A Rosa Fantasma

4 Planeta dos Humanos Ingratos Pt:II


03

14:22 P.M – Casarão de Marcos

***

Ellen desceu as escadas enquanto bufava de raiva. Situações como essa realmente mexiam com seu consciente, e por isso muitas vezes sua falta de controle chegava a ser um incômodo. Ainda assim após colocar tudo que a incomodava para fora, Ellen sempre se sentia aliviada.

Pessoas como Marcos existem em todos os lugares, e Ellen tinha conhecimento da quantidade absurda de dinheiro que eles ganham em cima da população de suas cidades, e o modo como eles reagem ao perceber o risco de acabarem falidos. O desespero desse tipo de pessoa influência diretamente a vida de seus dependentes. Ellen nesse momento podia deduzir tudo o que havia acontecido em Jothenville nessa semana sem alimentos.

Para reduzir a perda de lucro, Marcos aumentou os impostos dos mercadores, o que consequentemente aumentou o preço dos poucos alimentos. Ao ver que não seria o suficiente, ele também aumentou os impostos sobre as moradias. E como essas pobres pessoas não possuíam dinheiro suficiente para bancar o alto custo de vida, acabaram expulsos de suas próprias casas. Jogados à mercê da sorte. Todas aquelas pessoas que ela viu logo após entrar na cidade não possuíam mais um lar e não podiam fugir para nenhum outro lugar, como pássaros numa gaiola.

A parte final e óbvia dessa história é a revolta da população contra seu governante.

Ellen agora compreendia o porquê de toda aquela destruição do lado de fora. A população resolveu lutar contra a ditadura de Marcos, e começaram a pressioná-lo. Uma revolução seria a forma mais adequada de se referir a essa situação. Como não podia conter a fúria de seu povo sozinho, Marcos resolveu contatar a Legião do Mahyra, conhecida por possuir os melhores guerreiros do Sudeste, e um dos mais conceituados exércitos de todo os países da Aliança Sul-americana.

Owen e Ellen nesse caso acabaram se tornando um tipo de anestesia para acalmar a fúria da população. Isso também explica a enorme quantidade de soldados do lado de fora do casarão. Eles estavam de guarda para proteger Marcos de seu próprio povo.

Ellen caminhou pela grande sala de estar e parou em frente a uma parede que continha dezenas de retratos de tamanhos diferentes. Boa parte deles eram quadros antigos e mofados, contendo homens e mulheres com expressões e poses parecidas. Esse casarão apesar de ser gigantesco não aparentava ter muitas pessoas morando, então Ellen supôs que eram parentes distantes, ou falecidos. Já os retratos mais novos continham as mesmas pessoas. Marcos ao lado de uma garota de cabelos dourados. O retrato mais brilhante mostrava Marcos usando um sobretudo branco, ao lado da garota, já crescida com seus longos cabelos dourados.

Outra coisa chamou a atenção de Ellen.

“Onde está a mãe da garota? Bem, acho que não importa.”

Ellen então atravessou a sala de estar e saiu para o lado de fora da casa. O raios de sol cegou ela por alguns segundos.

“Esse lugar fede a estrume... Um completo fim de mundo...”

Ela suspirou e encarou seus arredores. Um jardim bem cuidado, uma fonte de água ao longe, alguns postes de luz.

“Seria preciso no mínimo umas vinte pessoas para cuidar de tudo isso, não?”

Só então Ellen se deu conta de algo importante. O local estava vazio. Aqueles guardas que antes vigiavam o casarão haviam desaparecido. Assim que ela pensou em voltar para dentro da casa, sons de passos ecoaram.

Ellen não teve tempo nem de virar o rosto antes de um braço segurar seu pescoço, e um pedaço de pano cobrir ser pressionado contra seu nariz. Junto do odor forte o mundo imediatamente começou a girar.

“Clo...ro...fórmio...?”

