinto ameaçado. E aqui estou! Mesmo passando adoráveis minutos com Yuzuriha, meu sentimento por Manigold ainda me ameaça. Lateja com ainda mais força no meu coração, sendo a provável razão de tamanha intensidade o aniversário de namoro dele com Pandora. Mesmo assim, eu não deveria me incomodar tanto sendo que eu mesmo havia optado por encontrar um novo amor. Eu não posso, nem devo me entristecer por esse dia!
- Albáfica!! — exclama uma conhecida voz, se aproximando de mim por trás.
Viro meu rosto na direção e meus olhos encontram, vindo até mim, dois amigos de faculdade: Dohko e Shion.
- Como vai você, meu caro amigo? — pergunta Dohko, se aproximando e se assentando ao meu lado esquerdo, olhando alegre diretamente para meus olhos.
- Vou bem na medida do possível, Dohko. — esboço um sorriso um tanto quanto forçado, para não ser indelicado com os dois.
- Não é o que parece, Albáfica. — comenta Shion, se assentado do outro lado de Dohko, olhando-me como ele — Não parece estar " bem na medida do possível ".
- Está cada vez mais difícil esconder meus sentimentos de você, não é? — pergunto já ciente da resposta, levando meus olhos a observar o simples, mas apaziguador jardim da praça, mais uma vez.
Shion e Dohko fazem o mesmo. Talvez não seja só eu a sentir paz ao contemplar a grama verde e as poucas rosas brancas dessa minha humilde fortaleza.
- E por causa dele, certo? — indaga Dohko, com toda a certeza, referindo-se a Manigold.
Não respondo. De qualquer forma, uma resposta verbal é dispensável quando todas as minhas ações e reações, dia após dia, apontam para a mesma incógnita.
Permanecemos os três assentados e atentos ao tal jardim por alguns segundos, quando Shion decide interceptar o momento:
- Não sofra tanto, meu caro. — adverte — Sei como é doloroso para você, mas não me sinto nada bem vendo um amigo se angustiando tanto dessa forma.
Dohko é cheio de energia e dono de uma personalidade forte. Não é do tipo que leva desaforo pra casa, o que já lhe rendeu várias brigas durante o Ensino Fundamental e Médio. Apesar disso, está sempre disposto a ajudar as pessoas ao seu redor e lhes dar foça quando necessário.
Shion, diferente dele, sempre fora uma pessoa analítica e minunciosamente sagaz. Não é, nem jamais foi alguém fácil de se enganar. Quando quer saber de algo, ele descobre sem fazer muito esforço. E foi assim que meu sentimento por Manigold foi descoberto sem que eu me desse ao trabalho de pronunciar uma palavra sequer. Não sei dizer exatamente quando Shion percebeu, mas por mais discreto que eu tenha sido, ele descobriu. Tanto minha bissexualidade, que por muito tempo repudiei, quanto essa paixão avassaladora.
Eu não sou de me expor demais. Por esse motivo, mantenho minhas peculiaridades, meus segredos e meus sentimentos bem guardados. Nunca senti a necessidade de revelar ao mundo minha opção sexual, mas não temo fazê-lo para quem me aborda sobre o tema. Em outras palavras, esse assunto é como qualquer outro para mim e o levo com normalidade. Só mesmo o Manigold para não cair na real e perceber esse fato. Porém, é melhor que seja assim.
- O Shion está certo. — afirma Dohko, notando-me mergulhado em meus pensamentos — Já pensou em se abrir para ele?
- Dohko!! — Shion o repreende, irritado.
- Que foi?! — ele se surpreende com a reação do amigo.
Tanto eu quanto Dohko olhamos para o ariano, procurando entender sua irritação. No mesmo instante, noto o rosto de Shion ficar vermelho e ele ser tomado por puro constrangimento.
- Aaaaaaaaaaah... — Dohko ri, delimitando em si mesmo uma expressão um tanto quanto... "tarada" — Como sua mente é suja!
Assim que termina de falar, o moreno se entrega a frenéticas gargalhadas, deixando o outro ainda mais envergonhado.
- Desculpe-me, Albáfica. — fala Shion, cada vez mais vermelho — Não foi por querer...
- Claro, não se preocupe com isso. — asseguro para ele, sorrindo — Mas me sinto no dever de lhe alertar que está ficando quase tão vermelho quanto as rosas que cultivo no meu apê... — comento, sem querer deixar passar em branco a oportunidade.
Ele sorri de maneira tímida, enquanto Dohko não consegue parar de rir. Assim como eu não costumo sair por ai dizendo que me interesso tanto por mulheres quanto por homens, a dupla age da mesma maneira. Eles são muito unidos e ligados, talvez até mais do que Manigold e eu. Para quem os conhece bem, é nítido que a relação entre eles já ultrapassou, há tempos, os limites da amizade.
- Dohko, já chega. Se rir mais, poderei então lhe comparar com o Coringa. — afirma sério, fitando-o com um olhar fatal.
Tentando se controlar, nosso amigo leva alguns segundos para conseguir parar de rir. Em seguida, ofegante, recupera o fôlego e pergunta, encarando Shion:
- Depois eu que tenho a mente pervertida, né, senhor Shion dos pensamentos puros e brandos? — ironiza.
- Bem, continuando o assunto, Albáfica... — fala, ignorando totalmente o comentário do libriano — Creio que não contou para ele... ou estou errado?
Desvio meu rosto dos dois e direciono-o para o céu azul, ao responder:
- Você está certo. Eu não contei pra ele. Mas se eu o fizesse, poderia perder a proximidade com o Manigold que conquistei até hoje. E isso é o que menos quero. Ele foi o primeiro com que criei laços de amizade verdadeiros. Mesmo que eu passe toda a vida sem poder tocá-lo uma única vez, ficarei feliz se estiver ao lado do meu amigo a todo momento.
Me calo. Os dois, em silêncio, aguardam atentos que eu continue. E assim faço:
- O amor verdadeiro é a luz da vida, uma luz de compaixão e de afeto. Quem nutre esse sentimento no coração por outra pessoa não precisa atender somente aos próprios desejos. Basta que o amado ou amada esteja feliz para que essa pessoa também esteja. É assim que me sinto.
- Então quer dizer que ficaria contente se a Pandora desse a ele todo o amor e felicidade que você não pode dar? — indaga o libriano.
- Sem nenhuma dúvida. — afirmo, sem hesitar, ainda fitando o céu acima de nós — A Pan é uma mulher excepcional, que completa o Mani. Eles se amam de verdade, um ao outro, somente isso importa.
- Mas já imaginou o quanto será difícil para você suportar esse caminho? — pergunta Dohko — Está mesmo decidido a não lutar por tal amor e entregar a outra pessoa quem lhe é tão especial?
- Sabe qual foi a maior lição que aprendi na minha vida, amigos? — respondo com outra pergunta, jogando sobre Shion e Dohko meu sereno olhar.
- Qual? — Shion se prontifica para ouvir.
Diferente do meu primeiro sorriso exibido para a dupla, meu rosto agora constroi outro franco e honesto. Sendo ele resultado da paz que invade o meu peito pela convicção nas minhas próprias palavras, em seguida, pronunciadas:
- Não há dor ou sofrimento que se compare ao poder do verdadeiro amor.
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