A Rosa Fantasma
1 Introdução - Versos Imperfeitos
Notas iniciais
O tedioso céu azul. O vento frio que assobia em meus ouvidos. O sol que se põe, lentamente no horizonte. Meu corpo caído sobre este campo de gramas verdes. Tudo estava calmo. Tudo parecia estar em seu devido lugar.
Exceto ela.
Meu anjo da morte.
A garota parada na minha frente é graciosa, como uma princesa, independente das roupas sujas e rasgadas que ela usa...
...Independente da aura negra que a cerca...
***
Faz muito frio, ou talvez seja apenas meu corpo se negando a aquecer. As pedras e galhos sobre o chão machucam meus pés descalços. Todo o meu corpo praticamente implora por alguns minutos de descanso.
Não sei dizer ao certo como cheguei a este lugar, mas por alguma obra misteriosa do destino eu estava no lugar certo.
Caído à minha frente estava a pessoa que me salvou. Meu cavaleiro.
Seu coração havia sido perfurado. Seus olhos dourados não possuíam mais vida.
***
Ela é apenas uma criança. Não deve ter mais de 14 ou 15 anos. Ainda assim aqueles olhos não carregam a inocência de alguém com essa idade. Aqueles olhos já devem ter visto o pior que este mundo tem para oferecer.
Seus cabelos são longos, e possuem uma cor branca como a neve. Seus olhos verdes estão inchados. Sua feição transmite sua dor, seu desespero. O rosto de alguém que perdeu tudo.
Meu anjo estava chorando em silêncio.
***
Meu cavaleiro me encara, inerte. Suas vestes finas mostram que ele deve pertencer a uma família muito rica. Uma espada longa e reluzente caída a poucos metros de distância confirma que ele na verdade é um espadachim.
O destino foi tão cruel com ele quanto foi para mim. Nós dois fomos jogados de bom grado nas garras da morte.
Nós somos iguais.
***
Ao meu redor posso enxergar um líquido carmesim, que cintila graças aos raios de sol. Este líquido, que escapa pelo buraco em meu peito, encharca completamente minhas vestes.
Se eu pudesse sobreviver. Se eu tivesse o poder necessário para matar aquele bastardo! Apenas assim eu poderia descansar em paz. Mas agora... não importa.
É o fim. É muito tarde para isso.
***
Talvez este garoto tenha alguém importante para proteger. Talvez ele tenha uma casa, com uma grande família que o espera para o jantar. Eu não tenho nada disso. A existência deste garoto é muito mais importante que a minha.
O certo seria matá-lo. Dar um fim ao seu sofrimento. Mas... no fim decidi me sacrificar para que ele pudesse viver.
Era como se estivéssemos conectados de alguma forma. Ele foi capaz de me encontrar antes, e mesmo nos separando, eu fui capaz de encontrá-lo. Sou capaz de sentir sua agonia, sua fúria. Ele quer viver... Ele deve viver... Todos os meus instintos dizem que eu devo me sacrificar de uma vez, mas...
...Talvez seja mesmo coisa do destino ele ser encontrado por um demônio como eu...
...Talvez nós dois sejamos almas gêmeas, ou algo do tipo...
...Talvez ele seja o único capaz de me salvar do meu próprio desespero...
***
“Você abriria mão de toda a sua humanidade para realizar um desejo?”
Pude ouvir uma voz claramente. Foi aquela garota que falou comigo? Não sei... Mesmo a encarando, não pude ver seus lábios se movendo. Talvez eu esteja apenas delirando.
“Quanto acha que vale a sua vida? O que você estaria disposto a dar para tê-la de volta?”
Ah... Agora pude entender. Esta criança está falando diretamente na minha mente. Sua voz fraca me traz a mesma sensação de estar experimentando a poupa de uma fruta doce.
“Eu posso salvá-lo. Você apenas precisa fazer um contrato comigo.”
Contrato?
Meus olhos, assim como o resto do meu corpo não se movem. Não sinto mais a necessidade de respirar. Estou morto. Como esta garota, não tenho mais nada a perder.
“O que preciso fazer?”
Respondi em pensamento. Mesmo com minha visão embaçada, pude ver algo parecido com um sorriso se formando no rosto dela.
***
Ao ouvir sua voz percebi que algo estava errado.
Por que mesmo sabendo que o salvarei, não sinto o alivio que tanto desejo? Por que meu coração continua pesado? Esse sentimento preso em meu peito é outra coisa nova, nesse dia repleto de novas experiências. Nesse momento, estou com medo de morrer.
Então... Se não sou capaz de tirar minha própria vida, só me resta uma opção.
“Você só precisa viver por mim e para mim.”
***
Se eu ainda possuísse uma voz, com certeza teria gargalhado.
Agora eu entendo o quanto mudei após ser traído por aquela em que mais confiava. Eu caí. Meu mundo desmoronou a muito tempo. Eu não posso recuar diante dessa segunda chance.
Eu preciso continuar vivendo, porquê...
...Eu não sabia até esse momento, que no fim de todo amor só resta o sofrimento. O ódio. Então abrirei mão de todos os meus sentimentos... Por enquanto meu único desejo é continuar vivendo.
Mesmo que para isso eu tenha que fazer um pacto com o demônio.
***
Me ajoelhei ao seu lado e toquei seu rosto. Talvez exista algo especial reservado para mim no futuro. Talvez ainda haja alguma chance de encontrar a paz que eu tanto desejo. Minha própria felicidade...
Enquanto espero pela resposta dele faço minha decisão final. Se aceitar, eu dividirei minha vida com esse garoto desconhecido. Nós teremos a mesma alma, os mesmos sentimentos, as mesmas memórias, o mesmo futuro, a mesma maldição.
“Eu aceito.”
Suas palavras vieram acompanhadas de algo que se não estou enganada chamam de ‘alegria’. Um sentimento que pensava ter perdido a muito tempo. Por esse breve momento, eu pude sentir que ainda havia um lugar para mim neste mundo cruel.
***
Seu sorriso era lindo, fascinante, mórbido. Seus lábios se aproximaram e tocaram os meus.
Uma energia que eu nunca havia experimentado antes percorreu meu corpo. Era triste, agonizante, e aos poucos desapareceu, enquanto passava para o corpo da garota de cabelos brancos.
Nesse momento eu finalmente entendi.
Era como se eu a conhecesse desde sempre. Eu possuía todas as suas lembranças, todo o seu passado, toda a sua angustia, todas as suas esperanças. E ela consequentemente sabia tudo sobre mim.
Meu corpo possuía uma alma novamente. Uma alma que não era minha. Se ela morrer, eu morrerei. Se eu morrer, ela morrerá. A partir de agora seremos apenas um...
***
Ambos almejamos a felicidade.
Um desejo que não passa de uma blasfêmia.
Lutando contra as marés do tempo.
Vivendo cada dia como se fosse o último.
Como um poema. Finalizado com versos imperfeitos.
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