A última coisa que Ellen viu antes de desmaiar foram as sapatilhas da pessoa que a atacou.

Um calçado, geralmente usado por empregadas.

***

Ellen despertou. Sua visão estava embaçada. Sua cabeça doía.

“Ai... Ai...”

Ela estava caída sobre o chão de terra batida, dentro de uma sala minúscula, que era iluminada por uma única vela. Suas mãos e suas pernas estavam presas por um pedaço de corda. Assim que ela levantou seu rosto uma ânsia de vômito embrulhou seu estômago. Ela precisou de vários segundos para retomar o controle sobre seu corpo.

Ellen revirou-se no chão até conseguir ficar sentada. Assim que olhou na direção da porta Ellen encontrou uma pessoa vestindo uma capa com um capuz vermelho sobre sua cabeça. Ela esperava descobrir quem era a pessoa por trás do capuz, mas no lugar do rosto havia uma máscara de cera, com vários desenhos tribais entalhados. Apenas sua boca ficava a mostra.

“Finalmente nos encontramos chapeuzinho.”

Ellen deu uma risada fraca.

“Ou talvez você seja o lobo mau, não é mesmo?”

***

04

15:05 P.M – Praça Central de Jothenville

***

“11... Não. 12 pessoas desaparecidas... Todos sem ligação de cor, sexo ou idade...”

Owen observava atentamente um grande mural de imagens colados de uma forma desorganizada numa parede irregular. Um grande mural com fotos de pessoas desaparecidas.

“...E todos sumiram nessa semana. Pode ser isso algum tipo de coincidência...?”

Owen suspirou profundamente.

“Há algo mais acontecendo nessa cidade... Ellen, onde foi que você se meteu dessa vez?”

Ele já havia passado por todos os locais onde ela poderia estar, pousadas, restaurantes, bares, mas não haviam pistas de seu paradeiro.

Owen voltou a caminhar, desviando das pessoas que tentavam reconstruir a cidade depredada. Não importava por onde passasse, ele era sempre seguido por olhares desconfiados. Mas Owen não os culpava por isso, afinal, se a situação estivesse invertida ele também não confiaria sua liberdade nas mãos de um estranho como ele por dois motivos: Primeiro por causa da má fama que a Legião de Mahyra possuía, e o segundo (talvez o principal motivo) era por causa da sua aparência e idade, que estavam longe de ser referido a um soldado.

Após pouco tempo de caminhada Owen chegou a um local bastante amplo e arejado no centro de Jothenville. As pequenas lojas e pousadas formavam um círculo ao redor daquela praça. Lá haviam pequenas torres com lampiões a gás por todos os lados, e no seu centro uma grande fonte seca dava um toque europeu àquele lugar. Se não estivesse tão vandalizada, esse local poderia até ser considerado bonito.

Mas era algo completamente diferente que tomava a atenção de Owen. Próximo a fonte, seis pessoas distribuíam pedaços de pães para centenas de pessoas que estavam aglomeradas naquele lugar. Não havia organização na distribuição, então aqueles que queriam receber algo tinham que atravessar toda aquela multidão a força.

Só que tudo ficou ainda pior quando aquelas pessoas se deram conta de que os alimentos estavam acabando rapidamente, e não seria o suficiente para todos.

Owen encarava tudo aquilo sem nenhuma expressão, enquanto pessoas eram agredidas e pisoteadas como ratos no meio de uma manada de elefantes. Em questão de segundos as cestas onde estavam os alimentos acabaram roubadas e saqueadas. E quando não restava mais nada os alvos se tornaram aqueles que possuíam algo nas mãos.

O que veio a seguir era o inevitável. Brigas generalizadas, gritaria e destruição. Não havia mais distinção de sexo ou cor. Todos eram bárbaros, no meio de uma tragédia anunciada.

Uma mulher de longos cabelos dourados corria desesperadamente, numa tentativa de escapar de um grupo de pessoas que a perseguiam a fim de tomar os dois pedaços de pães que ela segurava com força.

A feição calma de Owen era apenas uma fachada, uma mentira. A verdade era que uma fúria desagradável crescia gradualmente em seu peito. Suas mãos tremiam levemente. Sua respiração acelerava aos poucos. Ele queria fazer algo para ajudar essas pessoas, mas nada vinha a sua cabeça. Como ele poderia diminuir essa raiva que o corroía por dentro?

‘Você acredita que os sentimentos de uma única pessoa é capaz de mover o mundo?’

‘Você acredita que algo vago como vingança ou amor tenha poder suficiente para mudar este planeta?’

Uma voz ecoou dentro da cabeça de Owen. Uma voz calma e fria. A voz de alguém que ele amou a muito tempo atrás.

‘...Às vezes eu chego a acreditar que você é o único capaz de mudar este mundo trágico, Owen...’

‘Apenas você tem o poder para mudar a mente desses humanos ingratos. Você... só precisa se dar conta disso. Você devia acreditar mais em si mesmo.’

Owen respirou profundamente e fechou os olhos, numa tentativa de calar aquela voz que sempre aparecia nos momentos mais inoportunos. Sua mão foi em direção a parte de dentro de seu sobretudo e encontrou quase que inconscientemente uma espécie de faca negra que possuía exatamente 40 centímetros de cumprimento. Aquele era um equipamento exclusivo dos integrantes da Legião de Mahyra, batizado de Sensorium.

“Eu não sou um herói. Meu poder só pode ser usado para o mal, para amedrontar, para machucar...”

Owen sorriu, tentando de todas as maneiras negar seu passado, e tudo que ele deixou para trás. Na verdade ele estava se forçando a esquecer de todos os seus pecados.

“Por que estou resmungando? Ser odiado por todos não é nenhuma novidade. Se eu não me mover agora... tudo estará acabado, não?”

Assim que Owen balançou seu Sensorium, uma lâmina deslizou de dentro dele, agindo como um estilete e ficando duas vezes maior. Aquele equipamento num piscar de olhos havia se tornado uma espada de lâmina negra, agora com 80 centímetros de cumprimento.

Antes mesmo que percebesse Owen já estava correndo para ficar entre aquela garota e as pessoas que a perseguia. Se ele conseguisse ajudar ao menos aquela mulher. Se ele pudesse ser apenas um pouco útil, essa dor na sua alma eventualmente adormeceria.

A garota de cabelos dourados e olhos azuis tropeçou e caiu de costas contra o chão de pedra, protegendo os alimentos contra seu corpo.

“Agh!”

Ela virou seu rosto, encarando com perplexidade a multidão que se aproximava como animais selvagens. No momento em que ela pensou que seria morta, um vulto atravessou sua frente. Por um momento ela só conseguia encarar o sobretudo negro que balançava suavemente ao ritmo do vento. Apenas alguns segundos depois ela foi capaz de olhar para cima.

Owen apontava sua espada na direção do grupo de oito pessoas que pararam imediatamente. Essa simples atitude foi o suficiente para calar toda aquela população. Todos que brigavam, todos que se matavam por um pedaço de pão, pararam.

A sombra projetada pelo seu chapéu encobria seus olhos, e consequentemente sua expressão. Sua boca era apenas uma linha fina.

“JÁ BASTA!!!”

Sua voz firme ecoou.

“Vocês tem ideia do que estão fazendo?! Já perceberam o que vocês se TORNARAM?!”

As pessoas se entreolharam, incapazes de encarar Owen.

“Como vocês ainda podem se julgar humanos após essa crueldade sem sentido?! Quando foi que vocês começaram a encontrar prazer na violência?! Ahn?! ME RESPONDAM!”

As expressões no rosto de cada uma daquelas pessoas transmitiam hesitação, culpa e pesar. Eles não queriam brigar, eles não queriam ficar uns contra os outros, mas a necessidade, a fome e o desespero, acabaram transformando todos em monstros.

Owen deu um sorriso frio e apertou ainda mais o punho de sua espada.

“Então? Vocês ainda acham que esse é o melhor modo de resolver as coisas? Vocês não acham que já está na hora de pararem de destruir e se unirem?! Não está na hora de procurarem uma solução para acordar desse pesadelo?!”

Até esse momento a voz de Owen soava como a de uma pessoa prestes a chorar, mas no segundo seguinte seu tom se tornou frio, desprovido de qualquer compaixão. Owen queria mostrar para aquelas pessoas que ele não ligava se seria necessário sujar suas próprias mãos para acabar com tais atitudes. Ele precisava demonstrar o quanto estava preparado para tomar o pecado de toda aquela população para si.

Owen respirou fundo uma última vez, deixando um sorriso perverso tomar seu rosto.

“Nesse momento vocês estão presos, como pássaros numa gaiola. E o modo como estão agindo só deixa isso mais claro. Vocês são apenas animais assustados, nada mais que isso. Mais adivinhem só! O DOMADOR CHEGOU! Eu estou aqui exatamente para adestrá-los, como os animais que são! E logo após domá-los, eu irei libertá-los... EU SEREI AQUELE QUE LIBERTARÁ TODOS VOCÊS!”

Faltava apenas uma frase para Owen mudar a atitude de todas aquelas pessoas, ou piorar tudo de vez.

“Esse será meu único aviso... Eu mandarei para o inferno a próxima pessoa que levantar a mão para agredir ou roubar alguém... E o sangue dessa pessoa assombrará a vida de cada um dos aqui presentes, para sempre.”

Owen deu uma risada seca e balançou sua espada.

“Então, quem quer ser o primeiro?”

Um silêncio pesado tomou conta daquela praça, e após alguns segundos a multidão começou a recuar, e em poucos minutos a maioria deles haviam se dispersado. Apenas nesse momento Owen abaixou sua espada, suspirando aliviado.

“Ahhhhh.... Que bom que deu certo...”

Ele virou para a garota que permanecia de joelhos o encarando perplexa. Os pães tremiam em seu colo. Owen apertou um botão no punho de sua espada, e sua lâmina imediatamente regrediu, voltando a seu formato compacto. Ele guardou seu Sensorium dentro de seu sobretudo com medo de estar assustando a garota, em seguida estendeu sua mão, com um sorriso torto no rosto.

“Você não está machucada, está?”

A garota de cabelos dourados segurou sua mão e levantou. Suas pernas estavam bambas, por isso ela precisou de alguns segundos para ficar de pé sozinha.

“Estou bem... Eh... Obrigado... por me ajudar...”

Essa garota obviamente não era uma plebeia. Seu vestido de seda aparentava ser caro, suas joias eram novas e reluzentes, seu cabelo era liso e bem cuidado.

“Meu nome é Owen. Eu vim da República do Rio. Prazer em conhecê-la.”

“Aria Arthmael... Muito prazer...”

“Arthmael? Você por um acaso é parente do Sr. Marcos?”

A garota virou seu rosto para o lado, claramente constrangida por ter sido reconhecida.

“Sim... Ele é meu pai...”

Owen ficou boquiaberto de tanto espanto. Ele não era capaz de encontrar um motivo para uma nobre como ela estar num lugar como esse, brigando por um pedaço de pão. Até onde Owen podia imaginar, Marcos devia possuir um enorme estoque de comida em sua mansão.

Aria percebendo a pergunta implícita, falou.

“Pelo jeito o senhor deve estar curioso para saber o que estou fazendo aqui, não é?”

Ela deu um sorriso gentil.

“Venha comigo, eu mostrarei para o senhor.”

Notas finais
Esse período de desenvolvimento de personagens são realmente incríveis, e complicados de se escrever. Espero que vocês entendam um pouco como agem meus protagonistas, pois isso será essencial para a conclusão deste mistério.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.